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Parte I – Estado da arte

V. 2 O princípio de Responsabilidade segundo Hans Jonas

Aquele que podemos considerar como o nível macro da reflexão sobre a responsabilidade social é sem dúvida o pensamento de Hans Jonas, expresso na sua obra "O princípio de responsabilidade”308. Consideramo-lo macro na medida em que ele se cruza com uma reflexão societal, de uma sociedade tecnológica afectada pela consciência do risco, consciência essa que provém de uma reflexão sobre a técnica moderna. Como dissemos, a técnica moderna veio alterar radicalmente o modo de agir do indivíduo, dando-lhe um poder que jamais conhecera, ou seja, a capacidade de afectar o objecto intervencionado no seu âmago, transformando-o profunda e irreversivelmente. A capacidade de ter uma intervenção irreparável vem obrigar o sujeito a rever os seus princípios éticos, já que a(s) ética(s) tradicionais não contemplavam este modo de acção, tão profundo. “A nova dignidade da natureza mais se consolidou quando se verificou que o desenvolvimento tecnológico desordenado nos tinha separado da natureza em vez de nos unir a ela e que a exploração da natureza tinha sido o veículo da exploração do homem”309, introduzindo a superação da tradicional distinção entre sujeito e objecto, já que aqui, o sujeito aparece sob a forma de objecto. A técnica moderna vem alterar a natureza da ética mas também da política310. Esta

308 1984

309 Santos, 1987, 51 310 Cascais, 1994

situação é característica de sociedades geridas por um modelo de democracia técnica, onde, aos princípios democráticos, liberdade, igualdade e fraternidade, se alia a (omni) presença e (omni) potência da técnica311.

A incomensurabilidade dos efeitos da técnica moderna obrigam a recriar uma outra ética, assente numa nova dimensão da responsabilidade. A vulnerabilidade inusitada da natureza face às possibilidades técnicas de a transformar e a necessidade maior de aliar o saber à acção, no sentido de saber o que se pode fazer, obrigam a não descurar o princípio de prudência (que para Jonas é o primeiro princípio ético) e o sentido de responsabilidade. Esta situação coloca sob outra luz a questão dos direitos e deveres do cidadão. A técnica moderna afecta globalmente as condições de existência (natureza) e a própria existência da espécie humana. Daí o deslocamento de uma ética antropocêntrica para uma outra mais larga que abarque o domínio extra-humano.

Jonas parte de uma concepção finalista da natureza, colocando o Homem como estádio último de uma cadeia evolutiva, onde coabitam elementos não-humanos e humanos, tornando estes dois, inter-dependentes. Jonas vem atribuir um valor intrínseco a todos os elementos da cadeia natural, e não apenas ao elemento final que é o homem. Assim sendo, os elementos não-humanos deixam de ter um estatuto meramente instrumental. Esta abertura aos elementos extra-humanos é também fechamento do indivíduo enquanto culminar derradeiro de uma cadeia evolutiva. Afasta-se deste modo de uma concepção antropocêntrica niilista que, na sua óptica, orienta a acção tecnocientífica. Será esta concepção finalista que justificará algum sacrifício à liberdade humana, para manutenção da humanidade. "Bien qu'il soit l'incarnation superlative de la capacité de finaliser, l'être humain doit reconnaître et respecter, selon Jonas, des valeurs absolues, données indépendamment du jugement humain"312. É nessa perspectiva finalista que se vai ancorar a necessidade de uma nova ética, tal como a descreve Jonas.

Até porque, com a técnica moderna, o homem é também objecto da mesma. O homo faber aplica em si a sua arte313. A mudança qualitativa introduzida pela tecnociência no agir humano veio inaugurar uma nova dimensão ética314, abalando os cânones da ética tradicional, a saber, a intemporalidade da condição humana e a clara delimitação do âmbito de responsabilidade da acção humana. Não só o Homem se

311 Callon et al., 2001 312 Pinsart, 1993, 7 313 Jonas, 1984 314 Jonas, 1984

apercebeu que pode ter o poder de pôr termo à Humanidade (e, consequentemente, ao fim maior da cadeia de elementos que compõem a natureza) como esse facto alarga consideravelmente a sua amplitude de responsabilidade. Há um real perigo no poder dos Homens sobre a natureza, com as possibilidades da técnica moderna. Jonas315 adopta portanto uma descrição apocalíptica, que virá sustentar diversas das suas propostas, nomeadamente a da heurística do medo. Para Jonas, esta heurística ilustra claramente os limites que o homo faber pretende ultrapassar na prossecução de um estado de desenvolvimento utópico, funcionando o medo como travão a essa ultrapassagem316. "L'éthique de la responsabilité est une éthique de conservation de l'humanité 'naturelle- culturelle', portée par une conception de la nature comme ayant achevé son évolution finalisée dans l'humanité"317. Hottois afirma que o princípio da responsabilidade, no entendimento de Jonas, não se prende tanto com a possibilidade destruidora do incomensurável poder da técnica moderna mas antes com a possibilidade do homem perder a sua “sensibilidade ética”, “a possibilidade de juízo de valor”, a “possibilidade da livre escolha” provocada pela “desconstrução/reconstrução tecnológica do homem”318.

O desenvolvimento técnico-científico dos dias de hoje exige uma ética da responsabilidade que é uma ética do futuro, para as gerações futuras319. Não é uma ética para a contemporaneidade. A ética para a contemporaneidade parte de uma concepção meramente instrumental da técnica (na realidade corresponde à tekné), perspectiva essa que não promove uma atitude reflexiva sobre a dita técnica, sobre os seus limites e sobre os riscos que daí podem resultar. A ética proposta por Jonas, e centrada no futuro, promove uma reflexão sobre a vocação da pesquisa científica, sobre os fins a que se destina e sobre as consequências que dela resultam. Introduz uma reflexão sobre as consequências futuras da acção de hoje, dado o alcance incomensurável da técnica moderna. O exercício da responsabilidade cruza-se com o saber, está ligada a um saber320. "Le savoir qui est ici requis est double: objectivement, une connaissance des causes physiques; subjectivement, une connaissance des fins humaines"321. O sujeito deve ter a capacidade de antecipar as consequências da sua acção, num futuro o mais 315 1984 316 Achterhuis, 1993, 44 317 Hottois, 1993, 20 318 Cascais, 1994, 17 319 Jonas, 1984 320 Jonas, 1998 321 Jonas, 1998, 70

longínquo possível, de modo a cobrir todo o encadeamento de consequências. Essa capacidade será tanto maior quanto mais conhecimento tiver o sujeito. Tal empreendimento, que é um empreendimento de saber, parece sempre mais limitado, em relação ao acréscimo do poder de acção disponível para o sujeito. Esse saber é, por um lado, factual e obtido através do acumular de informações mas é também um conhecimento sobre o que é o homem, um saber de cariz ontológico, sobre o Bem e o Mal, na óptica da humanidade. Será esse Bem humano que deverá ser preservado em relação às possibilidades tecnocientíficas. “Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessária uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos”322, já que todo o conhecimento é auto-conhecimento. Estas possibilidades constituem-se em ameaças, na óptica de Jonas, e compreendem "l'anéantissement physique et le dépérissement existentiel"323.

O princípio da responsabilidade sugere a adopção de uma atitude de precaução. Entenda-se que a precaução não é sinónimo de ausência de acção, mas antes de equacionar e acautelar as eventuais consequências nefastas de determinado desenvolvimento científico-tecnológico, cujas consequências ainda são incertas.

Novamente, cruza-se o exercício da responsabilidade com a característica humana de liberdade. Para Jonas324, o simples facto do homem ser o único ser com capacidade para ser responsabilizado, por ser o único ser que detém esse poder faz com que, automaticamente, o sujeito tenha o dever de ser responsável. Por seu turno, ter a capacidade de ser responsável é algo que está sob livre arbítrio do sujeito, donde se depreende o cruzamento entre responsabilidade e liberdade, sendo a primeira corolário da segunda.

A responsabilidade é, então, um corolário da liberdade intrínseca ao Homem. É porque estamos perante um sujeito consciente e autónomo que o colocamos na extremidade da cadeia de evolução da natureza e da natureza humana. A responsabilidade representa a aceitação da necessidade de pôr limites à própria liberdade, em nome de um desígnio maior. Jonas sugere aqui a necessidade de uma intervenção na liberdade de investigação. Essa intervenção seria guiada pela ideia de

322 Santos, 1987, 53 323 Jonas, 1998, 100 324 1984

precaução. O imperativo da responsabilidade exige por isso que se actue sob o princípio da precaução. A ética proposta por Jonas vai além da ética profissional, abarcando-a. A ética profissional não é suficiente para a acção possível da técnica moderna, que é incomensurável. É portanto uma ética exterior ao sujeito, ao cientista, uma ética que pensa os limites do referido sujeito. Toda a reflexão ética contempla, ou pressupõe, uma reflexão antropológica, já que a ética corresponde às possibilidades de acção do sujeito, é nesse possível que situamos a fundamentação dos imperativos éticos.

Uma ética da responsabilidade, como a definiu Jonas, exige o respeito pelo princípio da precaução. Este princípio tem inspirado inúmeras medidas de cariz político desde que Jonas a enunciou, nos anos 70. No entanto, constatou-se que a precaução nem sempre foi entendida da mesma forma, tendo dado origem ora a interpretações abusivas ora a críticas deslocadas. "Une démarche de précaution ne doit pas être confondue avec la prévention des risques, elle n'est pas une incitation à l'abstention, elle n'exige pas la démonstration d'un risque zéro, elle n'est pas une entrave à la recherche scientifique et technologique, elle n'aboutit pas à une pénalisation supplémentaire de la responsabilité des décideurs"325. O princípio da precaução é uma incitação à acção. Sugere antes uma atitude de envolvimento numa situação de risco, e não a sua negação ou a sua ignorância. Indica um enquadramento para agir num contexto de incerteza. Por outro lado, liga a acção ao saber já que a acção em situação de incerteza necessita de uma busca de maior conhecimento para assim ultrapassar um estado de desconhecimento. A precaução promove também a adopção de medidas provisórias que minimizem os riscos enquanto o conhecimento necessário não existir. A precaução só se adequa a situações de incerteza porque o conhecimento ainda não atingiu determinado patamar de desenvolvimento. É por definição uma situação provisória. Para a detectar, o princípio da precaução também reconhece a necessidade de sistemas de alerta que actuem em situações de risco eventualmente nefasto.

Assim, o imperativo de responsabilidade dirige-se à iniciativa pública (no sentido de colectiva) mais do que à conduta privada, do indivíduo isolado. A sua aplicação não é no imediato mas situa-se nas gerações vindouras, aquelas que no presente da acção com consequências futuras não podem ainda defender-se. Cabe portanto aos decisores de hoje garantir as condições de existência dessas gerações vindouras. O princípio de responsabilidade dirige-se com especial acuidade a estes.

Constata-se que o princípio de responsabilidade tem um alcance pragmático, "... convaincre les hommes politiques de prendre des mesures de contrôle strictes à l'égard des activités technoscientifiques"326. O princípio da precaução vem alterar o relacionamento entre a ciência e a política327. No passado e quando era necessário decidir em matéria de riscos científico-tecnológicos, a ciência emitia um parecer perito que conduzia a política a tomar determinada resolução. Era a primazia do saber científico envolto na sua objectividade que se impunha inquestionavelmente. Com Jonas, e para que a política possa agir segundo o princípio da precaução, deve criar uma relação de vai-e-vem entre os pólos da ciência e da política, para definir a acção adequada num contexto de incerteza, deve criar mecanismos de alerta para agir com precaução e na posse do maior número de informações possíveis. Os tempos de acção de cada um destes pólos fundem-se e cruzam-se diversas vezes, contrariamente à anterior lógica cronológica, em que um sucedia ao outro. Para Jonas estas medidas, porque têm carácter de urgência, justificam que não sejam cumpridos todos os procedimentos que uma gestão democrática dos homens implicaria. Aqui reside uma das mais criticadas intervenções de Jonas. No entanto, este adverte: "Il s'agissait là, notons-le, de prendre en compte le cas de figure le plus pessimiste, celui que la responsabilité, en cet instant de l'histoire universelle, a justement pour tâche suprême de ne pas permettre, de conjurer. C'est en effet l'un des premiers devoirs autoréférentiels du principe de responsabilité que de prévenir, par l'action actuelle dans la liberté, les contraintes futures imposant la non-liberté, afin de laisser ainsi largement ouverte la marge de jeu pour nous-mêmes mais aussi pour nos descendants"328.

O princípio de responsabilidade de Jonas tem uma dimensão social na medida em que remete para uma atitude de preservação da sociedade e das suas condições de humanidade. Corresponde à responsabilidade do todo o colectivo em geral, e mais concretamente, daqueles que têm desígnios públicos. Por esse motivo, a responsabilidade a que se refere Jonas é também política. A dimensão, o impacto da técnica moderna resulta das suas potencialidades performativas mas igualmente do facto do sujeito que faz e dispõe da tecnologia ser um actor colectivo e não um actor individual, é o futuro indeterminado, mais do que o contemporâneo onde a acção está a acontecer. Sendo este o horizonte da responsabilidade, a ética emergente é, então,

326 Pinsart, 1993, 9

327 Callon et al., 2001, 281-282 328 Jonas, 1998, 115-116

também uma questão política. Ao modificar as condições da acção humana está-se a modificar a essência fundamental da política. A fronteira tradicional entre polis e natureza foi abolida. A esfera da legalidade entra em domínios novos, de forma a assegurar as condições de vida para as gerações futuras.