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Introdução

Este capítulo tem como principal finalidade analisar a forma como os

media realizaram a cobertura noticiosa das eleições legislativas de 2005 e

das eleições presidenciais de 2006. Na prática, isto pressupõe estudar o tratamento jornalístico das várias candidaturas, avaliando, por exemplo, se a cobertura noticiosa favoreceu algum candidato em particular ou se existem diferenças significativas na forma como os diferentes órgãos de informação apresentaram a mensagem das várias candidaturas. No que se refere à mensagem dos candidatos, esta análise pressupõe ainda a iden- tificação dos temas mais debatidos nas campanhas eleitorais e a relação entre os temas evidenciados pelos jornalistas e os temas de cada uma das candidaturas.

Este tipo de abordagem das campanhas ganha especial pertinência se acreditarmos que o tipo de informação política a que o eleitor tem acesso e a forma como ela é transmitida contribuem para delinear o contexto em que se desenrola um exercício eleitoral e podem ter influência no processo de escolha eleitoral. Se muitas vezes é relativamente difícil es- tabelecer uma relação directa entre a exposição aos media e a alteração do comportamento eleitoral, é praticamente consensual entre os investi- gadores que os media influenciam, pelo menos, a percepção dos contex- tos em que as decisões são tomadas (por exemplo, McCombs e Shaw 1972, Rogers 1973, Protess e McCombs 1991 e Dearing e Rogers 1996).

A comprovar a pertinência da realização de estudos sobre a forma como a mensagem política é transmitida estão igualmente as pesquisas sobre as transformações sofridas pela mensagem política quando é sujeita ao processo de mediatização, bem como os autores que defendem a im- possibilidade de neutralidade dos media. Por exemplo, para Gerstlé, Lee e Sanders (1991) «os jornalistas comunicam o significado da política» porque inscrevem os acontecimentos e os protagonistas políticos em qua- dros narrativos próprios e para Castells «a lógica e a organização dos

media enquadram e estruturam a política», advertindo que «tal enquadra-

mento da política nos espaços dos media causa um impacto não só nas eleições, mas também na organização política, nos processos de tomada de decisão e nos métodos de governo, alterando, em última análise, a natureza da relação entre o Estado e a sociedade» (2003, 380). Wolf, por sua vez, explica o tratamento mediático primário a que está sujeito qual- quer tipo de mensagem: «Os acontecimentos que foram retirados de um contexto específico, ao serem seleccionados entre outros, são posterior- mente recontextualizados mas, num quadro diferente, dentro de um for- mato noticioso, que pode ser o alinhamento de um telejornal ou as pá- ginas de um jornal impresso» (1992, 217). Como estes procedimentos da rotina jornalística acrescentam significação à mensagem política, pode- mos afirmar que os jornalistas se tornam co-produtores da mensagem política, evidenciando a oportunidade de estudos desta natureza.

Tendo presente que, actualmente, a grande maioria dos eleitores toma contacto com a política através dos órgãos de informação e da mensagem mediatizada pelos jornalistas, impõe-se, assim, estudar a forma como a mensagem política é transmitida, averiguando simultaneamente a que tipo de alterações está sujeita para ser veiculada pelos media. Subjacente a estas preocupações está igualmente a clássica questão «do campaigns matter?» (Lazarsfeld, Berelson e Gaudet 1966[1944]; Farrell e Schmitt-Beck 2002).

A fim de proceder à análise de conteúdo dos media no período de campanha eleitoral das eleições legislativas de Fevereiro de 2005 e das eleições presidenciais de Janeiro de 2006, interpretámos a informação organizada em diferentes bases de dados e onde foram classificadas e categorizadas todas as peças jornalísticas recolhidas. Sempre que neces- sário, recorremos igualmente aos inquéritos eleitorais para complemen- tar e explicar a informação obtida pela análise de conteúdo dos órgãos de informação.

Todavia, impõe-se uma nota prévia para explicar algumas diferenças existentes nos parâmetros de análise da cobertura noticiosa das duas elei- ções. Apesar de o tipo de análise feito ser semelhante aos dois exercícios

eleitorais, a análise de conteúdo, as bases de dados que lhes estão subja- centes, são diferentes no formato e foram elaboradas segundo critérios e orientações de recolha da informação diferentes. Daqui resulta que o tra- tamento realizado sobre os dois exercícios eleitorais difere em alguns dos elementos abordados, o que acaba por se reflectir na exposição das prin- cipais conclusões obtidas.

As bases de dados sobre as legislativas foram realizadas por duas em- presas sob a orientação do programa Comportamento Eleitoral, a Memo- randum, que se dedicou à recolha dos dados da televisão, e a Cyberlex, que ficou encarregue da parte relativa à imprensa escrita. O trabalho de recolha e classificação da cobertura noticiosa das presidenciais ficou a cargo do programa Comportamento Eleitoral.

Na prática, uma primeira diferença que importa desde já assinalar é a de que as eleições legislativas foram analisadas na imprensa escrita e na televisão e o estudo das eleições presidenciais foi realizado apenas na im- prensa escrita. No caso das eleições legislativas foram analisados os se- guintes órgãos de informação: RTP1, SIC, TVI, Público, Diário de Notícias,

Jornal de Notícias, Correio da Manhã, 24 Horas, Expresso, Independente, Sá- bado e Visão, enquanto no caso das eleições presidenciais a análise de

conteúdo se centrou apenas nos jornais e nas revistas referidos e não in- cluiu os canais televisivos.

Nestes primeiros esclarecimentos cabem ainda alguns dados relativos à tiragem e à audiência dos órgãos de informação analisados. No que res- peita à imprensa escrita diária, o Correio da Manhã é o jornal com maior tiragem, com perto de 118 000 exemplares distribuídos por dia em 2005 e menos 3000 no ano seguinte, enquanto a circulação do segundo diário mais lido, o Jornal de Notícias, oscilou entre 98 000 e 97 000 exemplares nos dois anos em análise. Os restantes quotidianos apresentam valores de circulação entre 51 000 e 42 000 exemplares, no caso do 24 Horas e do Público, sendo que no Diário de Notícias estes valores diminuem para cerca de 37 000. Na imprensa escrita semanal, o Expresso destaca-se dos restantes jornais e revistas por apresentar o valor mais alto de exemplares em circulação: entre cerca de 128 000 e 132 000 em 2005 e 2006. A news-

magazine Visão vendeu, neste período, entre 99 000 e 95 000 exemplares

por edição, enquanto a revista Sábado se ficou entre os 50 000 e os 59 000 exemplares. O semanário O Independente, que publicou a sua última edi- ção no dia 1 de Setembro de 2006, teve uma circulação de cerca de 12 000 exemplares em 2005. Por fim, em 2005 o share de audiência dos três canais generalistas de televisão distribuiu-se da seguinte forma: RTP1 23,6%, SIC 27,2% e 30% a TVI, sendo ainda importante referir que em

Portugal cada adulto gastou em média, em 2005 e 2006, cerca de 216 mi- nutos por dia a ver televisão, apesar de este valor não distinguir entre programas de informação e de entretenimento.1

Antes de apresentar os resultados dos estudos importa dedicar alguma atenção ao contexto em que decorreram as duas eleições e ao enquadra- mento teórico das análises efectuadas.

O país e as eleições

Em menos de um ano, Portugal viveu a realização de três exercícios eleitorais nacionais diferentes: as legislativas em Fevereiro de 2005, as au- tárquicas em Outubro do mesmo ano e as presidenciais em Janeiro de 2006. Apesar de não se inscreverem nesta análise, interessa mencionar aqui as autárquicas, pois, devido ao contexto específico em que ocorre- ram, ajudaram a marcar o tom da cobertura noticiosa da política pelos órgãos de informação portugueses. Falamos do debate em torno da cor- rupção e da política, da definição dos apoios partidários e dos candidatos independentes.

Após duas saídas consecutivas de dois primeiros-ministros antes do final do mandato – primeiro a demissão de António Guterres na sequên- cia de maus resultados eleitorais do PS nas autárquicas de 2001 e depois a de José Manuel Durão Barroso para liderar a Comissão Europeia – e a curta experiência (cerca de quatro meses) do governo que se seguiu, as eleições legislativas de Fevereiro de 2005 ocorreram na sequência de uma série de escândalos políticos largamente noticiados pelos media e espe- cialmente centrados na aparente inconsistência governativa do primeiro- -ministro Pedro Santana Lopes. Esta conjuntura terá conduzido à decisão de dissolução da Assembleia da República e de convocação de eleições antecipadas por parte do presidente Jorge Sampaio.

No que respeita ao PS, a recente eleição de José Sócrates para o cargo de secretário-geral do partido e o afastamento de Ferro Rodrigues, que viu o seu nome associado ao processo de pedofilia da Casa Pia, também acentuaram o interesse dos órgãos de informação. Não só se tratava da primeira prova eleitoral de José Sócrates, como as sondagens de opinião lhe atribuíam vantagem nas intenções de voto dos eleitores portugueses. De uma forma geral, os media acompanham sobretudo as iniciativas dos

1Dados do Gabinete para os Meios de Comunicação, antigo Instituto da Comunica-

candidatos e dos partidos políticos com maiores possibilidades de ganhar a eleição, atribuindo-lhes mais espaço e tempo, logo mais visibilidade e saliência.

Ainda mais do que as anteriores, a campanha eleitoral para as legisla- tivas de 2005 foi essencialmente marcada pela falta de debate sobre os assuntos relevantes para a governação do país e especialmente concen- trada nas vidas privadas dos líderes do PSD e do PS, Santana Lopes e José Sócrates. A posição destes candidatos nas sondagens de opinião e a forma como estavam a decorrer as suas iniciativas eleitorais também foram amplamente noticiadas.

Um comportamento dos jornalistas que se inscreve, em certa medida, na tendência identificada por Cappella e Jamieson (1997) como domi- nante na cobertura noticiosa actual da política, que denominam por «es- tratégica». Estes autores identificam as seguintes características na cober- tura noticiosa estratégica da política: são «estórias» com actores (políticos), críticos (jornalistas) e audiência (eleitores) onde existe uma centralidade do desempenho e estilo do candidato, um grande peso da divulgação das sondagens de opinião e da posição que os candidatos ocupam nelas e onde é frequente uma linguagem de competição, jogos e guerra.

A obra de Thomas Patterson Out of Order (1993) deu uma enorme con- tribuição para a elaboração da tese da «cobertura estratégica das campa- nhas eleitorais». Patterson argumenta, com base em várias análises empí- ricas, que as notícias se têm tornado cada vez mais negativas e interpretativas, menos direccionadas para os temas e mais para a perspec- tiva de competição entre os políticos. Segundo este autor, a emergência deste estilo de jornalismo mais agressivo coincidiu com o impacto da te- levisão comercial e com a divulgação cada vez mais frequente das sonda- gens de opinião. Também Swanson e Mancini (1996) referem a presença destas características da cobertura noticiosa da política em vários países.

No contexto português, Estrela Serrano estudou a cobertura jornalís- tica das campanhas presidenciais entre 1976 e 2001 no Diário de Notícias e na televisão e identificou algumas tendências jornalísticas ao longo des- ses vinte e cinco anos. Entre outras, a autora refere as seguintes caracte- rísticas: «um aumento progressivo do número de peças dedicadas à cam- panha eleitoral, sinal da importância conferida à cobertura das campanhas; o domínio da agenda eleitoral dos candidatos sobre a agenda jornalística, o que aponta para um jornalismo muito dependente das fontes oficiais, que, contudo, encontra compensação na crescente inter- venção do jornalista como intérprete dos acontecimentos; um cresci- mento significativo de enquadramentos centrados na estratégia e no jogo

eleitoral, enquanto o enquadramento na substância das matérias diminui progressivamente» (2006, 471-472). Estrela Serrano encontrou, assim, evi - dências do peso crescente atribuído à estratégia das candidaturas, em detrimento das peças jornalísticas sobre os «temas» ou das propostas dos candidatos sobre os principais problemas do país, tendências estas que encontram confirmação na nossa análise de conteúdo sobre as candida - turas presidenciais de 2006.

Ao concentrar a cobertura nas iniciativas dos líderes partidários, os

media também intensificaram a tendência crescente para a personalização

da campanha eleitoral. No que respeita à lógica dos media, a «personali- zação» é um dos critérios noticiosos dos órgãos de informação, identifi- cado desde os primeiros estudos sobre newsmaking. Seguindo a máxima de que um acontecimento ou um tema é mais fácil de noticiar e será mais compreensível para o público se tiver um rosto, os órgãos de infor- mação procuram personalizar grande parte das suas notícias. Por outro lado, a personalização também tem sido reconhecida como uma carac- terística inerente à vida política: as organizações partidárias são conduzi- das por indivíduos e muitas vezes as causas são personificadas em perso- nalidades. Existe, todavia, o risco de reduzir a política a uma luta entre personalidades se a ênfase for colocada apenas nos indivíduos, porque pode conduzir a uma descontextualização dos problemas políticos e à ocultação da existência de outras relações de poder.

Pasquino (2001) reforça a ideia da influência da personalização nos nossos dias e na política actual, afirmando que a personalização é prati- camente a base da escolha eleitoral numa época em que os próprios pro- gramas de governo dos vários partidos são muito semelhantes entre si. No contexto português, Marina Costa Lobo (2006) demonstrou como o afecto pelo líder partidário é um importante factor explicativo do voto e que essa importância manifestou uma tendência crescente.

Enquanto os políticos procuram que se fale sobre eles, ou seja, buscam visibilidade mediática, concentrando muitas vezes a sua actividade em acontecimentos e temas com potencial noticioso, os media procuram e necessitam de notícias com interesse para os seus públicos para construir os noticiários e tendem a apresentá-las da forma mais apelativa possível, recorrendo, se necessário, à criação de factos políticos, visível, por exem- plo, através do procedimento jornalístico habitual de pedir aos políticos para comentarem os discursos ou as supostas intenções dos seus adver- sários.

Foi o caso, por exemplo, do fim do segundo mandato do presidente Jorge Sampaio e da impossibilidade da sua recandidatura, que terá au-

mentado o interesse dos media nos possíveis candidatos presidenciais e na eleição presidencial de Janeiro de 2006. Quando uma eleição presi- dencial implica a reeleição do presidente em exercício, como ocorreu em 2001 (e em 1980 e 1991), os candidatos que disputam a eleição com o incumbente são, de uma forma geral, politicamente mais fracos e o inte- resse pela eleição é menor, pelo que, consequentemente, o debate menos motivante tanto para os eleitores como para os media.

Acresce que a decisão de Jorge Sampaio de dissolver a Assembleia e de convocar eleições legislativas antecipadas, no final de 2004, influen- ciou o contexto em que viriam a disputar-se as eleições presidenciais se- guintes, pois colocou na agenda dos media o debate sobre os poderes pre- sidenciais e a importância deste cargo político para o país e a discussão relativa ao perfil do presidente português. Desta forma, e apesar de os poderes presidenciais estarem bem definidos na Constituição e de terem sido largamente circunscritos na revisão constitucional de 1982, a inter- venção de Jorge Sampaio relançou o debate sobre as possibilidades da intervenção do presidente na política do país.

A crise económica e orçamental e o perfil de um dos candidatos presi- denciais também parecem ter contribuído para fomentar a discussão sobre o papel do presidente no sistema político português. Cavaco Silva, o can- didato que apresentou sempre mais intenções de voto nas sondagens de opinião (mesmo antes de se assumir como candidato em Outubro de 2005), possuía formação académica em Economia e Finanças e foi apre- sentado por muitos comentadores na imprensa como a melhor opção para um país em crise. Cavaco Silva não só tinha experiência governativa decorrente dos seus dez anos como primeiro-ministro, como detinha os conhecimentos técnicos apropriados para lidar com a crise. Isto apesar de o presidente em Portugal não possuir competências em matéria executiva ou legislativa e de a sua possibilidade de actuação nestas áreas se restringir, a maior parte das vezes, ao direito de veto. Não possuindo poderes exe- cutivos no domínio da governação, o presidente da República possui, a nível simbólico, um poder e uma influência que fazem dele o árbitro e o moderador da sociedade portuguesa e exerce aquilo que Mário Soares de- signou como uma «magistratura de influência». Mas as funções do presi- dente da República não foram sempre as mesmas desde o 25 de Abril de 1974. Na verdade, foi a Constituição de 1982 que limitou, em grande me- dida, as competências do presidente do República.

Actualmente, no regime semipresidencial português, o presidente deve representar a República, garantir a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas, tendo

funções essencialmente fiscalizadoras e de intervenção política. É ainda o comandante supremo das Forças Armadas. Porém, como referem André Freire e António Costa Pinto: «Em Portugal, o poder presidencial tenderá a ser maior quando a maioria parlamentar não é absoluta e se verificam crises no sistema partidário. Pelo contrário, o sistema tenderá a ter um maior pendor parlamentar quando a maioria que suporta o go- verno é absoluta. Ou seja, quando o governo tem uma maioria mono- partidária, disciplinada e coesa que o suporta, não só ficam muito limi- tados os poderes de veto do PR, como a estabilidade do governo torna menos indispensável a acção do presidente para promover consensos e acordos políticos entre os partidos parlamentares, sobretudo se o PR for de uma família política oposta à da maioria parlamentar» (2005, 84).