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Indicadores que introduzem o discurso

PARTE I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Capítulo 3. Recursos relacionados à conversação

3.1. Estratégias discursivas

3.1.1. Diálogo (em sentido restrito)

3.1.1.1. Indicadores que introduzem o discurso

Os introdutores do discurso, segundo Maingueneau (2002, p. 143) apresentam duas funções: indicam ao leitor o ato de fala reproduzido e servem para delimitar a fronteira entre o discurso direto e o texto da narrativa, em discurso indireto.

O discurso direto apresenta-se na sua forma escrita com indicadores claros, que o identificam. Nesse caso, são indicadores dessa delimitação os sinais tipográficos, tais como dois pontos, travessão, aspas e itálico. Quanto à primeira função, são os verbos de elocução (verbos dicendi e sentiendi) que indicam a reprodução de um ato de fala. A escolha do verbo introdutor é significativa, porque condiciona a interpretação, dando um direcionamento ao discurso citado.

Os verbos dicendi e sentiendi (vide abaixo), que são verbos de elocução (disse,

respondeu, perguntou, falou), indicam a pessoa que fala. Esses verbos, geralmente, são

seguidos pelo sinal gráfico representado por dois pontos se precederem a frase reproduzida; eles podem aparecer no início da frase, seguido de vírgula, ou no meio da frase, entre vírgulas.

Tais verbos também têm a função de permitir que se acrescentem orações adverbiais ou expressões de valor adverbial para indicar uma reação física ou psíquica do personagem, conforme o exemplo a seguir15:

Virei a barba, concordei com ele:

- O amigo Fontainha tem razão. Estou precisando de uma vadia. (CL, p. 256)

Ao lado dos verbos dicendi, é citada por Garcia (1973) uma classe de verbos de elocução que, por analogia, podem ser chamados de sentiendi: gemer, suspirar, lamentar (-

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se), e outros, que expressam estado de espírito, reação psicológica da personagem, emoções. Segundo o autor, eles “constituem uma espécie de vicários do dicendi, com função predominantemente caracterizadora de atitudes, de gestos ou qualquer manifestação de conteúdo psíquico”. Quando não admitem transitividade, esses verbos, em geral, vêm antepostos à fala:

(...)..- o bom Silvério encavacou: - Ah! V. Exas. riem? . 16

Garcia (op. cit., p.109) acredita que, do ponto de vista sintático, esses verbos

sentiendi presumem a existência de um verbo dicendi oculto. Para ilustrar essa idéia, ele

afirma que na frase: “o bom Silvério encavacou: “pressupõe-se o verbo dizer; assim a frase deveria ser: o bom Silvério encavacou dizendo, ou explode dizendo. Atente-se que o verbo

dicendi, nesse exemplo, está subentendido; portanto, deve-se entender: encavacou, dizendo. Os casos de omissão do verbo dicendi, aparecem, principalmente nas falas curtas

em que o diálogo se dá entre dois interlocutores, indicando-se o turno de cada falante, somente com o uso de um travessão. Há casos em que esses verbos aparecem apenas nos primeiros parágrafos, pois a inclusão constante de verbos dicendi, tais como, perguntou,

falou, respondeu, tornaria o texto monótono e repetitivo, além de ser desnecessária para

que o leitor identifique os interlocutores e entenda a conversação. Nas falas longas, os verbos de elocução aparecem, muitas vezes, quando o narrador deseja sublinhar o estado emotivo do personagem, ou para auxiliar a identificação do interlocutor.

Para Garcia os verbos dicendi têm a função de indicar o falante . Para ele:

(Esses verbos) pertencem, grosso modo, a oito áreas semânticas, cada uma das quais inclui vários de sentido geral e muitos de sentido específico:

de dizer (afirmar, declarar);

de perguntar (indagar, interrogar); de responder (retrucar, replicar); de contestar (negar, objetar); de exclamar (gritar, bradar);

de pedir (solicitar, rogar) de exortar: (animar, aconselhar); de ordenar (mandar, determinar).

(Garcia, op. cit, p.111)

Os verbos introdutores podem vir antes do discurso direto, em oração intercalada no interior do discurso citado, ou podem ser colocados no final da oração. Esse autor observa que o verbo dicendi, até o Realismo, era colocado preferivelmente após, ou intercalado, à fala do personagem. Eça de Queirós foi um dos precursores do uso da técnica de se colocar o verbo dicendi/sentiendi antes do discurso direto, principalmente em A

cidade e as serras. A maior parte dos escritores modernos e contemporâneos prefere

antepor o verbo dicendi/sentiendi nos diálogos direto (op. cit, p. 122).

Para tornar os diálogos mais expressivos, podem ser utilizados verbos que não contêm a idéia de elocução (conforme Martins cujas idéias resenhamos, na seqüência) o que não é admissível do ponto de vista sintático. No entanto, como a língua, principalmente a falada, não é necessariamente lógica, por sua espontaneidade e por sua expressividade, tal fato é possível. A importância da expressividade desses verbos elocutivos e de sua correta utilização pelo narrador, é ressaltada por Garcia:

O narrador hábil que seja observador e analista da alma humana, saberá tirar proveito dessas oportunidades que lhe oferecem os verbos dicendi e

sentiendi, juntando-lhes orações ou expressões breves e concisas com que vai

pouco a pouco retratando o caráter de suas personagens. (op. cit, p.114)

Para Martins (1997, p. 199-203) esses verbos de elocução estabelecem um elo entre enunciados de diferentes enunciações e apresentam riqueza de matizes que proporcionam alto valor estilístico. Diversos são os casos em que eles se apresentam:

− verbos de elocução propriamente ditos, são os que “têm a função nuclear de “dizer “ e são empregados sempre como elocutivos. Exemplos: dizer, falar,

− verbos que, pela polissemia, são elocutivos de acordo com seu emprego. Exemplos: insistir, tornar, continuar, interromper etc. Observemos as frases formuladas por Martins à guisa de exemplificação:

(1) O caixeiro insistia com o freguês: “Esta é a melhor mercadoria da praça”. (2) O cientista insistia em sua pesquisa.

Fica claro que, no exemplo 1, o verbo “ insistia” é elocutivo. Além de indicar um ato de elocução, ele é seguido pelos sinais de pontuação (dois pontos e aspas) que indicam a introdução do discurso direto: “Esta é a melhor mercadoria da praça”.

− verbos que indicam reações afetivas e que, em muitos casos “absorvem um dizer elítico: soluçar, gemer, zombar, alegrar-se, aborrecer-se, rir, agredir,

esbravejar etc.” Exemplo: O pai esbravejava: “Este rapaz não cria juízo”.

− verbos empregados metaforicamente como verbos de elocução: trovejar,

desembestar,explodir, papagaiar etc. Exemplo: - Isto é impossível! – trovejava

o patrão.

− verbos ouvir e escutar (como elipse de dizer). Exemplo: Ouviu que estava sendo procurado pela polícia.

− verbos que exprimem um processo mental que se associa ao de falar, pensar,

refletir, concluir, lembrar, filosofar etc. Exemplo: O otimista concluiu que nem

tudo estava perdido.

Todos os verbos podem aparecer no DD, porém, no DI, apenas os verbos elocutivos propriamente ditos, ouvir e os de processo mental, podem ser empregados.

Os verbos de elocução também podem exprimir particularidades da enunciação e do enunciado, de inúmeras maneiras. Entre os diversos exemplos apontados, destacamos o do verbo mentir que indica que o locutor A considera falso o que o locutor B considera como verdadeiro.

Além dos verbos simples, formados por um só vocábulo, locuções metafóricas, expressivas, podem ser utilizadas pelos falantes: deitar falação, deitar ciência, soltar a

língua, lançar confete etc. Martins lembra, ainda que existem escritores que variam muito

pouco os verbos de elocução, ao passo que outros, entre os quais podemos incluir José Cândido de Carvalho, procuram empregar uma variedade grande de verbos elocutivos, ajustando-os às circunstâncias da enunciação e do contexto que a envolve.

Maingueneau (2002, p. 143) não adota a mesma nomenclatura de Martins e Garcia , ou seja, não fala em verbo de elocução. Ele caracteriza esses verbos introdutores como: “aqueles cujo significado indica que há enunciação”. Muitos deles “não designam realmente um ato de fala” (p.144) como, por exemplo: acusar, esbravejar, condenar,

espantar-se, indignar-se, perder o sangue frio, extrapolar, enfurecer-se. Esses últimos

verbos convertem-se em introdutores do discurso direto apenas por acompanhá-los. Maingueneau menciona, ainda, que os grupos preposicionais (segundo X, para X,

conforme X) são introdutores do discurso direto que assinalam uma mudança de ponto de

vista.

Existem também diálogos em que há ausência de introdutor explícito. O exemplo dado pelo estudioso (op. cit. 145), que reproduzimos a seguir, ilustra uma situação em que os verbos introdutores do discurso relatado podem estar ausentes e o discurso direto é indicado apenas por aspas e itálico. Segundo Maingueneau, trata-se da reportagem “Pleudihen, a volta ao lar”, dedicada a Christophe Auguin, vencedor da corrida de Vendée Globe, 1997:

Faz agora cinco anos que Christophe e Véronique se instalaram nesta parte da Bretanha. “Estávamos cansados de Paris! Queríamos morar no

campo, mas perto do mar, sem ficar distanciados, em tempo de percurso, da capital”.

O autor justifica essa redação do DD com o argumento de que se trata de um conjunto de artigos que relata a vida de Véronique e que, como se trata de uma fala da própria narradora, não há necessidade de se indicar a fonte da fala a cada vez. Os sinais gráficos utilizados são suficientes para que se identifique naturalmente a emissora do discurso direto.

Garcia (op. cit., p.114) aborda um outro caso em que se omite o verbo dicendi. Isso acontece nas falas curtas entre dois interlocutores quando o narrador tem um motivo que justifique a omissão, tal como, evitar a repetição desnecessária do verbo, tornando o texto mais breve. O travessão que abre o parágrafo é suficiente para orientar o leitor. Para melhor compreensão, reproduzimos o exemplo de José de Alencar, citado pelo autor:

- Quantos são? Perguntou o homem que chegara. - Vinte ao todo. - Restam-nos... - Dezenove. - Bem. A senha? - Prata. - E o fogo? - Pronto. - Aonde?

- Nos quatro cantos. - Quantos sobram? - Dois apenas.

(O Guarani, p. 180)

A omissão dos verbos introdutores se justifica não apenas pela brevidade das falas, mas também, pelo desejo de o narrador transmitir a tensão dos personagens que trocam palavras rápidas, sob a tensão da batalha que ocorre no momento em que o diálogo ocorre.