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Primeira fase (1788-1968): igualitarismo

No documento FEMINISMO E EVANGELIZAÇÃO (páginas 37-48)

36 Para melhor situar essas diversas expressões históricas do feminismo, seguiremos a marcação proposta por Kristeva39 e retomada por Machado40, que mostram três configurações do pensamento feminista como formações de um “campo de saber” sobre o feminismo e o gênero. Todavia, existem autoras que tecem outras configurações. Todas, porém, ainda que com suas peculiaridades, mais ou menos convergem entre si. Segundo essas autoras o pensamento feminista construiu-se a partir de três gerações de feministas em épocas, lugares e situações diferentes41: a primeira geração postulou a igualdade entre homens e mulheres; a segunda defendeu tanto a igualdade quanto a diferença. Já a terceira propõe manter a diferença com equidade, ampliando-a para uma multiplicidade de diferenças: entre mulheres e homens; entre as próprias mulheres; entre os homens; entre classes sociais, raças, etnias, grupos e gerações.

37 valores propostos pelo racionalismo dos Estados-nações que tinha como paradigma a “razão iluminista, civilizatória e linear”43. Nesse contexto, quando o liberalismo emergiu com a reflexão sobre o “indivíduo” e os “direitos” e com a proposta de “liberdade, igualdade e fraternidade”, as mulheres apropriaram-se de seu referencial político-ideológico para reivindicar direitos igualitários. Partindo dos direitos individuais, processualmente foram exigindo maior âmbito de autonomia pessoal, profissional, social e política.

Houve e ainda há desqualificações ao feminismo liberal por parte de correntes antiliberais. Equivoca-se, porém, quem pensa que as reivindicações das feministas liberais se limitavam às pretensões do liberalismo clássico e tradicional. Se por um lado não há como negar que o feminismo, em sua origem, foi uma voz ilustrada e burguesa que reivindicava direitos igualitários, com pouco êxito em determinadas circunstâncias, ainda que com avanços óbvios no decorrer de quase três séculos, devemos ter presente que o liberalismo não é homogêneo e de caráter indiscutível, e sim uma variedade de posições teóricas, nem sempre conciliáveis, que se podem qualificar como liberais, porém com raiz e base filosófica comum.

Nesse panorama, o feminismo ilustrado, mesmo inspirando-se no pensamento liberal, foi mais além, em suas postulações e objetivos, das muitas variantes do liberalismo.

Sua política de direitos individuais reivindicava para as mulheres, como coletivo e individualmente, o direito de autodeterminação, de liberdade de escolhas, de pleno acesso à educação e à igualdade de oportunidades, o que implica, conforme a opinião de Gallego, em determinadas políticas redistributivas, não sendo, portanto, uma simples superposição a qualquer liberalismo44.

Vamos, portanto, seguir um pouco da trajetória do feminismo liberal, tendo em conta que como expressão pública, histórica, social e coletiva das mulheres, ele teve seu início na modernidade, quando a industrialização estimulou a expansão do capitalismo, que teve como paradigma político a Revolução Francesa (1789), na qual o povo atuou ativamente para acabar com privilégios formais e costumes antiquados. Esse foi “o caldo cultural onde brotou o feminismo”, tal como o entendemos hoje45.

É notório que o capitalismo contribuiu para alterar profundamente as relações entre os sexos. De um lado as mulheres proletárias foram incorporadas ao processo industrial

43 MACHADO, L. Z. Feminismo, academia e interdisciplinaridade..., p. 28.

44 GALLEGO, M. T. Los movimientos feministas en Europa. In: MELLA, M. La isquierda europea. Madrid:

Teide, 1985, p. 234.

45 TOSCANO, M.; GOLDENBERG, M. A revolução das mulheres..., p. 17.

38 como mão de obra mais barata e submissa ao novo sistema de produção. De outro, lembra De Miguel46, as mulheres burguesas continuaram enclausuradas no espaço doméstico como suporte para garantir o status e o sucesso do cônjuge e como sua “propriedade legal”.

Marginalizadas da educação e das profissões liberais elas se organizaram em torno da reivindicação ao direito do sufrágio e da igualdade em todos os âmbitos da vida familiar e social, apelando para a universalização dos valores democráticos e liberais. O voto era considerado um meio – ainda que indireto – de ter acesso ao parlamento para, desde aí, mudar as leis e instituições em favor das mulheres, fato que até hoje ainda não se tornou plena realidade devido ao ainda limitado número de mulheres nos espaços do poder político constitucional; era também um meio de unir as mulheres de opiniões políticas diferentes;

daí que, “inicialmente”, a articulação do feminismo liberal era vista como “interclassista”, ou “internacionalista”47, pois percebia-se que as mulheres – independentemente de sua classe social – sofriam discriminações semelhantes.

Além dos escritos de Pisan, La Barre, Condorcet, Stanton, Fourier, Mill e outros, a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, escrita por Gouges, e a Reivindicação dos Direitos da Mulher, de Wollstonecraft, foram o fermento que fez o feminismo liberal se expandir, ao mesmo tempo em que mulheres de outros países foram aderindo a seus princípios e propostas. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na realidade não beneficiava todas as pessoas. Para as mulheres permaneceram os “códigos patriarcais inscritos na Ménagier de Paris”48. Por isso, na Declaração dos Direitos da Mulher Gouges propôs: a substituição do casamento por um Contrato Social entre homem e mulher com igualdade de direitos; o reconhecimento pelo Estado das uniões de fato; a legalização do divórcio49; maior atenção à maternidade; o direito de as mulheres votarem e exercerem uma profissão; o direito de subirem à tribuna, já que tinham a obrigação de subirem ao cadafalso50.

Outro aspecto digno de ser lembrado é que Gouges, com suas companheiras, se posicionavam a favor da abolição da escravidão nos países colonizados, assim como contra a pena de morte. Acusada de querer ser um homem de Estado e esquecer as virtudes

46 DE MIGUEL, A. Feminismos..., p. 228.

47 TOLEDO, C. Mulheres: o gênero nos une; a classe nos divide. São Paulo: Ed. Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2003, p. 91.

48 SARDENBERG, C. M.; COSTA, A. Feminismos, feministas e movimentos sociais..., p. 86.

49 Somente à Igreja era reconhecido o direito de legitimar a união de homens e mulheres pelo matrimônio. E a mulher só podia exigir o divórcio se o marido levasse a concubina para o domicílio conjugal.

50 ALBISTUR, M.; ARMOGATHE, D. Histoire du féminisme français. Paris, Ed. Dês Femmes, 1977, p. 229.

39 atribuídas ao seu sexo, Gouges foi guilhotinada em 1793. Além dela, outras trezentas e setenta e quatro mulheres foram executadas no período revolucionário. Assim as mulheres, que foram grandes lutadoras na Revolução Francesa, inclusive nas frentes de combate, foram traídas pela Revolução; “os clubes femininos foram fechados, suas líderes presas e as demais mulheres proibidas de se encontrar; por fim, nega-se-lhes o direito à cidadania e ao voto”51.

Por sua vez, a obra de Wollstonecraft – Reivindicação dos Direitos das Mulheres – na qual a autora exige o direito ao trabalho, à educação, à emancipação econômica das mulheres e à igualdade entre os sexos, tornou-se o símbolo do feminismo liberal, mas chocou intelectuais da época que a chamaram de “serpente filosofastra e hiena de anáguas”52.

Paradoxalmente, o sofrimento e o martírio dessas mulheres expandiram a consciência e fecundaram o campo para o nascimento do feminismo em vários países. Na Itália, muitas mulheres protestaram contra sua situação. Em 1794, a condessa Rosa Califronia também ousou publicar a Breve Defesa dos Direitos da Mulher. Surgem ali os primeiros periódicos femininos que reivindicaram direitos iguais, embora fossem restritos a grupos minoritários de mulheres53.

Outro passo importante deu-se nos Estados Unidos, em Seneca Falls (1848), onde Lucrécia Mott e Elisabeth Cady Stanton, seguindo o exemplo de Gouges, redigiram e leram publicamente a Declaração de Princípios de Seneca Falls. Com esse escrito, ambas também reagem contra a Declaração de Independência dos Estados Unidos que excluía as mulheres do exercício da cidadania. Estas, que já votavam quando o país era Colônia Britânica, com a independência perderam até mesmo esse direito. A adesão de muitas mulheres brancas às lutas abolicionistas as ajudou a tomar consciência de que elas próprias também estavam submetidas a um tipo de escravidão, em razão de seu sexo. A Declaração de Princípios, assinada por sessenta e oito mulheres e trinta e dois homens, exigia para as mulheres a igualdade de salário, o direito de propriedade, de votar, de fazer contratos, de ser testemunha, de ter a guarda dos filhos e de levar ou ser levada aos tribunais, já que só o homem podia comparecer em juízo.

51 ASTELARRA, J. O feminismo como perspectiva teórica e prática política..., p. 3.

52 SARDENBERG, C. M.; COSTA, A. A. Feminismos, feministas e movimentos sociais..., p. 86.

53 SAU, V. Un diccionario ideológico…, p. 109.

40 Todavia, foi no coração do nascente capitalismo britânico que as mulheres articularam uma das mais duras lutas pelos seus direitos. Manchester, símbolo do capitalismo industrial, foi a primeira cidade onde, tanto as mulheres da burguesia, como as trabalhadoras têxteis realizaram muitas manifestações e organizaram o movimento sufragista (1865). Em outras cidades como Londres, Birminghan e Bristol, grandes polos industriais, as mulheres também se organizaram e exigiram o direito à educação, a ampliação do mercado de trabalho, salários iguais aos dos homens, proteção à maternidade, direitos trabalhistas e o direito do voto. A partir de 1904, o sufragismo inglês passou a ter força e expressão política; as feministas fundaram a União Social e Política das Mulheres e passaram a adotar várias estratégias para conquistar tais direitos, desde greves de fome e lobby junto ao parlamento, até manifestações que causaram choques com a polícia54.

Nessa trajetória de lutas para obter direitos civis e políticos, o movimento sufragista do século XIX foi uma das expressões mais fortes do feminismo liberal, que durou quase um século, tornando-se a demanda mais longa das mulheres, até que no início do século XX ganhou força e visibilidade e se expandiu significativamente para outros países.

A luta pelo sufrágio, porém, não foi igual em todos os países, mas diversificou-se conforme o sistema político e econômico de cada um. O Estado de Wyoming (EUA), foi o primeiro – devido às demandas de Stanton e suas companheiras – onde as mulheres conquistaram o direito ao voto (1869)55. A França, porém, sendo o primeiro país onde o voto feminino foi pleiteado, reconheceu esse direito só em 1946, quando muitos países já o haviam feito. O vínculo do feminismo francês com os partidos marxistas dificultou a conquista do voto, já que estes tinham posturas antiquadas a esse respeito. Por isso, ali os movimentos sufragistas não tiveram a mesma expressão que em outros países.

Em suma, a característica principal do feminismo liberal era a sua insistência na igualdade social, especialmente na igualdade econômica e nos direitos civis e políticos.

Supunha-se que conquistando tais direitos eliminar-se-iam as assimetrias entre os sexos. A situação das mulheres era vista mais como “desigualdade” do que como “opressão” e

“exploração”. Talvez, esse tenha sido o maior equívoco das feministas liberais: acreditar

54 TOSCANO, M.; GOLDENBERG, M. A revolução das mulheres..., p. 20.

55 Os demais países o fizeram sucessivamente: Nova Zelândia (1893), Austrália (1901), Finlândia (1906), Noruega (1913), Dinamarca e Islândia (1915), Holanda e Rússia (1917), Inglaterra e Alemanha (1918), Suécia (1919), EUA (1920), Irlanda (1922), Áustria (1923), Checoslováquia e Polônia (1923), Espanha (1931), Itália (1945), China (1947), Canadá (1948), Índia (1949), Japão (1950). A Suíça só o fez em 1972, mas não em todos os cantões. Estranhamente, o Equador, país predominantemente indígena, foi o primeiro da América Latina e Caribe a reconhecer o voto feminino em 1928, ao contrário do Paraguai que o reconheceu somente em 1961. Os outros países o fizeram paulatinamente.

41 que alcançando os mesmos direitos e lugares que os homens de sua classe, ou simplesmente qualificando a mão de obra feminina e oferecendo-lhe oportunidades de trabalho as desigualdades entre os sexos desapareceriam. Desse modo, como pontuou Saffioti56, elas não questionaram os tradicionais papéis de gênero atribuídos às mulheres, nem o modelo patriarcal ou o sistema capitalista. Por isso, após a conquista do voto e de alguns direitos, esse feminismo não obteve muitos avanços.

De outro lado, mesmo não visando mudanças na estrutura do sistema capitalista, mas simplesmente a que as mulheres a ele fossem incorporadas, muitos foram os desafios que as feministas liberais enfrentaram para conquistar direitos que hoje são quase universalmente reconhecidos, como o voto, a educação feminina, o direito à individualidade e privacidade, direito este que lhes dá o poder de tomar decisões sobre sua própria vida, seu corpo, sua saúde e sua vida sexual e reprodutiva; elas centraram-se nas demandas políticas porque pensavam que, conquistados os direitos políticos, seria bem mais fácil obter outros direitos; perseguiram esse objetivo mesmo que suas reivindicações não atingissem o contingente das mulheres no seu todo57. Com efeito, como observa Astelarra58, embora no início esse feminismo fosse constituído de mulheres brancas e da classe burguesa, paulatinamente suas propostas foram apropriadas por um grande número de mulheres operárias que se autoconscientizaram da opressão e exploração que sofriam em sua própria família e em sua classe social, somente pelo fato de serem mulheres. Essa consciência contribuiu para o surgimento do feminismo socialista que será abordado logo adiante.

Distefano, que também analisou esse fenômeno, acrescenta que, ao sustentar que ninguém tem o direito de exercer o domínio sobre outras pessoas, nem os homens sobre as mulheres, as reivindicações das feministas liberais favoreceram, além das mulheres burguesas e operárias, outras pessoas também desrespeitadas em seus direitos59. Por isso,

56 SAFFIOTI, H. I. B. O que é feminismo. In: TOSCANO, M.; GOLDENBERG, M. A revolução das mulheres..., p. 62; IDEM. O poder do macho, p. 113.

57 KING, Y. Curando feridas: feminismo, ecologia e dualismo natureza/cultura. In: JAGGAR, A. M., BORDO, S. R. (Orgs.). Gênero, corpo e conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997, p. 131. É importante esclarecer que a luta pelo sufrágio não estava desligada de outras demandas sociopolíticas e econômicas das mulheres. Nos EUA, por exemplo, ela estava vinculada à luta contra o alcoolismo e a favor do abolicionismo. Na França as mulheres se pronunciavam contra a pena de morte e a favor do abolicionismo nos países colonizados.

Desde o início, os grupos feministas utilizaram diversas estratégias e buscaram alianças políticas e sociais para estabelecerem redes de influência mais eficazes. Tais alianças eram mais ou menos fortes conforme o grau de adesão das mulheres ao projeto político liberal, socialista ou anarquista. As demandas das liberais eram o trabalho e o sufrágio; das socialistas, a educação, a proteção à maternidade e os direitos trabalhistas; das anarquistas a anticoncepção e a educação sexual (KAPPELI, A. M. Escenários del feminismo. In: FRAISSE, G.; PERROT, M.

(Orgs.). Historia de las mujeres (Siglo XIX). Madrid: Taurus, 1993, p. 518-523).

58 ASTELARRA, J. O feminismo como perspectiva teórica e prática política..., p. 3-4.

59 DISTEFANO, C. Gênero e teoria política. Amherst: Universithy of Massachusetts, 1985, p. 238.

42 mesmo não atingindo as reais causas das desigualdades de gênero, elas abriram caminho, não apenas para as mulheres, mas para muitas outras pessoas entrarem na luta política pelo reconhecimento de seus direitos. De fato, vários revolucionários da época reconheceram a importância dessas mulheres como agentes de transformação no contexto geral das lutas emancipadoras.

Ademais, é importante ainda ressaltar que o feminismo liberal que se expressou em sua nova fase ou versão a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), até meados de 1970, carente em um primeiro momento – assinala Muñoz – de outro referencial teórico senão aquele da herança ilustrada e do sufragismo60, teve como uma de suas principais protagonistas a feminista Betty Friedan (1921-2006); com a obra A Mística Feminina (1963), a autora resgatou alguns postulados do feminismo liberal clássico, o qual, desde a conquista do voto e de alguns direitos, efetivamente encontrava-se estagnado61. Sob o impacto do seu livro – que se tornou um clássico do feminismo – as mulheres da classe média norte-americana, e posteriormente de outros países, saíram às ruas reivindicando direitos igualitários. A obra de Friedan é considerada o ponto de partida para a revitalização do feminismo liberal, embora ela seja criticada por outras correntes feministas por não apresentar uma análise dos sistemas capitalista e patriarcal, e por demandar apenas uma igualdade jurídica e de âmbito público, que não se torna real, visto que não altera o âmbito privado.

A esse respeito, as críticas mais contundentes a Friedan partiram do feminismo radical, o qual defende que o âmbito privado também é político e que as assimetrias entre homens e mulheres não foram solucionadas quando estas entraram no mercado de trabalho;

60 MUNÕZ, C. S. et al. Feminismo liberal, radical y socialista. In: BELTRÁN, E. et al. Feminismos: debates teóricos contemporáneos. Madrid: Aliança Editorial, 2001, p. 86.

61 FRIEDAN, B. The feminine mystique. New York: Norton, 1963. Este livro é reconhecido – depois de O Segundo Sexo, de Beauvoir – como um dos mais importantes para a segunda onda feminista e uma das mais influentes obras norte-americanas do século XX, onde Friedan critica a noção tradicional de que a mulher se sente completa apenas com a maternidade e os afazeres do lar. Considerada uma feminista liberal por não ultrapassar o

“igualitarismo”; crítica implacável de algumas posições do feminismo radical, mas adepta de outras, sobretudo de ideias de Beauvoir; mãe, dona de casa, psicóloga clínica social e escritora, ao estimular as mulheres ao estudo e ao trabalho fora de casa Friedan ousou e conseguiu mudar o papel que limitava as mulheres ao “confortável campo de concentração”, o mundo do lar, no mito de mães e esposas felizes, alienadas das reais aspirações femininas (mística da feminidade), o chamado “mal que não tem nome”; este provocava crise de identidade nas mulheres que não se identificavam com o modelo de “rainha do lar” sustentado pela sociedade americana da época. Seu objetivo como teórica feminista foi dar nome a esse mal. Para Friedan, essa mística feminina autodestrutiva cerceia toda possibilidade de realização pessoal das mulheres e culpabiliza aquelas que não se sentem felizes vivendo a mística da autodoação absoluta. Já em seu posterior livro A Segunda Fase, Friedan enfatiza que é preciso transcender a primeira etapa do movimento para a libertação das mulheres e unir forças com os homens para completar a revolução dos papéis sexuais, que, não obstante a repercussão de A Mística Feminina, ainda têm um longo caminho a ser percorrido (FRIEDAN, B. A segunda fase. Barcelona: Plaza y Janés, 1983).

43 pelo contrário, a sobrecarga de responsabilidades domésticas não compartilhadas pelos homens resultou em mais uma jornada de trabalho para as mulheres e trouxe à luz outras desigualdades que estavam restritas ao âmbito doméstico.

Em suma, com A Mística Feminina, Friedan, que se identifica como pragmática, reativou o debate público sobre as reivindicações das mulheres, debate este que, de outras formas, perdura ainda hoje no campo constitucional, legislativo e jurídico, evidenciando a importância de se implantar políticas afirmativas que assegurem os direitos e atendam as necessidades das mulheres em todos os âmbitos e fases da vida. É curioso que, mesmo não desenvolvendo uma análise do patriarcado como o fizeram as feministas radicais, a obra de Friedan centre-se quase que exclusivamente no âmbito privado-doméstico para identificar a matriz de subordinação das mulheres e incentivá-las a ultrapassá-la. Assim, bem sucedido em alguns aspectos e limitado em outros, devemos reconhecer que as aportações contemporâneas do feminismo liberal assentaram o alicerce para avanços práticos posteriores e para discussões teóricas importantes que até hoje ocupam a pauta feminista.

2.1.2 Feminismo socialista marxista

Afirma Ana de Miguel que “o socialismo como corrente de pensamento sempre teve em conta a situação das mulheres na hora de analisar a sociedade e projetar o futuro”62. Como já foi referido antes, os socialistas utópicos foram os primeiros a abordar o tema da mulher. O eixo de seu pensamento centra-se na análise da situação econômica e social da classe trabalhadora. No entanto, mesmo admitindo a necessidade de independência econômica das mulheres, eles não foram críticos em relação à divisão sexual do trabalho.

Ainda assim, sua desaprovação quanto à exploração das mulheres pelo capitalismo teve larga repercussão social. A tese de Fourier, de que a emancipação feminina é o parâmetro para se avaliar o grau de progresso e de civilização de qualquer sociedade, foi assimilada literalmente pelo socialismo posterior. Os seguidores de Saint Simon e Robert Owen admitiam até mesmo que “o poder espiritual dos varões havia se esgotado e a salvação da sociedade só podia vir do ‘feminino’. Em alguns grupos, inclusive, se iniciou a busca por um novo messias feminino”63.

62 DE MIGUEL, A. Feminismos…, p. 230.

63 DE MIGUEL, A. Feminismos…, p. 231.

44 Em meados do século XIX, porém, os trabalhadores começaram a assimilar o socialismo de inspiração marxista ou “científico”, o qual passou a articular a questão feminista em sua teoria geral da história, proporcionando uma nova abordagem sobre a origem da opressão das mulheres e novas estratégias para sua emancipação. Como mostrou Toledo, o maior avanço proporcionado pelo marxismo “foi ter arrancado o socialismo e a liberação da mulher da esfera utópica, demonstrando que o próprio capitalismo engendra uma força – a classe operária – que é bastante poderosa para destruí-lo”64. Assim, conforme o pensamento desta autora, a liberação da mulher, que está inevitavelmente condicionada pela conquista do socialismo, deixa de ser um sonho pessoal impossível e se torna uma necessidade para toda a humanidade e uma tarefa coletiva de toda a classe trabalhadora.

É justo, ainda, lembrar que também fazem parte da primeira geração de feministas, muitas trabalhadoras das camadas populares, que mesmo antes da Revolução Francesa já participavam de clubes femininos populares e de alguns setores produtivos; essas mulheres

“[...] foram muito combativas; não houve movimento social nem revolta política do século XIX que não contasse com a sua participação; a solidariedade com os homens de sua classe foi total”65. Como as liberais, elas sentem o impacto das mudanças políticas, econômicas e culturais do seu tempo e sua repercussão na vida das mulheres. Também é preciso considerar que o capitalismo, nascido com a industrialização, com sua base na acumulação e no lucro, introduziu muitas mudanças nas relações sociais de produção e reprodução, a começar pela família, que perdeu a força produtiva dos meios de subsistência, estabelecendo-se, assim, uma ruptura entre a esfera privada (da família, mundo da reprodução), e a esfera pública (do trabalho, mundo da produção)66. A essa fragmentação, lembram Brusquini e Rosenberg,

[...] correspondeu uma divisão sexual do trabalho, cabendo ao homem o trabalho produtivo extra lar, pelo qual passou a receber um salário, enquanto à mulher coube principalmente a realização das tarefas relativas à reprodução da força de trabalho, sem remuneração. A ideologia se encarregou do resto, transformando essa rígida divisão sexual do trabalho em uma divisão

‘natural’, aplicada à biologia de cada sexo67.

64 TOLEDO, C. Mulheres: o gênero nos une..., p. 95.

65 ASTELARRA, J. O feminismo como perspectiva teórica e prática política..., p. 4; SARDENBERG, C. M.;

COSTA, A. A. Feminismos, feministas e movimentos sociais..., p. 86-94.

66 SARDENBERG, C.; COSTA, A. A. Feminismos, feministas e movimentos sociais..., p. 87.

67 BRUSQUINI, C.; ROSENBERG, F. A mulher e o trabalho. In: BRUSQUINI, C.; ROSENBERG, F. (Orgs.).

Trabalhadoras no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 10.

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