1. SUPER-HUMANO
1.1. Do mito ao pop: a definição de super-herói
1.1.2. Poderes
O elemento que mais evidentemente diferencia os super-heróis das pessoas comuns são as suas habilidades apuradas ou até mesmo sobrenaturais. O herói consegue cumprir sua missão porque tem a seu favor uma potência para ajudá-lo a superar obstáculos com algum tipo de virtude, sacrifício ou superpoderes. Quase que invariavelmente, esses poderes dizem respeito a habilidades físicas, visto que os super-heróis lutam empregando a violência, ainda que o faça em nome da justiça e da sua missão pró-social (REYNOLDS, 1994, p. 16). O Capitão América é dotado de superforça e resistência por ter se submetido a experimentos científicos que o transformaram em um supersoldado; o Homem de Ferro se vale da alta tecnologia da sua armadura para voar e disparar rajadas de energia; Thor consegue conjurar trovões com seu
lendário martelo mjölnir; Hulk tem a força física de um gigante; Viúva Negra e Gavião Arqueiro não têm superpoderes, mas são extremamente habilidosos com o uso de suas armas.
Hércules, na mitologia grega, é um herói filho da divindade Zeus com a mortal Alcmena, o que lhe confere habilidades de um semideus. Em sua história mais conhecida, Hércules precisa valer-se dessas habilidades para realizar 12 façanhas, tais como matar feras, capturar criaturas mitológicas e obter objetos sagrados. A origem de Hércules como um semideus não é muito diferente da origem alienígena do Superman, enviado à Terra para sobreviver à destruição de Krypton, seu planeta natal. Ambos vivem entre os homens, mas são dotados de superpotências por conta de suas origens extraterrenas e utilizam tais habilidades para realizar feitos grandiosos. Podemos dizer o mesmo da Gilgamesh, na mitologia suméria; ou de Jesus Cristo, nas narrativas bíblicas.
Nas histórias de super-heróis, as origens dos superpoderes encontram-se quase sempre em uma encruzilhada entre a fantasia e o realismo. A explicação da genealogia extraterrena do Superman foi a primeira e possivelmente a mais fácil forma de explicar os superpoderes, além de favorecer o enriquecimento da mitologia do personagem. Algo semelhante é feito com Thor, cujas habilidades especiais se devem à sua natureza enquanto deus do trovão asgardiano. Mas, quando se trata de super-heróis com superpoderes adquiridos, eles também precisam de uma origem logicamente verossímil, sendo recorrente a criação de explicações “científicas” mirabolantes que justificam a sua existência de forma coerente à diegese dos super-heróis (REYNOLDS, 1994, p. 16). Em geral, essa explicação está relacionada à própria missão do personagem, como aponta Coogan (2006). E o fato de a missão pró-social dos super-heróis estar constantemente relacionada a influências políticas, consequentemente sugere o mesmo sobre as origens de várias de suas habilidades.
O experimento pelo qual Steve Rogers passa para se transformar no supersoldado é uma representação do imaginário em torno dos misteriosos laboratórios em que militares desenvolviam estudos com cobaias humanas durante a Segunda Guerra Mundial. A temática dos heróis saídos de tubos de ensaio voltou com força na década de 1960, quando as consequências da radiação e as especulações sobre experimentos científicos secretos durante a Guerra Fria inspiraram as origens de vários super-heróis, como o Homem-Aranha, Hulk, Quarteto Fantástico e muitos outros, como veremos mais à frente.
Durante a Guerra Fria, a personagem Viúva Negra é introduzida como vilã das HQs do Homem de Ferro, em 1964. Natasha Romanoff não tem superpoderes, mas até mesmo as suas habilidades “realistas” se explicam pelo contexto em que a personagem foi criada. Ela é
uma espiã comunista, encerrando em si o pacote de paranoias estadunidenses sobre infiltrados russos na década de 1960: manipuladora, dúbia e fria, ela revela constantemente habilidades inesperadas e tem uma história de origem envolta em mistérios.
Nos recentes filmes de super-heróis, contudo, antagonismos políticos tão explícitos são evitados, uma vez que se tratam de produções conscientes de seu objetivo de atingir público internacional. Por isso, a Viúva Negra do cinema ainda é apresentada como uma espiã em
Homem de Ferro 2, mas longe de ser uma infiltrada inimiga. A personagem no cinema avança
para a sua versão heroína, explorada nos quadrinhos das décadas mais recentes. Ela trabalha para a S.H.I.E.L.D. com Nick Fury e Clint Barton e, embora todos eles ainda mantenham segredos sobre seu passado, parte de suas habilidades são explicadas pelo treinamento dos agentes da organização secreta.
Burke (2015) chama atenção para a recorrência de super-heróis ligados a grandes organizações governamentais, sobretudo a partir dos anos 2000. Nesse período, os Vingadores foram retrabalhados na série de quadrinhos Os Supremos (The Ultimates, Mark Millar; Bryan Hitch, 2002) como um grupo de “pessoas de destruição em massa” formado pela S.H.I.E.L.D. a serviço do governo de George W. Bush para proteger os Estados Unidos do inimigo invisível de ameaças externas após a queda das Torres Gêmeas. De acordo com o quadrinista Jim Lee (apud BURKE, 2015, p. 41), “de certa forma, o governo agora é nossa versão da radiação. A radiação costumava ser a razão pela qual as pessoas ganhavam superpoderes. Agora, é o governo”.12
A versão militarista dos super-heróis veio acompanhada de fortes doses de pessimismo e incertezas quanto ao seu ideal virtuoso, ecoando a opinião pública em relação à ofensiva estadunidense. Servindo ao governo, os super-heróis são tratados como verdadeiras armas que ninguém quer ver fora de controle. Nesse contexto, manifestam-se ao mesmo tempo as duas formas de relação que a sociedade estabelece com os super-heróis, segundo Reynolds (1994): a confiança no vigilantismo salvífico de super-heróis celebridades e a ameaça constante de que esses seres superpoderosos se voltem contra o povo. Entre esses dois extremos, desenvolve-se a figura do anti-herói, personagem dúbio que age alheio à missão benevolente e pró-social. O Hulk é um dos exemplos mais claros dessa dubiedade. A personalidade violenta do monstro toma conta do pacífico Dr. Banner sempre que ele fica nervoso e, embora haja
12 “In some ways, the government is now our version of radiation. Radiation used to be the reason why people
histórias em que Hulk desenvolve certa consciência, ele é uma das primeiras abordagens do lado perigoso dos super-heróis que não têm uma missão clara a perseguir.
Figura 5 – Hulk é acalmado pela Viúva Negra na sequência de Os Vingadores.
Fonte: Os Vingadores: Era de Ultron (2015).
Inspirado na novela gótica O Médico e o Monstro (Strange Case of Dr. Jekyll and
Mr. Hide, Robert Louis Stevenson, 1886), Hulk é um retorno da Marvel Comics, durante a
década de 1960, à abordagem dos personagens superpoderosos explorada na literatura do século 19 e início do século 20. Antes do otimismo e dos acenos messiânicos difundidos pelo Superman em 1938, a ideia de um ser superpoderoso vinha muitas vezes acompanhada do perigo iminente de essa figura se transformar em uma ameaça à humanidade. A literatura de ficção científica baseada em criaturas sobre-humanas, como Frankenstein, de Marry Shelley (1818) e Homem Invisível, de H. G. Wells (1897), trazia seus super-homens protagonistas não como heróis, mas como monstros.
Com o passar do tempo, a fórmula do personagem super-humano na literatura passou pelas três formas analisadas por Coogan (2006, p. 143): a divindade governante, o destruidor implacável e, finalmente, o salvador. Nas páginas dos pulps, essa passagem ocorreu quando os superpoderes se uniram às missões à serviço da sociedade, sob influência do conceito nietzschiano do super-homem [Übermensch] – o além-do-homem, tido como uma elevação futura da humanidade, superior aos homens ordinários (ver BILATE, 2014). O conceito filosófico foi apropriado e controversamente retrabalhado nessas publicações a fim de garantir longevidade às publicações serializadas: um ser superpoderoso contra a humanidade poderia simplesmente dizimá-la ou dar fim à própria vida tediosa em poucas páginas. Por isso, as
histórias passaram a introduzir vilões ainda mais poderosos que valessem algum obstáculo aos implacáveis super-homens. Nesse movimento de mudança, a anterior ameaça se tornou a figura salvadora, com a missão de defender a humanidade contra um perigo maior. Desse modo, os personagens superpoderosos estavam a um passo de se tornarem super-heróis.