3.4 Processo colaborativo em Um trem chamado desejo
3.4.1 O processo de criação
3.4.1.1 Workshop para uma Pocket Opera
Decidido o que queria para seu próximo espetáculo, encaminhado o material de pesquisa, o grupo apresentou a idéia ao dramaturgo, ao cenógrafo e ao diretor musical sob a forma de cena. Pode- se ter uma idéia da apresentação acompanhando um trecho do roteiro escrito, quase uma transcrição do workshop, enviado ao dramaturgo em duas partes. A primeira constava de uma relação de 14 cenas, à moda de um esquema de entrada e saída de atores, sob o título de POCKET – roteiro para Workshop 70:
CENA 1
S. Coisinha montando cenário CENA 2 Chegada de Madeira Madeira e S. Coisinha CENA 3 Chegada de Florisbela Madeira e Florisbela
CENA 4
Chegada de Meireles e Praxedes Madeira, Florisbela e Meireles Meireles
CENA 5
Chegada de Abigail Abigail
CENA 6
Chegada de Lindinha e Fofinha Chegada de Praxedes e S. Coisinha Lindinha, Fofinha e Praxedes CENA 7
Chegada de Gracinha
Lindinha, Fofinha e Gracinha CENA 8 Chegada de Sandoval Gracinha e Sandoval CENA 9 Camarim CENA 10
Preparação para o início do show Chegada de Provisório CENA 11 Show da Cia. CENA 12 Final do show Chegada de Sandoval CENA 13
S. Coisinha montando o cenário CENA 14
Camarim
O documento traz na seqüência um roteiro mais detalhado, quase um pré-texto. Nele, o grupo apresenta personagens e seus intérpretes, sugere diálogos, rubricas e músicas que, sendo de época, servem como indicação de tema ou gênero. Um trecho ilustra a descrição das personagens e o que pôde ser visto nas duas primeiras cenas do workshop apresentado ao dramaturgo: 71
71 Adotaram-se para estudo as duas primeiras cenas da peça, levando-se em conta os seguintes critérios: trata-se da
apresentação de algumas personagens, o que situa melhor o leitor que não conhece o texto nem assistiu à montagem; apresenta-se o mote do amor e da traição, que vai percorrer praticamente todo o espetáculo. Selecionar trechos outros,
PERSONAGENS:
S. Coisinha – “Faz tudo” da Cia. (Paulo André) Madeira – Maestro; caso de Florisbela (Beto) Ana Florisbela – Cantora, mulher de Meireles (Inês)
J. Meireles – Principal ator da Cia., marido de Florisbela ( Eduardo) Praxedes – Ponto (Toninho)
Abigail – pianista, violinista (Fernanda) Fofinha – corista, gêmea de Lindinha (Lydia) Lindinha - corista, gêmea de Fofinha (Teuda) Gracinha – trombonista, caso de Sandoval (Simone) Sr. Sandoval – Dono da Cia. (Arildo)
Provisório – Saxofonista (Chico) (...)
CENA 1 – S. COISINHA
S. Coisinha toca o 3o sinal, apaga a luz e começa a montar o cenário do “Pocket-show”. Entra com
estantes e instrumentos, coloca tudo em seu lugar, sempre com um interesse especial pelo trombone de D. Gracinha, até que em um momento pega o trombone e fala:
S. COISINHA : Boa Noite D. Gracinha. Fiquei muito contente após ter aceito meu convite para ir ao cinema. Bonito vestido D. Gracinha!
E começa a cantar: “Boa noite amor...”
(Ao final da música, entra Madeira) CENA 2 – S. COISINHA E MADEIRA
MADEIRA: Boa tarde, Seu Coisinha!
SEU COISINHA: Boa tarde, Sr. Madeira !
MADEIRA: O senhor me parece mais feliz hoje! Viu algum passarinho verde?
COISINHA: É... Feliz, sim senhor. Hoje temos duas sessões e... bem... Tenho certeza de que hoje teremos um bom público, será a melhor casa do mês.
MADEIRA: Estamos precisando mesmo. Este mês a coisa não foi nada boa. Eu creio que
deveríamos modificar o repertório, introduzir números novos, músicas mais animadas, samba maxixe, requebrado... Do jeito que a coisa vai...
COISINHA: A coisa não vai aí, senhor. Aí é o lugar de D. Gracinha.
MADEIRA: Escute, Seu Coisinha. Dona Florisbela deve estar chegando. Vamos ensaiar
um número novo! Precisamos de concentração. Cuide para que ninguém nos perturbe.
COISINHA: Sim, senhor, Sr Madeira.
MADEIRA: E se ela trouxer o Otelinho, cuide para que ele não acorde.. Ah, e por favor,
Seu Coisinha deixe os meus sapatos brilhando para as récitas de hoje.
implicaria em localizar a situação e as personagens para o leitor, bem como antecedentes da cena, o que poderia tornar confusa a abordagem.
COISINHA: Sim, senhor, Sr Madeira. Sapatos brilhando, sim senhor. Sr Madeira, me desculpe a liberdade, não é do meu feitio importunar as pessoas, mas como o senhor sabe, há dois meses que o Sr Sandoval não nos paga. As coisas têm ficado difíceis para mim. Será que o senhor não teria 10 mil réis para me emprestar? Pago assim que o Sr Sandoval...
MADEIRA: Para que o senhor quer 10 mil réis? O senhor nunca sai deste teatro. Não tem
família.
COISINHA: Ora Sr Madeira, eu não pergunto ao senhor porque quer os sapatos brilhando
ou porque vive limpando o “salão” com o dedo mindinho... Eu tenho minhas obrigações contas a pagar e...
MADEIRA: Obrigações... contas... sei. Não Seu Coisinha, não. Eu não tenho 10 mil réis
para te emprestar.
COISINHA: Está certo Sr. Madeira. Muito obrigado mesmo assim. Eu vou falar então com
o Sr Meirelles. Tenho certeza que tendo com ele a conversa certa ele não me negará míseros 10 mil réis. O Sr Meirelles é homem de muito bom coração e depois...
MADEIRA: Assim que o Sr. Sandoval nos pagar eu lhe dou 20 mil réis, está bem?
COISINHA: Oh! Muito obrigado Sr Madeira, muito obrigado. 20 mil réis! Quanta gentileza. Mas é que eu preciso de algum para agora, eu vou fala com o Sr. Meirelles, ele não vai negar...
MADEIRA: Não! Seu Coisinha , aqui eu tenho 2 mil réis. Toma! Eu acho que vai ajudar... COISINHA: Vai ajudar sim senhor. Muito obrigado Sr. Madeira. Assim que eu receber eu...
MADEIRA: Não se preocupe em pagar Seu Coisinha, preocupe apenas em ser discreto...
COISINHA: Ah! Esteja tranqüilo senhor. Discreto, sim senhor! Muito obrigado Sr.
Madeira! E que Deus o proteja.
( MADEIRA FICA SOZINHO EM CENA E COMEÇA A ENSAIAR UMA MÚSICA; CANTA: “O DIA EM QUE ME QUEIRAS ” ; ANA FLORISBELA ENTRA E O VÊ CANTANDO)
CENA 3 – MADEIRA E ANA FLORISBELA
MADEIRA: Por que você não foi ao nosso encontro ontem?
ANA FLORISBELA: Me perdoe querido, mas não pude comparecer, Eu expliquei no bilhete...
MADEIRA: Que bilhete?
ANA FLORISBELA: Que eu deixei no seu camarim...
MADEIRA: Cebolas! Não achei. Fiquei com o coração em frangalhos.
ANA FLORISBELA: Meu bombom...
MADEIRA: Meu suspiro...
ANA FLORISBELA: Você é tão lindo, tão romântico ... Mas preferi não arriscar. O Meireles com suas aulas de fisiologia da paixão, me solicitou novamente para demonstrações de morte morrida e morte matada! Não tive jeito.
MADEIRA: Ah! Meireles! Esta situação está me deixando louco! Por você sou capaz até de matar!
ANA FLORISBELA: O que é isto, Madeira? Não me faça tomar medo de você também. Pense em mim, pense no nosso...no meu pequeno Otelo! Assim não quero...
MADEIRA: Não Ana Florisbela! Vamos mudar o rumo da conversa...
ANA FLORISBELA: Que tal, resgatar um antigo número que eu fazia no Grande Circo Família May? Eu adentrava a ribalta, vestida de uma singela borboleta, com uma enorme cobra sucuri enrolada pelo corpo ... eu arrancava aplausos da platéia, os estudantes iam ao delírio, o número era excepcional Madeira! Foi neste número que o Meirelles me conheceu ...
MADEIRA: Ai, Meirelles! Não Ana Florisbela, vamos continuar a ensaiar a minha música! Eu a compus especialmente para você! Vai ser um sucesso!
ANA FLORISBELA: Você acha mesmo? Estou nervosa. O Meirelles diz que eu tenho de trazer algo dramático nos meus números.
MADEIRA: Você vai trazer para a ribalta o tipo mais brejeiro do Brasil!
ANA FLORISBELA: Úú ! Estou bem? Bem realista? Acho que nasci para este tipo de papel! Vamos ensaiar, porque o Sr. Sandoval vai adorar encher as burras de dinheiro com o nosso número. Ai, Madeira, Machado ainda vai ouvir falar de mim!
MADEIRA: Quem é este Machado?
ANA FLORISBELA: Minha terra natal, Meirelles! Oh! Madeira!
(CANTAM: “MORENINHA LINDA, MORENINHA BOA...”; O NÚMERO É INTERROMPIDO POR MEIRELES E PRAXEDES QUE ENTRAM NA CENA CONVERSANDO ANIMADAMENTE)
Como se tratava também de um workshop de cenário, esboçou-se ali o que o grupo imaginava. Segundo a atriz Lydia Del Picchia, que interpretou a personagem Fofinha, a primeira idéia do cenário havia surgido em um workshop anterior, dirigido pela atriz Simone Ordones. A idéia era que tudo se passasse “dentro de um quadro, uma moldura, como se a história estivesse pendurada na parede, como uma lembrança.” 72
A sugestão era que a maior parte do espetáculo transcorreria nas coxias de um teatro. Alguns praticáveis seriam colocados na parte posterior, os objetos de cena seriam reais e não estilizados ou simbolizados – cadeiras, estantes, instrumentos, figurinos. Um painel no fundo (no caso do workshop uma cortina escura) apresentava recortes transparentes que, sob a incidência de luz, deixavam ver os atores tocando seus instrumentos nos trechos musicais, observando situações antes de entrar em cena, e assim por diante.
Para isso, a iluminação já havia sido elaborada com os atores e as dificuldades puderam ser solucionadas ao longo do processo. Por exemplo, tal proposta de cenário – que foi mantida por Márcio Medina – pedia uma “luz de serviço”, usada pelos atores quando ensaiam. Então, Wladimir e Alexandre tiveram de experimentar diversas maneiras de transformar uma simples luz de serviço em luz de serviço cênica.73
Com relação à trilha musical, ficou demonstrado que cada personagem teria seu número, fosse cantando, fosse dançando; que a música traduziria/complementaria a situação, e que os próprios atores seriam os instrumentistas.