3. MARCO TEÓRICO
3.3. Parentesco e parentalidade
De acordo com Solis-Ponton (2004), o termo parentalidade pode ser considerado um neologismo em virtude do seu uso bastante recente. Sua origem data da década de 1960, com o surgimento do termo maternalidade e em meados da década de 1980, com a definição das funções e os papéis parentais reagrupados sob a designação de parentalidade.
No livro Ser pai, ser mãe: parentalidade: um desafio para o terceiro milênio, Letícia Solis-Ponton (2004) faz um resgate das ideias do psiquiatra e psicanalista Serge Lebovici (2004), para explicar essa concepção sobre as relações familiares e da construção psíquica dos papéis parentais.
Para compreender o sentido do termo, é necessário que façamos a distinção entre parentesco e parentalidade. De acordo com o dicionário Houaiss2
, o significado do termo
2 Versão eletrônica do dicionário Houaiss, encontrada em http://houaiss.uol.com.br/gramatica.jhtm. Consulta
parentesco é a qualidadeou característica de parente; relação de pessoas quer por vínculo de sangue (consanguinidade), quer pelo casamento (afinidade). O termo designa, então, um vínculo jurídico sob o qual se unem pessoas e se criam, entre elas, comportamentos, direitos e obrigações. Já o termo parentalidade é assim definido por Solis-Ponton (2004, p. 29):
De outro ponto de vista, segundo o sufixo dade, a parentalidade implicará a noção de estudo, de conhecimento. Assim, poderíamos dizer que parentalidade é o estudo dos vínculos de parentesco e dos processos psicológicos que se desenvolvem a partir daí. A parentalidade necessita de um processo de preparação, não no sentido da pedagogia parental, mas como trabalho que põe em evidência a complexidade e as características paradoxais do fenômeno natural do parentesco.
Segundo essa concepção, a parentalidade organizaria psiquicamente os pais para receberem e se relacionarem com os filhos e estes, com seus pais. Essa experiência teria seu início, antes mesmo do nascimento da criança, ainda no desejo e nas fantasias experimentadas pelos pais e também pela família.
De maneira mais específica, a parentalidade teria sua origem nas vivências mais remotas dos seres humanos, na sua característica de imaturidade neurológica e dependência de outro semelhante que garanta a sua sobrevivência. Essas características fazem com que seja totalmente dependente da mãe, ou de quem faça a função de cuidador, no sentido de interpretar as suas manifestações comportamentais, ainda difusas, e satisfazê-las, garantindo- lhe a sobrevivência. A satisfação das suas necessidades fará com que ele construa o vínculo amoroso com a figura do seu cuidador, tornando-o necessitado desse amor por toda a sua vida. Dessa maneira, será o sentimento de incompletude e a satisfação de suas necessidades que a levará a construir representações mentais de parentalidade.
Do outro lado da díade, a mãe será recompensada por sua dedicação à criança, por meio da percepção da consolabilidade, ou a capacidade do recém-nascido de ser apaziguado, consolado a partir da ação do adulto. Não existem recompensas objetivas ou comportamentos de gratidão por parte da criança, mas a mãe consegue perceber, por meio da quietude da criança, a resposta dos seus investimentos, o que a faz investir ainda mais nessa relação.
Lebovici (2004) compreende que a origem da vida psíquica e da parentalidade possui um caráter complexo e paradoxal, pois remete à interdependência dos processos de maturação da criança e da vida imaginária da mãe, vinculada aos cuidados que ela oferece à sua criança. Ele distingue cinco tipos de representação que a mãe tem de seu bebê antes e depois do nascimento. O primeiro bebê é o imaginário que está nas fantasias conscientes e pré- conscientes da mãe e é produto do seu desejo de ser mãe, o segundo é o fantasmático e fruto das fantasias inconscientes da mãe e do seu conflito edípico, o terceiro é o narcísico e ligado
ao narcisismo da mãe, o quarto é o cultural e fruto da cultura da mãe e de sua vivência mítica e o último é o bebê real em sua corporalidade real.
A relação construída entre a mãe e a criança será o resultado da interação dessas múltiplas representações e, com elas, outros tantos conflitos, com a experiência concreta vivida entre ambos após o nascimento. Além disso, apesar de a criança ser objeto do desejo para a mãe e para o pai, ela é, ao mesmo tempo, uma fonte de desequilíbrio para o ego dos pais, podendo se tornar um objeto de trauma se os conteúdos imaginados se sobrepuserem à vivência real.
3.3.1. O Complexo de Édipo e a parentalidade
De acordo com Solis-Ponton (2004), a criança é o elemento que inaugura a tríade, pai mãe e filho, por meio de sentimentos de amor e ódio. Se, por um lado, ela é fruto do desejo dos pais, por outro, é excluída da cena original e investida de hostilidade, à medida que ocupa o lugar do fruto do seu próprio prazer e se revela como um terceiro elemento que pode provocar o rompimento da díade inicial.
A resolução edipiana que implica na renúncia do amor materno e investimento em outros interesses evidencia a aceitação da interdição do incesto, e também, dos limites que a cultura impõe. Na construção do sistema de parentesco, a renúncia é uma regra estruturante, é aí que se situa o núcleo familiar. Desejo e renúncia estão, dessa maneira, na origem do aparelho psíquico, assim como na origem do sistema social.
O superego, resultado da elaboração edipiana, é o representante da autoridade parental no aparelho psíquico, e é constituído a partir da interação de ambos os genitores e da transmissão geracional que ambos receberam. Sua atuação na vida da criança começa muito cedo, graças aos roteiros que conferem sentido ao seu comportamento. Os eventos vividos pela criança serão sempre interpretados a partir da culpabilidade e sentimentos dos pais e de seus familiares.
De acordo com Solis-Ponton (2004), a família é realmente fonte de identificações e responsável pela elaboração superegoiga da criança, porém, nos nossos dias os arranjos familiares são extremamente complexos e isso pode corresponder a uma dificuldade maior do sujeito para se reconhecer e se manter dentro deles. A família tem passado por mutações as mais diversas como, por exemplo: novas composições familiares, família com um só genitor, reprodução assistida, famílias homoafetivas, entre outras. A família extensa, responsável até há pouco tempo por identificações e cuidados com a criança, foi substituída pelas instituições, o que torna os vínculos mais restritos e as vias de descarga pulsional, limitadas.
Em relação ao ego e a sua função na construção da parentalidade, Solis-Ponton (2004, p. 39) define da seguinte maneira:
Creio que poderíamos propor a existência de um ego parental que se construiria graças à organização das representações infantis de si e dos objetos a favor de uma representação mais evoluída de um modelo triádico em que passa do seu estatuto de criança ao de mãe e pai, o que suporia ver o casal como integração da sexualidade genital heterossexual.
O ego parental se organizaria a partir de quatro fontes: o ideal de ego a partir do narcisismo primário e das primeiras identificações com os cuidados parentais; as relações pré- edipianas; o superego, herdeiro da solução do complexo de Édipo; o après-coup, que designa a temporalidade psíquica que reinterpreta, a posteriori, os eventos vividos na infância.
3.3.2. As implicações da parentalidade
Houzel (2004, p. 47) investiga extensamente as funções e os papéis parentais que estão reagrupados sob a designação de parentalidade, a qual ele compreende da seguinte maneira:
Em essência, o que quer assinalar o conceito de parentalidade é que não basta ser genitor nem ser designado como pai para preencher todas as condições, é necessário “tornar-se pais”, o que se faz por meio de um processo complexo implicando níveis conscientes e inconscientes do funcionamento mental.
A partir de uma pesquisa que envolveu uma dezena de casos complexos e longamente acompanhados, Houzel (2004) definiu três eixos da parentalidade: o exercício da parentalidade, a experiência da parentalidade e a prática da parentalidade.
O exercício é o que funda e organiza a parentalidade, situando cada indivíduo nos seus laços de parentesco e, com eles, direitos e deveres. Os laços são definidos pela consanguinidade e constituem um conjunto genealógico que abriga o indivíduo e é regido por regras de transmissão, pertinência, filiação e alianças. No plano do desenvolvimento psíquico, o exercício está relacionado às interdições que dizem respeito, especialmente, ao tabu do incesto.
A experiência da parentalidade é a experiência subjetiva consciente ou inconsciente do vir a ser pai e compreende aspectos como: o desejo pela criança e o processo de transição em direção à parentalidade. Com o uso de técnicas cada vez mais eficientes de controle da natalidade, o desejo por um filho é uma vivência que se torna cada vez mais conscientemente voluntária, por parte dos pais. A transição é vivida de forma intensa por mulheres e homens, especialmente no período da gravidez. No caso da mulher, os processos identificatórios com a figura materna e paterna se tornam intensos durante esse período, principalmente, pela
necessidade de reparação de objetos parentais. Para os homens, as modificações psíquicas não são tão evidentes como para a mulher, no entanto, os distúrbios psicopatológicos atestam a profundidade das mudanças.
As práticas da parentalidade são constituídas pelas tarefas cotidianas direcionadas à criança e que incluem os cuidados maternais e paternais e também as trocas estabelecidas. Apesar de, inicialmente, o investimento afetivo parecer unilateral, pois os investimentos dos pais são, em número e intensidade, maiores do que da criança, é possível identificar padrões relacionais na criança que diferem da imagem passiva que se faz dela. É possível distinguir alguns tipos de interação que ocorrem de ambas as partes: interações comportamentais, afetivas, fantasmáticas e simbólicas.
A noção de parentalidade aponta para o lugar que a família tem ocupado psiquicamente em seus membros: é um lugar de inscrição da criança numa genealogia e numa filiação, o que é necessário no processo de construção de identidade e humanização; é o lugar de confronto de três diferenças fundadoras do psiquismo: a diferença de si e do outro, a diferença dos sexos e a diferença de gerações.
A parentalidade não pode ser encarada como um processo que se realiza apenas em termos absolutos. Existe o conceito de parentalidade parcial, no qual se enquadram os pais que, mesmo doentes psiquicamente, podem assumir, em parte, algum eixo da parentalidade.
Outra questão a considerar é que as figuras parentais, no seu processo de construção de parentalidade, estão inseridas em contextos que farão toda a diferença nas suas elaborações, como o contexto institucional, por exemplo, que atuará sobre o indivíduo e sua subjetividade, como é possível perceber a seguir.