A ambiguidade e a dicotomia é um assunto apresentado por Marta Costa através do elemento água, que ao mesmo tempo é passivo e feminino; a água também está ligada à formação da vida, devido a seu incessante movimento de fluir, mas aqui também aparece a sua dupla função, pois durante a imersão se liga ao aniquilamento, na perda de forma e consequentemente a morte.
É o rio Urucuia, espaço aquático inicial, medial e final da trajetória de Riobaldo. À cor de suas águas, a seu leito navegável, à região que banha, soma-se a presença de Otacília, imagem idealizada da mulher amada, ninfa, dessas águas. Mas ele é também um rio ambíguo. Se Otacília é a paz dos "remansos‖ do Urucuia, Diadorim é as suas sombras. Neste espaço, quando criança e adolescente, Riobaldo adquiriu os elementos; que o qualificariam para a vida adulta: a cultura, a destreza nas armas, o anseio de uma vida calma. Às suas margens surgem valores opostos: o fazendeiro/o jagunço; o homem com "status" social/ o marginal; o bem estar/a aventura, o ficar/ o ir e vir. (COSTA, 1997, p. 240)
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Walnice Nogueira Galvão concorda com Costa e afirma que o problema que ficou nas mãos foi o da ambiguidade, ou seja:
(...) como ela está construída esta matéria, em termos históricos (sertão, o homem pobre no meio rural brasileiro, seu estilo de vida, sua maneira de enfrentar o mundo, o sistema de dominação vigente, a violência que o garante, no romance é privilegiado o cangaço, com o jagunço como figura central) e o imaginário (medieval no sertão brasileiro, seja na tradição oral, seja no romance de cordel).
(GALVÃO, 1972, p. 12)
Numa perspectiva que procura abordar o romance a uma estrutura elíptica, Dilma Diniz (2006), apresenta os dois focos dessa ―pretensa‖ elipse: Riobaldo e Diadorim, abordando o encontro dos dois meninos nas margens do rio de Janeiro, perto do rio São Francisco, quando tinham mais ou menos quatorze anos e já apresenta a ambiguidade presente na relação entre os dois rios: um rio pequeno de águas claras, tranquilas e sem segredos, frente a um rio imponente, cujas águas são tumultuosas e escuras. Esta imagem se repete na condição dos meninos, com Riobaldo (frágil, tímido e de condição humilde) e Diadorim (corajoso, bem vestido e de boas maneiras, origem privilegiada).
Loyola (1997, p. 5) complementa dizendo que Riobaldo e Diadorim além das diferentes personalidades, também possuam origens diversas; o primeiro, tendo vivido sob a proteção materna, desconhece ao certo sua paternidade, enquanto o segundo vive sob a tutela do pai e do tio. Este é o ponto nodal que deflagra um processo tortuoso na vida de Riobaldo: Diadorim com seu excesso de coragem e sua nobre descendência, exercerá sobre ele − excluído pelo destino do universo masculino − um eterno sentimento de submissão: "Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego" (ROSA, 1994, p. 201).
Verifica-se que, nesse trecho que descreve o encontro dos dois meninos, estão reunidos todos os temas que constituem e engendram a ficção: a travessia, a dicotomia bem/mal, masculino/feminino, coragem/medo, etc. Percebe-se também que o autor dispersou pistas, na narrativa de Riobaldo, para se decifrar o enigma, lançado como um desafio ao leitor, imerso no jogo labiríntico do texto.
Para acentuar a duplicidade dos personagens, vistos como os dois focos da elipse, pode-se assinalar que Riobaldo e Diadorim, apesar de suas diferenças, possuem algumas características em comum, como por exemplo, o fato de, pelo decorrer do romance, ambos aparecerem com nomes diversos:
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Riobaldo é sempre Riobaldo, mas a esse nome se acrescentam outros, como Tatarana, ―lagarta de fogo‖, e mais tarde, o apelido de Urutu Branco, ―serpente venenosíssima‖, depois de sua passagem pelas Veredas Mortas. Conhecido como Reinaldo no grupo de jagunços, tem o apelido de Diadorim para os íntimos, apelido que é derivado de seu verdadeiro nome: Maria Deodorina. Essa pluralidade nominal nos revela também a complexidade e a riqueza polifônica da obra de Guimarães Rosa. (DINIZ, 2006, p. 8)
Loyolla trabalha ainda esta ambiguidade no que se refere ao relacionamento entre Riobaldo e Diadorim trazendo o aspecto da dualidade ativo-passivo, masculino-feminino que permite a recorrência aos mitos primordiais, cujos heróis como Vaishvanara, Shiva, P‘an-ku e Lao-kiun, tinham o olho direito ligado ao Sol e o esquerdo a Lua, sendo que a primeira correspondência aponta para o futuro, para o princípio masculino, para a autoridade e a segunda para o passado, regendo atividades associadas ao princípio feminino, à fecundação.
Assim sendo Diadorim mostra-se benevolente e terrível ao mesmo tempo. Ao lado de sua forma ameaçadora, em sua vontade inflexível de guerrear, apresenta-se uma forma graciosa. Ao mesmo tempo em que não mantém uma postura de piedade diante do inimigo — conduta supostamente feminina — parecendo inumana, sustenta com Riobaldo um relacionamento terno e de grande intimidade com a natureza, constituindo-se uma tensão entre a dimensão mortífera e a vital. (LOYOLLA, 2009, p. 9)
Assim, Diadorim, às vezes invoca a dor e o ódio e as vezes o júbilo e o amor, mas essa oscilação de papéis não se restringe à personagem Diadorim; pois a própria imagem do jagunço, assim como a do cangaceiro, é ambígua em sua função.
Como exemplo, podemos citar o cangaceiro Lampião, uma figura histórica que oscila entre um personagem reconhecido como herói ou retratado como vilão.
Renomados historiadores e antropólogos, tais como, Luitgarde Barros (2000), Frederico Mello (2005) e Maria Christina Machado (1978), entre outros, possuem diferentes visões sobre este assunto, sendo que os primeiros ressaltam o seu caráter ligado ao banditismo, enquanto Machado apresenta, dentro de uma perspectiva marxista, Lampião não como um fato isolado, mas sim como o resultado de uma época em que se processava a luta surda, empreendida pelo vaqueiro contra o senhor da terra (MACHADO, 1978, p. 6).
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Antonio Candido também ressalta as diversas ambiguidades e o caráter dinâmico das que se estabeleceram na obra, tais como: ambiguidade dos tipos sociais, que participam da cavalaria e do banditismo, a ambiguidade afetiva, que faz o narrador oscilar, não apenas entre o amor sagrado de Otacília e o amor profano da encantadora ―militriz‖ Nhorinhá, mas entre a face permitida e a face interdita do amor, simbolizada na suprema ambiguidade da mulher-homem que é Diadorim; ambiguidade metafísica, que balança Riobaldo entre Deus e o Diabo, entre a realidade e a dúvida do pacto, dando-lhe o caráter de iniciado no mal para chegar ao bem, ambiguidade inicial e final do estilo, popular e erudito, arcaico e moderno, claro e escuro, artificial e espontâneo (CANDIDO, citado em MARÇOLLA, 2009, p. 3).
Estas ambiguidades imbricadas têm para Heloisa Starling a sua interpretação na própria situação econômica e social do país, que por ser deficitária, possui uma população que parece habitar uma zona limítrofe onde as relações humanas remetem à precariedade, à intermitência e à reviravolta, e cujas fronteiras encontram-se perpetuadas pelo entrecruzamento das referências, pela confusão dos registros étnicos e culturais, pela produção de híbridos, pelo entrecruzamento do vivido e da ficção, pela mistura do sagrado e do profano, sem que uma clivagem radical venha a separar qualquer um desses termos (STARLING, 2009, p. 6).
Toda essa ambiguidade que enche Riobaldo de dúvidas acaba por permitir a Peron Rios (2009) afirmar que Riobaldo sem nunca ter ―certeza de coisa nenhuma‖ pode ser chamado do ―Hamlet do sertão‖.
Eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados...
Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si;
mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... (ROSA, 2009, p. 307)
Outra ambiguidade que, de uma forma geral, desperta o imaginário dos leitores é a ambiguidade de nomes, uma ambiguidade que já aparece no título (nome) do romance, seja na contraposição entre a imensidão do sertão com as veredas como no próprio significado da palavra vereda, uma palavra equívoca, que tanto pode significar um lugar aprazível como um lugar infernal.
Leonardo Almeida (2009) vai se apoiar na tabula smaradigma, para notar que no fragmento ―Ouro e prata que Diadorim aparecia ali‖ (ROSA, 2009, p. 405) se configura a distribuição entre o masculino e o feminino que se faz da seguinte forma:
―(...) masculino: o sol, ouro, o fogo, o ar, o rei, o espírito de enxofre; feminino: a luz, a prata, a terra, a água, a rainha, o espírito de mercúrio‖ (BRANDÃO, citado em ALMEIDA,
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2009). Ouro associado ao princípio masculino e ao espírito de enxofre; a prata ao princípio feminino e ao espírito de mercúrio.
Para Almeida, estes símbolos heráldicos consubstanciam a ―união dos contrários‖, mas indo um pouco além, Maria Cristina Machado (2003, p. 66-67) já denunciava esta ambiguidade ao trazer os vários significados do nome Diadorim, seja como Diabo (Diá), seja como Deus (Déa); ou ainda Dia, em suas conotações de tempo, luz, brilho (de ouro). Assim, o nome Diadorim traz a possibilidade de se seguir tanto o bem quanto o mal; demonstrando a ambivalência das proposições.
Na tentativa de visualizar o processo pelo qual o real, o fictício joga com o imaginário nessas diversas leituras, é interessante notar que Loyolla apresenta a pedra ametista, como um elemento que ajuda a elucidar o comportamento ambíguo de Diadorim, que às vezes é dócil e às vezes é seco, pronto para matar e vingar. Esta pedra corresponde na astrologia ao planeta Vênus que faz duas aparições nas duas extremidades do dia, sendo por isso conhecido como estrela da manhã e estrela da tarde, o que faz dele um símbolo de morte e renascimento. ―Como deusa da tarde, sob a influência da lua, favorece o amor e a volúpia — uma divindade do prazer; como deusa da manhã, em virtude de seu parentesco com o sol, preside os atos de guerra e massacre. Assim em Diadorim, ora suas qualidades guerreiras se impõem, ora ela se permite ao prazer‖ (LOYOLLA, 2009, p. 6).
Essa dualidade estrela da manhã e estrela da tarde parece ser uma das grandes coincidências entre esta interpretação proposta por Loyola e o comentário efetuado por Schollhamer (ROCHA, 1999, p. 118), para quem, Gotlib Frege tem uma grande influência na teoria de Iser:
(...) os significados são distinguíveis da referência, pois diferentes signos podem se referir aos mesmos objetos, como é o caso das duas frases para se referir ao planeta ―Venus‖. Para se explicar a diferença cognitiva entre as duas frases, é necessário considerar o conteúdo dos signos e não eles próprios através de uma explicação não metalinguística das sentenças. Sentido é um conteúdo cognitivo suplementar ao objeto, assim, estrela da manhã e estrela da tarde falam do mesmo objeto e dividem o mesmo conteúdo semântico, portanto elas tem o mesmo objeto (referente), por via sentidos diferentes. (FREGE, 1978, p. 112)
Assim, Marta Costa evidencia que a interrogação constante de Riobaldo de onde estaria o bem e onde estaria o mal, exige do leitor, uma volta constante às origem dos fatos e das coisas e a constante verificação de que os limites entre um e outro são extremamente imprecisos e fluidos (COSTA, 1977, p. 243).
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Toda essa ambiguidade acarreta numa dificuldade que Riobaldo sente em não possuir, como observamos através das interpretações analisadas, nenhuma certeza sobre nada. Ele incorpora a dúvida ao mundo dos valores e, com ela, a reflexividade da consciência, fazendo que em Grande sertão: veredas, segundo Sonia Andrade, a palavra tenha uma ―plurivalência de significados. ―Ela não pretende absolutamente chegar a uma compreensão definitiva da realidade pela qual indaga com insistência‖ (ANDRADE, 1982, p. 7).