PARTE I – REVISÃO DOS CONTRATOS
1 EVOLUÇÃO: DA CLÁUSULA REBUS SIC STANTIBUS À TEORIA DA
3.2 O Código Civil de 2002
3.2.1 Análise dos artigos 478, 479 e 480 do CC/2002
3.2.1.5 Mora
Embora não tenha sido exigida pelo Código Civil de 2002681, por ser polêmica e passível de crítica, abordaremos o requisito da ausência de mora, exigido por boa parte das legislações alienígenas, nesta parte do trabalho.
Recentemente, a Segunda Seção do STJ editou a Súmula 380 com a redação apresentada pelo ministro Fernando Gonçalves que diz que: “A simples propositura da ação de revisão de contrato não inibe a caracterização da mora do autor.” Pretende esta posição jurisprudencial que somente se deva considerar que não está em mora o autor que deposita o valor incontroverso. Desta forma, a súmula visa impedir que quem não pretende pagar o que deve, quede procrastinando sua dívida, isento de mora, se valendo da ação revisional para tanto. Com o depósito do montante incontroverso, não há se falar em mora.
No que toca com a matéria ora estudada, a mora impossibilita expressamente, em boa parte das legislações, a aplicação da cláusula rebus sic stantibus. No Brasil, os artigos referentes à resolução por onerosidade excessiva não trazem essa questão, como fez o artigo
679 RODRIGUES JUNIOR, Otávio Luiz. Revisão judicial dos contratos: autonomia da vontade e teoria da imprevisão. São Paulo: Atlas, 2002. p. 156.
680 SANTOS, Regina Beatriz da Silva Papa dos. Cláusula “Rebus sic stantibus” ou Teoria da imprevisão: Revisão contratual. Belém: Cejup, 1989. p. 53-54.
681 Alguns autores defendem sua previsão como por exemplo: CARDOSO, Débora Rezende. O fim negativo do contrato no Código Civil de 2002: resolução por onerosidade excessiva. In MARQUES, Cláudia Lima. A
Nova Crise do Contrato: Estudos sobre a nova teoria contratual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p.
395 e 399 do CC/2002 sobre os casos de impossibilidade objetiva. Ruy Rosado de Aguiar Júnior se vale do princípio da responsabilidade do devedor moroso para sustentar sua responsabilidade pelos riscos supervenientes.682
Contudo, dois pontos devem ser ressaltados: primeiramente deve-se distinguir a mora anterior ao fato superveniente daquela posterior. Presume-se que a mora abordada por quase a totalidade dos autores que tratam do assunto é aquela que ocorre antes do evento onerador, pois não seria razoável impossibilitar que a parte onerada se valha da cláusula rebus sic stantibus por não ter cumprido exatamente a prestação que se tornou subjetivamente impossível.683 A lei portuguesa preferiu deixar cristalino, no artigo 438, que se trata da mora anterior, quando exige que o devedor não esteja em mora quando da alteração.
Esclarecida a questão, fica a dúvida quanto a outro ponto que não está bem claro nas obras da maioria dos juristas e legisladores, já que se referem somente à mora não observando que pode tratar-se da mora causadora da onerosidade excessiva.684 O próprio artigo supramencionado – 395 -, a respeito do caso fortuito e da força maior diz: “Responde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa [...]”, isto é, somente os prejuízos causados pela sua mora. Por outro lado o art. 399685, como já fazia seu correspondente no Código Civil de 1916, o artigo 956, afirma que “O devedor em mora responde pela impossibilidade da prestação [...]”. Fica a dúvida sobre a necessidade de ser a mora causadora do prejuízo para impedir que o devedor possa revisar o contrato.
Mas parece plausível compreender que não basta que a parte prejudicada esteja em mora quando do evento alterador das circunstâncias para que não possa se valer da cláusula rebus sic stantibus, mas sim que, em virtude de sua mora, o evento alterador tenha lhe causado prejuízos. Inclusive parece que é exatamente por isso que a grande maioria dos doutrinadores aborda a mora dentro do requisito da ausência de culpa da parte onerada, pois se referem à mora que se traduz em culpa no que tange à onerosidade exacerbada e não a
682 AGUIAR JUNIOR, Ruy Rosado de. Extinção dos contratos por incumprimento do devedor. Rio de Janeiro: Aide, 2004. p. 157.
683 SANTOS, Regina Beatriz da Silva Papa dos. Cláusula “Rebus sic stantibus” ou Teoria da imprevisão: Revisão contratual. Belém: Cejup, 1989. p. 38.
684 SILVA, Luis Renato Ferreira da. Revisão dos contratos: do Código Civil ao Código de Defesa do Consumidor. Rio de Janeiro: Forense, 2001. p. 144.
685 FRANTZ, Laura Coradini. Bases Dogmáticas para Interpretação dos artigos 317 e 478 do novo Código
Civil Brasileiro. Dissertação de Mestrado (Livre Docência) – Programa de Pós Graduação em Direito,
qualquer mora. Ocorre que é possível apoiar a tese oposta, como faz a grande parte da doutrina, a partir do seguinte raciocínio: a mora obriga o devedor a reparar os danos causados ao credor, ao tempo da alteração a parte onerada estava em mora, portanto deve arcar com os prejuízos. Entretanto, parece defensável que o devedor deva ser responsabilizado somente pelo prejuízo que sua mora causar, e não àquele que a alteração fática causar quando ele estava em mora.
Bem lembra Pontes de Miranda, quando trata do art. 963 do CC/1916, cujo equivalente é o art. 396686 do CC/2002, que não há mora sem culpa. Assim, o ordenamento jurídico privado brasileiro adotou o princípio da imputabilidade ou da causalidade (Veranlassungsprinzip) e não o princípio da culpa (Verschuldensprinzip).687
Demonstrando que o raciocínio inverso pode ser sofismático, transcreve-se um trecho da obra de Antonio de Almeida Santos:
[...] se o devedor que falta culposamente ao cumprimento pontual da obrigação se torna responsável pelo prejuízo que causa ao credor (artigo 798.°) e se a simples mora constitui o devedor na obrigação de reparar os danos causados ao credor (artigo 804.°) sempre haveriam de imputar-se-lhe as consequências das alterações da base do negócio que, sobrevindo à data em que devia ter cumprido, só puderam afectar aquela base, e o credor, em razão do incumprimento culposo em tempo oportuno.688
O mesmo autor, em outro fragmento de seu livro, conclui, com acerto:
[...] se a parte lesada pela alteração anormal da base do negócio se encontrava em mora no momento em que se verificou essa alteração, mas por motivos que lhe não sejam imputáveis, continua a poder invocar o direito de ver resolvido ou modificado o contrato com fundamento na mesma alteração.689
686 “Não havendo fato ou omissão imputável ao devedor, não incorre este em mora.”
687 MIRANDA, Pontes de. Tratado de direito privado. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1984. v. 23. p. 126.
688 SANTOS, Antonio de Almeida. A Teoria da Imprevisão ou da superveniência contratual e o novo código
civil. Lourenço Marques: Minerva Central, 1972., A., Op. cit., p. 88. Obs: Lembrando que o autor se refere
aos artigos do Código Civil português.
689 SANTOS, Antonio de Almeida. A Teoria da Imprevisão ou da superveniência contratual e o novo código