1.4 O direito de propriedade
1.4.7 Limites do direito de propriedade
1.4.7.3 Funções sociais da propriedade e da posse
Dentre as restrições constitucionais mais importantes está a função social da propriedade (art. 5°, XXIII e art. 170, III da CF). Expressão de conteúdo vago, representa muito bem a subordinação do interesse privado ao interesse coletivo.
Para MARIA HELENA DINIZ84 as restrições à propriedade em virtude da função social “pressupõem a ideia de subordinação do direito de propriedade privado aos interesses públicos e às conveniências sociais. São restrições imprescindíveis ao bem-estar coletivo e à própria segurança da ordem econômica e jurídica do país”.
Segundo os ensinamentos de WASHINGTON DE BARROS MONTEIRO,
a partir dessa transformação surge “a moderna concepção do direito de propriedade, com a sua função social bem determinada, geradora de trabalho e de empregos, apta a produzir novas riquezas e a contribuir para o bem geral da nação. É a propriedade dos novos tempos, a eliminar a propriedade estéril e improdutiva”.
A propriedade, em sentido amplo, é direito fundamental previsto no art. 5°, XXII da Constituição Federal que tem por finalidade a proteção da pessoa e da sua família contra as necessidades materiais, atendendo dessa forma sua função individual. Em outras palavras, serve à finalidade de prover o sustento do indivíduo e de sua família.
Por outro lado, se a propriedade serve aos fins de exploração econômica, quando extrapola sua finalidade específica de atender às necessidades materiais da pessoa e da família, passa a ter função social. A propriedade passa a contemplar outros interesses, além do interesse individual do proprietário, devendo cumprir sua função social.
Consoante à função social da propriedade, passa a ter o proprietário o dever de ter em relação à propriedade uma postura ativa, que não se resume à simples exploração econômica do bem, mas à exploração sustentável, atendendo aos preceitos sociais e ao princípio da dignidade humana.
84
DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito das coisas. v. 4., 22. ed. rev. e atual. de acordo com a reforma do CPC. São Paulo: Saraiva, 2007, p.300.
A Constituição Federal não diz exatamente o que é a função social, mas determina os requisitos para o seu cumprimento em relação ao exercício do direito de propriedade, urbana e rural. É o que se depreende dos arts. 170, II e III, 182 §2° e 186 da Constituição Federal85 que prescrevem o seguinte:
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
I - soberania nacional; II - propriedade privada;
III - função social da propriedade; (...)
Art. 182. A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem- estar de seus habitantes.
§ 1º - (...)
§ 2º - A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor. (...)
Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
Sobre o conceito de função social GUILHERME CALMON NOGUEIRA DA GAMA ensina:
a expressão função social não significa socializar a propriedade, e sim atender as diretrizes e postulados do plano diretor - no caso da propriedade imóvel urbana - ou de leis especiais, como o Estatuto da Terra e o Estatuto da Cidade. A expressão função social da propriedade deve ser vinculada a objetivos de justiça social, ou seja, o uso da propriedade deve estar comprometido com um projeto de uma sociedade mais igualitária ou menos desequilibrada, na qual o acesso e o uso da propriedade sejam orientados no sentido de proporcionar novas oportunidades aos cidadãos, independentemente da utilização produtiva que por ventura já esteja tendo86.
85 O art. 186 da CF é regulamentado pela Lei n. 8.629/93. 86
FRANCISCO EDUARDO LOUREIRO analisa os termos separadamente:
Função é o papel que um princípio, norma ou instituto desempenha no interior de um sistema ou estrutura. Serve para definir o concreto modo de operar de um instituto ou de um direito de características morfológicas particulares e manifestas. Função é a satisfação de uma necessidade, que pressupõe, sempre, uma relação com um bem apto a satisfazê-la (interesse) na esfera jurídica de um sujeito (pertinência)".
"O termo social tem conteúdo aberto, podendo ser usado como sinônimo de expressões diversas, como bem-estar social, utilidade social, interesse social, fim social (...). É um meio de alcançar o estabelecimento de relações sociais mais justas, de promover a igualdade real.
E conclui que:
A função social é um poder-dever do proprietário de das ao objeto da propriedade determinado destino. de vinculá-lo a certo objetivo de interesse coletivo. Não pode ser encarada como algo exterior à propriedade, mas como elemento integrante de sua própria estrutura87.
O STJ, em acórdão de relatoria do Min. HUMBERTO MARTINS, entendeu que:
O cumprimento da função social exige do proprietário uma postura ativa. A função social torna a propriedade em um poder-dever. Para estar em conformidade como Direito, em estado de licitude, o proprietário tem a obrigação de explorar a sua propriedade. É o que se observa o art. 185, II, da CF.
Todavia, a função da propriedade não se resume à exploração econômica do bem. A conduta ativa do proprietário deve operar-se de maneira racional, sustentável, em respeito aos ditames da justiça social, e como instrumento para a realização do fim de assegurar a todos uma existência digna88.
Assim, a Constituição Federal ao mesmo tempo que contempla o direito de propriedade como direito fundamental (art. 5°, XXII), estabelece os requisitos de utilização da propriedade individual para atender ao desenvolvimento rural e urbano das cidades de modo que garanta o bem estar e dignidade aos seus habitantes.
87
LOUREIRO, Francisco Eduardo. In: Peluso, Cezar. Código civil comentado. Barueri, São Paulo: Manole, 2007, p. 1.046.
88
O Código Civil de 2002 encampou o conceito constitucional de propriedade transformado o poder absoluto do proprietário sobre a propriedade em uma relação complexa, de poder-dever, subordinada à função social.
O art. 1.228 caput do Código Civil descreve analiticamente os direitos do proprietário sobre a coisa: "usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha".
O §1° do art. 1.228 submete ao exercício do direito de propriedade o cumprimento à função social, conforme determina a Constituição Federal, dispondo que "o direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas".
É entendimento pacífico da doutrina e da jurisprudência que a propriedade individual deve cumprir sua função social para garantir a ordem econômica e o bem-estar social, conforme determina a Constituição Federal.
Entretanto, por tratarem-se de conceitos abertos, passa a ser questão delicada verificar o cumprimento ou descumprimento da função social da propriedade no caso concreto para então aplicar-se a sanção correspondente, que pode ir da edificação compulsória à desapropriação, o que cabe tão somente ao Poder Público.
Queremos dizer que não cabe ao particular, ainda que nítido seja o descumprimento da função social da propriedade, desapossar o proprietário da coisa a fim de utilizar-se dela de acordo com a função social. Ou seja, entendemos ilegítimas as invasões ilegais e violentas promovidas por movimentos para ocupação de propriedades, ainda que não estejam, a princípio, cumprindo sua função social.
Essa é uma das questões mais delicadas tratadas pelo Judiciário que muitas vezes sensibilizado com a situação indigna de vida dos invasores invocam a função social da propriedade e o princípio da dignidade humana para chancelar a conduta ilícita desses invasores.
Entendemos que para ser decretada a carência de legitimação do proprietário à titularidade ou para o exercício do direito de propriedade há de se
observar o devido processo legal, preceito igualmente constitucional, que garante ao proprietário exercer ampla defesa, devendo a ele ser oferecida a oportunidade de demonstrar que exerce a propriedade em cumprimento à função social, antes de sofrer qualquer tipo de intervenção. Nessa seara oportuna observação de FRANCISCO EDUARDO LOUREIRO:
Negar pura e simplesmente, qualquer ato de defesa ao mau proprietário à agressão de terceiros significaria legitimar o reino da força, uma vez que, sendo os bens escassos em relação às necessidades do homem, seria inevitável a luta por sua apropriação. Não se pode olvidar, ao examinar a questão, que a própria Constituição Federal, ao disciplinar o mau uso da propriedade, urbana ou rural, estipulou gradativas sanções - anteriormente vistas - que vão desde a edificação compulsória, passando pela tributação progressiva, até a desapropriação para fins de interesse social, mediante pagamento de títulos da dívida pública. Não cogitou, todavia, da negativa de tutela, ou da retirada de legitimação do mau proprietário. Não cabe, de fato, ao particular, à margem e contra o poder público, sancionar pessoalmente o mau proprietário, desprezando o devido processo legal89.
A função social é inerente não só à propriedade, mas também à posse. Da mesma forma que a lei exige que o direito de propriedade deve ser exercido de acordo com sua função social, exige, também, que a posse seja exercida de forma produtiva. A esse respeito ensinam ANTONIO MOURA BORGES e DANIEL ZANFORLIM BORGES:
Se o estado não protege o mais, a propriedade improdutiva, consequentemente, não protege o menos, que é a posse ociosa ou a mera expectativa de posse que não produz, ou que não contém uma realidade viva de atuação material.90
Prescreve o art. 1.196 que possuidor é todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de alguns dos poderes inerentes à propriedade. Leia-se que o possuidor tem os poderes-deveres inerentes à propriedade.
Segundo FRANCISCO EDUARDO LOUREIRO:
89
LOUREIRO, Francisco Eduardo. In: Peluso, Cezar. Código civil comentado. Barueri, São Paulo: Manole, 2007, p.1.047.
90
BORGES, Antonio Moura; BORGES, Daniel Zanforlim. Posse, propriedade e reivindicatória. 3. ed. Campo Grande: Contemplar, 2012, p. 83.
Tem o possuidor os poderes de fato inerentes à propriedade. Age como proprietário. Como proprietário dispõe daquilo que lhe pertence, usa, frui, conserva e defende o que é seu, assim também age o possuidor. Tal como proprietário, tira proveito da coisa, dando-lhe a natural destinação econômica e social91.
Percebemos aqui que a posse não representa mero fato sobre a coisa, mas um poder-dever juridicamente relevante ao ponto de ser equiparado ao poder- dever inerente à propriedade. Não é apenas o direito de gozar, fruir a coisa, mas de atender a todos os preceitos relativos à propriedade, inclusive a função social.
Aliás, se o cumprimento à função social da propriedade é o seu exercício de acordo com o interesse social, a função social é indissociável da posse uma vez que esta é o exercício, pleno ou não, de um dos poderes inerentes a propriedade.
Nesse sentido, oportuno trazer os ensinamentos de GUILHERME CALMON NOGUEIRA DA GAMA:
A noção da função social se vincula necessariamente à ideia do uso da coisa, e, por isso, modifica significativamente conceitos e categorias do regime tradicional das situações proprietárias e possessórias. A função social é a essência dinâmica da estrutura jurídica, e não mais considerada mero limite (externo) à situação jurídica. N âmbito da propriedade, a função social atua no sentido de instruir um conceito estático anterior que era uma projeção do individualismo exacerbado. Luiz Edson Fachin registra que o fundamento da função social da propriedade é 'eliminar da propriedade privada o que é eliminável', ao passo que o fundamento da função social da posse revela o imprescritível, 'uma expressão natural da necessidade'. Desse modo, a posse deve ser encarada de modo distinto da propriedade , eis que não se reduz a mero efeito ou encarnação de riqueza, tampouco a manifestação de poder; na realidade, a posse é uma concessão à necessidade92.
Daí concluímos que, o cumprimento à função social, não se reduz à mera limitação do direito de propriedade, mas se traduz em elemento intrínseco ao conceito dinâmico de propriedade. E em sendo a posse poder de fato inerente à propriedade, não há como dissociá-la da função social.
91
LOUREIRO, Francisco Eduardo. In: Peluso, Cezar. Código civil comentado. Barueri, São Paulo: Manole, 2007. p. 982.
92