Uniformização de Jurisprudência
RELATÓRIO
Trata-se de incidente de cancelamento de súmula proposta pela Desembargadora Vera Andrighi, Presidente da 1ª Turma Cível desta egrégia Corte.
Pretende a Requerente seja cancela a Súmula nº 9 do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, assim redigida:
“É cabível a prisão civil de devedor que não efetua a entrega do bem alienado fiduciariamente”.
Alega que o cancelamento originou-se dos autos do HC 2008.00.2.005713-4, no qual foi determinada a prisão civil do impetrante porque considerado depositário infiel de bem em ação de execução.
Salienta que a orientação da súmula impugnada mostra-se contrária ao posicionamento adotado pelo Supremo Tribunal Federal, motivo pelo qual, entende que a matéria deve ser revista.
O Presidente desta Corte determinou o processamento do incidente perante o Tribunal Pleno.
O Ministério Público oficia pela procedência do pleito para o fim de cancelar a Súmula nº 09 do TJDFT.
É o relatório.
VOTOS
Des. Romeu Gonzaga Neiva (Relator) - A Desembargadora Vera Andrighi,
Presidente da 1ª Turma Cível desta egrégia Corte, bem como os demais componentes daquele órgão julgador pretendem o cancelamento a Súmula nº 9 do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, segundo a qual, “é cabível a prisão civil de devedor que não efetua a entrega do bem alienado fiduciariamente”.
Fundamenta seu pleito na alegação de que o enunciado da referida Súmula diverge do posicionamento adotado pela Corte Suprema de Justiça.
Referida súmula foi editada em razão da disposição contida no art. 5º, LXVII da Constituição Federal de 1988, que prevê a possibilidade de decretação de prisão civil em decorrência de inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel.
A matéria sempre foi objeto de interpretações diversas, acarretando discussões em todas as instâncias judiciárias. Recentemente, contudo, o Supremo Tribunal Federal, por maioria, decidiu:
47 R. Dout. Jurisp., Brasília, (93): 45-490, maio/ago. 2010 Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
“DEPOSITÁRIO INFIEL - PRISÃO.
A subscrição pelo Brasil do Pacto de São José da Costa Rica, limitando a prisão civil por dívida ao descumprimento inescusá- vel de prestação alimentícia, implicou a derrogação das normas estritamente legais referentes à prisão do depositário infiel.” (HC 89634 / SP - SÃO PAULO, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Julgamento: 24/03/2009, Publicação DJe-079 de 30-04-2009)
“HABEAS CORPUS. SALVO-CONDUTO. PRISÃO CIVIL. DEPOSITÁRIO JUDICIAL. DÍVIDA DE CARÁTER NÃO ALIMENTAR. IMPOSSIBILIDADE. ORDEM CONCEDI- DA.
1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal firmou a orientação de que só é possível a prisão civil do “responsável pelo inadimple- mento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia” (inciso LXVII do art. 5º da CF/88). Precedentes: HCs 87.585 e 92.566, da relatoria do ministro Marco Aurélio.
2. A norma que se extrai do inciso LXVII do artigo 5º da Consti- tuição Federal é de eficácia restringível. Pelo que as duas exceções nela contidas podem ser aportadas por lei, quebrantando, assim, a força protetora da proibição, como regra geral, da prisão civil por dívida.
3. O Pacto de San José da Costa Rica (ratificado pelo Brasil - Decreto 678 de 6 de novembro de 1992), para valer como norma jurídica interna do Brasil, há de ter como fundamento de validade o § 2º do artigo 5º da Magna Carta. A se contrapor, então, a qualquer norma ordinária originariamente brasileira que preveja a prisão civil por dívida. Noutros termos: o Pacto de San José da Costa Rica, passando a ter como fundamento de validade o § 2º do art. 5º da CF/88, prevalece como norma supralegal em nossa ordem jurídica interna e, assim, proíbe a prisão civil por dívida. Não é norma constitucional — à falta do rito exigido pelo § 3º do art. 5º —, mas a sua hierarquia intermediária de norma supralegal autoriza afastar regra ordinária brasileira que possibilite a prisão civil por dívida.
4. No caso, o paciente corre o risco de ver contra si expedido mandado prisional por se encontrar na situação de infiel depo- sitário judicial.
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5. Ordem concedida.” (HC 94013 / SP - SÃO PAULO
HABEAS CORPUS, Relator(a): Min. CARLOS BRITTO, Julga-
mento: 10/02/2009, Órgão Julgador: Primeira Turma, Publicação DJe-048 de 13-03-2009)
Em face disso, em consoante acertadamente exposto no parecer do Ministério Público subscrito pela Dra. Maria Aparecida Donati Barbosa, in verbis (fl. 25):
“Diante da nova orientação emanada do Pretório Excelso, no sentido de que o Pacto de São José da Costa Rica possui status de norma supralegal, pode-se concluir que a segunda parte do inciso LXVII do art. 5º da CF, que prevê a possibilidade de prisão civil do depositário infiel, teve sua aplicabilidade obstada, em que pese não ter sido revogada.
Tanto é assim que o Supremo Tribunal Federal, ao finalizar o julga- mento do HC nº 87.585, determinou a revogação de seu verbete sumular nº 619, que assim estabelecia: ‘A prisão do depositário
judicial pode ser decretada no próprio processo em que e constituiu o encargo, independentemente da propositura da ação de depósito’.”
E conclui o órgão do Parquet (fl. 28):
“Portanto, tendo em vista que a nova orientação representa evolução da jurisprudência da Suprema Corte, privilegiando o que vem sendo recomendado pela ordem jurídica internacional, no que pertine ao sistema de proteção dos direitos humanos, valorizando, na ordem constitucional e legal interna, a dignidade e a proteção civil da pessoa humana, a prisão civil do depositário infiel é inviável”.
A estas razões, cumpre acrescentar, também, as contidas da Ata nº 04/2010 da Reunião da Comissão de Jurisprudência, realizada no dia 08/02/2010, à teor do comando do RI deste Tribunal, quanto à matéria, na qual se deliberou “pelo cancelamento da Súmula n. 09, aderindo aos fundamentos constantes da proposta”. Ressalto que a cópia da referente ata foi anexada ao processo. (fl. 48)
Com fundamento na orientação da Corte Suprema, órgão responsável, em última instância, pelo exame da matéria constitucional, bem como nas judiciosas razões contidas no parecer ministerial e da Comissão de Jurisprudência, julgo procedente
49 R. Dout. Jurisp., Brasília, (93): 45-490, maio/ago. 2010 Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
o pedido para o fim de determinar o cancelamento da Súmula nº 09 deste egrégio Tribunal de Justiça.
É o voto.
Desa. Carmelita Brasil (Vogal) - Com o Relator. Des. J.J. Costa Carvalho (Vogal) - Com o Relator. Des. Jair Soares (Vogal) - Com o Relator.
Des. George Lopes Leite (Vogal) - Com o Relator.
Des. Roberval Casemiro Belinati (Vogal) - Com o Relator. Des. Lécio Resende (Vogal) - Com o Relator.
Des. João Mariosi (Vogal) - Com o Relator. Des. Romão C. Oliveira (Vogal) - Com o Relator. Des. Getulio Pinheiro (Vogal) - Com o Relator. Des. Mario Machado (Vogal) - Com o Relator. Des. Lecir Manoel da Luz (Vogal) - Com o Relator. Des. Cruz Macedo (Vogal) - Com o Relator.
DECISÃO
Julgou-se procedente o incidente de cancelamento da Súmula n. 9. Unânime.