2. o efeito rendimento (porque se fica mais pobre pela subida de preço, o consumidor é forçado a deslocar-se para uma
2.1.2. TEORIA DO PRODUTOR
2.1.2.2. Como produzir?
2.1.2.3.1. Tecnologia e custos
O problema de quanto produzir está intimamente ligado à tecnologia de produção. É ela que determina quanto se
pode produzir. No entanto, a questão não é apenas
tecnológica, porquanto o que queremos determinar é quanto
se quer produzir.
Já vimos atrás que tecnologia e custos são duas faces da mesma moeda. No fundo, produção e custos estão ligados porque não há almoços grátis.
Esta equivalência existe porque a função de produção e a isoquanta têm já, na sua concepção, um elemento de racionalidade: o desejo de evitar o desperdício. É claro que é sempre possível fazer pior com aquele montante de recursos, mas isso seria irracional.
Deste modo podemos definir uma função do custo total [C(Q)] onde, associado a cada quantidade produzida do bem, vem o mínimo custo total de produzir essa quantidade de bem. Repare-se que no ponto da função custo, está incluída a solução óptima do problema de como produzir. O custo é
o custo mínimo de produzir aquela quantidade, devido à
racionalidade.
Do ponto de vista da Economia, esta função custo é tudo o que é preciso saber sobre a tecnologia para tomar a decisão de quanto produzir.
O que está incluído nos custos? Para o economista (mas talvez não para o empresário, o engenheiro ou o contabilista) existem muito mais custos do que as despesas imediatas ligadas à produção. Temos assim um conceito de custo económico cuja autoria devemos a John Stuart Mill, que se chama custo de oportunidade.
O custo de oportunidade mede o sacrifício total, em qualquer das formas possíveis, em que se incorreu para se conseguir a produção. E esse sacrifício é medido na única verdadeira medida de valor: a utilidade. Assim, até os custos monetários directos só são verdadeiramente custos porquanto o empresário, se não tivesse produzido, teria utilizado esse dinheiro de outra forma, ganhando algo com isso. Como decidiu produzir, ele não pode ter esse ganho alternativo e é esse o custo que teve.
Desses usos alternativos do dinheiro, ele escolheria aquele que lhe desse maior utilidade. É esse máximo de utilidade alternativa que é o custo de oportunidade23.
Se, por exemplo, o empresário trabalha na própria empresa, mesmo que o faça gratuitamente, deve tomar-se em conta o salário que ele ganharia se estivesse a exercer noutro sítio. Na verdade, esse foi o sacrifício que ele fez para poder dedicar-se à sua empresa. O mesmo se diga do capital empatado por ele. Embora pareça livre de encargos, o custo do seu uso é igual ao juro que tal capital receberia na melhor aplicação alternativa (a melhor, porque seria essa que seria escolhida pelo agente racional).
Por essa razão, alguns lucros aparentes podem ser verdadeiros prejuízos: uma boa terra mal explorada, mesmo que renda algum dinheiro, está a dar prejuízo, pois a utilização alternativa seria muito melhor.
Mas todas estas correcções eliminam os preços de mercado como medida do valor? Não, porque um mercado
competitivo tem como preço de mercado o custo de oportunidade. Na verdade, se um vendedor vende por 5, é
porque essa é a melhor alternativa, visto que ele é racional, e o mesmo se passa com o consumidor que compra.
Só existe necessidade de fazer o cálculo do custo de oportunidade para os bens que não passam pelo mercado ou em que o mercado funciona mal. O custo do trabalho do patrão, o custo do bricolage ou o custo de oportunidade do exército, tal como o custo de oportunidade de estar na universidade, de construir uma central nuclear ou de lutar pelo fim dos eucaliptos, são casos destes. A única maneira de obter um valor é tentar avaliar directamente os sacrifícios e benefícios envolvidos.
Uma das formas mais imediatas de captar o custo de oportu- ________________________________
23 Repare-se que o custo de oportunidade tem de ser menor que o benefício tirado da produção, senão
nidade está na fronteira de possibilidades de produção. Aí, é patente que o aumento de produção de certo bem acarreta um sacrifício na disponibilidade de outros bens. A falácia de dizer que, como existe desemprego, o custo do exército é nulo é destruída pelo conceito de custo de oportunidade, porquanto há formas alternativas de combater o desemprego, algumas mais produtivas que o recrutamento dos desempregados (e não só esses, nem todos esses, são recrutados).
Vamos agora ver, dentro desse custo, algumas distinções importantes. A primeira é entre custos fixos e custos
variáveis. Trata-se de uma distinção importante para a
decisão de quanto produzir, pois num processo produtivo existem elementos que se podem mudar e ajustar (o número de trabalhadores, quantidade de matéria-prima, etc.), enquanto outros são muito mais rígidos (o número de máquinas ou dimensão da fábrica, por exemplo).
No entanto, esta distinção, muito importante para o engenheiro, é secundária para o economista, porque, no fundo, ela tem apenas a ver com o tempo, ou o horizonte de planeamento. Assim, se a decisão tem de ser tomada já, apenas com o que é imediatamente ajustável, é provável que, como todos os contratos estão definidos, tudo seja praticamente fixo. No equilíbrio momentâneo não há elementos variáveis. Mas se o horizonte se alarga, e é possível prever a curto ou médio prazo, então aí existem componentes dos custos que são fixas e outras variáveis. Será de esperar que, se se deixar passar tempo suficiente, num planeamento a longo prazo, tudo seja ajustável e, portanto, variável.
A questão central situa-se pois no horizonte de análise, que determina qual a parte dos custos que varia com a quantidade (CV, função da quantidade Q) e qual a parte fixa, que deve ser suportada qualquer que seja a quantidade produzida (CF):
CT = CF + CV(Q)
Um outro elemento importante da análise do custo de uma empresa é o chamado custo médio, ou custo por unidade. Trata-se do custo que, em média, se pode atribuir a cada unidade produzida, e é definido simplesmente pela média aritmética dos custos totais.
Talvez menos directa mas igualmente importante é a medição do custo marginal. Este custo, como o nome indica, é o custo da última unidade produzida, o custo da unidade marginal. A sua definição (equivalente à definição de utilidade marginal) será essencial para a decisão do produtor, por razões muito semelhantes às decisões que estudámos atrás.
CM Cm
Q Q
Na maior parte dos casos, podemos encontrar uma curva de custos médios (CM) em forma de U, como mostra a figura acima. No fundo, isso resulta do comportamento dos
rendimentos marginais, como antes vimos. Quando a
produção é muito baixa, um aumento dessa produção pode fazer descer muito significativamente o custo atribuído a cada unidade. Por exemplo, o custo numa siderurgia de produzir só uma chapa de ferro é elevadíssimo, pois o alto-forno e os outros equipamentos têm todos o seu custo afectado a essa unidade. Se forem produzidas dez chapas, o custo médio de cada uma fica muito mais baixo, pois (embora se gaste mais matéria-prima) todo o custo do equipamento vai ser distribuído agora por dez unidades.
Aliás, existe uma relação simples entre as curvas dos custos médios e marginais: a curva Cm corta a CM no mínimo desta ou, por outras palavras, o custo médio é decrescente enquanto o custo marginal estiver abaixo do custo médio e vice-versa. A figura seguinte ilustra o facto:
Conjugando as distinções anteriores, podemos ter alguns outros tipos de custos:
— Os custos médios fixos e variáveis são fáceis de
definir.
— Os custos médios de curto prazo e de longo prazo
são conceitos que estão ligados aos anteriores, pois, como vimos, a fixidez de custos está relacionada com o prazo de análise.
Aqui liga-se a distinção importante entre lei dos
rendimentos marginais decrescentes e a existência de rendimentos (de)crescentes à escala. No curto prazo, há
recursos que se mantêm fixos (por exemplo, uma certa dimensão da fábrica, como um certo parque de máquinas instalado), e esse facto define o quadro de uma situação. Nesse quadro é possível calcular uma curva de CM e Cm, como os custos de produzir certas quantidades do bem, dado aquele parque de máquinas.
Se for construída uma fábrica maior, isso aumenta os custos de produzir certas quantidades (naturalmente fica mais caro produzir pequenos montantes, visto que o equipamento adicional fica desperdiçado), mas, provavelmente, reduzirá o custo de produzir outros montantes.
CM,Cm
Q
CM,Cm
Estes dois conjuntos de curvas representam curvas de curto
prazo, visto que cada uma delas foi definida dentro de certo
condicionamento particular (a dimensão da fábrica).
Mas quando a análise é feita a longo prazo, por definição, tudo é variável. Então, há várias «situações» (dimensões de fábricas) possíveis e todas são tomadas simultaneamente em conta. Para produzir certo montante, como a escolha é livre, naturalmente será escolhido o custo médio menor. Assim, a curva de custo médio de longo prazo é definida como o mínimo das curvas de curto prazo (em termos matemáticos, a envolvente inferior).
Assim, para certo conjunto de valores de produção, o melhor é utilizar certa dimensão da fábrica. Mas a partir de certa altura fica mais barato variar a dimensão (aumentar, por exemplo), passando para outro par de curvas de curto prazo (CM,Cm). Isso é possível realizar porque estamos a fazer a análise a longo prazo, caso em que é possível alterar a dimensão da fábrica sem problemas.
Uma vez definida a curva dos custos médios de longo prazo como o mínimo para cada Q, dos vários custos médios de curto prazo, é possível calcular o acréscimo de custo total em cada unidade, calculando a curva dos custos marginais de longo prazo (que, ao contrário da dos custos médios, não tem de ter nada em comum com as curvas de custos marginais de curto prazo).
Este padrão de custos, como se disse atrás, é tudo o que é necessário saber de uma tecnologia para tomar a decisão de «quanto produzir».