• Nenhum resultado encontrado

Principais testes de mudança de cor para drogas ilícitas

114 Testes definitivos para drogas de abuso

Após realizado o teste preliminar com ocorrência de resultado positivo, o próximo passo é encaminhar o material apreendido para os laboratórios forenses, visando a produção do exame definitivo para drogas de abuso, tanto no seu aspecto qualitativo (pela presença ou não de substância ilícita), quanto pelo caráter quantitativo da análise – relacionado à concentração das substâncias entorpecentes, composição química total e teor de pureza, incluindo-se também a análise de possíveis interferentes, adulterantes e/ou diluentes.

O aparato tecnológico e os procedimentos de preparo de amostras são bastante diversificados quando os exames definitivos de drogas são comparados com outros testes usados na Química Forense (como na identificação de resíduos de tiro ou na revelação de impressões digitais, por exemplo). Esses testes necessitam ser obtidos por metodologias que sejam extremamente confiáveis (são chamadas até de inequívocas), uma vez que seus resultados têm, em regra, efeito direto e imediato nas decisões da Justiça.

Neste contexto, a respeito do exame definitivo, a legislação brasileira instituiu que sempre devem ser guardadas amostras (contraprovas) das substâncias suspeitas de serem drogas para fins de constatação definitiva, uma vez que o restante delas devem ser destruídas, conforme a Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, em seus artigos 50 (parágrafos 2º a 5º) e 50-A (BRASIL, 2006):

Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006

§ 2º O perito que subscrever o laudo a que se refere o § 1o deste artigo não ficará impedido de participar da elaboração do laudo definitivo.

§ 3º Recebida cópia do auto de prisão em flagrante, o juiz, no prazo de 10 (dez) dias, certificará a regularidade formal do laudo de constatação e determinará a destruição das drogas apreendidas, guardando-se amostra necessária à realização do laudo definitivo. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014)

§ 4º A destruição das drogas será executada pelo delegado de polícia competente no prazo de 15 (quinze) dias na presença do Ministério Público e da autoridade sanitária. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014)

§ 5º O local será vistoriado antes e depois de efetivada a destruição das drogas referida no § 3o, sendo lavrado auto circunstanciado pelo delegado de polícia, certificando-se neste a destruição total delas. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014)

Art. 50-A. A destruição de drogas apreendidas sem a ocorrência de prisão em flagrante

será feita por incineração, no prazo máximo de 30 (trinta) dias contado da data da apreensão, guardando-se amostra necessária à realização do laudo definitivo, aplicando- se, no que couber, o procedimento dos §§ 3º a 5º do art. 50. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014)

É importante esclarecer que os testes definitivos nem sempre confirmam os resultados obtidos com os exames presuntivos, pois podem haver falsos-positivos e falsos-negativos nas análises preliminares, apesar de estas serem situações muito raras. Além disso, sempre que

115

houver dúvidas, os resultados podem ser revisados, inclusive por diferentes técnicas instrumentais, desde que haja amostra na quantidade necessária e que ela esteja suficientemente conservada.

Os testes definitivos são realizados majoritariamente via análise instrumental, especialmente a partir de métodos cromatográficos e espectrométricos. Assim, são técnicas possíveis de serem utilizadas para este fim, por exemplo: a cromatografia gasosa (CG), a cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE), a cromatografia de camada delgada (CCD), a cromatografia de íons (CI), a espectrometria de massas (EM), a espectrofotometria de absorção atômica (EAA), a espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN), a termogravimetria (TG), a microscopia eletrônica de varredura (MEV), a espectroscopia na região do ultravioleta- visível (UV-VIS) e na região do infravermelho (IV) (Figura 37) – para mais informações sobre essas técnicas, recomenda-se a leitura dos livros Química Forense Experimental (MARTINS; OLIVEIRA, 2015) e Fundamentos de Química Analítica (SKOOG et al., 2015).

Figura 37. Espectroscopia na região do infravermelho (IV): equipamento portátil de IV conectado à um notebook

para visualização dos resultados (A), amostra suspeita de ser basta-base de cocaína (B), injeção e compactação da amostra no IV (C e D) para a análise (E).

116

Essas análises, por sua vez, também podem ser realizadas a partir de técnicas hifenadas (acoplando-se duas ou mais delas), como no caso da cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (CG-EM), que é uma das mais utilizadas nas análises de drogas e de falsificações em medicamentos, bebidas, alimentos e tintas.

A análise via CG-EM, por exemplo, ocorre com a separação das substâncias contida na amostra pela migração diferencial através da coluna de separação (fase estacionária). Como cada substância interage de forma diferente com o material da coluna, devido à polaridade e as variadas intensidades das interações intermoleculares, a passagem pela coluna, proporcionada pelo gás inerte de arraste (fase móvel), ocorre em tempos distintos. À medida que as substâncias vão sendo separadas, elas são injetadas no espectrômetro de massas. Neste processo, as substâncias são decompostas em fragmentos iônicos, com relação massa/carga (m/z) distintos, o que possibilita a sua identificação, ao passo que se pode comparar os resultados obtidos com um banco de dados de espectros de substâncias já conhecidas – recomenda-se a leitura do livro

Introdução à Espectroscopia (PAVIA et al., 2010) para mais informações sobre essas e outras

técnicas usadas para a identificação de substâncias.

Contudo, para a análise definitiva de drogas de abuso alguns fatores são determinantes na escolha da técnica instrumental, como:

Disponibilidade de recursos e especialistas: se há equipamentos, reagentes e

materiais disponíveis para efetuar a análise, bem como se existe pessoal qualificado que possa proceder o preparo das amostras, a análise instrumental e a interpretação dos resultados;

Tipo da amostra: refere-se à suspeita do que a substância seja, sua composição

química e sua susceptibilidade à aplicação da técnica, ou seja, se a amostra pode ser realmente analisada por determinada técnica sem sofrer degradação antes da obtenção dos resultados; há casos, por exemplo, de substâncias que se degradam facilmente com o aumento de temperatura, o que consequentemente não se recomendaria o uso técnicas que utiliza variação da temperatura antes da análise que emitirá os resultados – como nas etapas de preparo de amostra ou de injeção delas no equipamento (como na análise por CG);

Sensibilidade e demais parâmetros analíticos do método: se a análise instrumental

117

quanto quantitativo, considerando parâmetros como: limites de detecção e quantificação, sensibilidade, especificidade, linearidade e robustez;

Forma de apresentação da amostra: a forma como ela é encontrada pode impactar

enormemente a obtenção dos resultados, influenciado desde o processo de preparo da amostra até a consideração pelas próprias características da técnica empregada, uma vez que as substâncias suspeitas podem estar tanto na forma sólida, líquida, pastosa, diluída, concentrada, com interferentes, adulterantes ou diluentes, por exemplo.

Ademais, os órgãos periciais brasileiros utilizam, em suma, as recomendações norte- americanas do Scientific Working Group for the Analysis of Seized Drugs (SWGDRUG) – assim como praticamente todas as demais perícias do mundo –, cuja última atualização foi publicada em 09 de junho de 2016. Nesta recomendação, estabelece-se três categorias de técnicas (Quadro 3) de acordo com o seu potencial de análise.

Quadro 3. Categorias de técnicas analíticas recomendadas pelo SWGDRUG para identificação de drogas.

CATEGORIAS A B C • Espectroscopia no Infravermelho • Espectrometria de Massas • Espectroscopia de Ressonância Magnética Nuclear • Espectroscopia Raman • Difratometria de Raio-X • Eletroforese Capilar • Cromatografia Gasosa • Espectrometria de Mobilidade de íons • Cromatografia Líquida • Exame de Estrutura Microcristalina • Identificadores Farmacêuticos • Cromatografia em Camada Delgada • Exame Macroscópico e Microscópico (penas para cannabis)

• Testes de Mudanças de Cor • Espectroscopia de Fluorescência • Imunoensaios • Ponto de Fusão • Espectroscopia no Ultravioleta Fonte: SWGDRUG, 2016.

Logo, recomenda-se que quando uma técnica de Categoria A é utilizada para análise de uma amostra suspeita de ser droga ilícita, pelo menos mais uma outra técnica deve ser usada, podendo ser de qualquer uma das três categorias (A, B ou C). Todavia, quando uma técnica de

categoria A não é usada, deve-se realizar pelo menos três técnicas diferentes, sendo pelo menos

duas técnicas da Categoria B, desde que não sejam correlacionadas (SWGDRUG, 2016) – ou seja, não se deve usar, por exemplo, duas técnicas cromatográficas diferentes para a análise de um

118

mesmo material, uma vez que elas se baseiam num mesmo princípio de identificação (portanto, são correlacionadas).

Perguntado sobre quais testes preliminares e definitivos comumente realiza para identificar drogas de abuso, o perito* respondeu:

“Para atender [as recomendações da SWGDRUG], a gente faz [a Espectroscopia de Infravermelho], que é

uma técnica de categoria A, e uma de categoria C, que são os testes colorimétricos, como o Teste de Scott para cocaína e o Fast Blue Salt B para maconha. No caso do ecstasy, a gente usa o Reagente de Marquis (muitas vezes, a gente faz a Espectrometria de Massas desse material). Para o LSD, a gente tem o Reagente de Ehrlich, mas como, no selo, o LSD tem uma quantidade muito pequena, muitas vezes dá um resultado inconclusivo, não satisfatório... Aí a gente faz por Espectrometria de Massas, usando a CG (Cromatografia Gasosa) para separação” (NICK STOKES, 34 anos).

*Entrevista realizada com peritos das áreas de Balística Forense, Biologia Molecular, Engenharia Legal, Identificação Veicular, Química Forense e Perícias Externas, entre 29 de outubro e 06 de dezembro de 2019.

Deste modo, torna-se extremamente importante a presença de peritos criminais especializados em preparo de amostras e análise química instrumental nos laboratórios forenses, visando aumentar a confiabilidade dos resultados e as chances de sucesso na análise definitiva de substâncias suspeitas de serem ilícitas.