Outra técnica forense para a análise de armas de fogo é o exame das ranhuras provocadas pelo cano da arma sobre o projétil quando este é disparado. Devido às peculiaridades da produção das armas e à fatores diversos de manuseio e desgaste do artefato, além de características do
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próprio material de fabricação, as marcas deixadas sobre os projéteis acabam sendo únicas para cada arma.
Assim, pela comparação das marcas de projéteis-padrão com os projéteis questionados, pelo exame denominado de confronto balístico microcomparativo, é possível identificar, por exemplo, se dois ou mais projéteis são oriundos de disparos de uma mesma arma de fogo.
Perguntado sobre quais os principais exames realizados pela Balística Forense, o perito criminal* respondeu:
“[Há] o teste de eficiência que engloba eficiência em arma de fogo e eficiência de munição e, também, em armas artesanais que produzem tiro. Tem também o exame de caracterização de projétil de arma de fogo. [...] Este projétil vem para gente caracterizar, que é basicamente apontar o calibre da arma que expeliu esse projétil e o raiamentos do seu cano, porque são esses elementos que vão permitir o exame mais importante da área da Balística: o exame de confronto balístico. O exame de confronto é provar que aquele projétil que matou a pessoa [...] foi expelida daquela arma. É uma comparação feita via microscópio, dos microestriamentos que tem gravados no projétil. Esses estriamentos são decorrentes das deformações do cano da arma. E isso é individualizado, [...] cada uma [arma de fogo] marca de uma forma diferente. Assim se comprova que aquele projétil foi expelido por aquela arma e aponta-se a provável autoria. [Já em relação aos principais crimes que dão origem aos vestígios que chegam à Balística Forense] o maior volume é de posse ou porte ilegal de arma de fogo para o exame de eficiência, seguido [do exame] de caracterização, quando há a ocorrência de tiro e se coleta esse material: quando o perito de local coleta na cena do crime ou quando o médico-legista retira do cadáver [por exemplo]. E o exame de confrontação balística é feito, às vezes, somente entre os projéteis ou estojos. Coleta-se cinco, seis ou dez [projéteis] numa cena de crime. [Eles] foram expelidos por uma mesma arma de fogo? Ou seja, foi só uma arma de fogo que atirou? A gente [a perícia] responde: sim ou não. [...] Tem que fazer o confronto nos dez. [...] [Às vezes, não há como responder porque] teve deformação acidental e o projétil está muito estragado” (WARRICK BROWN, 36 anos).
*Entrevista realizada com peritos das áreas de Balística Forense, Biologia Molecular, Engenharia Legal, Identificação Veicular, Química Forense e Perícias Externas, entre 29 de outubro e 06 de dezembro de 2019.
Inicialmente, o procedimento parte da coleta do projétil encontrado no local do crime. Cabe destacar que este é o procedimento de coleta, juntamente com as das impressões digitais, mais sensível a ser realizado pela perícia forense, demandando cuidados especiais também no seu transporte e armazenamento. Isso porque recolher os projéteis com materiais inadequados (como pinças e alicates metálicos, ou outros instrumentos abrasivos) pode provocar danos ao seu estriamento original (aqueles provenientes da arma), dificultando o confronto balístico. Além disso, armazená-los ou transportá-los em recipientes inadequados (como materiais molhados, com vestígios biológicos e/ou com agentes oxidantes) pode causar também a sua oxidação/corrosão.
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Neste sentido, esclarece-se que nem sempre é possível recuperar os projéteis, ou ainda, encontrá-los tão deformados que impeça o exame de microcomparação. Por exemplo, quando o projétil se encontra alojado num cadáver, todo o processo de retirada é feito pelo médico-legista e, só a partir daí, inicia-se o trabalho balístico (demonstrando também a necessária integração entre a Medicina Legal e a Balística Forense), que pode se deparar com projéteis altamente oxidados. Já quando a pessoa ainda está com vida, a retirada do projétil é realizada pelo médico- cirurgião, se este supor que seja o procedimento mais adequado ao paciente – pois há casos em que o projétil se acomoda em regiões muito sensíveis, como na coluna, cuja a retirada pode não ser o procedimento mais adequado e mais seguro à saúde da vítima.
Polícia identifica arma de onde partiu disparo que assassinou oficial da PM
“A Polícia Civil da Paraíba identificou a arma de fogo de onde se originou o disparo que atingiu o 1º tenente da Polícia Militar do Estado, Ulysses [...], assassinado na noite dessa quinta-feira (4), no bairro de Mangabeira, em João Pessoa. O exame de confronto balístico realizado entre o projétil retirado do corpo do oficial e armas apreendidas no local do crime foi realizado por peritos do Instituto de Polícia Científica (IPC). Com isso, o delegado Reinaldo [...], de Crimes Contra Pessoa (Homicídios), concluiu que o sargento Jailton [...] está envolvido no homicídio do tenente Ulysses e solicitou a prisão preventiva dele.
O laudo foi concluído no início da tarde dessa sexta feira (5). ‘O nosso trabalho começou depois
da conclusão do laudo do perito médico legal, que com muito cuidado e precisão conseguiu retirar do corpo da vítima o projétil sem nenhum dano. Foi um trabalho muito bem feito porque ele chegou para o setor de balística em perfeito estado para confronto. Era um projétil só, de calibre 38 de ponta oca, uma munição que contém mais cobre e por isso é mais potente. A partir disso coletamos os projeteis da arma padrão, o revolver 38. Realizamos tiros para teste na intenção de saber se o que foi expelido pela arma tem as mesmas características do encontrado no corpo do tenente. Só depois de uma análise microscópica foi constatado que o tiro que atingiu a vítima foi disparado pelo revólver calibre 38 enviado pela autoridade policial para exame’, disse a perita criminal do IPC, Luciana Bezerra [...], responsável
pelo laudo.
Com o resultado do exame pericial o delegado [...] concluiu que o sargento, Jailton [...] está envolvido no homicídio [...]. ‘Como a arma usada para matar o tenente Ulysses foi encontrada na casa
do sargento, agora ele passa a figurar no inquérito como partícipe do homicídio, porque de alguma forma ele deu aparato para a prática desse crime já que ele assume que o revólver calibre 38 periciado é dele. Inclusive quando a polícia encontrou as armas notou que elas tinham sido limpas em uma possível tentativa de apagar qualquer vestígio de pólvora ou uso recente’, disse o delegado [...]”.
Fonte: A UNIÃO, sem data. Disponível em: <https://auniao.pb.gov.br/noticias/caderno_paraiba/policia-identifica-
arma-de-onde-partiu-disparo-que-assassinou-oficial-da-pm>. Acesso em 11 de maio de 2019.
Contudo, após recuperado o projétil a ser questionado e a suposta arma do crime, dá-se abertura a produção dos projéteis-padrão. Estes projéteis são aqueles disparados pela arma pesquisada (no laboratório forense e com equipamentos especiais que impeça a sua deformação), do qual conterão as marcas singulares de estriamento da referida arma. Neste processo, recomenda-se o uso de projéteis da mesma marca e lote daqueles questionados, tanto que
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usualmente são produzidos com os próprios projeteis encontrados na arma que ainda não tenham sido deflagrados.
Obtidos os projéteis-padrão e o(s) questionado(s), parte-se para o exame balístico de microcomparação. Este é realizado em aparelho próprio para este fim, denominado de microscópio balístico. A técnica de análise consiste na ampliação e sobreposição de imagens de ambos os projéteis na tentativa de promover o alinhamento dos estriamentos. Caso haja alinhamento, o resultado é considerado positivo, da qual poderá se afirmar que eles foram disparados pela mesma arma de fogo, colocando-a, portanto, inequivocamente na cena do crime.
Perguntado sobre o que poderia ser melhorado em sua profissão ou nas suas condições de trabalho, o perito* respondeu:
"Por ser uma instituição pública, muitas vezes, a gente não tem os equipamentos de ponta que seriam necessários. Por exemplo, em Balística, a gente fala do comparador [balístico] que gera banco de dados, [onde se conseguiria] pegar um projétil e gravar a imagem dele no comparador. Ocasionalmente, se vem uma arma para o teste de eficiência, passaria nesse [comparador e ele poderia acusar compatibilidade] e apontaria a arma que teria matado [uma determinada pessoa]. Mas não temos esse equipamento, tudo que vem tem que ser feito manualmente. Então, a gente pode perder muitas armas porque o cara cometeu dez crimes [por exemplo], mas ele pode ser preso por porte de arma de fogo e ele não era nem suspeito daqueles crimes. Essa arma vem para cá, é feita a perícia, se é eficiente ela vai ser destruída. Ou seja, a prova daqueles dez crimes foi destruída porque não dispomos de banco de dados” (WARRICK
BROWN, 36 anos).
*Entrevista realizada com peritos das áreas de Balística Forense, Biologia Molecular, Engenharia Legal, Identificação Veicular, Química Forense e Perícias Externas, entre 29 de outubro e 06 de dezembro de 2019.