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O corpo na mente O TEMA DA MENTE

No documento e o cerebro criou o homem.pdf (páginas 115-118)

O QUE HÁ NO CÉREBRO CAPAZ DE CRIAR A MENTE?

MAIS PRÓXIMO DA GERAÇÃO DA MENTE?

4. O corpo na mente O TEMA DA MENTE

Antes que a consciência passasse a ser vista como o problema central nos estudos sobre mente e cérebro, um assunto afim, con- hecido como o problema mente-corpo, dominou o debate intelectual. Esse tópico permeou, de uma forma ou de outra, o pensamento de filósofos e cientistas, desde Descartes e Espinosa até o presente. O esquema funcional descrito no capítulo 3 deixa clara minha posição nesse problema: a capacidade do cérebro para criar mapas é um ele- mento essencial da solução. Em resumo, nosso cérebro complexo produz naturalmente, com mais ou menos detalhes, mapas explícitos das estruturas que compõem o corpo. Por força, também mapeia de modo natural os estados funcionais que esses componentes do corpo assumem. Uma vez que, como vimos, os mapas cerebrais são a base das imagens mentais, o cérebro criador de mapas tem o poder de lit- eralmente introduzir o corpo como um conteúdo do processo mental. Graças ao cérebro, o corpo torna-se um tema natural da mente.

Mas esse mapeamento do corpo pelo cérebro tem um aspecto singular e sistematicamente menosprezado: embora o corpo seja a coisa mapeada, ele nunca perde o contato com a entidade mapeadora, o cérebro. Em circunstâncias normais, os dois estão ligados do nasci- mento à morte. Igualmente importante é o fato de que as imagens mapeadas do corpo têm um modo de influenciar permanentemente o próprio corpo em que se originam. É uma situação sem igual. Não tem paralelo nas imagens mapeadas de objetos e fenômenos externos ao corpo, que nunca podem exercer influência direta sobre esses ob- jetos e fenômenos. Acredito que qualquer teoria da consciência que

não leve em conta esses fatos está fadada ao fracasso.

As razões por trás da ligação corpo-cérebro já foram expostas. A tarefa de gerir a vida consiste em gerir um corpo, e essa gestão torna- se mais precisa e eficiente graças à presença de um cérebro - espe- cificamente, graças aos circuitos de neurônios que trabalham na gestão. Afirmei que o tema dos neurônios é a vida e a gestão da vida em outras células do corpo, e que essa dedicação requer uma sinaliz- ação de mão dupla. Os neurônios atuam sobre outras células do corpo via mensagens químicas ou excitação de músculos, mas para cumprir sua missão precisam de inspiração, digamos assim, forne- cida pelo próprio corpo que eles devem impelir. Em cérebros simples, o corpo inspira simplesmente sinalizando a núcleos subcor- ticais. Esses núcleos possuem "know-how dispositivo", um tipo de conhecimento que não requer representações mapeadas minuciosas. Mas no cérebro complexo os córtices cerebrais criadores de mapas descrevem o corpo e suas ações em detalhes tão explícitos que o dono do cérebro torna-se capaz, por exemplo, de "imaginar" a forma de seus membros e sua posição no espaço, ou o fato de que seu cotovelo ou estômago está doendo.

Trazer o corpo à mente é a suprema expressão do tema intrín- seco do cérebro, da sua atitude intencional em relação ao corpo, para expressar a ideia em termos ligados ao pensamento de filósofos como Franz Brentano.1 Para Brentano, a atitude intencional era a marca registrada dos fenômenos mentais, e os fenômenos físicos não tinham atitudes intencionais nem tema. Pelo visto, essa ideia não está correta. Como dissemos no capítulo 2, os orga nismos unicelulares também parecem ter intenções e praticamente nesse mesmo sentido. Em out ras palavras, nem o cérebro como um todo nem o organismo unicelular tenciona algo deliberadamente com seu comportamento,

mas o modo como funcionam dá essa impressão. Essa é mais uma razão para negarmos o abismo intuitivo entre os mundos mental e físico.2Nesse aspecto, pelo menos, ele não existe.

O fato de o cérebro ter o corpo como tema traz duas outras con- sequências espetaculares, que também são indispensáveis para que possamos decifrar os enigmas da mente-corpo e da consciência. O disseminado e minucioso mapeamento do corpo abrange não só o que costumamos considerar como o corpo propriamente dito - o sis- tema musculoesquelético, os órgãos internos, o meio interno -, mas também os mecanismos especiais da percepção localizados em zonas específicas do corpo, seus postos avançados de espionagem: as mu- cosas do olfato e do paladar, os elementos táteis da pele, os ouvidos, os olhos. Esses mecanismos fazem parte do corpo tanto quanto o cor- ação e as vísceras, porém ocupam posições privilegiadas. Digamos que eles são como diamantes incrustados numa joia. Todos esses mecanismos têm uma parte feita de "carne simples" (a armação para os diamantes) e outra feita de delicadas e especiais "sondas neurais" (os diamantes). Exemplos importantes da armação são a orelha in- terna, o canal auricular, a orelha média com seus ossículos e a mem- brana timpânica, a pele e os músculos ao redor dos olhos e os vários componentes do globo ocular além da retina, como o cristalino e a pupila. Exemplos das delicadas sondas neurais são a cóclea na orelha interna, com suas complexas células ciliadas e capacidades de mapeamento sonoro, e a retina na parte posterior do globo ocular, sobre a qual são projetadas as imagens ópticas. A combinação de "carne" e sonda neural constitui uma fronteira do corpo. Os sinais provenientes do mundo precisam atravessar essa fronteira para entrar no cérebro. Não têm como entrar diretamente.

externo ao corpo só pode entrar no cérebro por intermédio do corpo, melhor dizendo, de sua superfície. O corpo interage com o meio cir- cundante, e as mudanças causadas no corpo pela interação são mapeadas no cérebro. Sem dúvida é verdade que a mente toma con- hecimento do mundo exterior por intermédio do cérebro, mas é igualmente verdade que o cérebro só pode obter informações por meio do corpo.

A segunda consequência especial do fato de o tema do cérebro ser o corpo também é notável: mapeando seu corpo de modo integ- rado, o cérebro consegue criar o componente fundamental daquilo que virá a ser o self. Veremos que o mapeamento do corpo é a chave para elucidar o problema da consciência.

Finalmente, como se os fatos acima já não fossem extraordinári- os, as estreitas relações entre o corpo e o cérebro são essenciais para compreendermos outra coisa que é fundamental em nossa vida: os sentimentos espontâneos do corpo, as emoções e os sentimentos emocionais.

No documento e o cerebro criou o homem.pdf (páginas 115-118)