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Doutrina de propriedades psicofísicas comuns

2 RECAPITULAÇÃO TEÓRICA

2.1 Delimitação Audiovisual

2.4.4 Fenômeno da Multissensorialidade

2.4.4.3 Doutrina de propriedades psicofísicas comuns

Uma terceira linha de estudos, que define outra perspectiva sobre o fenômeno da multissensorialidade, está voltada para a definição das propriedades psicofísicas comuns. Existem processos sensoriais e propriedades de estímulos que, quando controlados, podem provocar respostas que comprovam a multissensorialidade (CAZNOK, 2003, p. 119).

Marks define a psicofísica em geral como a “[...] ciência que lida com a dependência do psicológico no físico – com a relação entre sensações ou respostas sensórias por um lado e características do estímulo físico de outro” (MARKS, 1978, p. 105).

A procura de processos psicofísicos comuns abraça os tópicos das outras duas doutrinas. Destacamos deste ponto de vista os atributos de intensidade, variação temporal e tamanho, que corresponderiam a parâmetros comuns entre os sentidos. No entanto, a diferença com os outros atributos apresentados nas outras doutrinas, é a presença de mais dois atributos que parecem englobar os demais: a sensitividade e a discriminação.

a-) Sensitividade pode ser definida como: “Quão rapidamente um órgão reage a estímulos é a propriedade conhecida como sensitividade. [...] Sensitividade é definida como o inverso da quantidade de estímulo que é necessário para evocar algum nível do ambiente” (MARKS, 1978, p. 108).

b-) Discriminação (discernimento): Discriminar estímulos de não-estímulos. [...] podemos ver o contorno de um tema unitário na discriminação sensorial: Os sentidos funcionam similarmente em sua capacidade de detectar estímulos porque o processo de detecção consiste de discriminar sinais (estímulo) de “ruídos” (não estímulo ou estímulo comparado). (MARKS, 1978, p. 115)

A razão pela qual estes dois atributos parecem englobar os demais é devido à sensitividade e a discriminação dependerem dos outros atributos tais como a intensidade, variáveis de freqüência ou tamanho de ondas, duração, tamanho, etc.

Além destes dois destacamos também a qualidade e o tempo, já utilizados nas outras doutrinas, mas que também aparecem como referência de atributos psicofísicos comuns.

c-) Qualidade: Assim como na doutrina dos atributos sensoriais e qualidades análogas a qualidade também é questionada como relação entre qualidades distintas de sentidos distintos, mas que existe uma idéia geral de qualidade da qual todos os sentidos compartilham.

[...] é difícil encontrar profundas similaridades na maneira que as pessoas diferenciam cores, alturas de sons, toque, gosto e qualidades de odor [...] semelhanças entre diferentes sentidos parecem sempre carregar o perigo de induzir a um confinamento em direção a uma indireta, duvidosa ou falsa analogia, ou a estendê-la demais. (MARKS, 1978, p. 122)

Novamente, assim como discutido na doutrina dos atributos sensoriais e qualidades análogas, a “qualidade” é interpretada como um parâmetro abstrato que pertence a vários sentidos sendo que cada sentido possui suas qualidades próprias. No entanto, uma tentativa de relacionar entre os sentidos suas qualidades próprias pode incorrer em relações por demais específicas (como ocorre com a sinestesia) ou então arbitrárias.

d-) Tempo: O tempo neste caso é relacionado à quantidade de tempo necessária para se perceber dois estímulos como conjuntos ou separados, seja através do mesmo sentido como entre sentidos, assim como demonstrado pelos estudos de Exner e Hirsh e Sherrick com relação ao sonoro e o visual, citado por Marks (1978).

Exner encontrou um intervalo menor requerido para distinguir dois cliques sonoros do que para resolver dois flashes de luz – os valores são 2 e 40 msec, respectivamente (MARKS, 1978, p. 124).

Os estudos de Hirsh e Sherrick (1861) questionaram quanto tempo deve ser necessário para separar dois estímulos de maneira a perceber qual vem antes?

Para testar a habilidade do sistema visual para distinguir a ordem temporal, eles apresentaram flashes de luzes separados espacialmente, ou seja, dois flashes iluminando diferentes porções da retina. Para fazer uma apropriada comparação no sistema auditivo, eles apresentaram pulsos de sons onde ambos diferenciavam em freqüência e estimulavam os ouvidos em separado. Para fazer uma apropriada comparação com o sistema táctil, eles aplicaram estímulos vibratórios em diferentes dedos. As constatações são notáveis onde os limites de sucessão são idênticos nas três modalidades – igual a 20 msec. O limite se mantém a 20 msec quando o par de estímulos é multimodal, ou seja, quando o primeiro pulso é direcionado a um sentido e o segundo pulso a outro. È tentador especular que a percepção de ordem temporal de eventos sensoriais é processada não separadamente em cada sistema, mas em um único centro não-específico, ou seja, no sensus

communis. (MARKS, 1978, p. 124)

Deve-se considerar também que “A resposta de um sistema sensório à estimulação depende não apenas de quão intenso um estímulo é, mas também quanto ele dura e quanta superfície do receptor é ativada” (MARKS, 1978, p. 134).

A quantidade de tempo ou tempo limite que permite que identifiquemos eventos sonoros e eventos visuais como sendo sincronizados ou não-sincronizados é discutida tanto nos trabalhos Hirsh e Sherrick como também no trabalho de Stone (2001) destacado nas referências bibliográficas. Estas pesquisas buscam estabelecer um tempo limite para o reconhecimento da simultaneidade e não-simultaneidade de eventos audiovisuais, e por isso, na maioria das vezes, eliminam outros fatores que podem influenciar este

reconhecimento. Desta forma, utilizam-se geralmente de sons e imagens simples tais como senóides e flashes de luzes.

Em nossa pesquisa não nos ocuparemos em entrar em detalhes e definir qual seria este tempo limite de reconhecimento de simultaneidade audiovisual visto que em nossa prática ocorre a utilização de eventos complexos e buscamos variadas formas de aplicar esta propriedade, assim como ocorre também na maioria das obras audiovisuais.

Observando estes parâmetros apresentados como atributos comuns aos domínios sonoro e visual através da influência do contrato audiovisual, verificamos que estes não são avaliados em função da relação audiovisual, mas sim de alguma idéia abstrata que pode ser aplicada a ambos os domínios.

Se observados através do contrato audiovisual, estes parâmetros fazem emergir outros, tais como a aimantation spaciale e a syncrèse. Destacamos desta forma, a importância que estes parâmetros possuem na observação das características dos eventos audiovisuais fixados de tal forma que consideramos estes parâmetros na reformulação de nosso trabalho prático.

Estes parâmetros estão presentes em qualquer tipo de relação audiovisual fixada, pois já consideram a idéia de sobreposição ou justaposição de eventos sonoros e visuais. Desta forma, podemos concluir que eles são anteriores à idéia de movimento, tempo, qualidade e os demais parâmetros que foram abordados como sendo pertencentes a ambos os domínios.

No capítulo seguinte realizaremos uma avaliação de como estes novos parâmetros podem ser utilizados. Primeiramente abordaremos através da descrição do processo criativo o “Estudo dos Objetos Audiovisuais Vol. I” que inicialmente foram concebidos segundo os parâmetros facture, sobreposição (overlapping) e densidade que acreditávamos contemplar nossa exigências. Em seguida faremos a critica a estes

parâmetros escolhidos e a descrição de “Estudo dos Objetos Audiovisuais Vol. II”, nos quais os parâmetros utilizados foram a aimantation spaciale, a syncrèse e o ritmo, os quais acreditamos estarem mais coerentes com nossa proposta composicional.