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DOS PONTOS DE ENCONTRO

No documento NOVOS TEMPOS, MESMAS HISTÓRIAS (páginas 135-138)

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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 9, 2013.

Se as pretensões de conhecimento sistemático mostram-se cada vez mais como veleidades, nem por isso a ideia de totalidade deve ser abandonada. Pelo contrário: a existência de uma profunda conexão que explica os fenômenos superficiais é reforçada no próprio momento em que se afirma que um conhecimento direto de tal conexão não é possível. Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la. (GINZBURG, 1989, p. 177)

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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 9, 2013.

Pode-se travar a mesma batalha usando táticas diferentes. No caso aqui analisado, procurei combater adotando a escala microscópica, a tendência pós-moderna de abolir a distinção entre história e ficção.

Em outras palavras, entrei no terreno do adversário e parti das suas questões, mas cheguei a respostas completamente diferentes.

(GINZBURG, 2007, p. 157)

Há uma preocupação em Ginzburg em relação ao uso indiscriminado das narrativas ficcionais. A ficção é um material que deve ser analisado com reserva; ou quem sabe Ginzburg tema que o excesso de hibridismo entre ficção e história culmine num conhecimento histórico ficcionalisado. É neste sentido que ele avalia, por exemplo, que nos romances medievais do século XVII é possível ―detectar testemunhos históricos involuntários sobre usos e costumes, isolando na ficção fragmentos de verdade...‖

(GINZBURG, 2007, p. 11). Ginzburg lembra que jamais será ―inútil estudar falsas lendas, falsos acontecimentos, falsos documentos: mas uma tomada de posição preliminar sobre sua falsidade ou autenticidade é sempre indispensável‖ (p. 13). Novamente, Ginzburg reforça as fronteiras entre ficção e história ao reiterar que o verdadeiro deve ser separado do falso e que a ficção tem validade enquanto é possível extrair, a partir dela, fragmentos de comprovada importância historiográfica. Aqui é possível tecer uma analogia com o que Ginzburg fala a respeito do paradigma indiciário. Assim como a ficção só passa a valer a partir do momento em que demonstra sinais de validade para o conhecimento historiográfico, da mesma forma a investida na micro-história (no sintoma) só tem sentido se imaginamos que o desejo de totalidade não está perdido. A preocupação de Ginzburg com as perspectivas abertas pelo pós-moderno reside, portanto, na tendência à indiferenciação entre ficção e história e que teria como conseqüência a construção de um conhecimento histórico relativizado. ―Hoje, a insistência na dimensão narrativa da historiografia (de qualquer historiografia, ainda que em diferente medida) se faz acompanhar, como se viu, de atitudes relativistas que tendem a anular de fato qualquer distinção entre ficção e história, entre narrações fantásticas e narrações com pretensão de verdade‖ (p. 329, ênfase no original). Ao falar de Tolstói, Ginzburg elogia a plausibilidade dos personagens construídos pelo romancista, quase como se fosse possível através da leitura de Tolstói, mesmo levando em consideração ―os obstáculos postos à pesquisa sob a forma de lacunas e distorções da documentação‖ (p. 271), entrar ―numa relação de especial intimidade com os personagens, de participação imediata nas suas histórias‖ (p. 271). Mas, antes que a animação proporcionada pela ficção assuma tons preocupantes, Ginzburg alerta: ―Mas esse salto, essa relação direta com a realidade, só pode se dar (ainda que não necessariamente) no terreno da ficção: ao historiador, que só dispõe de rastros, de documentos, a ele é por definição vedado‖ (p. 271).

Neste sentido, é interessante convocar algumas palavras de Jacques Rancière, contidas em A partilha do sensível (2009), com o objetivo de avaliar mais profundamente, e sob ponto de vista diferente, a relação entre ficção e história.

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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 9, 2013.

―Passar dos grandes acontecimentos e personagens à vida dos anônimos, identificar os sintomas de uma época, sociedade ou civilização nos detalhes ínfimos da vida ordinária, explicar a superfície pelas camadas subterrâneas e reconstituir mundos a partir de seus vestígios, é um programa literário, antes de ser científico‖ (RANCIÈRE, 2009, p. 59).

A partir de Rancière, pode-se inferir que o paradigma indiciário de Ginzburg, antes de uma ferramenta de pesquisa à disposição do historiador, constitui-se um procedimento literário. E, como procedimento literário, tem como característica central o hibridismo intermitente. Na linha de Rancière, a literatura organiza-se, então, não somente pelo ponto de vista da ficção, mas pelo ponto onde se entrecruzam ficção e história. A literatura não se consolida como o ―reino da ficção‖ (RANCIÈRE, 2009, p. 55), mas como um ―regime de indistinção tendencial entre a razão das ordenações descritivas e narrativas da ficção e as ordenações da descrição e interpretação dos fenômenos do mundo histórico e social‖ (p. 55). Se por um lado Ginzburg intencionava delimitar (ou quem sabe reforçar) as fronteiras entre ficção e história a fim de não recair num conhecimento relativista – conhecimento ao qual tende o ceticismo pós-moderno, na visão do italiano –, Rancière, por outro lado, enxerga nesta aparente indistinção entre ficção e história justamente a potência do conhecimento histórico, já que ―o real precisa ser ficcionado para ser pensado‖ (p. 58).

Didi-Huberman, ao analisar as montagens efetuadas por Brecht, lembra que se trata de uma forma de conhecer de difícil localização, que não se adéqua nem à ―intemporal ficción, ni en la factualidad cronológica de los hechos de la realidad‖

(DIDI-HUBERMAN, 2008, p. 73).

La pura ficción – por ejemplo, la de Metamorfosis de Ovidio – desconoce toda historicidad, se arriesga a cada instante a caer en el mito. Pero la pura narración documental – por ejemplo, la de un reportaje de Life – desconoce así mismo su historicidad inmanente puesto que la hace recaer enteramente sobre las cosas en detrimento de las relaciones, sobre los hechos en detrimento de las estructuras.

(DIDI-HUBERMAN, 2008, p. 73)

Ainda com Didi-Huberman, em Sobrevivência dos vagalumes (2011), poder-se-ia dar como exemplo os comentários do autor a respeito das narrativas oníricas produzidas por Charlotte Beradt nos campos de concentração nazista. A estratégia de Beradt, segundo Didi-Huberman, consistia em registrar (descrever) os sonhos das pessoas confinadas nos campos. É o que se chamou de ficções psíquicas, relatos que, embora não trouxessem testemunho objetivo da realidade em questão, tampouco deveriam ser excluídos como material para o conhecimento histórico, já que iluminavam vivamente a realidade de onde partiam. ―Nesse ponto, o importante é que o historiador reconheça à narrativa onírica uma autoridade no conhecimento histórico como tal‖ (DIDI- HUBERMAN, 2011, p. 137, ênfase no original).

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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 9, 2013.

Aos poucos, nota-se que a mudança de postura do historiador em relação ao conflito entre ficção e documento implica uma mudança radical da noção corrente de temporalidade. Essa mudança desloca o historiador da condição privilegiada de analisador dos acontecimentos sociais, exclui-o da possibilidade de, sob um ponto de vista superior e racional, domesticar os fenômenos, tomando os fatos históricos como dados objetivos. Especificamente sobre a noção de temporalidade, isso significa implodir a ideia cronológica da história. É isso que, em linhas gerais, para Didi-Huberman, traduz tomar a história a contrapelo. Se Ginzburg traduz o pressuposto benjaminiano sob uma perspectiva mais factual – a busca por documentos escondidos, a leitura de textos por um viés que contrarie a intenção do autor –, Didi-Huberman, em Ante el tiempo, vê na herança benjaminiana uma mudança revolucionária em relação à temporalidade histórica corrente, àquela que confia na sucessão linear dos acontecimentos. Assim, para Didi- Huberman, ―tomar la historia ‗a contrapelo‘ es ante todo invertir el punto de vista‖ (DIDI- HUBERMAN, 2006, p. 135, ênfase no original). Segundo o francês, é necessário entender

―de qué manera el pasado llega al historiador, y cómo llega a encontrarlo en su presente, en lo sucesivo entendido como presente reminiscente‖ (p. 135, ênfase no original). Deve- se, como foi dito, ―pasar del punto de vista del pasado como hecho objetivo al del pasado como hecho de memoria, es decir, como hecho en movimiento, hecho psíquico tanto como material‖ (p. 137, ênfase no original). Fato em movimento, fato em processo, mas, igualmente, historiador em movimento, historiador em processo. Considerar que os fatos históricos não são objetivos significa, da mesma forma, desconsiderar o historiador enquanto conhecedor estático. É isso que, em Didi-Huberman, significa introduzir elementos como a memória e a imaginação quando se aborda o método de conhecimento histórico. Memória aqui entendida não como armazém organizado do ocorrido, algo como um centro de achados e perdidos onde se pudesse localizar o que se perdeu – ou o que se quisesse resgatar –, mas memória entendida segundo o que ela carrega de acidental, de falho. ―(…) las dificultades esenciales de la ciencia histórica no le vienen solamente del alejamiento del pasado o de las lagunas de la documentación, sino de un inconsciente del tiempo, un principio dinámico de la memoria de la cual el historiador debe hacerse a la vez el receptor – el soñador – y el intérprete‖ (p. 137, ênfase no original).

No documento NOVOS TEMPOS, MESMAS HISTÓRIAS (páginas 135-138)