Assim, em relação as experiências dos jovens participantes do programa de aprendizagem profissional da Lefan, no grupo reflexivo realizado no dia 04 de outubro de 2018, ao serem questionados sobre o ambiente de trabalho e sua adaptação, diferentes respostas foram emitidas. Sofia e Franciele referiram o desejo em seguir trabalhando na empresa após o curso. Relataram que a empresa possui histórico de contratar alguns aprendizes, e deste modo alimentavam essa esperança. Tal efetivação se deu no formato de estágio pois, em entrevista aos egressos do curso, Sofia relatou que segue vinculada à empresa e que Franciele também segue na mesma empresa.
Tiago referiu que estava gostado do ambiente de trabalho, o qual atuava em um laboratório de qualidade, na mesma empresa que Carolina e Bruna. Como Tiago se mostrava bastante tímido as colegas referiram que o mesmo era muito empenhado em suas atividades de trabalho e com frequência ganhava elogios públicos de seu superior, o qual incentiva seu crescimento laboral.
Carolina refere muita descontração no ambiente de trabalho, comenta que com frequência ela e os colegas compartilham histórias engraçadas e que ela passa grande parte do tempo rindo. Pontua ainda que consegue dar conta de qualquer tarefa que lhe seja repassada, mostrando-se orgulhosa de sua competência. Elogia a empresa, e mostra-se bem vinculada ao ambiente de trabalho.
Artur referiu que o ambiente de trabalho era agradável, havia momentos de integração entre a equipe e momentos de seriedade, descrevendo que eram muito cobrados para atingir metas, pontualidade e uso do uniforme, deste modo a concentração ao trabalho é o que predominava no ambiente. Referiu ainda que para ele era fácil manter esse padrão, mas que as vezes a cobrança por metas lhe gerava ansiedade para manter o mesmo ritmo que os demais colegas.
Bruna trabalhava na mesma empresa que Carolina e Tiago, porém em setor diferente. Referiu que recebeu uma advertência devido às brincadeiras no ambiente de trabalho, sendo criticada ainda por usar um banco em uma atividade que deveria realizar em pé, e por conversar muito com um colega de trabalho. Descreveu o descontentamento com tais críticas, pois as mesmas foram apresentadas pela empresa à coordenadora do curso de aprendizagem profissional, fazendo com que ela fosse chamada para uma conversa sobre tal situação. Descreveu que não havia sido informado que não poderia fazer o trabalho sentada e por isso usou o banco. Sobre as brincadeiras com colega Carolina, ela verbalizou que as duas quando estão juntas “se passam18” nas risadas e brincadeiras, mas enfatizou que ambas eram competentes em suas atividades. Bruna, na entrevista individual após a conclusão da aprendizagem profissional na Lefan, referiu não ter sido efetivada na empresa onde executava a experiência laboral, assim como Carolina e Tiago, os quais também não foram efetivados, questionada sobre como encarou essa não efetivação, referiu: “Olha, pra mim foi normal, porque eu também não gostei muito do local e também não me adaptei no que eu exercia na empresa”.
É fundamental a compreensão de que a atuação profissional desde a teoria até a prática profissional em si, repercutem diretamente nas percepções de vida desse sujeito, 18 Expressão que indica um comportamento desproporcionalmente intenso a situação ou ambiente em que
influenciando desse modo tanto em questões de saúde/doença, quanto na satisfação/insatisfação laboral e pessoal, tais aspectos são determinados pela relação que o jovem terá com o ambiente de trabalho e como ressignificará suas experiências.
Em relação ao impacto da atuação profissional sobre a vida dos jovens, Sofia demostrou sofrimento psíquico pois descreveu estar sobrecarregada com as atividades no trabalho, admitiu que ela não sabia dizer não e acabava assumindo tarefas sem ter a necessidade, mas que gostava de mostrar-se comprometida e eficiente. Comentou que passava o tempo todo pensando em trabalho, quando estava na escola ou em casa ficava organizando o que deveria fazer no próximo dia de trabalho, e isso estava elevado sua ansiedade e atrapalhado mais ainda em seu desempenho escolar. Proferiu ainda que não sabia se queria continuar na empresa, na qual já havia recebido convite para efetivação após o curso, pois desejava cursar direito na faculdade, o que não se relacionava com as atividades que desempenhava na empresa. Porém, mesmo com essa dúvida, referiu que desejava manter sua produtividade e competência pois temia ser dispensada.
Neste encontro, foi necessário dispensar maior atenção a Sofia pois a jovem mobilizou-se ao falar sobre o assunto e chorou ao longo do relato, sendo acolhida pelo grupo e feita uma reflexão específica sobre esta demanda, pensando em estratégias, para auxiliar a jovem a ressignificar sua situação, inclusive orientando-a a buscar o atendimento psicológico da instituição. No caso de Sofia, ficou nítida a pressão pela qual estava passando, referindo ainda seu desempenho escolar prejudicado por priorizar o trabalho em detrimento dos estudos. Em relação ao vínculo que vai se formando entre os membros de um grupo, Kaplan e Sadock (1996) descrevem que a capacidade de utilizar outras pessoas como agentes terapêuticos é fundamental para uma correta coordenação grupal, permitindo assim um encontro grupal bem sucedido. Coronel (1997) refere que as intervenções do coordenador devem visar o grupo e nunca apenas os indivíduos. Ainda quanto ao foco de atenção que deve ser dado por parte do coordenador, o autor cita a diagnose situacional, a qual objetiva a criação de uma hipótese diagnóstica para avaliar quais problemas que impedem o grupo de concretizarem suas tarefas.
Assim, compreende-se que o momento proposto para os jovens, enquanto grupo de reflexão foi voltado para o coletivo, visando compreender a dinâmica das relações que se estabeleciam entre os jovens e entre os jovens e as instituições, como a própria Lefan, as empresas em que estavam exercendo a atividade laboral, e demais situações que perpassavam suas trajetórias de vida. Tal momento coletivo possibilitava a troca de experiências e favorecia que jovens mais retraídos se motivassem para partilhar suas vivências encorajados pela fala dos colegas.
Ocorre que frente a inserção laboral, a qual representa uma situação nova e altamente complexa para os jovens, em alguns casos existe a necessidade de uma atenção individualizada para atender demandas que exigem sigilo, ou que os jovens não se sintam confortáveis para expor no grande grupo. Destaca-se que o não atendimento a tais demandas poderá comprometer a experiência laboral, podendo desencadear sofrimento psíquico a não dar a devida atenção a tais situações, e desse modo, para além de se tornar uma experiência pouco efetiva do ponto de vista da inserção laboral, acaba por se tornar mais um fator de exclusão, ao passo em que experiências negativas podem prejudicar a adaptação do jovem e desse modo minimizar a possibilidade de efetivação, vinculação e adaptação em outras experiências, além de comprometer a saúde psíquica dos jovens, podendo inclusive ser fator desencadeador de somatizações.
Desta forma, é fundamental a compreensão de que a escolha profissional interfere diretamente no estilo de vida do jovem, perpassando por sua possibilidade de satisfação laboral bem como pessoal, podendo ser fator indicativo de saúde e desenvolvimento ou de adoecimento variando em decorrência da relação que este jovem terá com o trabalho (BARRETO, 2000). Assim, compreende-se que a adolescência proporciona ao sujeito desafios, escolhas, descobertas, ansiedades e medos, culminando na reestruturação psíquica desse indivíduo, bem como na mudança de seu papel na sociedade (ERIKSON, 1987).
Essa falta de uma atenção individualizada foi apontada ao longo das entrevistas individuais realizadas com os alunos egressos. Assim, a jovem Carolina apontou para a falta de um acompanhamento ao longo do curso, pensando não só em direcionar para o trabalho, mas na adaptação dos jovens a essa primeira experiência. Descreveu que as atividades de orientação ocorriam no coletivo e sempre eram tratadas como uma conversa sobre o que eles deveriam ou não fazer no local de trabalho, visando ajustar seus comportamentos aos locais e mesmo com a abertura para dúvidas ou comentários diversos, os jovens não se sentiam confortáveis para expor no grande grupo algumas situações envolvendo as questões de trabalho, ou mesmo outras situações pessoais como dificuldades familiares, escolares, entre outras, que também afetam a experiência laboral. Sobre a possibilidade de atendimento individual a jovem referiu:
Tinha a psicóloga, mas ela só chamava uns, outros não, ela chamou alguns para conversar, mas por exemplo, alguns nem queriam, iam lá e nem sabiam o que dizer e reclamavam de ter que ir, e outros queriam ir e não eram chamados. Não sei como que faziam essa escolha de quem ia ser atendido ou não, mas eu acho que se é para um, tem que ser para todos.
Essa questão do atendimento psicológico disponibilizado pela instituição, porém sem atender a toda a demanda dos jovens foi pontuada também pela jovem Sofia, a qual em
entrevista aos egressos do curso de aprendizagem ressaltou que sentiu falta do lado humano, para além das palestras com os freis e os encontros coletivos com o grupo, ponderando que a instituição necessita entender que os jovens têm outras questões, e que precisavam de uma atenção mais individual, porém a atenção individual restringiu-se para alguns casos, descrevendo que gostaria, mas não foi chamada, para atendimento psicológico. Quando questionada do porque não buscou o atendimento tendo em vista que sentia a necessidade na época, inclusive tendo chorado ao longo de um dos encontros do grupo de reflexão, sendo acolhida pelo grupo e orientada a buscar o atendimento psicológico, a jovem respondeu:
Eles tinham avisado que a psicóloga não ia atender todos, então achei melhor deixar ela para quem precisasse mais, porque eu não queria ver ninguém mal, mas vi que ela ajudou alguns que foram.
As dificuldades ao longo do curso foram apontadas por Bruna, a qual em entrevista individual após o curso mencionou que não buscou auxílio individualizado pois considerou que suas dificuldades eram culpa de sua falta de atenção pois relatou que ao longo do curso namorou com um colega também aprendiz e que no período em que estavam juntos ambos não se interessavam tanto pelo curso, porém o jovem foi desligado por infrequência devido a faltas frequentes tanto na escola quanto no curso.
Quando questionados sobre a maior parte dos alunos não desejar seguir na área de atuação aprendida ao longo do curso, no caso vendas, Milena faz a seguinte colocação:
Sei lá, acho que a gente entra não querendo muita coisa no curso, e ao longo do curso começa a pensar melhor, a gente conhece outras opções e no fim não quer ser só vendedora, a gente quer buscar mais.
Quadro 8: Comparativo entre jovens que desejam e não desejam a efetivação. Jovens Percentual
Amostragem 18 -
Gostariam de Ser Efetivados 8 44%
Não Gostariam de Ser Efetivados 8 44%
Indiferente 2 11%
Fonte: Relato dos jovens
Deste modo, a aprendizagem profissional não deve tornar-se meramente uma inserção laboral precarizada, pautada pelo trabalho simplificado, mecanizado e temporário, e sim representar uma real qualificação na vida do aprendiz, favorecendo ainda o crescimento da empresa e o desenvolvimento econômico do país.
6.6 O OLHAR DOS JOVENS APRENDIZES SOBRE SUAS MUDANÇAS AO LONGO DO