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3.1. Contexto histórico e institucional das iniciativas federais de apoio a

3.1.2. Inclusão digital comunitária: embriões da experiência nacional

No Brasil, as iniciativas de ONGs e movimentos sociais, com enfoques e projetos políticos distintos, foram pioneiras como iniciativas de democratização das TICs. Um papel importante foi desempenhado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), organização não governamental criada por militantes que haviam retornado do exílio político ao Brasil, como Herbert de Souza, o Betinho; e Carlos Alberto Afonso, especialista em democratização das TICs. De acordo com Carlos Afonso (Mattar, 2006), o Ibase foi a primeira organização da sociedade civil brasileira a possuir um microcomputador em 1981, data de sua fundação. Desde 1984, fazia parte do projeto internacional Interdoc, que permitia a troca de mensagens, à época ainda não de forma instantânea, entre organizações da sociedade civil de todo o mundo. Em 1988, essa rede permitiu, por exemplo, a difusão da notícia do assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, no interior do Acre, fazendo a informação chegar a todo o mundo e ganhar notoriedade a partir da Europa, antes mesmo de se fazer conhecida no resto do Brasil.

A proposta do Ibase evoluiu para um serviço de Bulletin Board System (BBS) destinado à conformação de redes entre as entidades civis brasileiras. Em 1989, com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Ibase criou a rede Alternex, difundida a partir do trabalho montado para a conferência mundial sobre meio ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU), a ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992. Segundo Carlos Afonso, a própria conexão internacional do Brasil em tempo real à internet, como uma rede permanentemente conectada, nasce na ECO-92:

Carlos Afonso – (…) Nem as telefônicas conheciam equipamento de Internet. Nem a Embratel. O Ibase é que trouxe isso para o Brasil. Instalamos redes de computadores conectadas à Internet em todos os espaços da Eco-92, tudo interconectado. Foi a primeira vez que se fez isso no Brasil (Mattar, 2006).

É em parte dessa experiência que deriva a criação, em 1997, da organização não governamental Rits – Rede de Informações para o Terceiro Setor. Fundada como instituição independente no âmbito do programa Comunidade Solidária do governo federal, tinha como missão original ser uma rede virtual de informações e desenvolver atividades para que entidades da sociedade civil fizessem uso das TICs para compartilhar informações e realizar

interação de atividades. A Rits mantinha portais de informações na internet voltados às entidades e oferecia serviços de e-mail, hospedagem de sites e outras ferramentas eletrônicas a instituições que se associassem e pagassem pelo serviço, realizado sem finalidade lucrativa (Cardoso et alii, 2002). Como se verá mais adiante, os portais foram utilizados na mobilização de políticas públicas para telecentros pelo governo federal e a Rits foi uma das instituições diretamente envolvidas na proposição de desenhos de gestão.

Mais importante para o foco desta tese, contudo, são as experiências de promover o uso de computadores por pessoas moradoras de comunidades de baixa renda e outros direitos fundamentais não garantidos. No Brasil, ações nesse sentido emergem em múltiplos lugares, provavelmente em função da disseminação, em meados da década de 1990, do uso de microcomputadores conhecidos como PCs (personal computers) em empresas e domicílios de famílias de maior renda. Segundo registros jornalísticos, em 1993, a aquisição de um computador por essas famílias já era uma realidade. O consumidor brasileiro pagaria ao menos 1,5 mil dólares por um PC, se o adquirisse no exterior (A hora..., 1993). A meta da indústria de equipamentos em 1995, quando a internet começou a se popularizar, era produzir computadores ao preço máximo de mil dólares (A rede..., 1995). Já naquele momento, o ritmo de atualização dos aparatos técnicos tornava os equipamentos periodicamente obsoletos9, e as

pessoas com possibilidade financeira de trocar seus computadores, em geral, optavam pela doação do antigo a quem ainda não possuía.

Nesse contexto, o Ibase em conjunto com a Fase, organização não governamental com sede no Rio de Janeiro, realizam a campanha “Informática para Todos” em 1994, na qual um grupo de voluntários promoveu a arrecadação de computadores usados para a montagem de laboratórios de informática em comunidades de baixa renda da cidade. A experiência de tentar colocar os computadores usados para funcionar e realizar processos de alfabetização digital da população teve início na favela Santa Marta, no morro Dona Marta. Com o envolvimento de instituições locais (Grupo ECO e Centro Cultural Padre Velloso) e cinco computadores novos doados pela C&A Modas, foi inaugurada a primeira Escola de Informática e Cidadania (EIC)

9 A “obsolescência programada” faz parte da lógica de desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, conforme descrito no Capítulo 1. Resumidamente, significa que todo equipamento ou software é criado dentro de um ciclo que prevê sua superação tecnológica e substituição por outro com maior capacidade, novas funcionalidades e/ou atributos de design que impulsionam as vendas de hardware e software.

do Comitê para Democratização da Informática (CDI), instituído formalmente como ONG em 1995 (Dias, 2003; Medeiros, 2005).

As EICs montadas a partir desse piloto seguiram, segundo o CDI, um modelo de “franquia social”. O desenho que se disseminou ao longo dos anos 1990 e início dos 2000 envolvia a doação dos equipamentos usados por empresas e da licença do software de sistema operacional pela Microsoft a uma instituição local. Voluntários com algum conhecimento técnico instalavam os equipamentos e treinavam os primeiros monitores locais, que também atuavam como voluntários. A escola oferecia à comunidade cursos básicos de informática, seguindo uma metodologia sistematizada pelo CDI matriz. Cada aluno pagava entre R$ 5,00 e R$ 10,00 pelo curso10, ao final do qual ganhava um certificado. A conexão à internet não fazia

parte do modelo, nem a utilização dos equipamentos para pessoas não matriculadas nos cursos (Dias, 2003).

Ao longo dos anos, o CDI disseminou sua proposta de ação sob o formato de “franquia social” para a constituição de EICs no Brasil e no exterior, obtendo diversos apoios institucionais: organizações privadas de fomento a parcerias entre empresas e o terceiro setor, organismos internacionais e multilaterais (como o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, Banco Mundial/Infodev, Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – Usaid, Unicef e Unesco), programas de fundações ou de responsabilidade social de empresas (Microsoft, Accenture Foundation, Fundação Telefonica, Fundação Vale do Rio Doce, Banco UBS, Xerox, Fundação W.K. Kellogg, Organizações Globo, entre outras). Em determinados Estados, foram instituídas unidades regionais do CDI, que articularam suas próprias parcerias (Cruz, 2004; Dias, 2003; Medeiros, 2005).

Com foco no mesmo perfil de população, em 1999, o projeto Sampa.org foi concebido em São Paulo pelo Instituto de Políticas Públicas Florestan Fernandes. Segundo informações dos gestores do projeto à época, a proposta era envolver empresas, entidades da sociedade civil, entidades sindicais e instituições de ensino e pesquisa na implantação de telecentros comunitários na periferia paulistana. O desenho pressupunha, desde a concepção, que os espaços fossem conectados à internet. Tinha como foco principal criar um modelo de democratização de uso das TICs que integrasse a política pública municipal proposta no 10 Em maio de 1995, o valor nominal do salário-mínimo era R$ 100,00 reais; em 2000, R$ 151,00 (Brasil, 2006a).

programa de governo do Partido dos Trabalhadores que disputaria as eleições de 2000 em São Paulo (Assumpção, 2001).

De acordo com um dos executores da proposta, a novidade do Sampa.org foi propor um modelo que efetivamente democratizava o acesso: espaços públicos de uso gratuito, geridos pela comunidade, que oferecessem não apenas aulas de informática, mas também acesso livre à internet e possibilitassem construir projetos coletivos de uso das tecnologias, tais como a produção de conteúdos locais, oficinas de robótica e arte, mapeamento de serviços do bairro, entre outras que a própria comunidade criaria a partir da disponibilidade das ferramentas (Dias, 2003).

Os telecentros do Sampa.org foram implantados nos bairros do Campo Limpo, Jardim Ângela e Capão Redondo, periferia da Zona Sul da cidade de São Paulo. O projeto estabeleceu parcerias com entidades de base local após um trabalho de diagnóstico e articulação. Além do Instituto Florestan Fernandes, os recursos para a instalação dos espaços foram obtidos com empresas que doaram equipamentos, softwares e infraestrutura de rede (3COM, Mitsca, Microsoft, Microtec) e uma instituição de ensino superior, o Centro Universitário Adventista, localizado na mesma região, que se responsabilizou pelo suporte e a manutenção dos equipamentos e pela formação técnica de monitores das comunidades (Assumpção, 2001).

Os primeiros seis telecentros começaram a funcionar em 2000. O projeto cedia os computadores às instituições locais em regime de comodato e também repassava recursos para o pagamento do serviço de conexão à internet, apoio ao custeio de manutenção física (limpeza, energia elétrica, abastecimento de água, telefonia) e oferta de auxílio financeiro, como ajuda de custo aos monitores. Havia uma rede de voluntários envolvida. As regras de funcionamento eram estabelecidas por cada instituição local, dentro de diretrizes comuns: funcionamento no mínimo 8 horas por dia, ao menos 30% do tempo total disponível para acesso livre à internet pelos usuários e no máximo 10% dedicados a atividades da própria entidade (Assumpção, 2001).

A iniciativa envolveu ainda a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Escola do Futuro da Universidade de São Paulo e outras entidades do terceiro setor, incluindo o CDI e o Comitê pela Democratização da Informática de São Paulo (CDISP), e o Instituto Latino Americano de Desenvolvimento Econômico Social (Ildes) da Fundação Friederich-Ebert, por

meio de um comitê técnico. Outras instituições foram estabelecendo parcerias após o início da implantação para projetos específicos, incluindo políticas sociais da prefeitura do município já sob gestão do Partido dos Trabalhadores, com os programas Bolsa Trabalho e Começar de Novo, relacionados à geração de emprego e renda; a Fundação Chasquinet de mobilização da rede latino-americana Somos@Telecentros e a Rits – Rede de Informações para o Terceiro Setor (Encontro, 2001; Assumpção, 2001; Assumpção e Falavigna, 2004).

Em 2002, os dez telecentros implantados pelo Sampa.org foram incorporados pela política pública da prefeitura do município para telecentros. O principal avanço, na opinião dos gestores originais, foi conseguir que o poder público assumisse a garantia de manutenção das condições físicas e operacionais dos espaços. Na visão do projeto, somente o Estado possui os recursos necessários para garantir o direito de acesso às tecnologias da informação e comunicação pela população em escala nacional (Assumpção, 2001; Dias, 2003).

Duas mudanças foram destacadas na transição para o programa de telecentros da prefeitura. Primeiramente, os telecentros passaram a utilizar softwares livres, substituindo os softwares que haviam sido doados pela Microsoft no início do projeto. A segunda foi a necessidade de seguir determinadas regras padronizadas pela gestão municipal, tais como o estabelecimento de horário fixo de atendimento à população, restrições à instalação de softwares pelo próprio telecentro e a divisão do tempo de atendimento entre cursos e acesso livre. Isso teria gerado um “choque de culturas”, distendido após negociações e um período de acomodação (Dias, 2003).

Destaca-se que a implantação e a disseminação de iniciativas como as descritas e outras em andamento no período contaram com o apoio de organismos internacionais, tais como Banco Mundial, BID, Unesco e Unicef; agências e institutos de fomento vinculados a governos de outros países, como Usaid, dos Estados Unidos, e Institute for Development Research Centre (IDRC), do Canadá; e outras organizações estrangeiras com atuação no Brasil, vinculadas a empresas (como a Fundação W.K. Kellogg e a Fundação Telefonica) ou partidos (como a Fundação Friederich Ebert, da Alemanha). Corporações como Microsoft e IBM também patrocinaram esses e outros projetos similares à época, tais como o VivaRio, Kidlink, Porto Digital, entre muitos outros de atuação local, não apenas na região Sudeste, como em outras partes do Brasil (Cruz, 2004; Delgadillo, Gomes e Stoll, 2002; Dias, 2003; Takahashi, 2000).