CULTURA MATERIAL E O PLATÔ DE BENJAMIM NO FERRO I-IIA
Mapa 3.1 Quadriculamento do Levantamento do sul de Samaria
Segundo os arqueólogos, a área ao sul de Samaria foi afetada e delimitada por quatro forças distintas. Longitudinalmente, duas cidades de força política e econômica que se tornaram proeminentes no decorrer da história: Siquém ao norte e Jerusalém ao sul. Latitudinalmente, havia duas regiões que pressionavam a região, a oeste os assentamentos costeiros tinham forte poder comercial, enquanto ao leste as zonas áridas impossibilitavam uma expansão até o Jordão. Fora isso, a região era cortada longitudinalmente, i.e., de norte a sul, pela rota que ligava Siquém a Jerusalém, fazendo que as cidades, vilas e aldeias se organizassem em redor dessa rota. Além disso, três rotas subiam da planície costeira às terras altas, uma ao sul, partindo passando Bete-
Horom, a segunda intitulada Aphek-Antipatris-Gophna, ao centro, e a estrada de Aphek até Tappuah ao norte da região.(FINKELSTEIN; LEDERMAN, 1997, p. 5)
Os usos da terra, especialmente ligados às características geográficas , foram 161
discutidos por Israel Finkelstein (1997a) no relatório do levantamento, observando dados modernos e pressupondo mudanças nas práticas entre gerações antigas e modernas que, respectivamente, ou se amoldavam à paisagem ou moldavam a paisagem que viviam (LEV-YADUN, 1997, p. 85). Segundo tais dados, Finkelstein distinguiu as diferentes atividades econômicas da região, pelas características naturais da região e histórico de produção, extrapolando os dados quando necessário, para assinalar diferentes cultivos. Das áreas que nos concernem, as encostas sul-ocidentais tinha primariamente abundância de oliveiras e, possivelmente videiras, mais que as demais regiões (FINKELSTEIN, 1997a, p. 117), enquanto a extensão central sul, mais próxima de zonas áridas a leste, tinha predominância de cultivo de cereais a leste e criação de animais, especialmente ovelhas e caprinos, a oeste, embora de forma bastante limitada (FINKELSTEIN, 1997a, p. 117). Dessa forma, é possível propor que a extensão central sul fosse mais propícia ao acúmulo, armazenamento e centralização sócio-política. Isso pode ser defendido pelo fato de que a densidade populacional de cada vila é muito superior do que as demais regiões. Enquanto as encostas sul- ocidentais eram mais propícias ao cultivo e descentralização.
É importante apontar, nesse entremeio, que a região ao sul de Samaria, onde está situada a Efraim retratada pelos textos bíblicos e, também, a Benjamim bíblica, quando comparada à região norte de Samaria e ao sul, em Judá, tem um clima intermediário. Segundo Finkelstein (1994, p. 158), as terras altas judaítas tem formações rochosas e áreas de estepe que impossibilitam a agricultura, enquanto o norte de Samaria, com vales de topografia moderada e estepes férteis são mais convidativos ao cultivo. A área entre essas duas áreas, denominada no levantamento de sul de Samaria, tem clima mediterrâneo típico, i.e., “com invernos chuvosos e verões secos” e com neve “nas partes mais altas da região, mas não todos os anos” e apenas por um dia ou dois. A precipitação anual é de aproximadamente 500 até 600 mm e, nas áreas desérticas, de
Para a compreensão geográfica, Finkelstein (1997b) se baseia nos estudos geológicos e hidrográficos 161
menos de 400 mm (LEV-YADUN, 1997, p. 85) . A vegetação entre os períodos do 162
Bronze e Ferro I permaneceram quase inalteradas, segundo Lev-Yadun, com vegetação mista entre florestas e maquis mediterrâneos . A floresta teria sido dominada por 163
Quercus Calliprinos (carvalho palestino), além de conter Pistacia palaestina (terebinto). Essas árvores atingiam alturas entre 5 e 15 m de altura. As partes mais rochosas provavelmente sofreram erosão anterior, e mantém-se um alto número de arbustos como salgueiros (lat. Salix acmophylla) e oleandros (lat. Nerium oleander) e maquis, com árvores que podiam medir entre 2 e 8 m de altura. Tal padrão teria se modificado no Ferro II, quando arbustos crescem nas áreas danificadas por erosão, onde antes havia florestas. A vegetação mais resistente ao fogo se tornou comum, desse momento em diante. Lev-Yadun (1997, p. 88-101) supõe que algumas árvores maiores teriam resistido, por serem conectadas à vida social e/ou religiosa. Nesse aspecto, é importante observar que oliveiras cresciam ao redor dos assentamentos, a partir do período do Ferro II, sendo um dos principais commodities produzidos na região.
Finkelstein (1994, p. 160-161), antes da publicação do levantamento, mas já lidando com seus dados, demonstrou a diferença do padrão de assentamentos a oeste e leste em perspectiva diacrônica, propondo interpretação. Segundo ele, 75% dos sítios do Ferro I estavam concentrados na região oriental, próximo à região árida. Essa configuração teria se modificado no Ferro II. Para Finkelstein (1994, p. 161), há duas explicações possíveis: (1) no começo do processo de assentamento, com menor número de habitantes, os contingentes populacionais teriam optado por áreas topograficamente moderadas e de agricultura promissora, i.e., a margem desértica, vales intermontanos e áreas planas; (2) no começo do processo de assentamento, os novos habitantes teriam escolhidos áreas mais promissoras segundo seus planos de fundo sócio-econômicos, i.e., pastoris e de agricultura de sequeiros. As diferenças ecológicas das montanhas ao norte e ao sul, teriam gerado diferentes padrões de assentamentos, onde o norte de Siquém seria o mais densamente ocupado, com grandes sítios e pouca evidência de atividade não sedentária, enquanto Judá seria
Um clima que seria tipicamente mediterrâneo, como apontou Lev-Yadun (1997, p. 85): “The climate of 162
most of this area is typical Mediterranean, with rainy winters and dry summers. Snow may fall in the higher parts of the region, but not every year, and when it does, it is usually only for a day or two. The average annual precipitation ranges from about 500 to 650 mm over most of the area. In the narrow belt of the Desert Fringe in the east, the average annual precipitation decreases to less than 400mm”.
Segundo o OED, “maquis” seria a “Dense scrub vegetation consisting of hardy evergreen shrubs and 163
parcamente habitada até o Ferro II e o sul de Samaria seria ocupado por contingentes quase similares de grupos sedentários e pastoris (FINKELSTEIN, 1994, p. 158-159) .164
3.3.1.2 Levantamento da região de Benjamim por Finkelstein e Magen
O Levantamento da Região Montanhosa de Benjamim foi dirigido por Yitzhak Magen e conduzida entre os anos de 1982 e 1986. Sua meta era atingir dois objetivos. Primeiro, apresentar um novo mapa da região a partir das especificações do Archaeological Survey of Israel, i.e., mapas de 1:20.000. Segundo, a apresentação de um mapa histórico-geográfico que serviria para novas pesquisas. O primeiro objetivo não foi concretizado, visto que algumas regiões, especialmente aquelas próximas à região de Jerusalém, tiveram que ser descartadas da publicação. Por se tratar de uma área que se sobrepunha às delimitações do Levantamento do sul de Samaria, algumas partes foram integradas com os levantamentos realizados por Israel Finkelstein. O motivo para tal empreitada foi, além da importância histórico-religiosa da região, sendo “aqui as raízes da monarquia israelita, aqui o assento dos exilados que retornaram no Período Persa e aqui que a infraestrutura, religiosa, política e militar da monarquia hasmonéia foi consolidada” (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, p. 5* ). O projeto foi 165
conduzido em nome do Israel Antiquities Authority, pela Civil Administration in Judea and Samaria, The Archaeological Staff Officer of Judea and Samaria e a Society for the Archaeological Survey of Israel. O projeto foi financiado também pelo National Council for Research and Development, além das instituições responsáveis pelo Levantamento do sul de Samaria, acima mencionadas. Os resultados foram publicados por Israel Finkelstein e Yitzhak Magen (1993), sendo o primeiro responsável pela análise científica, especialmente cerâmica, e o segundo sendo o responsável geral.
O levantamento foi feito sobre uma região de 500 km2 , procurando documentar o
máximo de terreno e artefatos. Para esse segundo aspecto, algumas pequenas escavações foram conduzidas. Cinco equipes foram designadas a cinco áreas distintas, a saber: (1) arredores de Jerusalém (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, mapa 17-13), por Uri Dinur e Nurit Feig; (2) el-Bireh (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, mapa 17-14), por Niza Hanin; (3) Ramallah (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, mapa 16-14), por Giora Kidron, Amir Feldstein e David Amit; (4) Wadi el-Makukh (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, mapa 18-14),
Os dados de Finkelstein podem ser atualizados pelas publicação do levantamento de Samaria. Para 164
interpretação recente e reavaliação dos dados e hipóteses vigentes, veja acima e GADOT, 2017, p. 105. O levantamento de Benjamim apresenta um asterisco nas páginas escritas em língua inglesa.
por Hayim Goldfus e Amir Golani; (5) Beit-Sira (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, mapa 15-14), por Hananiah Hizmi. Os encarregados de fazer caminhadas de campo, na qual coletavam (i.e.., amostragem), registravam e classificavam os achados, além de prepararem fotografias e figuras. A redação final foi feita por Finkelstein, tal qual reconsiderações cerâmicas e análises conjunturais da publicação final.
O empreendimento observou 544 ruínas arqueológicas da região de Benjamim, assinalando suas ocupações por vestígios arquitetônicos e, principalmente, pela cerâmica, essa dividida entre os períodos: Calcolítico (Cal.); Bronze Antigo (BA); Bronze Intermediário (BI); Bronze Médio (BM); Bronze Tardio (BT); Ferro I (F I); Ferro II (F II); Persa (Per.); Helenístico (Hel.); Romano (Rom.); Bizantino (Biz.); Islâmico Antigo (IA); Medieval (Med.); Otomano (Ot.). Em aspectos quantitativos, o levantamento pode ajudar a recompor mudanças demográficas na região. Na tabela abaixo (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, p. 440-465) apresento os assentamentos identificados. Na primeira coluna, está o número de assentamentos com forte presença material e, na segunda, assentamentos duvidosos, com vestígios materiais fracos ou mesmo incertos:
Tabela 3.2 Assentamentos na região de Benjamim
É importante assinalar que levantamentos arqueológicos que utilizam o método de caminhadas de campo e amostragem estão sujeitos a distorções nos períodos anteriores, por fatores tão variados quanto erosão, perda ou reutilização de material etc. Isso significa que os números do Período do Ferro, ainda que menores, talvez sejam mais significativos que, p.ex., do período Romano, visto que os materiais desse último estão mais próximos às camadas superficiais, facilitando a possibilidade de serem achados. De igual modo, é próprio apontar que o grau de assentamentos duvidosos é mais significativo em camadas anteriores que posteriores.
Apesar dessas distorções, é interessante notar nos números acima o declínio de vestígios encontrados no Período do Bronze Tardio e a grande renovação da região a partir do Período do Ferro I. Essa renovação aparentemente se deu na parte central da região, especialmente ao redor dos platôs de Beitin e el-Jîb (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, p. 448-449, mapa 5). O deslocamento é significativo quando contraposto ao do
Cal BA BI BM BT F I F II Per Hel. Rom Biz. IA Med Ot
7 19 15 67 2 45 159 40 158 217 305 89 129 106
Período do Ferro II, onde há mais habitações nas proximidades do platô de Jerusalém (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, p. 450-451, mapa 6). Os períodos Helenístico e Romano apresentam outro deslocamento, agora para o oeste de el-Jîb e, também, mais recentes (FINKELSTEIN; MAGEN, 1993, p. 454-457, mapas 8-9).
Os dados acima foram utilizados por Israel Finkelstein em uma série de obras. O arqueólogo enxergou dois processos distintos, ao analisar os dados regionalmente e em perspectiva de longa duração. Nas montanhas, por um lado, teria ocorrido “uma onda de assentamentos que pode ter iniciado tão cedo quanto no final do século XIII a.C. e acelerado nos séculos XII e XI a.C” (FINKELSTEIN, 2015a, p. 39). Esse movimento teria resultado num aumento de aproximadamente 30 sítios no Final do Bronze II, com uma área total de 50 hectares, para 250 sítios com uma área de 220 hectares, dois séculos depois, no final do Ferro I (início do século X aEC). Nas terras baixas, por outro lado, Finkelstein sugere o renascimento da antiga ordem do período do Bronze, que ele intitula “Nova Canaã”. Esse panorama seria visível nos grandes centros do Bronze Tardio que teriam se recuperado das destruições do séc. XII aEC e se mantido vivos durante as camadas do Período do Ferro I, como Megido, Bete-Seã, Tell Wawiyat e Erin Sephorris (FINKELSTEIN, 2015a, p. 45-46). Na região montanhosa central, poucas cidades permaneceram e, mesmo essas, com poder diminuto, como foi o caso de Tell Balatah (Siquém?), que reutilizou, entre 1450-1100 aEC, estruturas prévias para se manter (cf. CARDOSO, S., 2015c). Ao lado desses poucos sítios que restaram do período, um grande número de pequenos assentamentos indistintos se estabeleceu na região, formando um novo panorama regional.
Sobre a região de Benjamim, Finkelstein (2006) argumentou que há similaridade entre a expansão de Labayu e seus filhos no tempo de Amarna (séc. 14 aEC) e a dos “saulidas” (séc. 10 aEC) na região montanhosa central. Segundo Finkelstein (2006, p. 166
179), haveria um padrão de chefaturas da região montanhosa central que, ao se estabelecerem, tentar migrar para as planícies e muito embora tanto Labayu quanto Saul tenham falhado, os omridas teriam conseguido alcançar êxito na empreitada pouco tempo depois (cf. FINKELSTEIN; NA’AMAN, 2006). Saul teria, nesse ínterim, conseguido alcançar um grande número de terras indiretamente, alcançando a fronteira com o vale de Jezreel, Gileade, as montanhas de Efraim e, talvez, até a região da Sefelá (FINKELSTEIN, 2006, p. 178-179). É importante anotar a distinção entre o platô de Que não representam necessariamente a figura histórica de Saul. Os textos bíblicos, nessa questão, 166
Benjamim, como pensado a partir das características geológicas e naturais e a unidade política originada em Benjamim, que teria dominado essas áreas.
3.3.1.3 Dicionário geográfico de sítios do Ferro I por Robert D. Miller II
Robert D. Miller II (1998, 1999) elaborou um dicionário geográfico (ing. gazetteer) de todos os sítios arqueológicos conhecidos do Ferro I nas montanhas do centro e norte de Canaã no período do Ferro I para sua tese doutoral. As análises e considerações históricas de sua tese de doutorado (MILLER II, 1998), entretanto, não chegaram a integrar uma mesma publicação, mas foram publicadas separadamente e a partir de temáticas agregadoras, como: no livro onde defende o modelo de cacicados ou chefaturas complexas (ing. Complex Chiefdoms) para a região montanhosa central de Canaã dos sécs. XII-XI aEC (MILLER II, 2005); no artigo que discute as origens de Israel (MILLER II, 2004); no capítulo que trata da economia agrícola de Israel no Ferro I (MILLER II, 2003); e, também, no texto que discute o que chama de “Nova História Cultural” do Israel Primitivo (MILLER II, 2010; cf. MILLER II, 1998, p. 184-192).
A mais abrangente análise de Miller II (2005) foi a publicada no livro “Chieftains of Highland Clans” (pt. Chefaturas dos Clãs das Montanhas), que apresenta a maior parte das conclusões de sua tese de doutorado revisadas. No livro, Miller II defende que a região de Benjamim teria tido, muito provavelmente, no período do Ferro I, o modelo de chefaturas complexas . O modelo de chefaturas complexos seriam “sociedades pré-167
estatais com com ranqueamento atributivo e mais de um nível de controle político além da comunidade de base, com uma esquematização das economias tributárias e hierarquias políticas” (MILLER II, 2005, p. xiv). . Seguindo estudos antropológicos, o 168
autor cita três características principais do modelo: (1) movimentação de tributos (en. tribute mobilization), i.e., não há redistribuição de bens necessários para sobrevivência, visto que as sub-unidades seriam auto-suficientes, mas a distribuição de bens como sinal de favorecimento; (2) alternância (en. cycling), i.e., alternância entre dois ou três níveis de poder a cada 15 anos e a cada 150 anos com novas dinastias; (3) sacralização, i.e., os processos pelos quais a genealogia dos líderes é manipulada para atender a linhagens ancestrais legitimatórias (MILLER II, 2005, p. 8-13).
Outros sistemas com mesmo sistema de governo, segundo a pesquisa de Miller, seriam o de Tell 167
Balatah (Siquém) e, provavelmente, Khirbet Seilun (MILLER II, 2005, p. 81-82).
Ing.: “pre-state societies with ascriptive rank and more than one level of political control above the base 168
Para Miller II (2005, p. 81), tais características são visualizadas em Benjamim ao se constatar que os centros da região tinham, no período do Ferro 1: (1) importações, exceto Raddana, que demonstrariam a movimentação de tributos e relação entre os sítios da região; (2) evidência de sistemas de defesa, demonstrando tensões de poder na região e, também, políticas de defesa supra-localizadas; (3) hierarquia residencial, apontando para a elevação e distinção social. Outra contribuição na obra do autor é sua interpretação dos dados arqueológicos da região. Para Miller II (2005, p. 29-30),
há uma complexa matriz de sítios na extremidade sul da área de estudos, na região de el-Jîb (sítio #403), Tell en-Nasḅeh (sítio #404), Khirbet Raddana (sítio #402), Tell el-Fûl (sítio #400), Et-Tell (sítio #401) e Beitin (sítio #419; p.ex., rd dos textos da 19ª Dinastia). A complexidade desse último sistema, combinada com a consecutiva natureza de centros de nível A (não confundir com sítios “Classe” A) no sistema (…), requereu deixar e parte mais ao sul da região de “Benjamim” fora dos mapas que se seguem. 169
Apesar de declinar do mapeamento de gravidade de insumos no período para estabelecer relações comerciais, como faz para os outros centros da região montanhosa central, o autor explora a diacronia de Benjamim (MILLER II, 2005, p. 64). Segundo ele, o grande número de escavações de grandes sítios na região que pertence ao período do Ferro I possibilitam o projeto (MILLER II, 2005, p. 64). Para Miller II (2005, p. 64-66), no início do período do Ferro, que ele data entre 1200-1000, haveria uma série de “cidades” na região, representadas por: (1) Tell el-Fûl I, uma cidade de 1.35 ha com muralhas; (2) Et-Tell no Stratum da “Rua de Paralelepípedos” , uma cidade não 170
murada com 11 ha; (3) Beitin I já existia e evidenciava luxo e segregação social; (4) Khirbet Raddana Fase 2, uma cidade murada de 1.2 ha; (5) el-Jîb do Período 1 ; (6) 171
Tell en-Nasḅeh Stratum 4 já era uma vila. Dentre esses, os maiores centros desse período inicial, segundo Miller, seriam Et-Tell e el-Jîb.
Algumas destruições posteriores ajudam a datar as próximas fases. Embora Beitin tenha sido destruída em 1175 e, logo depois, reconstruída, a primeira mudança regional se deu ao redor de 1150. Nessa época, Tell el-Fûl e Et-Tell foram destruídas e abandonadas e, enquanto isso, Khirbet Raddana teria sido remodelada para sua Fase 3
Ing.: “there is a complex matrix of sites at the southern edge of the study area in the region of el-Jîb (Site 169
#403), Tell en-Nasḅeh (Site #404), Khirbet Raddanah (Site #402), Tell el-Fûl (Site #400), Et-Tell (Site #401), and Beitin (Site #419; e.g., rd of 19th-Dynasty texts). The complexity of this last system, combined with the consecutive nature of the A-level (not to be confused with the size “Class” A) centers within it (…), requires leaving this southernmost “Benjamin” region out of the mapping that follows”.
Segundo Miller, equivalente ao Stratum Intermediário IX, que seria igual ao Nível Ia e igual à Fase II. 170
Também chamada por Miller de “Período pré-fortaleza” 171
e Khirbet ed-Dawwara fundada como uma espécie de forte-da-colina. Duas décadas depois Et-Tell teria sido reconstruída para o Nível 1b, atingindo níveis de população similares ao da renovação de Khirbet Raddana. Miller II (2005, p. 67) problematiza as mudanças, aparentemente pressupondo movimentos sócio-político:
Algo sério claramente ocorreu na região. O que quer que tenha destruído Tell el-Fûl e Et-Tell resultou na superpopulação de Khirbet Raddana e de Et-Tell após ter sido reconstruída. Mas por que ela foi reconstruída e Tell el-Fûl não (e não seria por cem anos)? Talvez a destruição de Beitin em 1175 esteja de alguma forma conectada a esse evento. E quanto ao sítio de Khirbet ed-Dawwara? Enquanto todos estão decaindo, um novo sítio é fundado ali, que é um forte da montanha murado, apesar de seu tamanho diminuto (um “bairro” na definição precisa do termo como um aglomerado fortificado de residências). 172
Em 1050 há mudanças na região: Raddana 3 é destruída e abandonada para sempre, Tell el-Fûl é reconstruída no Nível II e Beitin 3 é destruída e reconstruída como Fase 4a, com alvenaria de qualidade, novas características cerâmicas e escaravelhos. Para Miller, com a derrocada de Raddana, houve espaço para o crescimento de Tell el- Fûl e Beitin, sendo el-Fûl o maior centro da região. Há discussões, segundo ele, se Tell el-Fûl II teria se tornado filistéia na época. Não há, porém, cerâmica filistéia na cidade e em en-Nasḅeh, único local que se produzia cerâmica filistéia, não havia fortificações no período, tornando a existência de uma guarnição filistéia na região improvável. O período encerrou-se com uma onda de destruições: (1) Tell el-Fûl II foi queimada; (2) Et- Tell foi destruída no Nível II = Fase XI; (3) Tell en-Nasḅeh Stratum 4 foi destruída; (4) El- Jîb foi destruída. Apenas Beitin teria se mantido ao final desse período, o que é curioso, visto seu histórico (MILLER II, 2005, p. 67-68).
Embora apresente um desenvolvimento diacrônico dos sítios da região, associados com movimentos (possivelmente) sociais, duas observações devem ser assinaladas. Em primeiro lugar, Miller II (2005, p. 27) marca suas discussões sobre a cronologia tradicional, ao invés da nova cronologia do Ferro I levantada por Israel Finkelstein para o Ferro I visto que, segundo ele, “o fardo da prova ainda parece estar sobre Finkelstein e suas revisões não serão aceitas aqui [nesse estudo]” . Embora 173
Ing.: “Something serious had clearly happened in the region. Whatever destroyed Tell el-Fûl and Et-Tell 172
resulted in the overcrowding of Khirbet Raddanah, and of Et-Tell after it was rebuilt. But why was it rebuilt and Tell el-Fûl not (and would not be for a hundred years)? Perhaps the destruction of Beitin in 1175 was somehow connected with this event. What of the site of Khirbet ed-Dawwara? When everything is taking a downturn, a new site is founded here, which is a walled hill-fort despite its small