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5 INDÚSTRIA AUTOMOTIVA BRASILEIRA: SUA RELAÇÃO COM A INDÚSTRIA 4.0 E COM AS NOVAS TENDÊNCIAS DE MOBILIDADE AUTOMOTIVA.

5.3 INDÚSTRIA AUTOMOTIVA – REALIDADE NACIONAL DA INDÚSTRIA 4.0, DOS VEÍCULOS ELÉTRICOS, AUTÔNOMOS E COMPARTILHADOS.

5.3.1 Indústria 4.0 – conectividade e digitalização

A indústria automotiva é a que mais tem investido em tecnologias da indústria 4.0 no Brasil, cerca de 2,9% da estrutura de fabricação dessa indústria é digitalizada (CNI, 2017b). Essa seria

a forma de integrar a cadeia para garantir maior flexibilidade, personalização (sem aumento proporcional dos custos), segurança e qualidade na produção de veículos e atender as mudanças no comportamento do consumidor brasileiro. Esse consumidor está mais pragmático, considerando bastante relevante os custos totais de aquisição e, ao mesmo tempo, buscando por veículos mais conectados, ou seja, por veículos com inúmeras conexões internéticas, seja para lazer (música, entretenimento, navegadores de Internet), seja para apoio à condução (GPS e outros) ou para venda de serviços (manutenção, compras de serviços diversos, para consumo imediato ou posterior) (IEL/NC, 2018b; ROLAND BERGER, 2017a).

Para Pirelli (2017) um carro é considerado conectado assim que é equipado com hardware que permite a conexão com a Internet, criando assim a base para a comunicação do veículo com outros carros conectados, smartphones e o ambiente externo. O carro conectado, portanto, será o principal pilar de receitas da IoT. A conectividade abre o ecossistema automotivo para novos

players não tradicionais, como por exemplo, de telecomunicações e de tecnologia. Isso estimula

a cooperação entre eles e reflete em novas fontes de valor para as montadoras que podem corresponder: a hardware, taxas de serviços, acesso a terceiros de dados de clientes, monetização de dados, venda cruzada (aproveitar uma conexão de dados do veículo para fornecer aos motoristas ofertas adjacentes, especialmente para fins de pós-venda com o uso dos dados do cliente como pré-requisito), up-sell de veículos (oferecer uma versão mais completa ou adequada em relação a oferta anterior ou depois de ser adquirida, como por exemplo uma sofisticada funcionalidade de piloto automático) e atualizações over-the-air (OTA)11 (oferece

ao cliente a capacidade de adquirir novas atualizações e funções do veículo e permite as montadoras atualizarem seus veículos remotamente com menores custos e segurança) (GISSLER, 2015; HERE TECHNOLOGIES, 2018). De todo modo os aplicativos, serviços adicionais e plataformas de serviços digitais que se relacionam com o carro conectado e seu ecossistema digital estão cada vez mais definindo novos modelos de negócio na indústria e possibilitando as montadoras permanecerem em contato com o cliente o tempo todo gerando novas fontes de receita para o setor.

Nas parcerias entre montadoras e empresas de telecomunicações a Embratel tem assumido uma posição de destaque. Segundo a operadora sua participação no mercado de serviços a veículos

11 Uma atualização OTA é a transferência de dados, software e firmware entre nuvem e um veículo para atualizar

e melhorar as funções do veículo. Dessa forma, os proprietários não precisam ir as concessionárias para fazer atualizações de software. Eles esperam um sistema seguro que ofereça a mesma facilidade de atualização que

conectados é de 90% e tem fechado acordos com a Volvo, GM e BMW oferecendo serviços de localização exata de carro (para caso de acionar assistência técnica, para recuperação do automóvel em caso de roubo, como também, para encontrá-lo no estacionamento), ativação de serviços de forma remota e controle do funcionamento do veículo via aplicativos (dados essenciais podem ser coletados por SIM Cards e disponibilizados como calibragem dos pneus, volume de óleo, quantidade de combustível, temperatura e últimas viagens realizadas) (IDGNOW, 2017; EMBRATEL, 2017; O TEMPO, 2018).

No Brasil, a conectividade nos automóveis ainda está em estágio embrionário, correspondendo a 3,8% da frota brasileira de automóveis em 2018. Essa taxa é bem inferior ao de países como EUA (35,4%), Irlanda (32,9%) e Reino Unido (31,4%), mas representa um mercado promissor para diversos setores e indústrias. Espera-se que o número de carros conectados existentes no Brasil em 2022 seja de 5,7 milhões em comparação aos 1,7 de 2017. O lucro esperado nesse segmento é de US$ 485 milhões para o ano de 2018, atingindo US$ 694 milhões em 2022. Na comparação global, a maior parte da receita é gerada nos Estados Unidos (US$ 12.923 bilhões em 2018). O segundo maior mercado de carros conectados é a Europa, com receita de US$ 7,95 bilhões e com taxa de crescimento de 8,5% ao ano levará a receita para US$ 11,9 bilhões em 2022. Na China, o mercado de carros conectados gerou US$ 5,02 bilhões em 2017 e estima-se que seus lucros cresçam 16,7% até 2022, será a maior taxa de crescimento em receitas esperadas do mundo, resultando em US$ 10,87 bilhões (STATISTA, 2018).

Embora o atual grau de difusão da Indústria 4.0 ainda seja incipiente na indústria automotiva brasileira (IEL/NC, 2018b), suas empresas têm compreendido a importância da digitalização e de se desenvolver pelas diretrizes da indústria 4.0 para sua competitividade nacional e internacionalmente, de tal forma que está em curso uma nova onda de investimentos, mesmo diante de sinais fracos de recuperação do setor automotivo.

Segundo Reis (2018) as montadoras pretendem investir no Brasil cerca de R$ 36,7 bilhões até o ano de 2022, sendo boa parte desse valor destinada no desenvolvimento de novos veículos, mas também, na Indústria 4.0, por meio da atualização e modernização da estrutura produtiva, introdução de novas tecnologias e conectividade. Esses investimentos estão concentrados em nove montadoras, das quais quatro dedicadas à produção de automóveis, Caoa-Chery, GM, Toyota e Volkswagen e as demais entre caminhões e ônibus, Iveco, MAN Latin America, Mercedes-Benz, Scania e Volvo. A seguir, no Quadro 5, estão dispostos os valores dos investimentos de cada montadora, o período de realização e como serão utilizados.

Quadro 5 - Investimentos das montadoras (2014-2022). Anunciados até junho de 2018.

CAOA CHERY: US$ 2 bilhões (2018-2022) - Em uma parceria inédita, na qual a Caoa comprou metade das operações na Chery no Brasil, a empresa aplicará US$ 2 bilhões nas linhas de produção e no desenvolvimento comum de automóveis. Estão previstos novos sedãs e SUVs no Brasil a partir de 2018, caso do já lançado Tiggo2. Todos serão construídos sobre duas plataformas modulares, uma mais compacta em Jacareí (SP), que abriga a fábrica da Chery, inaugurada em 2014, e outra maior em Anápolis (GO), onde há 10 anos a Caoa monta veículos Hyundai e que ganhará mais uma linha de produção separada para fazer os carros da Chery.

GENERAL MOTORS: R$ 13 bilhões (2014-2020) - O dinheiro será utilizado para modernizar as fábricas de Gravataí/RS e São Caetano do Sul/SP e para desenvolver novos produtos e introduzir conceitos inovadores da Indústria 4.0. A companhia quer ampliar alinha de produtos da Chevrolet e trazer ao mercado veículos mais conectados, seguros e eficientes energeticamente. Com isso, a empresa espera tanto ampliar a sua competitividade no mercado interno quanto transformar suas plantas em plataformas de exportação global. A montadora é uma das poucas a anunciar aportes em ampliação de capacidade.

VOLKSWAGEN: R$ 7 bilhões (2016-2020) - A modernização da fábrica Anchieta será feita a partir dos conceitos da Indústria 4.0. Isso quer dizer que a empresa reformará a sua planta para adotar mais tecnologia e automação na produção dos veículos. O objetivo é aumentar a produtividade da fábrica - que opera atualmente em um só turno – ao torná-la mais rápida, enxuta e eficiente.

VOLVO: R$ 1 bilhão (2017-2019) – a maior parte do investimento, cerca de 90%, será utilizada para a atualização e modernização da fábrica de caminhões e ônibus em Curitiba (PR), além do desenvolvimento de novos produtos, serviços. O aporte também sustentará a ampliação da rede de concessionárias na América Latina, principalmente no Chile.

TOYOTA: R$ R$ 1,6 bilhão (2018-2019) – Do total anunciado, R$ 1 bilhão foi aplicado para produzir o hatch compacto Yaris no Brasil no primeiro semestre de 2018 na fábrica de Sorocaba (SP). Para atender as demandas trazidas pelo novo carro que compartilha poucos itens com outros modelos da marca, investimentos paralelos de fornecedores foram realizados, alguns inclusive construíram novas fábricas e linhas de produção. Assim, o Yaris nasce com 75% de componentes nacionais e amplia a base de suprimentos da montadora. Outros R$ 600 milhões estão confirmados para elevar a capacidade da fábrica de motores localizada em Porto Feliz (SP), considerada umas das plantas mais modernas do mundo da Toyota.

IVECO: US$ 120 milhões (2017-2019) - Será dedicado exclusivamente à pesquisa e desenvolvimento de produtos, além de sustentar os lançamentos previstos para 2018 e 2019, no qual já estão contemplados os novos modelos Daily City, os Tector de 8, 11 e 13 toneladas e o Tector com câmbio automatizado Autoshift, lançados em 2017.

MAN LATIN AMERICA: R$ 1,5 bilhão (2017-2020) - Em seu maior ciclo já realizado no Brasil, a marca que pertence à holding Volkswagen Truck & Bus, tem como objetivo ampliar o portfólio de produtos com novos veículos, além de destinar o aporte em desenvolvimento de novas tecnologias digitais e de conectividade e, enfim, à internacionalização da marca brasileira Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO).

MERCEDES-BENZ: R$ 2,4 bilhões (2018-2022) - A montadora está encerrando neste ano o aporte total de R$ 730 milhões que iniciou em 2015, dos quais R$ 500 milhões foram para a modernização da fábrica de São Bernardo do Campo (SP), que ganhou conceitos de indústria 4.0; além dos R$ 230 milhões que também foram dedicados à modernização da fábrica de Juiz de Fora (MG). Em um novo ciclo, a empresa terá R$ 2,4 bilhões entre 2018 e 2022 para dar continuidade à atualização e modernização das fábricas de veículos comerciais, além de sustentar o desenvolvimento de novos produtos, tecnologias e serviços de conectividade no segmento de comerciais pesados.

SCANIA: R$ 2,6 bilhões (2016-2020) - Os recursos sustentarão o desenvolvimento de novos produtos, atualização e modernização do parque industrial de São Bernardo do Campo (SP), como forma de reforçar a

estratégia de manter o Brasil como um espelho produtivo da Suécia. Também dedicará parte do aporte para a atualização da rede de concessionárias.

Fonte: Elaboração própria, 2018 com base em Automotive Business, 2018a.

No segmento de caminhões a Mercedes-Benz chama atenção pelo pioneirismo de investimento de tecnologias totalmente integradas aos pilares da Indústria 4.0, a começar pela digitalização da infraestrutura de fabricação na nova linha de montagem de caminhões, inaugurada em 2018 na cidade de São Bernardo do Campo (SP). Cerca de 500 milhões de reais já foram investidos nessa modernização desde 2015. A empresa pretende expandir as tecnologias da indústria 4.0 a outras linhas de agregados (motores, câmbios e eixos), à fabricação de chassis de ônibus em São Bernardo do Campo e à planta de Juiz de Fora em Minas Gerais, onde é produzido cabines e os caminhões Actros. Cerca de R$ 2,4 bilhões estão programados para serem utilizados até 2022 nesses projetos. O objetivo desses investimentos que combinam serviços avançados entre conectividade e automação, dados na nuvem, Big Data, Analytics, Internet das Coisas, dentre outras tecnologias e recursos é a busca por altos padrões de qualidade e produtividade, além de maior flexibilidade para soluções mais customizadas garantindo rentabilidade para seus negócios.

Como exemplo de uso dessas tecnologias pela montadora tem-se o aplicativo de celular que possibilita acompanhar 100% da produção da nova linha de caminhões com interface com outras áreas da fábrica e outras plantas. Além disso incluem-se: mais de 60 veículos guiados automaticamente, mais de 100 apertadeiras eletrônicas (cujos dados gerados são armazenados na nuvem com inteligência do Big Data e por meio de recursos de Analytics possibilita monitorar a qualidade dos produtos, detectar falhas e casar informações de vendas com sistemas de produção) ; 40 monitores de TV que dispensam papeis na orientação aos montadores em cada estação de trabalho, impressoras 3D, óculos de realidade aumentada e na logística de peças destacam-se empilhadeiras com câmeras e sensores que monitoram a entrada e saída de matérias. Os resultados da integração dessas tecnologias já são observáveis: a produção teve um ganho de eficiência de 15% e a eficiência logística alcançou acréscimo de 20% (MERCEDES-BENZ, 2018).

Além dos investimentos dessas montadoras, outras tem se comprometido com a modernização de suas fábricas. A Fiat Crysler Automóveis (FCA) anunciou em julho de 2018 que vai destinar R$ 8 bilhões ao Polo Automotivo Fiat em Betim (MG) para alinha-lo a Indústria 4.0 por meio do laboratório Manufacturing 2020, que é um espaço equipado para experimentações e treinamento que implementa projetos para todas as áreas de produção do polo. Essa sala

possibilita, dentre outras coisas, profissionais fazerem simulações de montagem de veículos e de produção de peças usando software de realidade virtual e aumentada. Com isso, é possível criar e testar processos antes de construir as partes físicas, o que evita erros e reduz custos. O laboratório desenvolve ainda soluções de conectividade com a utilização da Internet das Coisas (IoT) como a certificação digital na montagem final por meio de um bracelete usado por operadores, que digitam nele códigos para validar cada atividade executada. Segundo a FCA, o investimento de R$ 1 milhão no Manufacturing 2020 foi recuperado em oito meses.

Na linha de produção foram adicionados robôs colaborativos, além de dois, três novos estão em fase de instalação. Ao todo, 1.100 robôs atuam na produção da fábrica. Peças de reposição para equipamentos das linhas de produção passam a ser produzidas por manufatura aditiva e para diminuir risco de acidentes e lesões relacionadas a postura do funcionário, é utilizado um exoesqueleto, que é um dispositivo que auxilia o operador a realizar suas tarefas com menos esforço físico. O preço de cada exoesqueleto é US$ 14 mil e é importado, a fábrica dispõe de 16 unidades. Estima-se que tais investimentos devam gerar 8 mil empregos diretos e indiretos ao longo de toda a cadeia produtiva da unidade mineira. (BORGES, 2018; KUTNEY, 2017, 2018; BRASILAGRO, 2018). A Figura 24 ilustra as aplicações da indústria 4.0 na Fiat.

Figura 24 – Polo Automotivo Fiat em Betim (MG) – Aplicações da Indústria 4.0.

(a) Simulação no laboratório Manufacturing 2020.

(b) Produção de peças de reposição por manufatura aditiva para equipamentos das linhas de produção do Polo Automotivo Fiat em Betim (MG).

(c) Robôs colaborativos no Manufacturing 2020 e exoesqueleto em uso por operador na linha de produção.

(d) Robôs soldadores programados por computador, totalmente integrados em rede.

Os investimentos em Betim fazem parte dos novos investimentos anunciados para a América Latina de R$ 14 bilhões no período 2018-2023. Eles estão direcionados também ao Polo automotivo Jeep, em Goiana (PE), inaugurada em 2015 utilizando conceitos da indústria 4.0 e, por isso, é considerada a fábrica mais moderna da FCA no mundo (FCA, 2018).

A nova realidade da indústria automotiva nacional - que visa tornar a produção mais inteligente, eficiente e adequada às exigências do mercado - vai exigir profissionais que se adaptem as evoluções que a indústria 4.0 traz para os processos e produtos. De acordo com o estudo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SENAI (2018) nos próximos cinco anos a relevância de profissões já existentes como eletromecânico de automóveis e mecânico de manutenção automotiva será ainda maior, mas terão de dominar novos conhecimentos e habilidades, entre as quais programação, aplicativos de software e matemática voltada à metrologia. Por outro lado, espera-se o surgimento de quatro novas profissões: mecânico de veículos híbridos, mecânico especialista em telemetria, programador de unidades de controles eletrônicos e técnico em informática veicular. Estima-se que, nos próximos dez anos, esses profissionais sejam demandados por 31% a 50% das empresas automotivas (ver QUADRO 6).

Quadro 6 – Novas profissões demandas pela Indústria 4.0 à Indústria automotiva brasileira.

Fonte: Elaboração do autor, 2018 com base em SENAI, 2018.

Nessa sequência, novas adaptações serão exigidas do setor de autopeças, isso porque o desenvolvimento dos fornecedores na direção da indústria 4.0 se torna crucial para a competitividade de toda a indústria automotiva.