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3. Política do patrimônio cultural e ambiental na Chapada Diamantina e economia

3.6 O INRC da construção tradicional no Brasil

O projeto do INRC-CD e os inventários sobre o mesmo tema realizados em outros três Estados do país tratam do início do projeto que tem como objetivo o inventário e registro dos saberes ligados à atividade. A iniciativa seria uma forma “de ressaltar os vínculos entre materialidade e imaterialidade, mas também valorizar esses conhecimentos que ainda têm grande importância na contemporaneidade” (IPHAN, 2017a, p. 23). O “caderno de memória” produzido pela equipe responsável da UFBA, um dos produtos da pesquisa, reconhece a Chapada Diamantina enquanto território construído, marcado historicamente pelas formas das dinâmicas econômicas da

exploração do ouro, diamante, gado e borracha de Carnaúba.

O resultado seria a formação de estruturas físicas, a existência de camadas de evidências do acúmulo de vários movimentos exploratórios, “um território constituído por superposições, arruinamentos e reconstruções cíclicas com técnicas que se utilizavam da materialidade do lugar e do conhecimento trazido por cada construtor em consonância com a natureza” (IPHAN, 2017a, p. 23). Além da função de registrar os processos por meio dos quais evoluíram as técnicas construtivas herdadas pelos mestres da construção, o que possibilitaria a “manutenção de parte desse patrimônio construído herdado” (IPHAN, 2017a, p. 23), o inventário também ofereceria algumas contribuições para as instituições responsáveis pelo patrimônio cultural nacional. Entre elas:

a necessidade de reforçar as relações sociais e suas práticas colaborativas que se esgarçam frente a nossa sociedade de consumo. Esse descompasso entre as políticas públicas e a produção desses mestres e artífices da construção tradicional, gera a desvalorização dos detentores dos saberes que não conseguem mais transferir os conhecimentos práticos por não atrair os jovens interrompendo assim um ciclo estabelecido de mestres e aprendizes por séculos (IPHAN, 2017a, p. 23).

Os cadernos de memória dos inventários da construção civil tradicional de Santa Catarina, Minas Gerais e Pernambuco, todos publicados em 2012, e o da Chapada Diamantina, representando a Bahia, de 2017, executam a função dos dossiês realizados para o registro do bens culturais. Nesses dossiês, “o surgimento, a história e a trajetória” dos bens culturais imateriais relacionados à atividade de interesse foram “investigados e descritos, assim como as adaptações ou transformações” (SANT'ANNA, 2008, p. 8). Do mesmo modo, a etapa de pesquisa realizada pelas equipes responsáveis pelos projetos nos diferentes Estados também identificou outros bens culturais e práticas direta ou indiretamente associadas à construção tradicional, o que propiciou o mapeamento de um volume significativo de referências culturais. Além disso, fatores determinantes da atividade de interesse, a exemplo do “contexto ambiental” e da “rede de atores e relações sociais que propiciam” (SANT'ANNA, 2008, p. 8) a existência da construção civil foram verificados.

Pelo menos duas linhas de apoio para tentar promover a sustentabilidade dos bens, em especial por parte dos atores do poder público, envolvem as questões relacionadas aos aspectos econômicos do patrimônio imaterial. Seriam as linhas para a realização de ações de valorização e promoção dos bens e as ações de defesa de direitos (SANT'ANNA, 2008, p. 8).

A linha voltada para a promoção e valorização de bens culturais imateriais destina-se a consolidar ou reforçar a sustentabilidade desses processos por meio de ações de sensibilização da sociedade para o reconhecimento da importância desses bens, de trabalho de divulgação, (...) inserção econômica, ampliação ou abertura de mercados. (…) A última linha de ação está voltada para o desenvolvimento de trabalhos de pesquisa destinados ao aprofundamento do conhecimento sobre bens culturais registrados ou inventariados; para a elaboração de diagnósticos de avaliação de impactos econômicos, culturais ou sociais sobre esses processos (SANT'ANNA, 2008, p. 8-9).

No caso da construção tradicional, é possível notar dinâmicas que estão se desenvolvendo a partir da ressignificação das técnicas tradicionais e incorporação de conhecimentos num movimento que está sendo concentrado sob o conceito da bioconstrução. No entanto, o movimento envolve um potencial de geração de renda muito mais significativo, já que diversas edificações estão sendo construídas na Chapada Diamantina a partir do uso das técnicas que envolvem a valorização dos elementos tradicionais e o uso racional de produtos construtivos industrializados, a exemplo do ferro e do cimento.

A recuperação do uso de técnicas tradicionais promove a financeirização dos trabalhadores da construção tradicional, pois deixa-se de remunerar as firmas produtoras de itens industrializados, que concentram os lucros obtidos nas mãos do proprietário ou empresário. Quanto mais utilizadas as técnicas tradicionais, que dependem do trabalho realizado pelos trabalhadores detentores dos saberes e fazeres, maior é o nível percentual de investimento dedicado à mão de obra para a despesa do serviço. Vale considerar que os investimentos para a edificação de obras são de monta significativa, independente do tamanho da composição.

No caso das edificações realizadas com base no uso de materiais industrializados, o custo da mão de obra envolve pelo menos, aproximadamente, 30% do valor total da obra. Quanto maior a dedicação à realização de construções com a utilização de técnicas tradicionais maior será o índice, isto é, maior o percentual de remuneração dedicado aos trabalhadores da atividade. Em valores atuais apurados junto aos trabalhadores do município de Lençóis, por exemplo, uma das localidades nas quais as edificações realizadas a partir do uso da bioconstrução tem apresentado resultados significativos, o custo do metro construído é de aproximadamente R$500.

É importante considerar a contribuição efetiva das releituras que são realizadas dos saberes e fazeres relacionados à construção tradicional de maneira geral no país. Isso porque, aparentemente, nem todo o movimento de valorização das técnicas tradicionais está vinculado às tradições. É possível verificar situações nas quais cursos ou serviços de aplicação das técnicas tradicionais são realizados por atores contemporâneos sem a vinculação com o acúmulo histórico de saberes. A ressignificação de conhecimentos que poderia resultar numa cultura híbrida, baseada na tradição, mas influenciada por novas tecnologias, naqueles casos, dá vez à apropriação por atores interessados na comercialização dos saberes históricos sob a forma de uma nova embalagem.

Os processos que consideram de forma equilibrada os conhecimentos herdados das gerações que acumularam intenso arcabouço de experiências e saberes têm uma potencialidade maior de funcionarem como atividades de salvaguarda do bem cultural e contribuírem para a evolução do patrimônio imaterial relacionado. Isso porque “a seleção e a avaliação de bens culturais

imateriais devem estar apoiadas mais em noções de referências culturais e de continuidade histórica do que no conceito de autenticidade que tradicionalmente estrutura o campo da preservação” (SANT'ANNA, 2008, p. 9). Isto é, é importante que novas técnicas sejam incorporadas aos conhecimentos existentes no território relativos à atividade da construção tradicional. Este fator contribui de forma estratégica para a permanência dos conhecimentos tradicionais e de elementos de atualização dos saberes, dado que o espaço no qual operam as atividades da construção atualmente é diferente daquele de séculos ou décadas atrás. A escassez de recursos naturais utilizados como matéria-prima da atividade, seja por exaustão das reservas, seja por conta das restrições de acesso, é uma evidência das mudanças ocorridas.

Por outro lado, é possível desconsiderar aquelas atividades que não valorizam os aspectos da transmissão ancestral de conhecimentos enquanto parte das ações de salvaguarda dos bens imateriais da construção tradicional. Considera-se que as ações de fomento, inventários e o processo para a salvaguarda destes bens precisam ser dinâmicos, mas diretamente vinculados aos saberes tradicionais. Isso porque são nas dimensões simbólicas destes saberes que operam também as estruturas simbólicas de valores sociais, econômicos, políticos e estéticos. Estas estruturas são fundamentais para a realização material e intangível destes saberes e estratégicas para a dimensão econômica dos bens na condição atual e em eventuais ações para o fortalecimento dos bens culturais.

a organização comunitária e o fortalecimento da base social (…) são essenciais no sentido de que as ações voltadas para o incremento da produção ou para a ampliação de mercados não venham a afetar negativamente processos tradicionais de produção e transmissão e desagregar e romper as relações sociais que sustentam e preenchem de sentido esses processos (SANT'ANNA, 2008, p. 9).

Entre as diretrizes da política nacional da preservação do patrimônio que orienta as ações direcionadas ao patrimônio imaterial realizadas pelo Iphan pelo menos uma faz menção direta aos aspectos econômicos relacionados aos bens culturais. De acordo com a orientação, a política busca promover “a sustentabilidade das ações de preservação por meio da promoção do desenvolvimento social e econômico das comunidades portadoras e mantenedoras do patrimônio” (SANT'ANNA, 2008, p. 11). Nossa expectativa é que a análise da totalidade da situação na qual opera a economia da cultura do patrimônio imaterial da construção tradicional no território evidencie o papel estratégico da atividade oferecendo ao campo da produção de conhecimento e ao poder público argumentos para promover condições melhores de atuação aos mestres, trabalhadores e atividades de maneira geral, fortalecendo diretamente a economia regional.

Frente às incertezas que envolvem o futuro da política para o campo do patrimônio cultural imaterial, nos resta tentar evidenciar a totalidade na qual a economia do patrimônio relacionada ao

trabalho dos mestres, trabalhadores e aprendizes artífices da construção tradicional está inserida. No caso, as comunidades nas quais a territorialização dos significados das atividades oleiras e adobeiras acontecem. Vivenciar como as pessoas estão enfrentando os desafios de uma permanência para a qual a existência é condicionada a uma tendência crescente de variáveis aleatórias que influenciam a intenção de atores cada vez mais distantes e desconhecidos para a prática do cotidiano, mas que operam decisivamente para a produção do espaço.

Se a origem da preservação dos valores decisivos para esta produção é a chave do amanhã é possível considerar que o protagonismo do trabalhador na definição do destino das atividades tradicionais pode ser suplantado pela ação de diferentes interesses. Apesar da função do conceito de patrimônio ser justamente a da preservação faria sentido considerar a possibilidade de orientações destinadas ao descarte e o desinteresse do poder público pela manutenção dos bens imateriais cujos detentores, por meio destes bens, se vinculam de forma resistente mantendo ativa a economia do patrimônio cultural nacional.

A socióloga Maria Cecília Londres Fonseca (2009, p. 73) considera os bens culturais vivos do país enquanto detentores de “valor econômico”. Consideramos desta forma também os construtores aposentados, muitas vezes com a aposentadoria rural, por terem se dedicado parcialmente à função e enquadrarem-se nos atributos necessários para o recebimento do benefício.

Além dos bens culturais tradicionais vinculados aos ofícios responsáveis pela formação territorial e por dinâmicas de territorialização de diferentes forças nas localidades da Chapada Diamantina se constituírem como “importantes meios de desenvolvimento”, antes de tudo “são formas de sobrevivência para inúmeros grupos e populações” (FONSECA, 2009, p. 73). De acordo com a autora, não haveria dúvidas de que o processo recente de ampliação do conceito de patrimônio cultural “contribui para aproximar as políticas culturais dos contextos multiétnicos, (…) extremamente heterogêneos, que caracterizam as sociedades contemporâneas” (FONSECA, 2009, p. 73).

No espaço pulverizado da pós-modernidade, o espaço não se tornou irrelevante: ele foi reterritorializado de um modo que não se conforma à experiência de espaço que caracterizava a era da alta modernidade. É isso que nos força a repensar as políticas de comunidade, solidariedade, identidade e diferença cultural (FONSECA, 2009, p. 74).

Observando o atual espaço do território de identidade de estudo e os fatores de interferência na totalidade que conforma a situação do espaço é possível identificar outra série de comunidades de trabalhadores para esclarecermos os fatores econômicos aos quais a dimensão da economia do patrimônio cultural imaterial está diretamente relacionada. Para isso, podemos tratar inicialmente do

elemento do intermediário que faz parte do processo de negociação da produção com o consumidor em diferentes atividades.

Podemos considerar que as lojas de comercialização de materiais de construção atuam como o intermediário da estrutura da atividade da construção civil contemporânea. As firmas foram intro- duzidas como forma de subordinar o modelo tradicional, no qual os próprios artesãos, ou produto- res, comercializam os produtos para o consumidor, muitas vezes com a mediação do serviço de transporte das peças pelo cliente. O resultado é o encarecimento do produto ao consumidor final, dado que o novo elemento concentra o repasse de um significativo acréscimo no preço final, repre- sentado pela aplicação da margem de lucro do intermediário.

4. A economia vinculada à produção dos saberes