2. A EXECUÇÃO DA SENTENÇA CIVIL
2.3 O CONCEITO DE EXECUÇÃO
Na lição de Enrico Tullio Liebman (1980, p. 2), a atividade desenvolvida pelos órgãos judiciários para dar atuação à sanção recebe o nome de execução, em especial, a execução civil é aquela que tem por finalidade conseguir, por meio do processo e sem o concurso da vontade do obrigado, o resultado prático a que tendia a regra jurídica que não foi obedecida.
“Executar é satisfazer”, afirma Luiz Fux (2001, p. 980). Apesar das reformas, esta pretensão permanece no sistema processual civil brasileiro. Contudo, é necessário refletir se há necessidade de diferenciá- la do “cumprimento de sentença”, dos artigos 475-I a 475-R do CPC, acrescentado pela Lei n. 11.232/2005.
O emprego da expressão “cumprimento” causou uma incompreensão entre os termos, agravada pelo problema de técnica legislativa após a reforma do CPC pela Lei n. 11.232/2005.99
identificadores da obrigação (sujeitos, prestação, liquidez, exigibilidade), pois isso representaria atentado ao direito constitucional à tutela executiva, que é inerente e complemento necessário do direito de ação.”.
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Fredie Didier Jr, Leonardo Carneiro da Cunha, Paula Sarno Braga e Rafael Alexandria de Oliveira (2013, p. 32) explicam que, pela redação do artigo 475-I, a execução da sentença ocorreria apenas nos termos do artigo 475-J e seguintes, destinados basicamente à execução de sentença pecuniária. Defendem que a efetivação das decisões com fundamento nos artigos 461 e 461-A dar-se-ia pelo cumprimento da sentença, que não seria execução. “Curiosamente, as regras sobre o cumprimento da sentença são destinadas à execução pecuniária. Uma mixórdia. É como se o cumprimento das sentenças do artigo 461 e 461-A não fosse, substancialmente, uma atividade executiva.”.
Conforme explica Araken de Assis (2013a, p. 172), o artigo 475- I, caput100, possui sucessivas remissões que não auxiliam a clareza do sistema: indica, tratando-se de obrigação por quantia certa, seguir a “execução”; já o “cumprimento da sentença” é remetido aos artigos 461 e 461-A, dispositivos introduzidos no Capítulo VIII – Da Sentença e da Coisa Julgada – do Título VIII do Livro I, respectivamente, que cuidam do “cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer” e da “entrega de coisa”.
Interpretando o disposto no artigo 475-I do CPC, José Carlos Barbosa Moreira (2006, p. 58-61) considera que se distinguem, sob a designação genérica de “cumprimento”: i) o cumprimento por “execução”, supostamente limitado à hipótese de “obrigação por quantia certa”, e ii) um cumprimento sem denominação própria (dividido em duas espécies), para os casos dos artigos 461 e 461-A. O problema, segundo o autor, é que a leitura atenta de outros dispositivos mostra que o legislador nem sempre permaneceu fiel a esse critério, já que no artigo 475-N, inciso I, enumeram-se os “títulos executivos judiciais”, hábeis a dar fundamento a uma “execução” e não a um “cumprimento”.
No mesmo sentido leciona Ada Pellegrini Grinover (2007, p. 4, grifos da autora):
A nova lei denomina cumprimento da sentença, em sentido genérico, as atividades destinadas à efetivação do preceito contido em qualquer sentença na qual se reconheça a existência de uma obrigação a ser cumprida pelo vencido. Quando se trata de dar cumprimento a uma obrigação de fazer ou não fazer ou de entregar coisa certa, a efetivação se faz mediante cumprimento da sentença em sentido estrito, e quando se trata de obrigação de pagar, mediante a execução (execução por quantia certa contra devedor solvente – art. 475-I). Assim, o cumprimento da sentença (lato sensu) é o gênero, que tem como espécies o cumprimento da sentença ‘stricto sensu’ (obrigações específicas) e a execução (obrigações de pagar). O conceito de execução não se estende ao cumprimento das obrigações
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“Art. 475-I. O cumprimento da sentença far-se-á conforme os arts. 461 e 461-A desta Lei ou, tratando-se de obrigação por quantia certa, por execução, nos termos dos demais artigos deste Capítulo.”
específicas, o qual continua regido pelos arts. 461 e 461-A.
Por outro lado, Evaristo Aragão Santos (2005, p. 321) entende que não há razões contundentes para distinguir tecnicamente execução de cumprimento, já que ambos designam o mesmo fenômeno. Seriam, portanto, sinônimos.
Em rigor, a mistura terminológica não se justifica. Há execução sempre que se pretende efetivar materialmente um título executivo que imponha uma prestação (fazer, não fazer, entregar coisa ou pagar quantia), pouco importando a natureza desta prestação (DIDIER JR et al., 2013, p. 32).
Anselmo Prieto Alvarez (2009, p. 83-84) opina que a interpretação literal do artigo 461-I do CPC, em um primeiro momento, gera certa reação de perplexidade ao intérprete, pois o legislador, ao afirmar que o cumprimento de sentença far-se-á conforme os artigos 461 (obrigação de fazer e não fazer) e 461-A do CPC (obrigação de dar) e a obrigação de pagar por execução nos termos do artigo 475-J e seguintes do CPC, tenta estabelecer uma distinção que não existe. O autor justifica sua posição explicando que ambos os procedimentos são realizados por atos de coerção de natureza executória: “[...] o que muda, sim, é a base normativa que rege cada um dos procedimentos”.
Além disso, considerando que todas as sentenças arroladas no inciso I do artigo 475-N do CPC constituem títulos executivos – em outras palavras, comportam execução –, José Carlos Barbosa Moreira (2006, p. 61) entende ser mais apropriado fazer deste conceito gênero, relegando ao nível das subdivisões as várias espécies de execução, cada qual com as peculiaridades resultantes da natureza da obrigação em jogo.101
Talvez o mais correto fosse dizer, para manter a terminologia do CPC, que a execução da sentença de fazer e de não fazer far-se-á
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José Carlos Barbosa Moreira (2010, p. 206, grifos do autor) conclui: “Registre-se que o termo ‘execução’, no que concerne aos títulos judiciais, ficou reservado às hipóteses de sentença de teor pecuniário; para as que julguem procedente, em processo de conhecimento, pedido relativo à obrigação de fazer ou não fazer e à entrega de coisa, a Lei 11.232 emprega a denominação genérica de ‘cumprimento’. Seja como for, no campo das obrigações por quantia certa constantes de título judicial, se nos ativermos à linguagem legal (doutrinariamente discutível), só cabe falar, agora, de processo de execução, como figura nitidamente individuada, nos casos do artigo 475-N, incisos II, IV e VI.”.
segundo os termos do artigo 461 do CPC; a da sentença de entrega de coisa, de acordo com o artigo 461-A; e a da sentença pecuniária, de acordo com as regras do cumprimento da sentença, previstas nos artigos 475-J e seguintes (DIDIER JR et al., 2013, p. 32).
Portanto, considerando que na base de todo o Livro II do CPC – “Do processo de execução” e na do cumprimento da sentença (artigo 475-I e seguintes) – Livro I do CPC, encontra-se a intenção de satisfação do credor: em ambos os procedimentos há a pretensão de executar. A troca de nome (cumprimento em lugar de execução) ou o caráter incidental não alterou a natureza da atividade jurisdicional (ASSIS, 2013b, p. 105).
Consequentemente, “[...] seja processo autônomo, seja fase terminal do processo de conhecimento, a tutela jurisdicional de execução pode ser definida como aquela na qual se busca entregar ao vencedor do pleito judicial o bem da vida pretendido”, conceitua Araken de Assis (2013a, p. 4).
Na tentativa de elucidar o conceito de execução, diferenciando-o do termo “cumprimento”, Luiz Rodrigues Wambier e Eduardo Talamini (2014, p. 46) explicam que a expressão “execução” é sinônimo de “execução-forçada” (derivada de intervenção jurisdicional) e a expressão “cumprimento” representa “cumprimento-voluntário” (resultante da conduta espontânea do obrigado).102
Essa conclusão, conforme ensina José Carlos Barbosa Moreira (2006, p. 64), resulta do fato de, na tradição da linguagem jurídica brasileira, “cumprimento” ser vocábulo empregado para designar um comportamento voluntário. No direito civil, quando se diz que o devedor cumpriu a obrigação, o que se quer evidenciar, regra geral, é que ele realizou, por sua vontade, a prestação a que se obrigara.103 Nesse sentido, o cumprimento da sentença dispensa a realização coativa de atos materiais, concretos, destinados a conformar o mundo exterior ao ditado judicial.
Do ponto de vista estritamente técnico, Humberto Theodoro Junior (2009, p. 112) entende por execução forçada a atuação da sanção por via dos meios de sub-rogação, quando o Estado atua como substituto do devedor inadimplente, procurando, sem a sua colaboração ou até mesmo contra a sua vontade, dar satisfação ao credor, proporcionando-
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Segundo os autores, não há problema no emprego de uma ou outra expressão, desde que se conceba existirem fenômenos distintos.
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Também o Código Civil aponta nesse sentido, nos artigos 389, 408, 413, 476, 810, 1.337, 1.348, por exemplo.
lhe o mesmo benefício resultante do cumprimento (voluntário) da obrigação.
Assim já assentou Cândido Rangel Dinamarco (1994, p. 97, 100) ao explicar que a expressão execução, em sentido muito amplo, é utilizada para designar a realização das obrigações. Para o doutrinador, no sentido lato de execução, enquadram-se a execução espontânea, a execução forçada, a execução indireta e a execução imprópria. No sentido estrito e processualmente técnico, execução é somente a execução forçada.104
Em face da confusão terminológica, adota-se o termo execução em sentido amplo, tanto para designar a execução espontânea como a execução forçada (DIDIER JR et al., 2013, p. 29).
Luiz Rodrigues Wambier e Eduardo Talamini (2014, p. 54) adotam a expressão “fase de cumprimento da sentença” para referenciar a atividade de execução das sentenças condenatórias ao pagamento de quantia de que tratam os artigos 475-J a 475-R, introduzidos pela Lei n. 11.232/2005. E, também, em sentido amplo, utilizam a expressão “execução” para pontuar regras que se aplicam tanto ao processo autônomo de execução do Livro II do CPC como à fase de cumprimento da sentença.
No sistema processual, portanto, há a execução como fase procedimental, ligada ao cumprimento de decisões judiciais, em prestígio do sincretismo processual e do processo de execução autônomo, previsto para as hipóteses de títulos extrajudiciais e também para alguns títulos judiciais específicos, como a sentença impositiva de quantia contra a Fazenda Pública (LAMY; ARAÚJO; BORGES, 2012, p. 13).
No presente trabalho, optou-se por utilizar o termo execução de forma ampla. Com o título “execução da sentença civil”, pretende-se estudar as peculiaridades do contraditório exercido na execução (atividade jurisdicional executiva) da sentença condenatória, que engloba o cumprimento voluntário e a execução forçada.
Na próxima seção será abordada a diferença entre mérito e cognição na execução da sentença civil.
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Cândido Rangel Dinamarco (1994, p. 98-99) explica: “As sanções de direito material, multas inclusive, prisão e até as astreintes integram o conceito de execução indireta. Já os atos de cumprimento do dispositivo das sentenças constitutivas ou meramente declaratórias, ordinariamente consistentes em mera documentação, como registro de sentença declaratória de paternidade ou anulatória de escritura, são designadas como execução imprópria.”.