rev bras reumatol.2017;57(5):475–478
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REVISTA
BRASILEIRA
DE
REUMATOLOGIA
Relato
de
caso
Neuromielite
óptica
em
uma
adolescente
com
dermatomiosite
juvenil
Devic’s
disease
in
an
adolescent
girl
with
juvenile
dermatomyositis
Melissa
Mariti
Fraga
a,
Enedina
Maria
Lobato
de
Oliveira
b,
Claudio
Arnaldo
Len
a,
Maria
Fernanda
Campos
be
Maria
Teresa
Terreri
a,∗aUniversidadeFederaldeSãoPaulo,DepartamentodePediatria,UnidadedeReumatologiaPediátrica,SãoPaulo,SP,Brasil
bUniversidadeFederaldeSãoPaulo,DepartamentodeNeurologiaeNeurocirurgia,SãoPaulo,SP,Brasil
informações
sobre
o
artigo
Históricodoartigo:
Recebidoem22deabrilde2014 Aceitoem1dedezembrode2014 On-lineem28dejaneirode2015
I
ntroduc¸ão
Aneuromieliteóptica,também conhecidacomo doenc¸ade Devic,éclassificada como umadoenc¸a inflamatória autoi-munedesmielinizantedosistemanervosocentral,distintada esclerosemúltipla,queafetaprincipalmenteonervoópticoe amedulaespinal.1Demonstrou-sequeaneuromieliteóptica édecorrentedapresenc¸adeanticorposcontraaproteínade canaldeáguaaquaporina-4dabarreirahematencefálica.2
Hárelatosdeneuromieliteóptica nainfância,3,4 mashá poucas associac¸õesnotificadas deneuromielite ópticacom outrasdoenc¸as.Aassociac¸ãoentreaneuromieliteópticaea dermatomiositeaindanãofoidescritanaliteratura.
Relato
de
caso
Uma paciente procurou nosso servic¸o aos sete anos com manifestac¸ãodeedemabipalpebralcomhiperemiaocularnos
∗ Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](M.T.Terreri).
últimosquatromeses.Tambémapresentavaedemanasmãos enospés;dornospunhos,cotovelosejoelhos;efraqueza mus-cular.Naocasião,tambémtinhaumafebreintermitenteque perduravahavia15dias.
Oexamefísicorevelouheliotropo,sinaldeGottron,artrite nojoelhoetornozeloesquerdoefraquezamuscularnos mem-brossuperioreseinferiores(escoredeavaliac¸ãodamiositena infânciade14/52).5
Foram feitosexamesgerais, queobtiveramosseguintes resultados: hemoglobina de 10,4g/dL, contagem de leu-cócitos de 4.400 com um diferencial normal, velocidade de hemossedimentac¸ão de 70mm na primeira hora e um aumentodasenzimasmusculares(aspartatoalanina trans-ferasede712[valornormalde10a35],creatinaquinasede 187[valornormalde10a155]elactatodesidrogenasede1.150 [valornormalde240a480]).
Os ensaios para anticorpos antinucleares, anticorpos anti-DNA, anticorposanti-ENA (antígenos nucleares extraí-veis)eanticorposanticardiolipinaforamnegativoseonível
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2014.12.004
0482-5004/©2015ElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/
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rev bras reumatol.2017;57(5):475–478do complementoera normal. A biópsia muscular mostrou umaatrofiaperifasciculartípicadadermatomiosite.O vide-odeglutograma era normal e a capilaroscopia periungueal demonstrou um padrão de esclerodermia com deplec¸ão capilarsignificativaeectasia.Foiestabelecidoodiagnóstico dedermatomiositejuvenil.6
Aolongodedoisanos, apacienterecebeu11 pulsotera-piascom metilprednisolona,prednisona emetotrexato,até quefoialcanc¸adoocontroleclínicoelaboratorialda dermato-miosite.Apacienteabandonouotratamentoporquatroanos eentãoretornouàclínicadereumatologiapediátricahá qua-troanos,aos13,semevidênciasclínicas(escoredeavaliac¸ão damiositenainfânciade41/52)5nemlaboratoriaisde ati-vidadeda dermatomiositejuvenil;nenhuma medicac¸ãofoi necessária.
Hádoisanos,aos15,apacientesentiuumadormênciano brac¸oesquerdo,semfraqueza muscular,quedurou10dias eresolveu-seespontaneamente.Depoisdedoismeses, evo-luiucomparestesiaefraquezamuscularproximaledistalnos quatromembros,alémdedificuldadeparacaminharefazer atividadesdevidadiária.Oneurologistasolicitouuma tomo-grafiacomputadorizadadoencéfalo,comresultadonormal, enenhumamedicac¸ãofoiprescrita.Apacienteabandonouo seguimentonovamenteedepoisdenovemesesdesses sinto-masiniciaisteveumepisódiodevisãoturvaefraquezadistal nosquatromembros.
Oexameneurológicoreveloureflexostendinosos profun-dos hiperativosno membro superior direito e nas pernas, semfraqueza, eumagrave perda de visão noolho direito (VA 20/800), com exame de fundo que mostrou atrofia do disco óptico. A Expanded Disability Status Scale (EDSS) 7, que quantifica a deficiência em oito sistemas funcionais (piramidal,cerebelar,troncoencefálico,sensitivo,intestinale vesical,visual,cerebraleoutros)foide4emumaescalade 0a10.
Os exames laboratoriais, incluindo a análise do líquido cerebrospinal,nãomostraramalterac¸ões.Aconsulta neuro-lógica sugeriudesmielinizac¸ão dosistema nervosocentral. O exame de ressonância magnética do neuroeixo mostrou umalesãointraspinallongadeC3aT4(figs.1e2).Propôs-se o diagnóstico de neuromielite óptica (doenc¸a de Devic). O teste positivo para anticorpo antiaquaporina-4 confirmou o diagnóstico. A paciente foi imediatamente iniciada em pulsoterapiacommetilprednisolona,seguidoporazatioprina eprednisonacomoterapiademanutenc¸ão.
A paciente manteve-se estável por oito meses com o esquematerapêuticoinicial.Háumano,apresentouumnovo surtodeneuriteópticagravesemfraquezamuscular,mascom prejuízonafunc¸ãodoesfíncterurinário.Foirepetidaa aná-lisedolíquido cerebrospinal earessonância magnética do encéfalo.Elafoitratadacomimunoglobulinaintravenosa.A pulsoterapiacommetilprednisolonaeousode0,1mg/kg/dia de prednisona e 3mg/kg/dia de azatioprina foram manti-dospor quatroanos até opresente. Após tratamento com imunoglobulina,ossintomasvisuaiseurináriosdapaciente melhoraram.
Apacienteencontra-seemremissãonaatividadeda der-matomiosite juvenil nos últimos quatro anos, mas ainda apresentaatividadedaneuromieliteóptica.
Figura1–Imagemderessonânciamagnéticaemcorte sagital.MedulaespinalcervicalponderadaemT2que mostraumalesãomedularlongahiperintensa(flecha preta)emumaadolescentecomdermatomiositejuvenil.
Discussão
A neuromielite óptica recorrente normalmente é caracte-rizada por surtos na medula espinal e visuais. Dados de neuroimagemclínicaelaboratorialedeimunopatologia suge-remquea neuromieliteóptica difereda esclerosemúltipla eapresentaumprognósticopior,oquetornaodiagnóstico precocedesumaimportânciaparaoiníciodeumtratamento imunossupressoragressivo.8
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Figura2–Imagemderessonânciamagnéticaemcorte axialdacolunacervical(C3)quemostraumalesãomedular longahiperintensa(flechapreta)emumaadolescentecom dermatomiositejuvenil.
A antiaquaporina-4 é um autoanticorpo (IgG) dirigido contraproteínasdoscanaisdeáguadabarreira hematence-fálica.Adistribuic¸ãodalesãodoSNCcorrespondeàsáreas emqueháumaalta concentrac¸ãodessescanais.Portanto, a antiaquaporina-4 pode ser considerada um biomarcador paraaneuromieliteóptica,emboraaextensãodacorrelac¸ão entreotítulodoanticorpoeagravidadedosurtonãoseja clara.9
Luccinetti et al. demonstraram adeposic¸ão de comple-mento e IgM perivascular e a presenc¸a de um infiltrado inflamatório intenso composto predominantemente por macrófagos, granulócitose eosinófilos emlesões desmieli-nizantesem casosde autópsia queenvolvem neuromielite óptica,oqueconfirmaaimportânciadaimunidadehumoral nafisiopatologiadaneuromieliteóptica.10
Emumestudo retrospectivoque abrangeu15 anos, Jef-feryetal.avaliaramnovecrianc¸ascomneuromieliteóptica. Todastiveramumainfecc¸ãoviralantesdossintomasde neu-romielite óptica. A neurite óptica bilateral foi um achado comum,observadoem89%dascrianc¸as,etodas apresenta-ramumcursomonofásico.3Noentanto,aneuromieliteóptica anticorpo-positivonormalmentenão está associadaa uma doenc¸amonofásica,masexibeumcursoprogressivomuito rápido.
Nossa paciente manifestou as características clínicas descritasanteriormente,anormalidadesnaressonância mag-néticaeapresenc¸adeanticorposantiaquaporina-4.Elatemo tiporecorrentedadoenc¸aejátemdeficiênciavisual irreversí-vel.
Achados da neuromielite óptica podem aparecer em pacientes com outras doenc¸as inflamatórias e infecciosas autoimunes, com alguns relatos em adultos e crianc¸as.11 Emboraosautoresnãosugiramumapossívelexplicac¸ãopara
essasassociac¸ões,agentesinfecciosospodemdesencadearo processoautoimune.
Não há consenso sobre o tratamento da neuromielite ópticarecorrente.Váriasopc¸õestêmsidorelatadas.Ossurtos sãotratadoscomprednisonaporviaoral,metilprednisolona, imunoglobulina intravenosa eplasmaferese.12 A terapia de manutenc¸ão envolve imunoglobulina intravenosa mensal13 e rituximabe.14 Recentemente, dois estudos demonstra-ram que o tratamento com azatioprina e prednisona ou micofenolatomofetilinterrompeaprogressãodadoenc¸a.12,15 Apósoprimeirosurto,essapacienterecebeupulsoterapia commetilprednisolonaeterapiademanutenc¸ãocom predni-sonaeazatioprina.Apósosegundosurto,preferiu-seousode pulsoterapiacommetilprednisolonaeimunoglobulina intra-venosamensal,alémdemanteraprednisonaeaazatioprina.
Conclusão
Oaparecimentodesintomasneurológicosatípicosduranteo cursodeumadoenc¸areumáticadevechamaraatenc¸ãoparaa possibilidadedeumaassociac¸ãocomessadoenc¸aautoimune. Nocasoapresentadoaqui,oaparecimentodesintomasvisuais emotoresincomunsemumapacientecomdermatomiosite juvenillevouimediatamenteàsuspeitaclínicaeexames labo-ratoriaisconfirmaramadoenc¸aneurológicaassociada.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
r
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