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Objetivo 3 Contribuir para uma melhor qualidade de vida por via da preservação e da

1. Minimizar conflitos entre

4.3 Conceito de valor económico

4.3.2 Medidas de valor: as medidas de bem-estar

A questão que se coloca é: como atribuir um valor monetário aos benefícios (ou aos custos) associados a uma floresta? De outro modo, como avaliar monetariamente as alterações (positivas ou negativas) que se poderão verificar nas florestas e que poderão afetar a sua qualidade e/ou a sua disponibilidade?

Como já foi referido, a avaliação económica dos recursos naturais e ambientais baseia-se na economia neoclássica, e na sua teoria do valor assente no comportamento do consumidor (ou da procura). Um dos pressupostos é que os indivíduos comportam-se de modo a maximizar o seu bem-estar, escolhendo a combinação de bens e serviços que lhes permite obter o máximo de utilidade, dada a disponibilidade de rendimento e o preço de mercado dos bens/serviços. Considerando que os recursos naturais e ambientais, e os respetivos bens/serviços, afetam o bem-estar ou a utilidade dos indivíduos pressupõe-se que estes irão reagir a alterações na qualidade/quantidade daqueles recursos, bens e serviços. Segundo um outro pressuposto da economia neoclássica, é possível mensurar a utilidade de cada indivíduo, nomeadamente através da sua disposição para pagar pelos bens/serviços. Contudo, é importante registar que não há uma medida absoluta de valor, apenas existem equivalências resultantes das referidas alterações (nas quantidades/ qualidades dos recursos e bens ambientais) na utilidade dos indivíduos. Está-se perante um conceito marginal de valor.

Como referem Hanley et al. (2001), o valor económico de um bem ambiental decorre de uma alteração na utilidade marginal (correspondente ao acréscimo adicional (marginal) na utilidade (total) quando o consumidor consome mais uma unidade do

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bem). Mais, o valor é variável uma vez que a utilidade marginal do bem irá ser diferente entre consumidores, mas também porque para cada indivíduo, os acréscimos na sua satisfação/utilidade vão diminuindo à medida que o consumidor vai consumindo unidades adicionais do bem ou serviço (utilidade marginal decrescente).

São três as medidas utilizadas para mensurar as alterações na utilidade dos indivíduos: o excedente do consumidor marshaliano (EC) e as variações hicksianas, a compensatória e a equivalente. O EC é a medida marshaliana que corresponde ao valor máximo que o consumidor está disposto a pagar por um bem ou serviço além daquele que ele efetivamente paga. De outro modo, o EC mede a diferença entre o valor máximo que o consumidor estaria disposto a pagar para consumir um bem e o valor que paga pelo mesmo. A referência ao excedente do consumidor, corresponde normalmente à soma dos excedentes de todos os consumidores.

Partindo da curva da procura Marshaliana do bem x, que relaciona as intenções da procura de um bem com os preços (p) desse bem, mantendo o rendimento constante (Ῡ) e, em que os níveis de utilidade variam com as quantidades consumidas, o EC corresponde à área sombreada (Figura 4.4).

Figura 4.4: Excedente do Consumidor face a uma alteração no preço

Fonte: Hanley and Barbier (2009)

Partindo de uma situação de equilíbrio de mercado com um bem x de preço p1 a ser

procurado na quantidade q1; se o preço baixar de p1 para p0 (mantendo-se o

rendimento constante) esta alteração melhorará a situação dos consumidores, fazendo aumentar o consumo de x para q0. Portanto, mantendo-se numa situação de equilíbrio

Preço p1 p0 q1 q0 Quantidade EC x =x(p,Ῡ) A B

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o consumidor move-se do ponto A para B, face à alteração de preços e à constância do rendimento. Como o EC marshaliano associado ao consumo do bem x a um dado preço situa-se abaixo da curva da procura e acima da linha do preço, a alteração no excedente por uma alteração no preço corresponde ao trapézio p1ABp0. Em termos

matemáticos, traduz-se pelo integral (Freeman III, 2003; Mendes, 1996):

Ῡ , em que S é a alteração no excedente do consumidor.

O conceito de excedente do consumidor como medida dos benefícios resultantes de alterações no preço ou na quantidade revelou, contudo, alguns problemas, principalmente associados ao facto da curva da procura marshaliana não assentar na constância do nível de utilidade ou satisfação mas antes num nível constante de rendimento. Faucheux and Noël (1995: 266) referem que, quando se trata da procura por bens e serviços ambientais, “que não possuem nem mercado nem preço e para os quais o consumidor eventual é mais confrontado com uma barreira de quantidade do que com uma barreira de preço”, a reação da procura a oscilações no rendimento poderá ser significativa. Como tal, a “influência de eventuais efeitos de rendimento pode então fazer-se sentir e fazer com que o excedente do consumidor marshaliano deixe de ser uma medida adequada do bem-estar do consumidor”.

Neste contexto, e a partir da medida do excedente do consumidor, Hicks desenvolve as medidas monetárias de bem-estar mais utilizadas – a variação compensatória e a variação equivalente – possibilitando a medição de ganhos e perdas mantendo a utilidade constante, respetivamente, num nível inicial (situação status quo) ou num nível alternativo de mudança (Mitchell and Carson, 2005). As medidas Hicksianas assentam no seguinte pressuposto: a alternativa observável para medir as intensidades das preferências de um indivíduo, quando confrontado com duas situações de escolha, é a quantia de dinheiro que está disposto para pagar ou para aceitar face à escolha de uma situação em detrimento de outra. Obtém-se, assim, as duas medidas de valor Hicksianas (Haab and Connel, 2002): a disposição para pagar (DPP) correspondente ao valor máximo que um indivíduo pagará em troca de uma melhoria na situação atual ou a quantia máxima que pagará para evitar um declínio na situação atual; e, a disposição para aceitar (DPA) relativa ao valor mínimo que

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uma pessoa aceitará por um decréscimo na situação atual ou o valor mínimo que aceitará para prescindir de uma melhoria na situação atual.

Assim, a variação compensatória é o montante de rendimento pago ou recebido que deixa o indivíduo no nível inicial de bem-estar e a variação equivalente é o montante de rendimento pago ou recebido que deixa o indivíduo no nível final de bem-estar (Tabela 4.1).

Tabela 4.1: Medidas de Bem-Estar Hicksianas

Fonte: Baseado Haab and McConnell (2002)

A DPP e a DPA relacionam-se com o direito a um nível de utilidade. As medidas Hicksianas referem-se a variações de preços de mercado, algo que não acontece com os bens e serviços ambientais que, na sua maioria, não têm mercado porque são bens públicos ou quasi-públicos. Foi, portanto, necessário adaptá-las às variações de quantidade e de qualidade associadas aos bens/serviços ambientais. Esta adaptação deve-se a Mäler (cf. Mendes, 2006) que definiu a existência de quatro medidas monetárias para a variação dos benefícios provocada pela variação, em quantidade e/ou qualidade, dos bens/serviços ambientais: precisamente as DPP e DPA equivalentes e compensatórias.

Exemplificando (Mendes, 2006; Mendes, 1996), considere-se uma mata pública cuja quantidade ou qualidade do recreio florestal (assuma-se o recreio florestal como o serviço z) depende das políticas de gestão florestal locais. Considere-se, pois, uma política de gestão da mata que privilegia o recreio, e que conduz a uma alteração de z0 (situação inicial) para z1 (situação final), com z1>z0. O aumento ou as melhorias de z propiciam um aumento potencial na utilidade dos indivíduos. Neste caso:

- a medida compensatória do ganho de bem-estar (DPPc) respeita à disposição para pagar dos indivíduos para assegurar as melhorias (ou o aumento) de recreio.

Variação compensatória Variação equivalente

Aumento da

Utilidade DPP

c

para obter melhoria DPA

e para renunciar à melhoria

Decréscimo da

Utilidade DPA

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- a medida equivalente corresponde à DPA equivalente (DPAe) e respeita ao montante que o indivíduo (ou potencial ganhador) estaria disposto para aceitar como compensação de não usufruir da melhoria.

Por sua vez, perante uma política de gestão da mata que irá diminuir a quantidade/qualidade de z, a qual passa de z0 (situação inicial) para z1 (situação final), com z0>z1, o que pressupõe uma diminuição no bem-estar do indivíduo (reduzindo a sua utilidade), ele poderá reagir do seguinte modo:

- está disposto para pagar para evitar que essa situação de diminuição do recreio ocorra (assegurando o seu bem-estar no estado final), isto é, a DPP equivalente (DPPe); ou,

- está disposto para aceitar um montante que o compense pelos efeitos negativos sofridos, isto é, a DPA compensatória (DPAc); de outro modo, trata-se da compensação que manteria o indivíduo no seu nível inicial de utilidade.

A questão que se coloca ao nível das medidas de bem-estar hicksianas – DPP e DPA (equivalentes e compensatórias) – é que não são observáveis, mas podem ser estimadas. Estas medidas de valor referem-se às variações de rendimento do consumidor que são necessárias para manter a utilidade do consumidor num nível constante. Para a Variação Compensatória (VC) a utilidade mantém-se constante no nível inicial (antes da alteração) e para a Variação Equivalente (VE) no nível final (após a alteração). Acontece, porém que a utilidade do consumidor não é conhecida, o que faz com que a procura hicksiana não seja observável. Em certos casos, utiliza- se o EC marshaliano, uma vez que, teoricamente, pode ser definido, em termos geométricos, como uma área delimitada pela procura, como no gráfico anterior (Figura 4.4). Por outro lado, e apesar de não se conhecerem as utilidades dos consumidores, conhecem-se os gastos mínimos para comprarem determinados bens que lhes permite atingir a utilidade permitida. Neste contexto, e considerando o problema primal do consumidor prova-se facilmente, do ponto de vista teórico, que as medidas DPP/DPA podem ser determinadas a partir da variação dos valores das funções dos gastos mínimos, associados aos diferentes níveis de utilidade.

Poder-se-á perguntar se incorremos num risco muito elevado de errar se usarmos a medida do EC por uma alteração de bem-estar dos consumidores? De acordo com

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Willig (1976), teoricamente pode-se provar que, sob determinadas circunstâncias, o EC marshaliano é uma boa proxi das medidas hicksianas. Willig (1976) apresenta limites para o erro resultante da utilização do EC e mostra que em muitos casos esse erro é muito pequeno. A dimensão do erro depende do rendimento que cada indivíduo dispõe e gasta num determinado bem e na relação entre o aumento no seu rendimento e a variação na procura do bem (elasticidade procura-rendimento). Mendes (1996: 40) refere inclusivamente que “se não existir efeito rendimento, ou se existir, e for considerado negligenciável, o EC é igual à VC e à VE e, por isso, pode ser interpretado como a disposição para pagar”. Apesar disso, a “VC e a VE não são, em geral, do mesmo montante, porque a utilidade marginal do rendimento varia com o nível dos preços, e estas medidas são estimadas com base em preços de referência diferentes” (Ibidem). Acrescenta ainda que se a elasticidade procura-rendimento em relação a um determinado bem for diferente de zero, então VC<EC<VE.

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