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"Nunca fui de comer pão com manteiga só, ou não ir ver a mãe por oito anos para guardar dinheiro, eu não! isso é uma opção." (João 49 anos, em Lisboa desde 1991)

O estado da arte sobre a imigração brasileira em Portugal construiu suas bases explicativas em torno da delimitação de duas vagas distintas em relação aos brasileiros que migraram para Portugal. Segundo essa tese, a primeira vaga seria entre 1986-1996, representada por imigrantes altamente qualificados da região sudeste, e a segunda fase seria de 1996 em diante, com imigrantes de baixa qualificação. Contudo, assim como utilizamos a reportagem dos Cadernos do Terceiro Mundo para questionar essa máxima nos estudos migratórios, novamente a leitura das fontes impressas nos permite pensar em outras questões.

Ao desenvolver a pesquisa sobre o caso dos “dentistas brasileiros”, fiz leituras completas dos jornais portugueses nesse período. Destaco um artigo publicado no jornal Público, do dia 16 de dezembro de 1991, com o seguinte título: “Brasileiros «estagiam» na indústria do calçado. Do Nordeste para Aveiro por um punhado de dólares” (p.21). A matéria a seguir à introdução incluía fotos e relatos dos imigrantes brasileiros desta forma:

"Brasileiros deixam o estado federal do Ceará para vir trabalhar na indústria do calçado do distrito de Aveiro, onde a oferta de emprego ainda supera a procura. Em regra trabalham em acabamentos – colagem, engraxamento, colocação de cordões – de sapatos mas também de noutras fases produtivas como a do corte e aplicação de couros e tecidos. De dois em dois anos, durante um mês de férias, matam a saudade do seu Nordeste. Quase sempre dispõem de um contrato de trabalho por prazo de quatro anos. Recebem

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simultaneamente no Brasil e em Portugal, 150 dólares. Alguns descontam para a Segurança Social. Das suas estadias resultam autênticos episódicos de telenovela…" (Público, de 16 de dezembro de 1991, p.21)

Esses operários da indústria do calçado não se encaixam nas descrições do consolidado estado da arte sobre os imigrantes brasileiros de 1986 até 1996. Não são altamente qualificados e também não são do sudeste do Brasil, mas estão inseridos claramente numa lógica transnacional de empresa e de recebimento do salário, pois auferem salário nos dois países, de acordo com o artigo. Facilitando o projeto migratório desses brasileiros que ainda mantêm seus laços com o país natal, seja pelo envio de dinheiro, seja pelas férias no país. Esses funcionários ainda viviam nos alojamentos das próprias empresas, pois só assim o projeto de viver na Europa podia funcionar. Eles recebiam pouco em relação ao custo de vida normal em Portugal, como explica a imigrante neste trecho sobre o mercado português

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“«Deus me livre se tivesse de pagar renda, a vida de um assalariado aqui é muito pior», afirma Tância sobre o mercado português” (p.21). Outro trecho importante relacionado aos estereótipos e abusos contra a mulher brasileira, identifica-se nestes relatos de duas imigrantes:

"É bem feita? Venha amanhã de mini-saia…” Maria Helena, 21 anos, natural de Sobral, no Estado federal de Ceará, no Nordeste brasileiro, não compareceu à entrevista destinada a preencher uma vaga numa “oficina de venda de carros” Ficava procurando emprego no jornal, mas a maioria das propostas era “mal intencionada”, recorda, agora, quase a completar dois anos de permanência em Portugal. Esta brasileira estava prestes a entrar para a Universidade quando decidiu vir trabalhar para o nosso país, opção justificada pela “necessidade”, pela “ansiedade de sair (…) para a Europa” Hoje, concluíram já que o “Eldorado” europeu não passou de uma miragem.

“Não é estágio nenhum é só trabalho!”, lamenta Tânia Lopes, 29 anos, que se despediu de uma fábrica de tecidos brasileira."

Maria Helena denunciou na entrevista a forma absurda como foi tratada ao procurar um emprego, mas o artigo do jornal silencia a situação, ao não comentar ou criticar esse acontecimento. Tânia Lopes também protesta contra o trabalho, dizendo que não é estágio local, onde supostamente a importância maior seria o aprendizado. Mesmo com essas denúncias, o jornalista ao introduzir esta matéria utiliza este trecho infeliz: “Das suas estadias resultam autênticos episódicos de telenovela” (p.21). Mais uma vez, o estereótipo da telenovela brasileira é associado aos imigrantes brasileiros, como uma forma de minimizar os problemas e de desconstruir as questões de excesso de trabalho, baixa remuneração e assédio moral.

Uma das principais mudanças no cotidiano da sociedade portuguesa foi o advento dos canais de Televisão privados. Depois de um longo processo de apresentação de propostas, no dia 6 de fevereiro de 1992 o primeiro-ministro Cavaco Silva aceitou as propostas de duas e

109 recusou uma. Foram aprovadas a Televisão Independente (TVI), controlada pela Igreja Católica45, e a Sociedade Independente de Comunicação (SIC), controlada por Francisco

Pinto Balsemão proprietário do grupo Impresa. A recusada foi a TV1, de Daniel Proença de

Carvalho, presidente da Global Media Group. A primeira emissão de um canal privado em

Portugal foi realizada pela SIC em 6 de outubro de 1992 e a estreia da TVI foi em 20 de fevereiro de 1993 (Filho, 2008, pp.53-54).

De acordo com Isabel Feltrin, em entrevista para o jornal eletrônico Observador, este período do início da televisão privada em Portugal foi muito explorado pelo sensacionalismo, nos noticiários e nos programas também:

"Para a investigadora, as televisões privadas recém-nascidas SIC e TVI – que iniciaram as suas actividades, respectivamente em 1992 e 1993 –, encontraram nos gangs de jovens africanos uma agenda mediática de grande impacto público, principalmente durante a época de Verão: “A matéria prima imigração é óptima para chamar audiências e foi imediatamente explorada pela TVI e SIC, de uma forma como o serviço público nunca tinha feito: informação espectáculo, entrevistas e muitos testemunhos”. Por exemplo, em 1994, a SIC estreava o programa Casos de Polícia, onde os temas de imigração fizeram muitas vezes parte do alinhamento."46

Essa escolha dos imigrantes enquanto representantes da violência alimentava e construía um estereótipo muito forte. Especialmente numa época em que este meio de comunicação tinha um grande alcance em relação à sociedade portuguesa, como aponta Rui Ramos: “Em 1994, um inquérito indicou que 96% dos lares tinham televisão. A programação de talk

shows, noticiários, telenovelas, concursos e futebol, embora desprezada pela elite intelectual, proporcionou a uma grande parte da população acesso a informação externa aos seus meios sociais, com impacto nos comportamentos” (2009, p.770).

Como foi já dito, um dos produtos principais da indústria cultural brasileira foram as telenovelas, as quais apresentavam uma leitura sobre a sociedade brasileira e vendiam uma cultura para ser consumida. Com a criação de mais dois canais gratuitos, além da estatal RTP, houve um aumento das produções oriundas do Brasil nas televisões portuguesas.

Os três canais passaram a exibir telenovelas brasileiras em prime time e com isso houve um aumento dos estereótipos produzidos pelas emissoras de televisão bem como um consumo de músicas devido às trilhas sonoras das telenovelas brasileiras. Alguns estereótipos

45Em 1997 o grupo Media Capital comprou a parte da Igreja Católica na TVI (Filho, 2008, p.54).

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enfrentados pelos imigrantes brasileiros em Portugal derivam, como referimos anteriormente, da imagem que as telenovelas transmitem enquanto produto da indústria cultural.

Portugal na década de 1990, com o advento de novos canais de televisão, tem novos tipos de informações circulando na sociedade, pois o fim do monopólio estatal de produção de audiovisual transformou a sociedade transversalmente. Neste capítulo fazemos referência à questão das telenovelas brasileiras, pois estas foram sempre citadas como exemplos de construções de imagens sobre os brasileiros e brasileiras em Portugal. Como foi o caso desses imigrantes que estavam trabalhando na indústria de calçados em Aveiro, que fogem dos imigrantes tipicamente retratados nos livros sobre a imigração. Afinal, não são altamente qualificados, são simples operários de um trabalho semianual muitas vezes, como o jornal Público retratou e que estavam em Portugal, trabalhando e disputando e negociando suas identidades.