CAPÍTULO III DOGMÁTICA COMUM DAS RESERVAS
3. Validade das reservas
3.1. Dever de verificação e impossibilidade de controlo
A validade de uma reserva dependerá da existência ou não do dever de verificação in concreto. Tal dever de verificação só existirá, como vimos, na medida “verificabilidade”, em termos de razoabilidade, das características das mercadorias objeto do transporte.
No que concerne ao dever de verificação sobre os dados fornecidos pelo carregador/expedidor, quem tem o “controlo” desta informação é, precisamente, do carregador/expedidor400, ficando o transportador limitado às seguintes opções na sequência do cumprimento do seu dever de verificação:
(i) ou chega à conclusão que as mercadorias estão de acordo com a informação transmitida pelo carregador/expedidor e corrobora essa informação;
(ii) ou chega à conclusão que as mercadorias estão desconformes com a informação transmitida pelo carregador/expedidor e menciona, expressamente, essas desconformidades (apondo reservas);
(iii) ou chega à conclusão que as mercadorias estão desconformes com a informação transmitida pelo carregador e não menciona essas
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Cf., a respeito das RR, MICHAEL F. STURLEY,TOMOTAKA FUGITA, GERTJAN VAN DER ZIEL, The
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desconformidades (não apondo reservas não obstante a existência de fundamento para as reservas)401.
Quanto às reservas sobre o estado e condição aparentes das mercadorias, diferentemente, é o transportador que assume o “controlo” sobre essa informação i.e., esta obrigação baseia-se num exame próprio do transportador, e não na informação transmitida ou fornecida pelo carregador/expedidor402.
Pode, porém, suceder que o transportador não disponha de meios razoáveis para proceder a esta verificação403 que, repita-se, é o critério aferidor da (in)admissibilidade/(in)validade de reservas.
Como tal, há que densificar o alcance do dever de verificação. As RR, como aludido supra, aludem ao conceito de “inspeção externa razoável” para concretizar este dever. Dito de outro modo, só é exigível ao transportador uma inspeção dessa natureza. Estas considerações valem também para os restantes modos de transporte e, neste sentido, podemos concluir, grosso modo, o seguinte quanto a este dever do transportador:
(i) uma inspeção externa razoável é aquela que tem em conta aspetos visuais, mas não só, podendo também ser verificáveis outros aspetos mediante a apreensão por outros sentidos, tais como cheiros e sons peculiares que permitem revelar informação relevante sobre as mercadorias404;
(ii) uma inspeção externa razoável não exige que o transportador tenha de abrir contentores para verificar as mercadorias405;
(iii) mesmo não tendo o transportador o dever de ir para além de uma inspeção externa razoável, se optar por ir além disso tomando diligências adicionais de verificação para além daquilo que lhe é exigível e se essas diligências adicionais (inspeção adicional) revelarem algo a respeito do estado e
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Sendo que, naturalmente, nesta situação, as consequências jurídicas associadas, já se antevê, não podem ter correspondência com as consequências das duas situações anteriores. Adiante será abordado desenvolvidamente este ponto.
402 Cf., a respeito das RR, M
ICHAEL F. STURLEY,TOMOTAKA FUGITA, GERTJAN VAN DER ZIEL, The
Rotterdam Rules, cit., p. 215. 403
Cf. WANDA D’ALESSIO, Diritto dei Trasporti, Giuffrè Editore, 2003, p. 258.
404 Cf., a respeito das RR, M
ICHAEL F. STURLEY,TOMOTAKA FUGITA, GERTJAN VAN DER ZIEL, The
Rotterdam Rules, cit., p. 216. 405
Cf., a respeito das RR, MICHAEL F. STURLEY,TOMOTAKA FUGITA, GERTJAN VAN DER ZIEL, The
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condição aparentes das mercadorias, deve incluir essa informação no documento de transporte406.
Nesta senda, cumpre determinar com maior precisão o conceito de meios razoáveis. Em primeiro lugar, estes devem ser compatíveis com a finalidade do transporte que é a deslocação das mercadorias de forma eficiente e que não comprometa a fluidez do comércio407.
Em segundo lugar, deverá entender-se que, de entre os meios compatíveis com a finalidade do transporte, apenas são exigíveis aqueles que não acarretem custos excessivos para a operação de transporte, atendendo às circunstâncias normais e, designadamente, aos usos do comércio. Fatores como o custo ou o tempo despendido deverão, em particular, ser tidos em conta para a aferição daquilo que constitui ou não um meio razoável.
Neste particular, surge também à colação o conceito de impossibilidade de controlo associada à falta de meios razoáveis para o transportador proceder à verificação ou a uma inspeção das mercadorias. A impossibilidade de controlo pode ser, fundamentalmente, entendida em dois sentidos: impossibilidade física ou material e impossibilidade comercial408. A primeira aceção está ligada, como o próprio nome indica, à falta de meios físicos ou materiais para proceder à inspeção ou verificação. A segunda é já uma aceção mais jurídica associada àquilo que é exigível ao transportador não obstante o mesmo poder dispor de meios físicos.
Sem prejuízo de se dever fazer uma conjugação de ambos os conceitos, entendemos que está fundamentalmente em causa uma impossibilidade comercial: falta de meios que razoavelmente sejam exigíveis ao transportador naquele caso concreto. Com efeito, como referido por YVES TASSEL a respeito da posição da jurisprudência francesa,o transportador não pode concentrar todos os seus esforços e meios a todo o tempo no exercício da sua função de controlo409. Na mesma linha de pensamento,
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Esta é a solução que resulta expressamente do artigo 36.º, n.º 4, al. b) das RR e que se deve aplicar ao abrigo de qualquer regime do transporte de mercadorias, porque constitui uma decorrência da boa fé (dever de informação).
407 Vd., neste sentido, a respeito do transporte rodoviário, A
DRIANO MARTELETO GODINHO, “A
responsabilidade do transportador rodoviário de mercadorias”, Temas de Direito dos Transportes, Vol. I, Almedina, p. 128, que alude a uma deslocação ágil e eficiente das mercadorias.
408 Aludindo expressamente estes conceitos com base na jurisprudência francesa, vd. Y
VES TASSEL, “Les
reformes apportees par les Regles de Hambourg au regime juridique du connaissement”, cit., p. 298. 409
Cf. YVES TASSEL, “Les reformes apportees par les Regles de Hambourg au regime juridique du
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CASTELLO-BRANCO BASTOS alude, no transporte rodoviário, ao conceito de falta de
meios razoáveis como aqueles meios que não se revelem, v.g., excessivamente demorados ou dispendiosos410.
Deve, aqui, fazer-se um juízo de proporcionalidade e, mais ainda, um apelo ao conceito de bonus pater familias. Isto é, haverá que verificar se um transportador diligente, colocado naquela situação em concreto, teria meios razoáveis ao seu dispor para verificar as mercadorias em causa ou se, pelo contrário, tal verificação exigiria um esforço irrazoável ou desmedido atendendo às circunstâncias do caso concreto.
No fundo, está aqui em causa aquilo que é possível apreender pelos sentidos externamente e razoavelmente i.e., sem custos desmesurados ou excessivos para o transportador411.