ANEXO V: Goldman Environmental Prize Concedido à Ruth Buendía Ashaninka
Mapa 4 Financiamento do BNDES em projetos de infraestrutura na América do Sul.
2.2.3. Peru: Início do processo da Internacionalização da Eletrobrás
Os processos de internacionalização da Eletrobrás, iniciado em 2008, e a possibilidade do BNDES de financiar projetos no exterior desenvolvidos por empresas brasileiras, contribuíram fortemente para o avanço das empresas brasileiras no Peru e para a intensificação das negociações para a celebração do Acordo Energético Brasil-Peru. A internacionalização da Eletrobrás foi chave neste processo. Esta internacionalização foi possibilitada legalmente através de alterações em sua legislação institucional, conforme será analisado a seguir.
Em termos de alteração legislativa para concretizar a internacionalização, através da Lei 11.651, de 7 de abril de 200870, houve a permissão para a empresa atuar no mercado internacional segundo determina a nova redação legal:
O artigo 15, 1o ficou conforme segue:
“A Eletrobrás, diretamente ou por meio de suas subsidiárias ou controladas, poder-se-á associar, com ou sem aporte de recursos, para constituição de consórcios empresariais ou participação em sociedades, com ou sem poder de controle, no Brasil ou no exterior, que se destinem direta ou indiretamente à exploração da produção, transmissão ou distribuição de energia elétrica.” (grifos nossos)
Segundo informado em seu website institucional, atualmente, a companhia está focada no continente americano - na interligação energética da América Latina, em particular em países que fazem fronteira com o território brasileiro, buscando oportunidades de investimento no setor
Regional, Cooperação Sul-Sul e Solidariedade. Entretanto, importante notar que o apoio brasileiro para a atuação das campeãs nacionais para utilização do potencial energético e extração de recursos naturais em territórios estrangeiros especialmente em países como o Peru que possui regras mais flexíveis para operação nestes setores do que o Brasil, é razão bastante significativa para o crescimento dos seus lucros. Esta contradição com os valores do discurso da Diplomacia Brasileira é explorada pela campanha transnacional contra o Acordo Energético conforme discutido no item 4.5.3 no capítulo referente à campanha.
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de energia elétrica em outros países, tanto na área de geração - preferencialmente onde exista oportunidade de investir em usinas hidroelétricas - e na área de transmissão71.
Em março de 2010 a empresa divulgou seu novo plano estratégico para o período de 2010- 2020 cuja missão foi alterada para “Atuar nos mercados de energia de forma integrada, rentável e sustentável” e sua visão tornou-se: “Em 2020, ser o maior sistema empresarial global de energia limpa, com rentabilidade comparável as melhores empresas do setor elétrico” (ELETROBRAS, 2010, p. 22 e 26, grifo nosso). Neste plano estratégico de 2010-2020, foram apontados as seguintes principais invariantes e tendências consolidadas no ambiente externo: “o crescimento econômico mundial pressionando os recursos energéticos, alimentícios e hídricos; crescimento da demanda de energia elétrica; diversificação da matriz energética nacional, com aumento da participação de novas fontes renováveis, destacando-se os biocombustíveis, e o crescimento da participação da energia nuclear; predominância da hidreletricidade na geração de energia elétrica no Brasil, com novas usinas hidrelétricas utilizando reservatórios menores; estímulo à maior eficiência energética e à conservação de energia; manutenção da presença do Estado no setor elétrico, tanto como planejador da expansão quanto como empreendedor e financiador de novos projetos; preocupação crescente da sociedade com mudanças climáticas, aumentando as exigências ambientais e obtenção de licenças; incorporação dos requisitos de sustentabilidade nas empresas e nos novos projetos estratégicos” (ELETROBRAS, 2010, pág 6).
Neste sentido, verificamos que o Comunicado sobre a sua internacionalização enviado pela empresa ao mercado realizado em 28.07.2010, estabelece o Peru como um dos países que a empresa deverá focar os estudos para oportunidade de negócios no continente americano, junto com Colômbia, EUA e Argentina. O comunicado estabelece que os empreendimentos a serem explorados deverão atender a seus interesses empresariais e a uma criteriosa avaliação de riscos e oportunidades, e que a avaliação de cada projeto para futuro investimento no exterior será pautada por indicadores e critérios como lucratividade, rentabilidade e retorno dos investimentos. Vejamos:
71 Conforme informações disponíveis no informe “Eletrobrás no Mundo” em
http://www.eletrobras.com/elb/main.asp?ViewID=%7B6C415599-C212-44B7-BC88- 6A52C44E0DAA%7D¶ms=itemID=%7B8262E14B-72CC-4EC1-B5E6-
A636779A72B2%7D;&UIPartUID=%7BD90F22DB-05D4-4644-A8F2-FAD4803C8898%7D . Acesso em 20 de fevereiro de 2015.
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"Em atenção às diversas matérias veiculadas pela imprensa a respeito de futuros investimentos da Eletrobrás no exterior, visando à equalização das informações aos senhores acionistas e ao mercado em geral, esclarecemos que a internacionalização dos negócios da Eletrobrás faz parte do plano
estratégico da Companhia, objetivando expandir seletivamente a atuação
internacional em GTD&C, com foco nas Américas. O Plano Estratégico do Sistema Eletrobras 2010-2020, divulgado em 17 de março de 2010, contém a seguinte declaração:
3.2.5. Internacionalização O Sistema Eletrobrás atuará no mercado internacional de energia elétrica, diretamente ou em consórcio com empresas nacionais ou estrangeiras, para implantação e exploração de empreendimentos, prioritariamente em geração hidráulica e transmissão de
energia, desde que atendam a seus interesses empresariais e a uma criteriosa avaliação de riscos e oportunidades. A atuação do Sistema no mercado
internacional deve ter igualmente em perspectiva a criação de novas oportunidades de investimentos em outros países e a geração de novos mercados para o segmento de fornecedores de bens e serviços. Deverá focar
principalmente as oportunidades de negócios no continente americano, notadamente, na Argentina, na Colômbia, nos Estados Unidos e no Peru. (pg
20, Eletrobrás, 2009)
A análise dos projetos para futuro investimento no exterior, cada um deles em diferentes fases de avaliação, será pautada por indicadores e critérios como
lucratividade, rentabilidade e retorno dos investimentos, não sendo possível,
neste momento, a definição precisa do volume destes investimentos para os próximos anos, que resultarão da conclusão dos estudos. (Grifos nossos) 72"
Segundo análise de CASTRO et al (2011), a estratégia de internacionalização das Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás) foi criada a partir de um estado desenvolvimentista e intervencionista que objetivou atuar na construção de grandes projetos de infra-estrutura, lançando-se no mercado externo com objetivos estratégicos vinculados a retornos financeiros, mas também como instrumento de uma política integracionista do governo brasileiro (CASTRO, J.C. et al, 2011). Castro afirma que a Eletrobrás é considerada uma Campeã Nacional do setor elétrico, nos termos do conceito apresentado em Levêque (2006) apud Castro, 2011), uma vez que atua tanto como instrumento de política do Estado, mas também busca novos
72 Comunicado feito pelo Diretor Financeiro e de Relações com Investidores, Armando Casado de Araújo,
Divisão de Relação com Investidores. Disponível em
http://www.eletrobras.com/elb/main.asp?ViewID=%7BEB7EA1A1-360E-40FA-9360- 742E53C8C220%7D¶ms=itemID=%7BFF869FD2-1114-4312-A421-
47B838054D77%7D;&UIPartUID=%7B9E178D3B-9E55-414B-A540-EB790C1DF788%7D Acesso em 16 de fevereiro de 2015.
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espaços para valorização do capital. (CASTRO, J.C. et al (2011). Leite e Castro (2009) e Pinto Jr. e Dias (2005) citados em CASTRO et al (2011), destacam que há um processo de oligopolização em escala internacional no setor elétrico. Nos cenários internos, em particular nos países europeus, os autores mostram que há políticas de incentivo à formação das Campeãs Nacionais, que são empresas, conforme Lévêque (2006), quer públicas ou privadas, que estão sendo formadas e/ou fortalecidas a partir de políticas de Estado, o que denota a forte influência governamental no setor73(LEITE & CASTRO, 2009 apud CASTRO et al 2011). A participação do Estado sempre foi relevante historicamente, assumindo a responsabilidade planejar, operar, coordenar e administrar a indústria de infraestrutura (PINTO JR. et. al, 2007 apud CASTRO, 2011). Tal estratégia governamental se dá pelo fato de os modelos institucionais vigentes no setor elétrico, em distintos países ou regiões, terem como objetivo principal a garantia no suprimento de eletricidade.
Considerações Parciais
Após a internacionalização da Eletrobrás iniciada em 2008 e consequente instalação de seu escritório em Lima para tratar da América do Sul, foi evidente a intensificação do processo das negociações para a cooperação energética do Brasil, sendo o acordo assinado em 201074.
Em relação à política externa brasileira, a internacionalização da Eletrobrás e das campeãs brasileiras significa “projeção do Brasil no exterior”, porém não é isenta de conflitos e contradições. Neste sentido, concordamos com a Prof. Patrícia Vasconcelos, que afirma que “Apesar das contradições e possíveis conflitos, a internacionalização das empresas corresponde a uma estratégia do Brasil para se projetar regionalmente e internacionalmente, o que insere uma nova perspectiva na relação do Brasil com os países da América do Sul.” (VASCONCELOS, P.M.C.,2014, p.12).”
73 A presente tese não se propõe a analisar profundamente o conceito de campeãs nacionais de Leveque, 2006.
Porém, é evidente que esta politica de favorecimento do Estado às campeãs nacionais consolida fortes grupos empresariais e concentração de capital. Vale ressaltar ainda que esta politica está sendo colocada “em xeque”, uma vez que foram denunciados inúmeros ilícitos ocorridos justamente entre representantes das campeãs nacionais e representantes do governo, como as denunciadas nas operações de Lava Jato em 2015.
74 A intensificação das negociações para o Acordo foi confirmada através da análise dos dados das negociações e
também através de entrevista com Diretor do escritório andino da Eletrobrás, Saul Santana, realizada em 3 de agosto de 2014.
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De fato, a internacionalização de empresas, apesar de suscitar possíveis conflitos com o Estado Brasileiro e contradições com o discurso oficial estatal75, gera novos desafios para a
corporação, como a necessidade de formação de quadros de profissionais sob uma nova cultura e, com conhecimentos voltados a novas tecnologias, meio ambiente, etc. é verdade que ao enfrentar estes desafios, a Eletrobrás se capacita para enfrentar os novos players internacionais que passaram a atuar no Brasil. Desta maneira, a internacionalização de uma empresa permite que desenvolva estratégias para disputar parcerias nos novos empreendimentos. Neste sentido, em 2015 e 2016, a Eletrobrás está mais focada em operações no Uruguai e nas Guianas e em relação ao Peru, aguarda uma mudança de cenário político por parte do governo Peruano no sentido favorável a retomada dos projetos hidrelétricos planejados no âmbito do Acordo Energético.