A experiência com as situações consideradas como de «toxicodependência» só atinge directamente, em termos de vivência familiar ou
1.3 Terminologia relacionada com o uso das drogas
Para além das características físicas e químicas da substância, neste caso as drogas, e também e porque estas substâncias produzem os seus efeitos num organismo complexo como é o ser humano, são ainda focados alguns temas associados que são necessários para uma abordagem abrangente à compreensão do fenómeno moderno do uso das drogas e da toxicodependência. Este alerta é necessário, para que não fiquemos circunscritos à ideia de que o problema reside exclusivamente nas substâncias usadas («o problema é a droga, provoca o crime, a morte...»), pois seria uma visão simplista, redutora e estereotipada. Assim, quando se fala em drogas, estamos também a referirmo-nos aos factores que existem para além das propriedades farmacológicas da substância.
1.3.1 Tipos de drogas
A classificação das drogas assenta nos mecanismos de regulação social normativa, polarizando-as em drogas lícitas e drogas ilícitas. Com efeito, esta construção social do entendimento da droga determina consequências no seu uso e nas formas como agentes e actores sociais se relacionam, quer quanto à sua prescrição quer quanto à sua proscrição. Com base nesta classificação dicotómica, as drogas são lícitas, porque consideradas inofensivas; são ilícitas, porque consideradas nocivas para o indivíduo e para a saúde pública.
As drogas psicoactivas são substâncias que têm algumas características comuns, a mais importante das quais é que todas elas têm necessariamente uma acção no sistema nervoso central. Depois, consoante a quantidade ingerida, o estado psicológico do utilizador e o contexto em que ele se encontra inserido, varia a acção da substância. As substâncias podem ter vários tipos de efeitos no sistema nervoso central: efeito depressor (por exemplo, os opiáceos, medicamentos ansioliticos, os solventes e outros tranquilizantes); efeito estimulante (é o caso da cocaína e seus derivados, as anfetaminas, a cafeína e
nicotina); e um efeito perturbador (onde se inclui o álcool, os alucinógenos, e outros medicamentos).
As substâncias podem também se classificar quanto à sua origem, consoante ela seja de origem natural, os seus elementos psicoactivos não exigem um tratamento muito complexo. Estão neste grupo as drogas frequentemente mais utilizadas como sejam: os produtos da cannabis, as bebidas alcoólicas e o ópio. As substâncias produzidas com base em outras naturalmente psicoactivas, como o caso da heroína que resulta da morfina. As substâncias que existem na natureza e as que são sintetizadas a partir de outras, como é o caso do ecstasy (natureza química) e das anfetaminas.
1.3.2 Percurso do consumo
O risco e o perigo destas drogas dependem da frequência e do modo como são utilizadas. O consumo das drogas é visto como um processo, o qual tem o seu início no primeiro contacto, acabando no conjunto de consequências resultantes da dependência. A habituação e a dependência processam-se no indivíduo de forma progressiva, sendo que a tolerância às drogas se torna impossível de controlar. A este propósito referem-se os seguintes conceitos, de acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Americana de Psiquiatria (DSM - IV)15: - a tolerância reside na capacidade de suportar
doses cada vez maiores de uma substância sem que se verifiquem efeitos tóxicos graves, ou, do p.v. do efeito pretendido, a necessidade de ingerir, inalar ou injectar doses cada vez maiores da substância para atingir o mesmo efeito; a escalada diz respeito há necessidade de consumir mais droga, quer aumentando a frequência de uso, quer aumentando as quantidades; a escalada nos produtos, ocorre quando um indivíduo tem necessidade de passar de uma droga para outra que provoca maior dependência; as síndromes da abstinência são sintomas essencialmente fisiológicos, mas também psicológicos, resultantes da interrupção abrupta ou diminuição acentuada do consumo de uma substância.
15 Todos os conceitos de seguida enumerados foram transcritos do DSM - IV, Manual de Diagnósticos e
Assim, a progressão no percurso do consumo não obedece a mecanismos de linearidade, mas a labirintos que constituem o quadro cultural, simbólico e axiológico, que orientam as formas de pensar, sentir e agir dos actores sociais relativamente à droga e à sua dependência.
1.3.3 Tipos de consumidores
Existem três tipos de consumidores; - o consumidor ocasional ou experimentador (o indivíduo mantém um contacto esporádico com determinada substância, não existe qualquer tipo de dependência, sendo possível a convivência com os outros e a manutenção de hábitos quotidianos de forma adequada); - o consumidor habitual (existe uma dependência de carácter psicológico que leva o indivíduo a utilizar uma determinada substância em determinadas ocasiões, sendo o hábito determinado pela ocorrência de certas circunstâncias); e o toxicodependente (o indivíduo tem instalado em si uma dependência física e psicológica, a droga tornou-se o centro dos seus interesses e da sua vida, vivendo apenas com e para a droga).
1.3.4 A dependência
Existem dois tipos de dependência. Uma é a dependência física que requer o consumo regular de droga, pois a sua falta provoca no indivíduo graves sintomas físicos, os quais só se evitam se o organismo estiver sempre satisfeito. A outra forma de dependência é a psicológica, que conduz o indivíduo a uma falta de liberdade, dada a relação pessoal que mantém com a substância. Sente desconforto e vazio pela falta do produto.
1.3.5 Modelos e tipos de prevenção da toxicodependência
A prevenção está assente numa perspectiva triangular: a droga, o indivíduo que a utiliza e o meio sociocultural em que a utilização da droga se insere. A cada uma destas variáveis é associado um modelo de prevenção. Assim, em primeiro lugar surge o modelo jurídico-penal, este modelo centra-se
na substância e parte do princípio que o castigo é o meio para que o indivíduo cesse os consumos. Através das leis, procura que o consumo de drogas esteja fora do alcance das pessoas.
O modelo médico centra-se no indivíduo e na substância. O primeiro encontra-se infectado, acreditando-se por isso, que através da informação, se pode influenciar as atitudes e comportamentos, baseando-se por isso, nos efeitos nocivos de certas drogas.
O modelo psicossocial centra-se no indivíduo e no meio social, juntamente com a substância. Têm em atenção os efeitos que os outros exercem sobre o indivíduo, focando o seu interesse no indivíduo e no seu comportamento, mais do que na substância em si mesma. O modelo sociocultural, por seu turno centra-se na acção que se pode exercer sobre o indivíduo face à substância.
A prevenção estrutura-se em três tipos ou fases. A primeira designa-se de prevenção primária, procura através da educação e responsabilização, actuar sobre o meio e as pessoas, de forma a evitar que se gerem problemas ou perturbações relacionados com a droga.
A prevenção secundária tem por objectivo suprimir ou modificar as perturbações / problemas relacionados com a droga. É utilizada um conjunto de acções que conduzem ao tratamento do toxicómano. Estas acções podem incluir desintoxicação física e/ ou psíquica, terapias individuais ou de grupo, etc.
A prevenção terciária refere-se à interrupção da toxicodependência com o cuidado de que não se verifique uma perda de capacidades, total ou parcial, impeditivas da reintegração social do indivíduo, assim como, às intervenções orientadas para essa mesma reintegração social, necessária para que se minimize as possibilidades de reinstalação da toxicodependência nos indivíduos. Trata-se da necessidade de «devolver» o indivíduo à sociedade.
1.3.6 A nova política da «droga» Portugal operou há sensivelmente ano e meio, uma profunda alteração política e legislativa nesta área complexa e de difícil gestão.
A descriminação do consumo e da posse para consumo de substâncias ilícitas assumiu, na passagem institucional de 2000/ 2001, a natureza de descriminalização construtiva, na medida em que não se limitou à mera revogação de preceitos incriminadores, antes arrancou da ideia que a alteração deverá ser norteada pela consagração de mecanismos que permitam promover a evitação dos consumos, bem como a redução de danos daí decorrentes. A lei, abandonando uma postura assente na intervenção penal, que demonstrara já sobejamente ser ineficaz, desnecessária e inútil, visa agora a construção de uma nova alternativa, privilegiando o encaminhamento e a o recurso às vias terapêuticas. Houve alterações ao nível do discurso do próprio legislador, já não é arguido, mas indiciado, mudança terminológica cujo significado ultrapassa o simples eufemismo. Efectivamente, o elemento que produz a conversão da presente descriminalização em construtiva não radica na continuidade da atitude de censura, agora remetida para o exílio contra- ordenacional, mas no espaço consentido àquilo que tem sido designado por intervenção juspsicológica16, entendida como a permeabilização dos territórios
do direito ao saber psicológico.
A nova configuração legislativa reportável ao consumo de drogas permite constatar que ocorreu uma profunda alteração na postura legal relativa ao uso e, por consequência, aos utilizadores de drogas: por um lado, na atitude legislativa e aplicativa; mas, por outro lado, uma alteração também de racionalidade, abandonando-se o registo criminalizador - terapêutico e inaugurando-se um de motivação e direccionamento para as vias médicas/ terapêuticas sem ameaça penal; mudança, ainda, no plano da representação oficial do consumidor e do toxicodependente: já não um delinquente, já não um doente, mas observado como um sujeito que optou por um estilo de vida menos saudável e que carece de apoio psicossocial.
A lei determina que as comissões17 escutem os indiciados e técnicos, e
que escutem também os sujeitos. E que não os olhem como delinquentes - o indivíduo quando é ouvido, não cometeu qualquer crime, não é arguido; e que
16 Expressão criada pelo Dr. Carlos Alberto Poiares, membro do Conselho Técnico-Científíco do IPDT,
num testemunho pessoal acerca das Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência, em 7 de Junho de 2002.
17 Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência, criadas ao abrigo da Lei 30/ 2000 de 29 de
não os olhem como doentes forçados um consumidor não tem que ser sempre um doente. As comissões deverão privilegiar os pareceres técnicos e procurar sempre agilizar a sua actividade com os serviços de saúde e de reinserção social, servindo de plataforma para a recuperação clínica e reintegração dos indiciados. Para tanto, deverão, sempre que possível, promover a responsabilização dos consumidores, motivandoos para a mudança de rumo de vida. As leis que descriminalizam o consumo abriram caminho para um modelo compósito entre as normações e o conhecimento psicológico e social. As comissões são as primeiras instâncias que têm, esta rota assinalada na legislação, aberta já a outras maneiras de ver e observar a realidade que o consumo é.