2. EXECUÇÃO FISCAL – ALGUMAS NOÇÕES IMPORTANTES
2.1.1 Princípios constitucionais aplicáveis aos processos de execução e de
2.1.1.3 Princípio do devido processo legal e da ampla defesa e
O princípio do Devido Processo Legal encontra-se previsto no artigo 5º, LIV, da Carta Constitucional, e determina que ―ninguém será privado da liberdade ou de seus bens
sem o devido processo legal‖. Atrelado a este princípio, encontra-se o direito à ampla
defesa e contraditório, previsto no inciso LV, do mesmo artigo 5º: ―aos litigantes, em
processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes‖, de modo que
―vulnerar um é o mesmo que ferir de morte o outro‖.161
Como observa Paulo de Barros Carvalho, ―o devido processo legal é instrumento
básico para preservar direitos e assegurar garantias, tornando concreta a busca da tutela jurisdicional ou a manifestação derradeira do Poder Público, em problemas de cunho administrativo‖.162
Ada Pellegrini Grinover ressalta que o devido processo legal deve ser analisado tanto sob o seu perfil subjetivo quanto o objetivo, na medida em que citado princípio não se limita ao direito subjetivo da ação e da defesa:
Garantia das partes e do próprio processo: eis o enfoque completo e harmonioso do conteúdo da cláusula do devido processo legal, que não se limite ao perfil subjetivo da ação e da defesa como direitos, mas que acentue, também e especialmente, seu perfil objetivo. Garantias, não apenas das partes, mas, sobretudo da jurisdição: porque se, de um lado, é interesse dos litigantes a efetiva e plena possibilidade de sustentarem suas razões, de produzirem suas provas, de influírem concretamente sobre a formação do convencimento do juiz, do outro lado essa efetiva e plena possibilidade constitui a própria garantia da regularidade do processo, da imparcialidade do juiz, da justiça das decisões.163
161 Roque Antonio Carrazza. Curso de direito constitucional tributário, p. 428. 162 Curso de direito tributário, p. 161.
163 Ada Pellegrini Grinover. O processo constitucional em marcha – Contraditório e ampla defesa
77 Para que os princípios do devido processo legal, e da ampla defesa e contraditório possam prevalecer, faz-se importante, ainda, a observância de outra cláusula constitucional, consistente no dever de fundamentação das decisões, previstos no artigo 93, X, da Constituição Federal. Afinal, se o cidadão desconhece as razões determinantes para determinado ato, não terá como exercer efetivamente seu direito de defesa. Nesse sentido são as lições de Alberto Xavier:
Um pressuposto do direito de ampla defesa, do princípio do contraditório e do direito de acesso ao Poder Judiciário consiste no dever de fundamentação expressa dos atos administrativos que afetam direitos ou interesses legítimos dos particulares. Com efeito, só a externação das razões de fato e de direito que conduziram a autoridade à prática de certo ato permitem ao cidadão compreender a decisão e livremente optar entre aceitá-la ou impugná-la administrativa ou jurisdicionalmente. Também só com essa externação será possível ao órgão julgador controlar a validade do ato impugnado.164
Assim, para que possamos falar na aplicação do devido processo legal, temos sempre que ter em mente também os princípios da ampla defesa e contraditório, bem como o dever de fundamentação das decisões. Somente dessa forma, fica assegurado à parte o devido processo legal. A correlação entre estes princípios é bem concatenada por Leon Frejda Szklarowsky:
Por outro lado, reza a Constituição Federal que ―ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal‖ (art. 5º, LIV), assim entendido o processo que assegura aos litigantes ―o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes‖ (art. 5º, LV). Desse conjunto de garantias decorre o princípio da segurança jurídica, de cuja densidade se pode extrair que não apenas a liberdade, mas também os bens em sentido amplo (inclusive, pois, os direitos subjetivos de qualquer espécie) hão de permanecer sob a disposição de quem os detém e deles se considera titular, até que se esgote o devido processo legal. Dele decorre o que se denominou de direito à liberdade jurídica, que ―tem por objeto a liberdade de exercer os direitos contestados, até que se demonstre judicialmente que esse direito não existe ou que pertence a outrem‖.165
Como observa Elpídio Donizetti, ―o contraditório existente na execução é limitado,
restringe-se a aspectos formais do título ou à própria execução, como, por exemplo, o valor dos bens penhorados, jamais ao direito consubstanciado no título‖.166 A parte
164 Do lançamento no direito tributário brasileiro, p. 178.
165 Leon Frejda Szklarowsky. A Lei de Execução Fiscal – o contencioso administrativo e a penhora administrativa. Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, vol. 9, n. 3, p. 37-57, Brasília, jul./set. 1997.
78 exercita o direito subjetivo à ação para obter a satisfação de direito já definido no título executivo.
No entanto, ―o executado tem o inequívoco direito de ver seu patrimônio, composto
de bens materiais ou imateriais, retirado de sua esfera jurídica com a estrita observância das prescrições dos procedimentos antecipadamente previstos em lei‖,167 o que inclui, por óbvio, o seu direito à ampla defesa e contraditório, manifestado no direito de opor-se à execução por meio de embargos. Nesse sentido são as lições de José Frederico Marques:
Mas, no processo executivo, o devedor não pode atacar, contestar ou impugnar a validade e eficácia do título executivo, para livrar-se dos atos de coerção processual sobre seu patrimônio. Não se ajusta à índole da execução forçada, à sua estrutura processual e respectivo procedimento, a formação, em seu seio, de litígio a ser resolvido por meio de processo de conhecimento. E como o devido
processo legal impõe que, em certas circunstâncias, dê-se ao devedor o direito de
opor-se à execução, surgiram os embargos do executado, como instrumento específico para exercer ele sua defesa e atacar o título executivo.168
Verificamos, assim, que, conquanto no processo executivo, o contraditório seja mais limitado, o legislador cuidou de resguardar o direito do executado ao devido processo legal, conferindo-lhe a oportunidade de questionar o próprio título executivo por meio de ação própria, qual seja, os embargos à execução, que adiante será objeto de maior aprofundamento. Trata-se de um verdadeiro direito fundamental processual, donde se pode falar, com propriedade, em direito ao contraditório.169
Por ora, fiquemos com a ideia de que os princípios do devido processo legal, ampla defesa e contraditório encontram aplicação ilimitada na ação de embargos.