1 Época da redação estrangeira (1959-1970): Ernst Grimm
2 Época da redação brasileira (1971-1986): José Pinto de Oliveira
2.1 Período de 1971 a 1986: religiosidade ética
2.1.1 Sociedade e cidadania
A partir de 1971 há uma nova forma de pontuar a relação da igreja com a socieda- de. Uma ideia levantada por Grimm, mas pouco explorada por ele, é agora utilizada por Oliveira pelo menos três vezes (1971, 1976, 1982): o ensino que admite a possibilidade de influenciar a sociedade pela presença cristã: “Na parábola do fermento aprendemos: [...] que é possível um povo, uma comunidade ser influenciada pela penetração do cris-
tianismo sem, contudo possuir a experiência de uma vida nova, que vem pelo nôvo nas- cimento.”489 Se antes prevalecia a perspectiva de que o “isolacionismo” era o melhor a
se fazer, o brasileiro enfatiza que é possível transformar o seu entorno por meio de uma ação mais penetrante do cristianismo. Porém, as críticas externas ou “opinião pública” não deveriam ser tomadas em conta.490
Apesar de o ano 1978 estar dentro do período de abertura política “lenta e gradu- al” da ditadura,491 falar em democracia e voto é bastante significativo. Não obstante já
se ver no horizonte a volta do poder ao povo, dificilmente se tomaria uma atitude radical para antecipa-lo, uma vez que, segundo o escritor, Paulo, com sua atitude de não reter consigo o escravo fugitivo Onésimo sem o consentimento de seu senhor, Filemon (1.13- 14) mostra que o “cristianismo não se insurge contra as leis vigentes; [mas,] difunde os princípios de Cristo, que torna as leis mais humanas.” Como se vê, humanização das leis, porém, é intrínseca à tarefa cristã no mundo.
Nesse sentido, uma revolução estrutural ou atos de insurreição contra o governo seriam talvez impensáveis porque Romanos 12 e 13 é base para “pensar na responsabi- lidade que temos, como testemunhas de Cristo [...] no respeito às autoridades constituí- das.”492 Há que se considerar, porém, que o contexto da lição ensina a harmonia entre
ortopraxia e ortodoxia:
Há indivíduos que se preocupam mais com a crença num corpo cor- reto de doutrinas do que com o caráter, que se reflete na conduta. No cristianismo, doutrina e vida estão em perfeita correlação. Se o ho- mem crê corretamente, a prova está no modo de agir, que também de- ve ser correto.493
José Pinto dá pistas de sua compreensão de sociedade nos evangelhos, tomando como exemplo a figura dos cobradores de impostos que eram desprezados pelos judeus para recolher as taxas para o governo Romano, e denuncia a “leviandade” com a qual faziam isso, cobrando mais do que o devido, visando lucro pessoal.494 Faz-se um resu-
mo histórico-social e religioso do contexto que o evangelho de Lucas estava inserido, bem como a importância da profecia naquela conjuntura:
489 OLIVEIRA, José Pinto de. O Mestre usa parábolas para ilustrar o reino. 52 lições para a Escola Do-
minical. n. 35. ICPB, 1971. p. 18.
490 Id. As chaves do Reino. Ibid. n. 41, 1977. p. 18.
491 Disponível em <http://noticias.r7.com/videos/os-sinais-de-enfraquecimento-da-
ditadura/idmedia/562e92551538960230175434e2a911e9.html> Acesso 13/12/2014.
492 OLIVEIRA. A vida social vitoriosa. 52 lições para a Escola Dominical. n. 42, 1978. p. 149 493 Id. Ibid.
Lucas, como um exímio historiador, procurou fixar com precisão o tempo em que a terra pareceu estremecer com a pregação do novo pro- feta de Deus. [...] Lucas menciona o imperador Romano, o governa- dor, os tetrarcas e os sumos - sacerdotes da Palestina. A Palestina go- vernada por Pilatos, o delegado de Tibério; a Terra Santa dividida en- tre os descendentes de Herodes; o sumo sacerdócio ilegalmente admi- nistrado, eram provas de que as condições civis, morais e religiosas de Israel estavam a exigir um pregador como João Batista, que concla- masse todo o povo ao arrependimento com a sua mensagem de po- der.495
O autor reconheceu também como se dava a formação filosófica e cultural daque- la época. “A Grécia, embora já decadente, era ainda o foco da cultura contemporânea e o ponto culminante da intelectualidade.”496 A valorização do contexto bíblico pode fa-
cilmente ser transportada para uma leitura crítica do período contemporâneo.
O tema do racismo aparece uma vez: “Deve haver problema racial entre os cris- tãos?”497 Com essa pergunta retórica, a revista interpela os leitores ao começar a tratar
do encontro de Jesus com a mulher de Samaria.
À família é dada a função de ser ponto de partida de orientações para a toda a civi- lização (sociedade) e local de preservação e promoção dos valores cristãos. “Para que o lar exerça a sua função na vida nacional deve estar baseado no amor a Deus, edificado realidade à palavra de Deus, e abençoado por fazer a vontade de Deus.”498 Completa di-
zendo ainda que a família é lugar de aprendizado, de formação para a vida e convicc- ções morais e de conduta.499O papel do/a crente na sociedade é o de ser “um cidadão ordeiro amante da paz, cumpridor dos seus deveres em todos os sentidos inclusive os cívicos.”500 Pacifismo e ordem aqui não parecem sugerir passividade ou inércia, porque
há um convite ao cumprimento dos deveres civis. A dicotomia entre a vida civil e a vida religiosa parece diminuir. Até mesmo votar é um ato motivado pela fé, e inclusive serve de exemplo para a espiritualidade:
Quando vamos às urnas para votar num candidato a posto eletivo, exercemos um ato de fé; porque cremos que o candidato tem condi- ções para o exercício do cargo; a democracia está firmada na fé que um homem tem na capacidade de outro homem para governar [...]. A mesma faculdade - a fé - quando aplicada às coisas de Deus, leva-nos às experiências gloriosas [...].501
495 OLIVEIRA. O ministério de João Batista. 52 lições para a Escola Dominical. n. 43, 1979. p. 9. 496 Id. A cultura é submissa a Cristo. Ibid. p. 66.
497 Id. Jesus e a mulher de Samaria. Ibid. n. 36, 1972. p. 9.
498 Id. Uma nova convocação à fidelidade. Ibid. n. 41, 1977. p. 112. 499 Id. Ideais cristãos para o lar. Ibid. n. 42, 1978. p. 54.
500 Id. O cuidado e o conforto de Deus. Ibid. n. 43, 1979. p. 102. 501 Id. Exemplos de conotação da fé. Ibid. p. 133
Da mesma forma que o engajamento em questões de cidadania toma por base a re- ligião, as rupturas necessárias também. A ética agora já não é a de tomar distância, mas de abraçar valores e modo de conduta diferentes:
A casa de um servo de Deus tem que manter-se limpa dos ídolos! Não somente dos ídolos de gêsso, pau, papel, mas de quaisquer outros tipos de ídolos como sejam: Garrafinhas, miniaturas de bebidas alcoólicas, vestimentas da juventude transviada, festas mundanas, vícios de qual- quer espécie, etc. A amizade com o mundo é inimizade contra Deus!502
Nesse mundo, onde o amor é cada vez menor – e o “ressurgimento do paganismo em suas várias formas” é visível – “É mister, portanto, que em nome do testemunho cristão em nossas vidas, não nos conformes com este mundo sem amor.”503 Novamente
a relação entre a verdadeira adoração e uma conduta construtiva e moral para a socieda- de se estabelece.
Por falar em amor e conduta, a revista avança, ainda, no sentido de que o próprio ser humano – não Deus, que é amor – é responsável pelos problemas sociais como a fome: “Deus fez a provisão visando o bem do homem. Todos os atos de Deus em rela- ção ao homem são atos de amor. O mundo de hoje se preocupa com o espantalho da fome. A culpa cabe ao homem pelo mau uso do que Deus lhe reservou em Sua provi- dência.”504 Sem embargo, uma interpretação do milagre de Jesus sob o olhar da econo-
mia traz luz à questão do desperdício e da fome: “Economia ou (poupança) como reco-
mendação de Jesus – ‘Recolhei os pedaços que sobejaram, para que nada se perca’ ([Jo-
ão 6] v. 12). O desperdício é condenável. Deve estar faltando a alguém aquilo que está sobrando em nossas mãos.”505 A prática de Jesus era justamente essa, de cuidado com
os pobres: “Sua atitude para com os desamparados, os menosprezados e sub-sociais só encontra explicação em seu amor divino.”506
A igreja reunida, enquanto comunidade, desfaz “as distinções sociais para dar lu- gar à fraternidade. Não há ‘servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos’ (Col. 3:11).”507
Dentro da lógica de que a prática dos princípios da religião contribuem com a socieda- de, a ausência de templos – como símbolo da presença religiosa – é negativa: “Uma ci-
502 Id. Jesus e a mulher de Samaria. 53 lições para a Escola Dominical. n. 36, 1972. p. 9. 503 Id. A sublime lição do amor. 52 lições para a Escola Dominical. n. 43, 1979. p. 15. 504 Id. O homem no propósito divino. Ibid. n. 38, 1974. p. 52.
505 Id. Jesus, o pão da vida. Ibid. n. 42, 1978. p. 16.
506 Id. Jesus declara a sua divindade. Ibid. n. 42, 1978. p. 18.
dade sem templo seria uma desolação. Seria um atestado de completo afastamento de Deus.”508, pois a igreja é lugar de preparar as pessoas para uma vida mais útil à socieda-
de. O templo é espaço também para o crente se elevar acima das coisas dessas vidas e sentir a “atmosfera espiritual da presença de Deus”.509
É possível concluir, assim, pelo ensino da revista durante essa época, que a di- mensão horizontal (relações sociais) são fruto de um bom relacionamento com Deus (dimensão vertical):
É inútil pretender uma ordem social em que predominem a decência, a harmonia, o bem-estar, o amor, tudo, enfim, que seja oposto ao peca- do, sem que, antes, o homem esteja em boas relações com Deus. A ho- rizontalidade da vida – boas relações dos homens uns com os outros – depende da sua verticalidade – relações harmoniosas com Deus.510 O tema da cultura é entendido no contexto da sociedade como um risco se descon- siderar Deus. “A cultura não é uma finalidade em si mesma. Tem finalidades éticas, que só se alcançam quando ela está firmada em Deus.”511
2.1.2 Governo
Os textos em relação ao governo, seus direitos e seus deveres em relação ao cida- dão e a cidadã, podem ser divididos em três grupos: textos que descrevem a sua nature- za (humana ou divina), textos que apontam seus deveres (servir o povo) e textos que ar- ticulam seus direitos (deveres cívicos).
A primeira referência ao governo, em 1971, cria uma analogia entre as exigências de governadores em relação aos seus soldados e a relação entre Jesus e seus discípulos. Parece que era pressuposto o bom entendimento que os leitores tinham dessa conduta do governo – e a considerariam no mínimo natural, se não aprovável ou justificável:
Se o versículo 62 [de Lucas 9: “E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus”] nos pare- ce muito pesado como prova para nós como discípulos, porque não protestamos contra os governantes que requerem as mesmas coisas dos seus soldados? Vida fácil, deleite, luxo, folga etc., não tem lugar na vida de um soldado de Jesus. (de um discípulo).512
A analogia foca nos discípulos de Jesus e nos soldados dos governantes. Questio- na-se a busca de uma vida fácil. Isso conduz à compreensão de que dentro do dever cris-
508 Id. Reedificação e dedicação do templo. Ibid. p. 103.
509 Id. As boas novas anunciadas por Jesus. Ibid. n. 43, 1979. p. 20. 510 Id. Quedas do homem e promessas de Deus. Ibid. n. 44, 1980. p. 44. 511 Id. A cultura é submissa a Cristo. Ibid. n. 43, 1979. p. 67.
tão de respeitar as autoridades estava, provavelmente, a aceitação das condições impos- tas pelo regime ditatorial. Nesse sentido, se os cristãos não são, por suposto, desobedi- entes, uma possível repressão aos que são seria perfeitamente justificável ou mesmo po- sitiva.
Outras passagens, porém, seguem o modelo da analogia governo terrestre e go- verno celestial, e articulam critérios de aceitação ou de rejeição de políticas públicas:
A moeda que estava em circulação naqueles dias tinha a efígie do im- perador Cesar. Jesus simplesmente disse: “Se o govêrno é Cesar, pa- guem o tributo a Cesar.” Jesus disse que Cesar estava certo em cobrar o imposto, só que não podia infringir os direitos de Deus. As leis hu- manas, são limitadas pelas leis divinas.513
Em 1974, ao retomar o tema, Cesar mudou de papel e passou a representar o pró- prio Estado: “O Estado necessita de dinheiro para manter a lei e a ordem, os serviços de educação e assistência etc. Quem se furta ao pagamento de imposto é um parasita soci- al.”514 Além disso, “O Estado tem direito de esperar que nos portemos como bons cida-
dãos. Além das obrigações materiais, move-nos uma questão da consciência e de dever religioso.”515 Entretanto, Oliveira afirma que mesmo que o Estado tenha grande impor-
tância na vida do crente, a primazia é de Deus.516 Por outro lado, ensina que “Os crentes têm um motivo bem forte para serem bons cidadãos: reconhecem que o governo é de orientação divina para cuidar do bem-estar social.”517 Em qualquer situação “É bom de- sejarmos vida longa aos nossos governantes, porém, melhor é pedirmos a Deus que lhes ilumine o coração e a mente para que governem com sabedoria.”518 Nesta sentença, à
medida em que o governo receber sabedoria de Deus (de onde vêm as melhores diretri- zes), governará bem.
Como se pôde perceber, o ensino recorrente é de que o crente deve estar submis- são à lei, e não se contesta o que for decidido por elas, nem as razões pelas quais foi constituída:
Submissão a autoridade – “Toda alma esteja sujeita às autorida- des superiores” Rom. 13:11. – O governo civil e seus represen- tantes são autoridades constituídas por Deus e, por isso, mere- cem o respeito e a obediência da parte dos crentes enquanto es- tão exercendo os seus mandatos. Quando a lei determinar a es- colha de novos governantes, estamos autorizados pela lei para
513 Id. Jesus e seus inimigos. Ibid. p. 59.
514 Id. Os opositores da verdade. Ibid. n. 38, 1974. p. 23. 515 Id. Ibid. p. 24.
516 Id. Ibid.
517 Id. Conselhos sábios dirigidos aos crentes. Ibid. n. 42, 1978. p. 73. 518 Id. O povo exige um rei. Ibid. n. 41, 1977. p. 125.
escolhermos aqueles que acharmos melhores. Sempre respei- tando as que forem constituídas (eleitas).519
O texto indica o entendimento de que nem sempre a lei autorizava a escolha das autoridades, e que o direito de muda-las se dava somente quando a lei o permitia. De fa- to, uma (aparente?)520 mudança prevista pela constituição estava para ser colocada em
prática. O novo presidente do Brasil seria eleito (indiretamente) em 1974, e a expectati- va já permeava a redação da revista, provavelmente no final 1973.521
A revista lembrou também do papel dos profetas diante de seus governantes, a exemplo de Ageu e Zorobabel. “Em muitas outras ocasiões, Deus falou a governadores e reis por meio dos seus profetas, mensagem de vitórias e mensagem de derrotas tam- bém.”522 Daqui talvez se possa tirar alguma lição no sentido de direcionar igreja a uma
atitude mais presente nas questões políticas, isto é, menos servilista e mais profética.
2.1.3 Igreja
O tema da eclesiologia visivelmente se cruza com os demais. Este subtópico é re- levante, no entanto, porque define a igreja na lógica da religião que estabelece padrão para a vida social e política. A acepção é a de que sua utilidade é mais voltada para for- talecimento dos fiéis, tal como o era nos tempos de John Stroup:
Nenhuma organização no mundo se compara à Igreja. Foi instituída por nosso Senhor Jesus Cristo, é formada de indivíduos salvos por ele, que se sentem transformados pela graça. [...] congrega [...] pessoas re- generadas, para que elas promovam a obra do seu Senhor. Proporciona aos crentes [...] crescer na graça e no conhecimento de Cristo, tendo como alvo a maturidade cristã e a santidade de vida. As igrejas locais são agências do reino de Deus no mundo, encarregadas da proclama- ção do evangelho. Esta é a sua importante missão.523
519 OLIVEIRA, João Alfredo de. A vida social vitoriosa. 27 lições para a Escola Dominical. n. 49, 1984.
p. 47.
520 As eleições aconteciam de forma pouco democrática. Luiz Antonio Dias, professor de história da
PUC-SP, afirma que elas aconteciam num cenário de falsa democracia, extinção dos partidos e instaura- ção do bipartidarismo obrigatório, e poder absoluto do Executivo. (Disponível em <http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/03/27/golpe-ou-revolucao.htm> Acesso em 10/01/2015.)
521 O historiador Boris Fausto aponta que o luterano Ernesto Geisel, situação, era o mais cotado para
aquela eleição. “Em oposição a Geisel, o MDB decidiu lançar a candidatura simbólica de Ulysses Guima- rães, para denunciar as eleições indiretas, a supressão das liberdadese a concentração de renda resultante do modelo econômico.” O Colégio Eleitoral, previsto por uma alteração na Constituição de 1967 e que seria formado por membros do Congresso e delegados das Assembleias Legislativas dos Estados, esco- lheu Geisel em 15/01/1974. (FAUSTO: 2006. p. 270.)
522 OLIVEIRA. O templo em construção. 52 lições para a Escola Dominical. n. 37, 1973. p. 72. 523 OLIVEIRA. A vida na comunidade cristã. 52 lições para a Escola Dominical. n. 42, 1978. p. 146.
A missão da igreja, enquanto organismo, escapa um pouco à lógica de ser padrão para o mundo, e parece se resumir ao conforto dos cristãos e à pregação do evangelho. É pressuposto, porém, que os crentes são parte da igreja e, portanto, também agência do reino de Deus. A igreja deve receber todas as pessoas, sem distinção étnica ou social, para que se convertam e assumam a identidade cristã.524 Cabe a elas também “o dever de produzir os futuros líderes cristãos. De igual modo, como agências do reino de Deus, é das igrejas locais a tarefa de promover a expansão dos horizontes do cristianismo.”525
O pastor trata do exclusivismo denominacional com a orientação de que não se deve pensar que outras pessoas não são salvas por não fazerem parte do mesmo grupo religioso, apesar de que não é certo chamar todo tipo de “crente” de irmão. Afirma tam- bém que a “obra de Deus não é confiada a um grupo, ou a uma instituição. Onde quer que a obra de Deus chegue e se firme, o seu resultado é obra de Deus!”526 Por outro, as
propostas do ecumenismo (colocado ao lado do “modernismo”) são vistas com descon- fiança e como limitadoras da evangelização: “Vêm muito a propósito, portanto, as lições que vamos estudar. Elas nos advertem quanto às sutilezas da propaganda modernista e ecumênica, que procuram desestimular a evangelização.” 527
A lógica do serviço ainda é bastante presente, e recebe o nome de “mordomia”, que indica uma função de responsabilidade diante daquilo que pertence a outro, no caso, Deus. O exercício da mordomia é tarefa dos discípulos, e por meio dela Deus os testa.528
2.1.4 Missão
Permanece algo, sim, daquela visão de missão como serviço. Porém, a concepção de missiologia se desenvolve e se aproxima do que a teologia chama de Missio Dei: missão de Deus no mundo. A postura de Deus nessa missão não é de desprezo pelo mundo (humanos), e sim de interesse, tanto é que o confiou aos cuidados dos cristãos, e a Ele se prestará conta.529
Há uma clara consciência sobre a ação de Deus no mundo, claro que com finali- dades soteriológicas. Essa missão é compartilhada com os crentes: “Deus tem ainda muito trabalho para ser feito pela salvação do mundo de hoje, e continua chamando os
524 Id. Igreja – uma comunidade de discípulos. Ibid. n. 44, 1980. p. 117. 525 Id. Evidências de que a Obra é de Deus. Ibid. n. 43, 1979. p. 60. 526 Id. Jesus e seus seguidores. Ibid. n. 35, 1971. p. 49.
527 Id. 2º sem. de 1975 – (Introdução). Ibid. n. 39, 1975. p. 50. 528 Id. Jesus e seus seguidores. Ibid. n. 35, 1971. p. 51.
Seus servos para tarefas gerais e especiais em sua causa.”530 Além disso: “Representa-
mos no mundo a causa de Deus. Contra ele, de nada valem as forças humanas.”531
Nesse sentido, as palavras de Jesus expressam não só sua missão como também a preocupação do Pai: “Porque é que me procuráveis? Não sabíeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” Estas palavras de Jesus, que foram registradas e que indicam o sentido da Sua missão aqui neste mundo.”532 Ao tratar do milagre da multiplicação
dos pães, Jesus demonstrou aos seus discípulos que a sua preocupação com as necessi- dades humanas era integral: “Jesus queria ocupar um pouco os seus discípulos com as necessidades materiais do povo; [...] Êle sentia compaixão pela multidão faminta; [...] o alimento era suficiente para todos comerem bem (vs. 38).”533
A publicação usando uma expressão latina famosa, que expressa ao mesmo tempo a relação teológica na missão. A frase significa algo como a parte que cabe aos seres humanos deve ser feita: “Já disse alguém com muita razão: “Nec Deus Intersit, nise dignus venodus inciderit” (Quando o poder milagroso de Deus é necessário, que seja procurado; quando não é preciso, que se empreguem os meios comuns). Agir de outro modo, é desconhecer a Deus e a si próprio.”534
Missão, no Antigo Testamento, aparece como tarefa específica para a qual Deus chama, e no contexto, era a reconstrução de Jerusalém e do templo: “Quando Esdras re- cebeu a chamada do rei para a missão entre o seu povo, reconheceu naquela chamada a vontade de Deus.” 535 Na prática, a missão de Esdras era política e social. Esse era o seu
“chamado”
Na revista, missão também é influenciar no mundo em redor: “Tem notado preci- samente as influências do cristianismo em seu redor?” 536 Essa influência virá pela uni-