Parte I – Inovação, Conhecimento e Redes
CONDIÇÕES GENÉTICAS DO DISTRITO INDUSTRIAL
2.2.3. Meios Inovadores e Aprendizagem Colectiva
Adoptando uma perspectiva crítica a alguns aspectos da abordagem dos distritos industriais, procurando estender conceptualmente a natureza das interacções e dos factores de desempenho económico das organizações, nos anos 80 do século XX, um grupo de investigadores liderados por Phillipe Aydalot (GREMI, 1984) decidiu conceder especial atenção à seguinte hipótese: “existe alguma “coisa” localizada no
espaço regional que permite compreender que umas regiões sejam mais dinâmicas do que outras” (Crevoisier, 2004: 368). O programa de investigação inicial do GREMI
procurou articular sensibilidades de várias escolas e abordagens: a escola dos distritos industriais, a escola californiana da nova geografia industrial, a abordagem regulacionista francesa e perspectivas da economia industrial e evolucionista (Ratti e Bramanti, 1997). Segundo Camagni (1995: 319), as principais componentes dos meios inovadores incluíam “processos Smithianos de divisão do trabalho entre unidades de
produção; processos Arrowianos de learning-by-doing e by-using (…); externalidades à la Marshall ou à la Allyn Young (…); empreendedorismo Schumpeteriano (…); e processos de fertilização cruzada à la Chris Freeman, gerando sistemas de inovações incrementais e integrados”. As principais conclusões dos trabalhos realizados pelo
GREMI (ver Ratti et al., 1997 para uma sistematização dos trabalhos do GREMI), apontavam no sentido de as interacções sociais, as sinergias interpessoais e as acções colectivas entre os agentes – aquilo a que se designou por “proximidade relacional” – serem os principais factores que contribuíam para a elevada capacidade de inovação das pequenas empresas, espacialmente concentradas, e dos espaços onde elas se encontravam localizadas. Esta perspectiva de análise trouxe assim “o território como
elemento gerador de eficiência dinâmica à problemática do desenvolvimento territorial” (Capello, 2007: 196), na medida em que as características intrínsecas ao
“meio” permitem “reduzir substancialmente um dos principais problemas que as
empresas enfrentam nos processos de produção de inovação – níveis elevados de incerteza e de riscos associados” (Simmie, 2005: 793). Por outro lado, o meio inovador
desempenha uma segunda função essencial ao processo de inovação, que passa pela difusão dos “processos de aprendizagem e assegurando a transferência de know-how
88
Para esta abordagem, as relações económicas e sociais entre actores locais condicionam a capacidade inovadora e o sucesso económico das empresas e dos meios onde estão inseridos. As empresas “não actuam como agentes isolados, antes são parte integrante
de um “milieu” com capacidade inovadora” (Moulaert e Sekia, 2003: 291). As
sinergias entre os actores são potenciadas pela proximidade espacial e pela homogeneidade económica e cultural e produzem, assim, vantagens dinâmicas para as pequenas empresas, nomeadamente no período de incubação das suas inovações (Simmie, 2005: 793). Estas vantagens dinâmicas encontram-se fortemente ancoradas em processos de aprendizagem colectiva e de socialização do conhecimento, nomeadamente nos processos de aprendizagem cooperativa, que permitem reduzir a incerteza durante as alterações de paradigmas tecnológicos (Simmie, 2005: 793). A teoria dos meios inovadores distingue entre três contextos funcionais para a empresa: o processo de produção, o mercado e o espaço de suporte. É precisamente este espaço de suporte que enquadra e permite à empresa enfrentar situações de incerteza (Moulaert e Sekia, 2003: 291). Por outro lado, as relações económicas e sociais no espaço de suporte – no meio – tomam duas formas diferentes: em primeiro lugar, um conjunto de relações informais, não mercantis – entre consumidores e fornecedores, entre agentes públicos e privados – e um conjunto de conhecimento tácito, que é transferido por via da mobilidade do trabalho e dos processos de imitação inter-empresas. Em segundo lugar, acordos (mais formalizados) de cooperação transterritoriais – entre actores, empresas, instituições públicas – no campo do desenvolvimento tecnológico, acções de formação, provisão de serviços e infra-estruturas comuns. As relações informais e não comerciais são a “cola” que mantém unida o “meio inovador” e são complementadas pelas redes formais de relações. Ambos os conjuntos de relações devem ser vistos como instrumentos, ou “operadores”, que suportam e assistem as acções das pequenas empresas, o seu comportamento inovador, a sua criatividade, reduzindo a incerteza dinâmica intrínseca ao processo de inovação (Capello, 2007: 197).
Os parceiros transterritoriais são escolhidos individualmente e embora a sua localização espacial possa parecer despiciente, a verdade é que uma análise mais cuidada mostra que esses parceiros são geralmente “janelas tecnológicas” para contextos territoriais mais alargados. Conforme afirma Capello (2007: 197), “a ligação a uma empresa
territorial de relações do que propriamente ao know-how específico da empresa, tomada individualmente”.
Um conceito chave da literatura dos meios inovadores é o de capital relacional, que se define como “um conjunto de normas e de valores que governam as relações entre as
pessoas, as instituições onde elas estão inseridas, a rede de relações que se estabelece entre os actores sociais e a coesão de toda a sociedade” Capello (2007: 197). Tem a
mesma função nos meios inovadores que tem a proximidade espacial da teoria dos
spillovers, no sentido em que geram vantagens dinâmicas sob a forma de processos de
socialização e de aprendizagem colectiva, redução do risco inerente à inovação e coordenação ex ante de rotinas e decisões estratégicas tornadas possíveis pela redução dos custos de transacção (Camagni, 2008). Estas funções são desempenhadas pelos departamentos de I&D nas grandes empresas e são facilitados pela diversificação interna e pela complexidade. As pequenas empresas encontram as mesmas funções em territórios altamente especializados. A acumulação de conhecimento nas grandes empresas é assegurado pela presença dos departamentos de I&D e é permanente, uma vez que estas empresas têm tempo de vida bastante alargados que lhes permite desenvolverem as suas próprias culturas e capacidades internas. Em contraste, as pequenas empresas têm ciclos de vida mais curtos o que não lhes permite desenvolver
stocks sólidos de conhecimentos específicos (Capello, 2007: 197).
Outro dos conceitos chave da abordagem dos meios inovadores foi desenvolvido por Camagni (1991), que suportado pelo trabalho realizado pelo GREMI, procura aprofundar uma concepção regional de aprendizagem colectiva. Este grupo desenvolveu este conceito, de modo a identificar a capacidade de um determinado meio inovador gerar ou facilitar comportamentos inovadores das empresas desse território (Keeble et
al., 1999: 320; Moulaert e Sekia, 2003: 291). Camagni (1991: 130) refere que “o ‘milieu’ local pode ser definido como um conjunto de relações territoriais enformando de forma coerente um sistema produtivo, diferentes actores económicos e sociais, uma cultura específica um sistema representativo, e produzindo um dinâmico processo de aprendizagem colectiva”. Um dos argumentos principais de Camagni passa pela ideia
de que a aprendizagem não é apenas a aquisição de informação e o facto da disponibilidade da informação não ser uma questão central na dinâmica económica do meio. É o processo pelo qual a informação disponível se torna em conhecimento útil
90
que é a principal questão. A aprendizagem acontece no meio inovador de forma espontânea e social dentro do mercado de trabalho, através de formas de colaborações estáveis entre clientes e fornecedores. Estas relações caracterizam-se pela lealdade e pela confiança mútua e produzem a transferência de conhecimento codificado e tácito entre consumidores e fornecedores, que despoletam processos de inovação incremental e trajectórias tecnológicas específicas. As relações no mercado de trabalho são igualmente importantes, uma vez que a mobilidade no mercado de trabalho permite a transferência de trabalho altamente qualificado e de conhecimento entre as empresas do meio. Finalmente, os spin-offs empresariais são instrumentos importantes na socialização do conhecimento (Capello, 2007: 197). É através dos processos de aprendizagem que os diversos actores percepcionam as alterações nos diversos contextos que os determinam e lhes permite adaptar os seus comportamentos em consonância com os novos desafios (Moulaert e Sekia, 2003: 291).
Segundo Lawson e Lorenz (1999: 309), Camagni argumenta que as empresas dentro do
milleux procuram resolver o problema da incerteza através do desenvolvimento de uma “função de transcodificação”, que transforma a informação externa numa linguagem
que a empresa consegue entender. Também aqui existe o pressuposto da existência de uma linguagem e cultura comum, que permite que essa função de transcodificação possa funcionar. Camagni distingue mecanismos “links-based” (ligações da cadeia de produtores, movimentos de trabalho entre empresas, relações pessoais entre agentes,
spin-offs) e “non-links-based” (imitação, emulação, engenharia reversiva), através dos
quais a cultura e uma linguagem comum emergem.
Um outro aspecto fundamental da argumentação de Camagni passa pelo reconhecimento da natureza social e territorial das ligações entre agentes. Se é verdade que o conhecimento é fundamental para o sucesso competitivo e a existência de ligações entre agentes é um elemento chave desse sucesso, também é verdade que essas ligações não servem apenas para transferir directamente conhecimento. Parta além desse mecanismo, elas são partes constituintes de um contexto social em que os processos de aprendizagem se desenvolvem produzindo novo conhecimento. É por esta razão que os fenómenos associados às redes localizadas inter-empresas, aos spin-offs e à mobilidade do trabalho intra-regional são indicadores de novas possibilidades de aprendizagem e inovação (Lawson e Lorenz, 1999: 309).
Nesta teoria, “a aprendizagem colectiva é a contrapartida territorial para a
aprendizagem que acontece no interior das empresas” (Capello, 2007: 198). Nas
grandes empresas, a informação e o conhecimento é transferido por meio das funções internas da organização (I&D, produção, marketing, departamentos de concepção e estratégia). Nos meios inovadores, e nos sistemas de pequenas empresas locais, esta função é desempenhada pela elevada mobilidade dos indivíduos, pelas intensas interacções entre consumidores e produtores e pelos spin-offs das empresas. Os principais mecanismos de transmissão do conhecimento e da aprendizagem nos meios inovadores são as inter-relações entre produtores e clientes, entre utilizadores e produtores de equipamento, as colaborações formais e informais entre empresas em sectores particulares, a mobilidade de trabalhadores inter-empresas em mercados localizados e os spin-offs de novas empresas a partir de empresas, universidades e laboratórios de investigação existentes. (Keeble e Wilkinson, 1999:298).
Segundo Capello (2007: 198), a teoria complementa estes canais de aprendizagem (empresa e território) com à aprendizagem através das cooperações em rede (“network
cooperation”), conforme se pode observar na figura 2.2.3.1. Através de alianças
estratégicas e acordos de cooperação, as empresas adquirem alguns dos activos estratégicos de que necessitam, evitando assim os custos de os desenvolver internamente. Este processo de aquisição de conhecimento fica a meio caminho entre a aprendizagem interna e a aprendizagem colectiva, no sentido que a empresa estabelece contactos com o exterior mas ainda assim escolhe selectivamente e estrategicamente os seus interlocutores. Este canal de aprendizagem e aquisição de conhecimento é deveras importante para o meio inovador, uma vez que permite ao conhecimento local (muitas vezes potencialmente isolado e correndo o risco de entrar em processos de lock-in) enriquecer-se e inovar-se a si próprio.
A influência exercida pela teoria dos distritos industriais nesta abordagem parece-nos evidente. A abordagem dos meios inovadores reitera não só a importância da proximidade geográfica, mas acima de tudo realça a importância da proximidade cultural e social nas dinâmicas empresariais, garantido formas estáveis e sólidas de cooperação em áreas de pequenas empresas. Na teoria dos distritos industriais estas formas de cooperação dão lugar a um mercado comunitário (“community market”), uma forma de produção que assegura a eficiência estática das empresas. Para a teoria dos
92
meios inovadores, a cooperação gera processos de socialização do conhecimento, que reduzem o risco associado à inovação, e de aprendizagem colectiva, isto é, factores associados à eficiência dinâmica das empresas33 (Capello, 2007:200). Conforme afirma Camagni (1995: 318), a teoria dos meios inovadores é a “contrapartida dinâmica de
conceitos similares desenvolvidos durante os anos 70 no enquadramento da teoria crescimento endógeno (…) como sejam: o conceito de distritos industriais, contexto local, sistemas de produção local”. Factores de “eficiência local, como a proximidade geográfica e organizacional, economias externas que estimulam um tipo de atmosfera industrial são ultrapassados por elementos espaciais mais dinâmicos como as sinergias e a aprendizagem colectiva, que explicam os processos de inovação ao nível espacial”
(Capello, 1999b: 719).
No entanto, contrariamente ao conceito de distrito industrial, o meio inovador “pretende
apreender também as dinâmicas territoriais onde as PME não desempenham um papel determinante e as sinergias que procura identificar já não são baseadas na identidade familiar mas na identidade tecnológica e nas relações socioprofissionais e institucionais que suportam a inovação” (Lopes, 2001: 113). A abordagem dos meios
inovadores pretende ser mais abrangente, tanto do ponto de vista espacial como sectorial, do que a perspectiva conceptual dos distritos industriais. Alguns autores identificam o conceito de meio com a realidade urbano-metropolitana. Este salto quantitativo e qualitativo de um conceito para outro ficou também a dever-se ao reconhecimento do papel de outras empresas, que não apenas as pequenas, para a dinâmica económica dos territórios. Neste sentido, Maillat (1995: 4) salienta que “não é
tanto a dimensão das empresas que importa considerar, mas a existência ao nível territorial de modos originais de organização dos sistemas de produção”. Também
neste sentido, Lopes (2001: 115) refere que “No meio inovador a dimensão das
empresas não é determinante e a capacidade de inovação é aferida pela capacidade dos actores locais reagirem positivamente às alterações do seu enquadramento (…) e se apoie em redes de mercado e tecnologia de âmbito trans-territorial”, uma vez que a
“capacidade de inovação pode também derivar de decisões que são externas à
33
economia local” e, acrescenta, que o conceito de meio inovador “não se refere apenas a áreas industriais” (Camagni, 1995: 318).
Apesar do elevado grau de generalização desta abordagem e das dificuldades em confirmar empiricamente algumas das suas conclusões, acredita-se que a amplitude conceptual dos meios inovadores permite levar ao limite a articulação entre duas lógicas complementares, determinantes dos processos de inovação: a lógica das interacções e a lógica da aprendizagem. Desta forma, expande-se quantitativa e qualitativamente o âmbito e as possibilidades de articulações externas que as empresas podem estimular e promover no seu processo de inovação, construindo e promovendo lógicas de interacção territorial e transterritorial susceptíveis de determinarem os seus desempenhos económicos. Conforme Lopes (2001: 135) refere, “o conceito de meio inovador veio
enfatizar as dinâmicas inovadoras centradas na organização territorial e nas economias externas geradas por essa organização”.
Em síntese, a teoria dos meios inovadores tem na inovação a sua principal preocupação e deve ser vista como “um instrumento analítico de síntese para analisar e
compreender as mudanças económicas actuais” (Crevoisier, 2004: 369). A
aprendizagem colectiva, a proximidade relacional, as relações informais e as redes e a aprendizagem que lhe está inerente, são elementos fundamentais na determinação do potencial e da capacidade do meio responder às pressões competitivas e de permitir que as suas empresas atinjam patamares inovadores de relevo no contexto internacional.
94
Figura 2.2.3.1 – Funções do Meio Inovador
CONDIÇÕES
FUNÇÕES Proximidade Geográfica Proximidade Relacional
Redução da incerteza
Selecção da informação; Integração vertical em fileiras de produção; Sinalização local (marketing colectivo)
Transcodificação da informação; Selecção de rotinas; Risco partilhado entre parceiros
Redução dos custos de coordenação
Colecção informação; Redução de custos (à Willianson); Decisões de coordenação ex ante dia-a-dia (à Marshall)
Redução de custos de controlo (via confiança e lealdade); Sanções sociais sobre comportamentos
oportunísticos; Coordenação estratégica ex ante na tomada de decisões
Substrato durável para
aprendizagem colectiva
Imitação de práticas inovadoras; mobilidade do trabalho dentro no meio
Cooperação em projectos industriais; Transferência de conhecimento tácito; Parcerias público-privadas no
desenvolvimento de projectos complexos
Fonte: Capello, 2007: 198 (retirado de Camagni e Capello, 2002)
Figura 2.2.3.2 – Pré-condições e canais para processos de aprendizagem nos Meios Inovadores
PRÉ-CONDIÇÕES