Apesar de rejeitar uma explícita análise de classe, o movimento de oposi- ção de 1930, como governo, desenvolveu políticas classistas. Do início do movimento contra Washington Luís, a mera presença do BOC, de Prestes e dos trabalhadores rurais e industriais em greve, reivindicando seus direitos, bem como as próprias políticas reformistas do governo, forçaram que a questão agrária fosse levada em consideração pelos políticos. A plataforma da Aliança Liberal de Vargas, pronunciada em 2 de janeiro de 1930, incluía uma seção dedicada “à questão social”, que lembrou algumas das propostas reformistas lançadas nos congressos do PCB. Solicitava com urgência que o governo elaborasse um código trabalhista que servisse tanto “ao proletário urbano como ao rural”, e sugeria que a aliança daria aos “homens do campo” melhorias nos serviços de educação, residência, nutrição e saúde. Vargas, como quase todos os seus colegas na aliança, era uma fi gura da elite, calcada nas tradições patriarcais do Brasil. Dono de terras, criador de gado, advo- gado e ex-governador do Rio Grande do Sul, Vargas astutamente calibrou a retórica do partido para atrair apoio à sua causa e diluir a infl uência dos oponentes esquerdistas.
Contudo, havia mais nas propostas de trabalho rural de Vargas que puro expediente político. Como líder da Aliança Liberal, Vargas trouxe uma renovada perspectiva sobre suas experiências no Rio Grande do Sul – um estado diferente de São Paulo. O estado produzia um tipo de cultura política que observou os modelos corporativistas dos italianos e viu bene- fícios no reforço da cooperação entre as classes, a intervenção do Estado na economia e a criação dos sindicatos – uma forma de organizar grupos de interesse econômico para representar os patrões como os trabalhadores, que dependia do reconhecimento do governo para funcionar legalmente. Enquanto ocupava o palácio presidencial do Catete, Vargas advogou “a necessidade de uma organização social e econômica, a colaboração dos órgãos de classe no governo moderno e … uma economia controlada sem confl ito e competição”. Em cinco meses, o ministro do Trabalho Lindolfo Collor lançou os primeiros decretos em relação à organização dos sindicatos. A plataforma original da aliança também revelou a lógica modernizadora e desenvolvimentista por trás das últimas declarações de Vargas sobre os camponeses. A economia de exportação de café de São Paulo, que abastecia
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a economia nacional, foi devastada pela depressão de 1930. Para reestruturá- la, a plataforma tomou emprestadas idéias do inovador fazendeiro do café e fundador do PD, Antônio Prado, que enfatizava o controle dos custos de produção. Para fazer que o café voltasse a ser viável, os fazendeiros preci- savam de trabalho confi ável, efi ciente e barato. A falta de braços, como os fazendeiros se referiam aos trabalhadores, era um dos problemas crônicos da economia cafeeira. As condições contemporâneas na Europa e no Brasil fi zeram que os trabalhadores imigrantes se tornassem mais custosos e mais problemáticos do que no passado, e Vargas enfatizava a necessidade de se confi ar no poder do homem brasileiro.
Aumentar a produtividade estava no coração do interesse de Vargas pelos trabalhadores, e a incorporação era o meio pelo qual eles poderiam se tornar capazes de trabalhar mais. Para as centenas de milhares de camponeses bra- sileiros que viviam à margem da política, a legislação social era a ferramenta que os incluiria. Vargas antecipou o lançamento da legislação para todos os trabalhadores: “Tanto o proletário urbano como o rural necessitam de disposi- tivos tutelares, aplicáveis a ambos, ressalvadas as respectivas peculiaridades”. Estes milhares viviam, de acordo com Vargas, “sem instrução, sem higiene, mal-alimentados e mal-vestidos, tendo contacto com os agentes do poder público, apenas através dos impostos extorsivos que pagam”. Vargas e outros poderosos contemporâneos agrupavam tanto os pequenos lavradores quanto os que trabalhavam nas fazendas como trabalhadores rurais, nivelando-os por sua força de trabalho em vez de por sua humanidade. A novidade com Vargas, entretanto, era a ênfase que ele dava à automotivação do “homem do campo”. Ele prometeu leis que iriam “despertar-lhes, em suma, o interesse, incutindo-lhes hábitos de atividade e de economia”.
Os planos para a criação das políticas do trabalho rural tomaram forma logo depois da revolta de outubro de 1930. No início de 1931, o ministro Collor articulou a fi losofi a sindicalista do governo e buscou a organização dos sindicatos dos trabalhadores rurais. “Parecendo certo que não exis- tem sindicatos agrários, de empregados, pelo menos, será indispensável promover a formação de alguns, em vários Estados, quer de empregados, quer de patrões.” Em reunião com os sindicatos dos empregadores da agricultura, as duas classes estariam ajudando a política agrícola do Brasil. Nesse meio-tempo, o Ministério do Trabalho foi o responsável por regular o trabalho comercial e agrícola, registrar os sindicatos, organizar a migração dos trabalhadores e supervisionar a colonização e o desenvolvimento das regiões de fronteira agrícola. No fi m do ano de 1931, o Ministério havia reconhecido 251 sindicatos, apenas seis do setor primário da agricultura. No início dos anos 1930, o governo claramente faltou com o compromisso com a sindicalização rural.
Como entender essa contradição? Como comentam os historiadores Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira da Silva, a maioria dos
Formas de resistência camponesa: visibilidade e diversidade de confl itos ao longo da história
analistas não vê nenhuma contradição nas falhas da política de sindicaliza- ção rural porque não vêem o governo Vargas como força de ruptura com a oligarquia rural. Nesse sentido, nas palavras do sociólogo José de Souza Martins:
O governo Vargas ... estabeleceu com os “coronéis” sertanejos uma espécie de pacto político tácito. Em decorrência, o governo não interferiu diretamente nem decisivamente nas relações de trabalho rural, não as regulamentou, indiferente ao seu atraso histórico, embora ao mesmo tempo, regulamentasse e melhorasse subs- tancialmente as condições de vida dos trabalhadores urbanos.
Para Linhares e Silva, contudo, a revolução de 30 representa “o rompi- mento com o ordenamento agrário-conservador” e o início de uma política de desenvolvimento global que dependia, inevitavelmente, da inclusão dos camponeses.
Para explicar a contradição entre discurso e exercício políticos, Linhares e Silva trabalharam com conceitos gramscianos. Por um lado, políticas implementadas enfatizaram a incorporação do mundo urbano industrial, inclusive a sindicalização dos operários; por outro, havia uma integração “simbólica” do campo no processo de desenvolvimento orientado pelo governo através de discursos e medidas fragmentadas.
Opera-se, após 1930, uma interessantíssima concomitância da ação política
real e da ação política imaginária, quando a incorporação das massas camponesas à política nacional é realizada através de imagens positivadas do homem do campo e seu trabalho.
Nessas duas frentes, o governo Vargas trabalhou sim a transformação do campo, só que de maneiras diferenciadas. Na cidade, os operários foram vistos como cidadãos em formação e “trazidos para o cenário da organização econômica ... e política” ao passo que os trabalhadores rurais foram vistos “como agentes políticos passivos, que deveriam sofrer a ação benfeitora do Estado sem ocuparem a cena política como protagonistas”. Na análise dos autores, Vargas procurou medidas para a incorporação não para a ex- clusão dos camponeses. A diferença entre sua atitude diante da cidade e do campo era um expediente político. “Evidentemente, travar dois combates simultâneos ... não era um projeto político desejado”, escreveram. “A opção lógica era construir uma ampla base urbana e fabril, ... e, a partir das cida- des, conquistar o campo”. Mediante ações imaginárias, como o projeto de sindicalização dos trabalhadores rurais, já sinalizava a orientação da política desenvolvimentista desejada sem travar uma luta feroz com a oligarquia.
As pressões na administração eram diversas e por isso só pesquisas nas fontes e análise histórica podem resolver o debate sobre a relação entre Vargas, os camponeses e os fazendeiros. É duvidoso que as políticas te-
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nham sido pensadas a partir da posse, conforme representado por cientistas sociais como Souza Martins. Apesar da utilização de nossa pesquisa no desenvolvimento da interpretação de Linhares e Silva, vale a pena anotar que o que parece uma estratégia bem pensada – de ações imaginárias e reais – deve ter sido resultado de um processo de forças e atividades históricas. Em essência, rejeitamos o argumento sobre a formação de um pacto e a exclusão do campesinato, em preferência por uma pesquisa do processo da formação histórica.
A pesquisa, ainda incipiente, mostra a mobilização dos camponeses nessa época. As divisões entre as facções da classe dominante criaram fi ssuras na arquitetura do poder. No caso do campesinato, o PCB foi a primeira or- ganização política a incorporar o camponês como constituinte do partido. Na época da revolução de 1930, as Delegacias Estaduais de Ordem Política e Social (DEOPS), entidade policial criada em 1924, já estavam espalhadas pelo país. Em São Paulo, o DEOPS estava bem representado no interior do estado, e pesquisa realizada em seu arquivo mostra a presença do PCB nas fazendas e a adesão dos camponeses ao partido. Um só exemplo é a revista em quadrinhos, O Trabalhador Agrícola, publicada em dezembro de 1930. Uma página de imagens mostra um homem gordo, deitado em um sofá, fumando um charuto com a legenda, “Os senhores fazendeiros passam a vida de papo para o ar gozando... gozando...”. A imagem abaixo é de um camponês trabalhando de costas quebradas no sol quente e a legenda diz: “...de seus ‘servos’ e a elles pertencem as terras do Brasil...mas é precizo reagir!”. A terceira e última imagem na página é a de um camponês atirando com espingarda no fazendeiro gordo, correndo de medo com seus braços no ar. A legenda fi nal, em letras garrafais, diz: “CONFISCA AS TERRAS TRABALHADORES DO CAMPO”. O confi sco do documento pelo DEOPS e a presença da delegacia no campo demonstram, no mínimo, a preocupa- ção do Estado com a mobilização dos camponeses. A linguagem de Vargas demonstra, no mínimo, a decisão de desenvolver um projeto para controlar o processo da inclusão política dos camponeses.
A atenção do governo Vargas para a sociedade rural era parcialmente motivada, também, pelas preocupações e pontos de vista da facção mais militante da aliança. Esta era composta por tenentes, um grupo de jovens militares, muitos dos quais haviam marchado com Prestes pelo sertão bra- sileiro. Camaradas como Miguel Costa, que havia liderado a marcha com Prestes, e João Alberto Lins de Barros adotaram uma posição pragmática e romperam com o “Cavaleiro da Esperança” de modo que participassem do governo provisório de Vargas. Eles organizaram uma sociedade de debates chamada Clube 3 de Outubro, e se distinguiam como o único grupo no novo governo com disciplina sufi ciente para preparar um programa abrangente para reestruturar a sociedade brasileira. Com relação aos problemas eco- nômicos agrícolas, o programa dos tenentes exigia que aos trabalhadores
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rurais fosse garantido o mesmo conjunto de direitos e benefícios propostos para o trabalho urbano, como salário mínimo, indenização para dispensa sem justa causa e amparo sindical. Os tenentes também argumentavam que os camponeses mereciam o direito de compartilhar tanto dos lucros quanto do controle das fazendas onde trabalhavam.
São Paulo tornou-se um lugar de teste para o programa tenentista, para desalento dos paulistas, em especial para aqueles que apoiaram a revolta de outubro esperando aumentar a autonomia do estado, não diminuí-la. Os líderes do PD fi caram desolados quando Vargas escolheu João Alberto Lins de Barros como interventor no estado, em vez de outro de seu agra- do. Como um dos tenentes, João Alberto não só advogou o programa do Clube para a economia e reforma social, mas também expressou seu res- sentimento em relação aos paulistas. Como era nativo de Pernambuco, ele, como muitos outros do Nordeste, acreditavam que São Paulo tratava sua região de forma imperialista, sugando os trabalhadores e matérias-primas, forçando os moradores a comprarem manufaturas paulistas, como se o Nordeste fosse uma colônia da “terra-mãe” São Paulo. No início de 1931, João Alberto lançou um decreto estabelecendo uma agência de serviços sociais para os pobres rurais – muitos deles eram migrantes nordestinos. As preocupações paulistas aumentaram quando Miguel Costa, chefe de segurança de João Alberto, fundou a Liga Revolucionária para obter o apoio da classe trabalhadora para o interventor. Ainda mais irritante para os cafeicultores foi um decreto reorganizando o Instituto do Café, uma agência estatal criada em 1924 para regrar a indústria, colocando-a sob o controle direto do interventor.