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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

As dimensões estéticas da pentalogia “La guerra silenciosa”:

um espaço literário de resistência humana e de motivações ecológicas

Elda Firmo Braga

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As dimensões estéticas da pentalogia

“La guerra silenciosa”:

um

espaço literário de resistência humana e de motivações ecológicas

Elda Firmo Braga

Tese de Doutorado apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do Título de Doutor em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos / Literaturas Hispânicas). Orientadora: Profa. Doutora Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva. Co-orientadora: Profa. Doutora Angélica Maria Santos Soares

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BRAGA, Elda Firmo

As dimensões estéticas da pentalogia “La guerra silenciosa”: um espaço literário de resistência humana e de motivações ecológicas / Elda Firmo Braga.

– Rio de Janeiro: UFRJ / FL, 2010. xiii , 214f.: il, 31 cm.

Orientadora: Cláudia Luna Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva Co-orientadora: Angélica Maria Santos Soares

Tese (doutorado) – UFRJ / F6L / Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas, 2010.

Referências bibliográficas: f.215-228.

1. Literatura peruana. 2. (Neo)indigenismo. 3. Silêncio. 4. Ecocrítica. 5. Ecosofia. I. Cláudia Luna Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas. III. Título.

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Esta tese é uma homenagem a todos os professores de literatura que tive a oportunidade de ser aluna e com os quais tive o prazer de compartilhar experiências sobre a linguagem literária, como Rita Diogo, Ana Cristina e Carlinda Nuñez (Graduação-UERJ); Livia Reis, Magnólia Brasil e André Trouche, in memoriam, (Mestrado-UFF); Cláudia Luna, Angélica Soares e Sonia Reis (Doutorado-UFRJ); Diana Araújo (UNILA) e Suely Reis (UERJ/UFF). Todos estes professores são, para mim, uma grande referência pela forma apaixonada como atuam no ensino e na pesquisa de literatura.

Este trabalho é também uma homenagem a Bella Jozef,

in memoriam, cuja presença permanece muito além dos

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Agradecimentos

A Claudia Luna, por seu acolhimento afetivo, estímulo constante, dedicação plena, e, principalmente, por me estender a mão amiga em todos os momentos em que precisei.

A Angélica Soares, pelo seu carinho, por sua presença inspiradora, preciosas sugestões e por me guiar afetuosamente pelo caminho dos estudos ecológicos.

A Alexandre Lamego, pela cumplicidade, apoio incondicional, companheirismo e por todo o suporte que me ofereceu durante esta pesquisa.

A Rita Diogo, por ter sido a minha primeira e seguir sendo minha eterna orientadora.

A Livia Reis, pelos ensinamentos e dedicação durante o período em que fui sua orientanda.

A Viviane Antunes, por não medir esforços para me amparar e cuidar de mim, com muito zelo e carinho, na fase final desta pesquisa e pelo seu infinito espírito benevolente.

A Rafaela Marques, por seu estimulante engajamento neste trabalho.

A Luciana Freitas, pelo companheirismo e por me inspirar a escrever o capítulo I.

A Dayala Vargens, pelo estímulo e força de sempre.

A Marianna Montondon, pelo companheirismo ativo e solidário.

A Viviane Fialho, pela parceria eco-pedagógica e amizade.

A Ana Cristina, pelo seu entusiasmo contagiante durante suas aulas.

A Consuelo Alfaro e a Sonia Reis, pelas importantes sugestões e valiosas críticas feitas durante o curso de Seminário de Projeto de Pesquisa.

A Suely Reis que, por meio do contato que tive com seus textos, abriu caminho e me conduziu até a produção literária de Manuel Scorza e pelas suas palavras de incentivo.

A Diana Araujo, por ter me oferecido muito mais do que seus livros, sempre me brindou o seu apoio.

A todos os professores e colegas, pelas experiências compartilhadas durante as aulas da Graduação (UERJ), do Mestrado (UFF) e do Doutorado (UFRJ).

Aos funcionários da UFRJ, sobretudo aos da Secretária da Pós-Graduação, que sempre me receberam de forma carinhosa.

A Maria Luci Fernandes Macedo e Patricia Fernandes Tavares, pelo apoio e sintonia cotidiana.

A todos os meus companheiros da Comunidade Bandeirantes, pelo forte incentivo.

As minhas companheiras Leila Mathias e Raquel Araujo, pelo amparo e carinho.

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En este suelo habitan las estrellas

En este cielo canta el agua de la imaginación Más allá de las nubes que surgen

de estas aguas y estos suelos nos sueñan los antepasados Su espíritu -dicen- es la luna llena El silencio su corazón que late.

(CHIHUAILAF N, 2005)

O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja , irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.

(BENJAMIN, 1994)

La poesía y la imaginación deben estar integradas con la ciencia y la tecnología, pues hemos evolucionado más allá de una inocencia que sólo puede nutrirse de mitos y

sueños.

(BOOKCHIN, 1985).

...o fictício é o movimento que, desestabilizando real e imaginário, lança o leitor em um jogo de resultados inesperados.

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RESUMO

AS DIMENSÕES ESTÉTICAS DA PENTALOGIA “LA GUERRA SILENCIOSA”:

UM ESPAÇO LITERÁRIO DE RESISTÊNCIA HUMANA E DE MOTIVAÇÕES ECOLÓGICAS

Elda Firmo Braga

Orientadora: Profa. Doutora Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva Co-orientadora: Profa. Doutora Angélica Maria Santos Soares

Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários a obtenção do titulo de Doutor em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção Literaturas Hispânicas).

Esta tese tem o propósito de elaborar um estudo do ciclo narrativo do escritor peruano Manuel Scorza (1928-1983), intitulado La guerra silenciosa ou pentalogía. Trata-se de um conjunto composto por cinco romances produzidos entre 1970 e 1979, protagonizados por indígenas do altiplano peruano. A base teórica que orienta nosso estudo é a abordagem ecocrítica, que propõe a leitura de textos literários a partir de um olhar ecológico (RUECKERT, 1996) e a perspectiva ecosófica, que se fundamenta em uma tripla articulação integrada: a ecologia ambiental, a social e a mental (GUATTARI, 2001). O ciclo narrativo scorziano retrata o “problema do índio” (MARIATEGUI, 2004), mais

especificamente os conflitos agrários, e denuncia a exploração e os abusos de poder cometidos por grandes proprietários rurais e por companhias mineradoras estrangeiras contra as comunidades indígenas, sobretudo quando estas optam por lutar pela preservação ou recuperação de suas terras. Essa resistência culmina em uma acentuada violência e, muitas vezes, gera reiterados massacres, vitimando uma infinidade de camponeses. Scorza projeta a voz dos silenciados e dá visibilidade às arbitrariedades da justiça e ao desamparo sofrido pelos camponeses andinos. Por meio de um âmbito ético-éstetico-político, tecemos considerações sobre aspectos ambientais e sociais, neste trabalho, e nos centramos, com mais propriedade, na esfera mental. Para tanto, refletimos a respeito do rompimento

scorziano no que tange à solenidade empregada pelo realismo e, principalmente, pelo

indigenismo, a partir da análise da linguagem dos romances. Nossa hipótese inicial foi de que a transgressão linguística realizada por Scorza não invalidou a importância do tratamento dos conflitos socioambientais existentes no Peru. Constatamos, afinal, que essa mencionada transgressão é tão significativa quanto a subversão à ordem e ao poder instituídos na pentalogia.

Palavras-chave: literatura peruana, (neo)indigenismo, silêncio; ecocrítica; ecosofia.

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RESUMEN

AS DIMENSÕES ESTÉTICAS DA PENTALOGIA “LA GUERRA SILENCIOSA”:

UM ESPAÇO LITERÁRIO DE RESISTÊNCIA HUMANA E DE MOTIVAÇÕES ECOLÓGICAS

Elda Firmo Braga

Orientadora: Profa. Doutora Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva Co-orientadora: Profa. Doutora Angélica Maria Santos Soares

Resumen de la Tesis de Doctorado sometida al Programa de Posgrado en Letras

Neolatinas, Facultad de Letras, de la Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte de los requisitos necesarios a la obtención del título de Doctor en Letras Neolatinas (Estudios Literarios Neolatinos, opción Literaturas Hispánicas).

Esta tesis tiene el propósito de realizar un estudio del ciclo narrativo del escritor peruano Manuel Scorza (1928-1983), llamado La guerra silenciosa o pentalogía. Se trata de un conjunto compuesto de cinco novelas producidas entre 1970 y 1979, protagonizadas por indígenas del altiplano central peruano. La teoría que sirve de base a nuestro estudio es la corriente ecocrítica, que comprende la lectura de los textos literarios a partir de una mirada ecológica (RUECKERT, 1996) y la perspectiva ecosófica, que se apoya en una triple articulación integrada: la ecología ambiental, social y mental (GUATTARI, 2001). El ciclo narrativo scorziano retrata el “problema del indio” (MARIATEGUI, 2004), más

detenidamente los conflictos agrarios, y denuncia la exploración y los abusos de poder cometidos por grandes propietarios rurales y por compañías mineras extranjeras en contra de las comunidades indígenas, sobre todo cuando estas eligen luchar por la preservación o recuperación de sus tierras. Esa resistencia culmina en una acentuada violencia y, muchas veces, genera repetidos masacres, sacrificando a una infinidad de campesinos. Scorza proyecta la voz de los silenciados y resalta las arbitrariedades de la justicia y el desamparo sufrido por los campesinos andinos. A través de una vertiente ético-éstetico-política, nos fijamos en los aspectos ambientales y sociales, en este trabajo, y nos detuvimos, con más propiedad, en la esfera mental. Para hacerlo, reflexionamos sobre la ruptura scorziana en lo que concierne a la solemnidad empleada por el realismo y, principalmente, por el indigenismo, a partir del análisis del lenguaje de las novelas. Nuestra hipótesis inicial fue de que la transgresión lingüística realizada por Scorza no invalidó la importancia del tratamiento de los conflictos socioambientales existentes en Perú. Constatamos, en fin, que esa mencionada transgresión es tan significativa como la subversión al orden y al poder instituidos en la pentalogía.

Palabras-clave: literatura peruana, (neo)indigenismo, silencio; ecocrítica; ecosofía.

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ABSTRACT

AS DIMENSÕES ESTÉTICAS DA PENTALOGIA “LA GUERRA SILENCIOSA”:

UM ESPAÇO LITERÁRIO DE RESISTÊNCIA HUMANA E DE MOTIVAÇÕES ECOLÓGICAS

Elda Firmo Braga

Orientadora: Profa. Doutora Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva Co-orientadora: Profa. Doutora Angélica Maria Santos Soares

Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em

Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários a obtenção do titulo de Doutor em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção Literaturas Hispânicas).

This thesis aims to construct a study of the narrative cycle of the Peruvian writer Manuel Scorza (1928-1983), entitled La guerra silenciosa or pentalogía. The cycle is constituted by five novels written between 1970 and 1979 whose central role is played by

indigenous of the Peruvian central “altiplanes”. The theoretical basis that guides our study is the “ecocritical” approach, that envisages the act of the reading literary texts from an

ecological point of view (RUECKERT, 1996) and the “ecosophic” perspective, that founds

a triple integrated articulation: the environmental ecology, together with the social and the mental ecology. (GUATTARI, 2001). The scorzian cycle reports the “indigenous problem” (MARIATEGUI, 2004), with special attention to the field conflicts, and denounces the exploitations and the power abuse by great land owners and by foreign miner companies against the indigenous communities, mainly when these opt to fight for the preservation or recovery of their lands. This resistance leads to an ascending violence and, in many cases, generates a series of massacres, what ends up in producing victims among those work in the lands. Scorza projects the voice of the silenced and offers visibility to the arbitrariness

of the justice and to the lack of aid that the “andinos” land workers have. Through a

political, ethical and aesthetical optic, we make considerations about social and environmental aspects, in this work, and we center, with more property, on the mental sphere. In order to achieve this goal, we reflect about the scorzian breakdown in respect to

the solemnity employed by the realism, and, mainly, by the “indigenismo”, taking as point

of the departure the analysis of the language in the novels. Our initial hypothesis was that linguistic transgression established by Scorza didn't invalidate the importance the treatment of the social and environmental conflicts that exist in Peru. We have discovered, after all, that this aforementioned transgression is so significant as the subversion to the order and power instituted in the pentalogia.

Key Words: Peruvian literature; neo-“indigenismo”, silence; ecocritics; ecosophy.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 01

1 LITERATURA, PODER E CONTRA-PODER 06

1.1 O poder da literatura 06

1.2 O texto literário como projeção da voz e da visibilidade 10

1.3 O papel do escritor-intelectual 13

2 LITERATURA E ECOLOGIA 17

2.1 Vínculo entre literatura e natureza 18

2.2 Representações indígenas e heterogeneidade discursiva 26 2.3 Ecocrítica: leituras ecológicas de textos literários 36 2.4 Ecosofia: articulação entre as esferas ambiental, social e mental 45

3 APRECIAÇÃO INICIAL DE LA GUERRA SILENCIOSA 51

3.1 Antecedentes dos romances 52

3.2 Apresentação do ciclo narrativo 55

3.3 Simbologia do silêncio nas obras 59

3.4 Enlace entre literatura e jornalismo 62

3.5 Questionamentos sobre certas verdades 72

3.6 Textualidades diversas 76

4 MOTIVAÇÕES DA ECOLOGIA AMBIENTAL NAS INTERAÇÕES COM A TERRA

85

4.1 Aproximação ao universo andino 86

4.2 Contextualização geográfica da pentalogía 93

4.3 Integração entre índio e terra 95

4.4 Coletividade e espírito comunitário 97

(13)

5 MOTIVAÇÕES DA ECOLOGIA SOCIAL NAS RELAÇÕES ENTRE OPRESSOR E OPRIMIDO

111 5.1 Preconceito e discriminação: ausência do respeito ao “outro” 112 5.2 Conflitos agrários: estímulo à fome e à marginalização 115 5.3 Questões de poder: tensão entre forças assimétricas 126 5.4 Estrutura jurídica: incentivo ao descrédito e à desilusão 134 5.5 Rebeliões: caminho de resistência à opressão e à exploração 139

6 MOTIVAÇÕES DA ECOLOGIA MENTAL NAS TRANSGRESSÕES DA LINGUAGEM

145

6.1 O jogo de linguagem e das imagens poéticas 146

6.2 O jogo da ironia 164

6.3 O jogo do humor 169

6.4 O jogo da metáfora 188

6.5 Outros jogos de linguagem 198

CONSIDERAÇÕES FINAIS 210

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 215

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS 223

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Abreviaturas

RR -Redoble por Rancas

GI - Garabombo, el invisible

JI -El jinete insomne

CAR - Cantar de Agapito Robles

(15)

INTRODUÇÃO

Esta tese objetiva realizar um estudo de La guerra silenciosa ou pentalogía, de Manuel Scorza (1928-1983). As obras deste autor peruano que fazem parte do nosso

corpus, produzidas entre 1970 e 1979, são: Redoble por Rancas (1970), Garabombo, el

invisible (1972), El jinete insomne (1977), Cantar de Agapito Robles (1977) e La tumba

del relámpago (1979). Esses romances retratam os massacres ocorridos na década de 50

até o início dos anos 60 do século XX, nas serras centrais do Peru.

Contemplaremos, em menor ou maior medida, os cinco livros de La guerra

silenciosa, pois, embora sejam obras autônomas, apresentam interdependência e tecem

conexões entre si, por aludirem a episódios anteriores ou anteciparem ações que surgirão nas narrativas seguintes; referirem-se a vários personagens, protagonistas ou antagonistas, rememorados em mais de um volume; tomarem como eixo temático a luta solitária e incessante dos indígenas pela recuperação e preservação do direito à terra e estarem ancoradas em um mesmo espaço geográfico, o Departamento de Pasco, situado nos Andes centrais peruanos.

Esses romances retratam a realidade peruana sob uma perspectiva diferente das encontradas nos textos jornalísticos ou históricos. Scorza visa, por meio da literatura, revelar as violações sofridas pelos indígenas em sua luta por justiça. Assim, esse conjunto de obras revela um alto grau de comprometimento do autor com as comunidades andinas

(16)

No decorrer da história peruana, muitos conflitos foram motivados por causa da luta entre o uso individual e coletivo da terra e também por conta da exploração e da violência geradas pelo poder dominante, em relação à resistência e à busca de libertação por parte dos indígenas. O resultado dessas batalhas foi o uso, pelos poderosos, da força, da coação e da agressão contra os índios. Na década de 50, os embates se acentuaram na região dos Andes centrais, porém os jornais peruanos retratavam muito superficialmente os problemas ocorridos, e quando alguns o faziam era de maneira totalmente distorcida.

Scorza possuía um grande domínio da palavra escrita, uma vez que era poeta, romancista, editor de livros e jornalista. Por conta de sua experiência jornalística, tinha um amplo conhecimento sobre a manipulação das notícias. Com o propósito de conhecer mais de perto a verdadeira realidade existente naquele lugar e por se sentir incomodado com a forma pela qual eram retratadas as poucas informações veiculadas pelos meios de comunicação sobre o assunto, o escritor partiu em direção aos Andes centrais e conviveu por um determinado período com as guerras que retrata em seu livro.

Ao tomar conhecimento, ou presenciar as consequências drásticas da luta solitária organizada pelos índios contra a fome, a miséria e a opressão, o autor decidiu romper o silêncio. Voltou para Lima com o intuito de narrar as suas experiências pessoais e testemunhos colhidos, entretanto suas preocupações não foram levadas a sério pela sociedade limenha. Como resultado de sua atitude, sofreu perseguição política e teve de exilar-se.

No tocante à originalidade deste trabalho, muitos estudos foram feitos sobre obras de Manuel Scorza, inclusive em nossa universidade, a Universidade Federal do Rio

de Janeiro: a pesquisa de Pinheiro (1986): “Garabombo: Um pícaro politizado”; de Luna

(17)

hispano-americano”; e a de Arao (2006): “A trajetória da utopia em Jorge Icaza e Manuel Scorza”.

No entanto não encontramos alusão a análises críticas de obras do referido autor a partir de uma abordagem ecológica. As referências de pesquisas localizadas trilharam outros caminhos, privilegiaram outros temas como recorte principal.

A motivação deste estudo veio da vontade de responder a um anseio proveniente da pesquisa de mestrado: trabalhar com um corpus que apresentasse caminhos diferentes

ou alternativos a “resignação humana” diante de seu entorno social e ambiental.

A relevância desta pesquisa se manifesta no anseio de pensar a literatura como uma manifestação artística que pode transcender o espaço ficcional e intervir no universo referencial, tanto no tocante à denúncia que projeta os problemas sociais e as questões ambientais quanto pela possibilidade de tocar a subjetividade humana e inspirar novas formas de relações sociais e de atuação diante da natureza.

O tema desta tese é a literatura compreendida como um processo de criação artística que pode contribuir para o rompimento da arquitetura da indiferença e do silêncio e gerar motivações ecológicas ao atuar como um dispositivo de produção de subjetividade, forjando novas sensibilidades e, consequentemente, novas atitudes humanas.

A nossa proposta de trabalho diz respeito à reflexão sobre a literatura como uma criação artística que pode fomentar motivações ecológicas – ambiental, social e mental.

Iniciamos este estudo partindo do seguinte problema: Como os mecanismos linguísticos utilizados por Scorza contribuíram para projetar sua denúncia e subverter a ordem e o poder?

(18)

do tratamento dos conflitos sócio-ambientais no Peru, pelo contrário, reforçaria o alcance do valor da subversão pretendida.

Nosso principal objetivo aqui foi estabelecer uma reflexão sobre as estratégias estético-literárias utilizadas por Scorza para fazer valer a voz dos indígenas e dar-lhes visibilidade, apresentando outra perspectiva de uma realidade socioambiental existente no Peru.

Adotamos o seguinte fundamento teórico-metodológico: para fazer alusão aos problemas sociais e conflitos existentes na América Latina contamos com Galeano (2005); no que tange a questões mais específicas do Peru, com Mariátegui (2004); para refletirmos sobre a relação homem-natureza, referendamo-nos em Thomas (1989) e em Singer (1999); para abordarmos o vínculo existente entre literatura e natureza, nos valemos dos estudos de Williams (1990) e Garrard (2006); para tratarmos a relação entre literatura e sociedade, nos apoiamos em Losada (1976) e em Cândido (1980) e para a análise dos conceitos de

“heterogeneidade discursiva”, nos guiamos pelos estudos de Cornejo Polar (2000, 2003,

2005). No que diz respeito aos conceitos de “indigenismo” e “neoindigenismo”,

recorremos a Escajadillo (1994) e, para desenvolvermos uma leitura baseada na noção de literatura como um jogo que nos conduz a dimensões diferentes do plano referencial, nos apoiamos em Huizinga (2007).

Consubstanciamos como objeto ou interesse desta tese a possibilidade de realizar uma leitura a partir de um olhar ecológico dos referidos romances. Propusemo-nos, então, a desenvolver uma análise literária baseada, em termos teóricos, em dois conceitos

fundamentais: “ecocrítica”, leitura de textos literários a partir de uma perspectiva

(19)

registros integrados – ecologia ambiental, ecologia social e a ecologia mental (GUATTARI, 2001).

Esta tese de doutoramento está dividida em seis capítulos. No primeiro, refletiremos sobre a literatura como um elemento de contra-poder. No segundo, traçaremos uma relação entre literatura e ecologia e, no terceiro, nos centraremos em algumas especificidades da pentalogía. Trataremos das motivações da ecologia ambiental nas interações dos indígenas com a terra, abordaremos as motivações da ecologia social nas relações entre opressor e oprimido e contemplaremos as motivações da ecologia mental nas transgressões da linguagem, respectivamente, nos quarto, quinto e sexto capítulos.

(20)

1 LITERATURA, PODER E CONTRA-PODER

…la literatura es una actividad que, desde el punto de vista social, es eminentemente subversiva .

(GARCÍA MÁRQUEZ, 1968)

A literatura pode atuar não apenas como um elemento de subversão ao poder da língua, como também às esferas do poder institucionalizado. No primeiro caso por romper as normas linguísticas ao desconstruir e reconstruir a linguagem. No segundo por figurar como um espaço de denúncia contra a injustiça social. Assim, em ambas as manifestações, a literatura rompe com paradigmas e transgride normas estabelecidas. Nesse contexto, o papel do escritor intelectual ganha uma considerável importância, pois pode criar, por meio da linguagem literária, um espaço que projete uma atitude de contra-poder e, ao mesmo tempo, ofereça um caminho para exercitar a liberdade.

1.1 O poder da literatura

[A] trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura.

(BARTHES, 2007)

...a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade.

(CANDIDO, 2004)

Compartilhamos do pensamento de Eagleton (2003) no que diz respeito a sua crítica sobre as tentativas de converter a literatura ao utilitarismo, para ele: “poucas

palavras são mais ofensivas aos ouvidos literários do que „utilidade‟, que evoca objetos de

(21)

literatura como um mero instrumento para alcançar devidos fins, refletiremos sobre algumas contribuições do texto literário, sobretudo aquelas que rompem qualquer manifestação de poder. Para tanto, recorremos às seguintes palavras de Barthes (2007):

As forças de liberdade que residem na literatura não dependem da pessoa civil, do

engajamento político do escritor que, afinal, é apenas um “senhor” entre outros, nem

mesmo do conteúdo doutrinal de sua obra, mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua (p.16-7).

Assim, não basta um escritor ter a intenção de elaborar uma obra literária visando apenas à denuncia social. É preciso que elementos artísticos como a subversão das palavras, o jogo de linguagem e a criação de imagens, entre outros, componham sua criação, caso contrário essa produção poderá se converter em uma obra panfletária desprovida de senso estético-literário.

Fischer (2002) afirma que a arte expressa “uma relação mais profunda entre o

homem e o mundo” (p.10). A literatura, como uma modalidade artística, tem um forte potencial para contribuir com o (re)estabelecimento dessa relação, pois, de acordo com

Compagnon (2009), a linguagem literária é “um exercício de pensamento” e a leitura “uma

experimentação dos possíveis” (p.52), mas poderemos acrescentar que se trata também de um exercício libertador, visto que é considerada por Almeida (2009), como “um ato de pura insolência que conduz à destruição da própria linguagem para redimensioná-la e remoldá-la através da experiência” (p.49-50).

Segundo Cândido (2002), a literatura pode contribuir para o processo de humanização1 ou de confirmação da humanidade dos indivíduos. Ressalta, no entanto, que

1

Cândido (2004) define humanização como “processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o

(22)

a expressão literária “não „corrompe‟ nem edifica, (...) mas, trazendo livremente em si o que chamamos de bem e o que chamamos de mal, humaniza em sentido profundo, porque

faz viver” (p.85), também retrata uma determinada “realidade social e humana, que

[permite] maior inteligibilidade com esta realidade” (p.85-6).

Por essa capacidade de ser um espaço de reflexão sobre as complexidades do mundo referencial, conforme Cândido (2004), a literatura “confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os

problemas” (p.175). Sendo assim, a produção literária forma uma “massa de significados

que influi em nosso conhecimento e nos nossos sentimentos” (p.182).

Por meio de seu caráter transgressivo, a criação literária promove um deslocamento de sentidos solidificados pelo uso cotidiano da fala e/ou da escrita, contribuindo, dessa maneira, tanto para uma legítima inovação de sua linguagem quanto para uma autêntica

atualização da língua. Sendo assim, conforme Barthes (2007), “as palavras não são mais

concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, [e sim] lançadas como projeções,

explosões, sabores: a escritura faz da literatura uma festa” (BARTHES, 2007, p.20).

Nessa perspectiva, Paz (2005) considera que a “volta das palavras à sua primeira

natureza – isto é, à sua pluralidade de significados – é apenas o primeiro ato da criação

poética” (p.47). De forma semelhante Fischer (2002) observa que diversas palavras

utilizadas na criação poética “aparecem como brotadas diretamente da „fonte‟ e produzem

um efeito semelhante ao que produziriam se estivessem sendo ditas pela primeira vez” (p.191).

(23)

poder de renovação da linguagem, pois ao estimular a atribuição de novos sentidos para determinados enunciados, a criação literária atualiza a língua.

Assim sendo, poderíamos estabelecer um contraste entre a renovação da linguagem e a seguinte noção de estereótipo apresentada por Barthes (2004): “palavra repetida, fora

de toda magia, de todo entusiasmo, como se fosse natural” (p.52). Dessa maneira, para

Barthes (2004), “toda linguagem antiga é imediatamente comprometida e toda linguagem

se torna antiga quando é repetida” (p.50). Nesse mesmo sentido, Almeida (2009) considera

que a literatura proporciona “uma forma de resistência aos destinos enregelados da

linguagem, representados pelo estereótipo, a língua maior, a naturalização da linguagem, a

utilidade e a funcionalidade que tanto caracteriza a linguagem de poder” (p.19).

Essas reflexões nos permitem pensar o papel social da criação literária no tocante a sua elaboração, escrita e receptividade. A literatura, ao transgredir os limites impostos pela rigidez normativa da língua, outorga outros sentidos para um determinado significado linguístico, projetando novos valores por meio da exploração do efeito polissêmico e de renovação de estruturas automatizadas.

De acordo com Eagleton (2003), “a literatura transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana” (p.3). Nessa mesma direção, Almeida (2009) aponta que a literatura possui um forte potencial transgressivo, pois

quando atua à maneira de uma “escrita insolente” tem a capacidade de “sabotar” o

automatismo da linguagem e, desse modo, “faz as palavras se metamorfosearem, tecendo

relações intensas e, às vezes, incomuns, que proporcionam uma ruptura com os usos

costumeiros da linguagem” (p.62).

(24)

maneira, além da leitura literária proporcionar uma esfera de criação e recriação, oferece também uma forma de acesso a uma experiência de alteridade, pois a partir do encontro que o leitor estabelece com um texto literário, terá a oportunidade de se identificar com o que lê e regressar ao mundo referencial marcado pela presença do “outro”, representado pelo texto lido, que poderá ressonar por um tempo indeterminado em sua mente, como também, por meio de uma invocação, dialogar com outras leituras, anteriores e posteriores e, assim, sucessivamente.

1.2 O texto literário como projeção da voz e da visibilidade

A idéia de América Latina sintetiza diversos temas, distintas perspectivas, diferentes visões da história. É uma síntese de multiplicidades e contrapontos. É como se um conjunto de autores, escritos científicos, filosóficos e artísticos, temas e interpr etações nucleassem um pensamento que não só expressa, mas também constitui a América Latina .

(IANNI, 1993)

A arte é o universo correlato da vida, porém não coincidente, não reproduz o visível, torna visível.

(JOZEF, 2006)

Sob o ponto de vista econômico, a América Latina é vista como uma região agro-exportadora desde o período colonial. No passado os recursos latino-americanos ajudaram na consolidação do sistema capitalista. Atualmente muitos países da região seguem como fornecedores de matérias-primas para a Europa, os Estados Unidos e a China. Ainda que esse cenário venha vagarosamente se modificando, a região proporcionou e continua proporcionando uma significativa contribuição para o desenvolvimento e a acumulação de riquezas para os países centrais do sistema capitalista.

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população local, não apenas por conta da exploração dos recursos naturais exportados, mas principalmente pelo fato de esses recursos gerarem riquezas que não são distribuídas entre as populações locais, ocasionando, dessa forma, uma elite econômica próspera ao lado de imensos bolsões de miséria.

Embora vários países latino-americanos se autodenominem capitalistas, o modelo desse sistema econômico vigente aqui é periférico e está atrelado ao capitalismo central que detém o poder de compra dessas riquezas. Nesse sentido, a economia local está vinculada ao mercado consumidor mundial, do qual fazem parte as nações capitalistas modernas que dão forma a uma geopolítica imperialista2 e exercem um poder de domínio sobre a América Latina.

Duas configurações se apresentam, uma diz respeito aos países capitalistas desenvolvidos e a outra às nações em desenvolvimento que fazem parte das denominadas dependentes, cuja população sofre influência direta dos interesses e das decisões tomadas à distância, o que as tornam impotentes e submissas ao mesmo tempo. Dentre os empobrecidos e oprimidos da América Latina afetados por tal problemática, destacamos os povos originários e vítimas seculares dos interesses estrangeiros, pois sofrem com o abuso de poder e exploração desde o princípio da conquista até os dias de hoje e, ainda, com o descaso, preconceito e omissão por parte da sociedade e suas representações, como a história e o jornalismo.

2 Eagleton (2003) amplia a noção de imperialismo ao ressaltar que seus domínios não se estendem somente “[à] exploração da força de trabalho barata, de matérias primas e dos mercados fáceis, mas [ao] deslocamento de línguas e costumes – não apenas a imposição de exércitos estrangeiros, mas também de modos de sentir que lhes são estranhos. Ele não se manifesta apenas nos balanços das companhias e nas bases militares, mas

(26)

Por outro lado, as vozes que ousam denunciar a cobiça alheia sofrem continuamente com a censura e, muitas vezes, são silenciadas de forma violenta ou até mesmo fatal. Vejamos:

O contexto de violência e injustiça em que se desenvolveu sempre a história latino-americana exigiu um posicionamento de seu artista e, mais especificamente, do escritor. Detentor de um poder – o da palavra – cedo percebeu que a neutralidade era impossível (LUNA, 1989, p.25).

Assim sendo, a literatura exerce um papel muito importante quando opta por revelar a versão oculta, negada, visto que “ao nos dar uma visão total da realidade, transmite-nos a heterogênea multiplicidade do real e coloca-se como um princípio de

liberdade criadora” (JOZEF, 2006). Na mesma direção, García Márquez (1968) opina que, no contexto latino-americano, essas realidades possuem “diferentes aspectos (…), cada um de nós está tratando diferentes aspectos dessa realidade. É nesse sentido que eu acredito

que o que estamos fazendo é um só romance”3

(GARCÍA MÁRQUEZ, 1968, p.38). Dessa forma podemos compreender a práxis literária como um processo de criação artística que proporciona uma possibilidade de evidenciar e interpretar as várias faces dos fenômenos e das realidades político-sociais.

Na América Latina, por meio da arte da palavra, bem como de outras linguagens artísticas engajadas4, cria-se um acesso a fatos não privilegiados pela história oficial ou pelo espaço jornalístico. Dessa maneira, uma parte significativa das obras literárias latino-americanas proporciona um determinado nível de representação das minorias sociais e também atua como fonte de denúncia dos problemas existentes na região.

3“diferentes aspectos (…), cada uno de nosotros está tratando diferentes aspectos de esa realidad. Es en este sentido que yo creo que lo que estamos haciendo nosotros, es una sola novela” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1968,

p.38).

4 Engajado: “Diz-se de, ou aquele que se engajou, se filiou a uma linha política, filosófica, etc.” (Novo

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É nessa perspectiva que percebemos o conjunto de obras, tanto poéticas quanto narrativas, de Manuel Scorza, onde o autor atua como um escritor engajado, revelando um alto grau de comprometimento com os oprimidos e, sobretudo, com o povo indígena dos Andes peruanos. Para tanto, este autor produz literatura como um elemento político de defesa da causa dos indígenas, buscando projetar uma visibilidade daqueles que não têm vez e nem voz, as vítimas das injustiças sociais, os marginalizados ou excluídos da sociedade. No entanto, o autor não abre mão dos recursos artísticos.

1.3 O papel do escritor-intelectual

A ficção é uma forma paralela de se entender a realidade. (TRAPERO, 2007)

Nesta pesquisa, tratamos especificamente da linguagem literária, cujo desempenho como um fator social pode ser estendido às mais diversas modalidades artísticas como o cinema, a pintura, a música, o teatro, entre outros. A literatura é caracterizada por Losada (1976) como um “conjunto com certa unidade intrínseca e com referência essencial a sua sociedade”5 (Prólogo). Losada (1976) acrescenta ainda que a linguagem literária, além de expressar a subjetividade6 e apelar para a sensibilidade, “funda pela Palavra, ao nível da consciência, a existência social de quem a cria e daqueles que a identificam como própria”7 (p.89). A literatura é uma construção subjetiva e também social, em que o autor tem de tomar uma posição, seja ela reacionária, progressista ou evasiva.

5 “un conjunto con cierta unidad intrínseca y con referencia esencial a su sociedad” (LOSADA, 1976,

Prólogo).

6Subjetividade: “efeito de uma figuração tendente ao heteronômico em que se desestabilizam as fronteiras do

subjetivo, do racional e do afetivo, do interior e do exterior, do individual e coletivo, do privado e do público,

de modo a propor possibilidades novas de compreensão partilhada da solidão e do isolamento” (PEDROSA;

ALVES, 2008, p.08).

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Nesse sentido, García Márquez (1968) enfatiza que um escritor, quando se evade de sua ideologia8 ou dos problemas existentes na sociedade, não contribui para que, por meio de sua produção literária, o “leitor entenda melhor qual é a realidade política e social de seu país ou de seu continente, de sua sociedade”9 (p.43). Assim sendo, para este autor, a função política do escritor deveria ser a de explicitar e discutir tal realidade10 ou até mesmo de tentar subvertê-la, pois, a partir de uma perspectiva social, a literatura é subversiva quando opta por contrapor-se aos valores estabelecidos e no momento em que oferece outras formas de se perceber o mundo e a sociedade. Entretanto, mesmo quando tem a pretensão de ser evasiva, trata-se de uma criação artística que parte de uma realidade concreta cuja concepção ideológica revela-se através do texto literário.

Em um outro sentido cabe ressaltar que o texto literário proporciona aos leitores a possibilidade de revelar sua própria realidade, ainda que muitas vezes poucos consigam enxergar. A literatura pode contribuir para alterar uma percepção e, ao mesmo tempo, fornecer subsídios para o desenvolvimento ou ampliação da consciência humana sobre determinados fatos existentes, como observa Losada (1976):

...as formas literárias são, em primeiro lugar, objetivação e institucionalização de formas de consciência e de existência social. Não somente são “criações” artísticas ou linguísticas senão, sobretudo, um modo de estabelecer, ao nível da consciência, relações entre os homens11 (p.173).

Existem diversas realidades latino-americanas: as rurais, as urbanas, as vinculadas à condição social de determinados povos, entre outras, e cada uma delas possui uma

8Eagleton (2003), considera ideologia como a “maneira pela qual aquilo que dizemos e no que acreditamos

se relaciona com a estrutura de poder e com as relações de poder da sociedade em que vivemos” (p.20).

9“el lector entienda mejor cuál es la realidad política y social de su país o de su continente, de su sociedad”

(GARCÍA MÁRQUEZ, 1968, p.43).

10“A realidade, no sentido do artista, é sempre algo criado, embora o real empírico constitua um referente do qual o autor se serve para a sua criação” (JOZEF, 2006).

11“las formas literarias son, en primer lugar, objetivación e institucionalización de formas de consciencia y

de existencia social. No sólo son „creaciones‟ artísticas o lingüísticas sino, sobre todo, un modo de establecer,

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amplitude de contornos e de ângulos diferentes. Na medida em que cada autor se proponha a retratar um aspecto específico dessa região, um amplo conjunto de escritores poderia construir, por meio da ficção, uma legítima “enciclopédia” sobre a América Latina.

Segundo Portuondo (1979), “não há escritor ou obra importante que não se volte para a realidade social americana, e até os mais evadidos têm um instante apologético ou

criticista diante das coisas e das pessoas” (p.403). O mesmo autor também ressalta que no

universo literário existe uma “interação entre as letras e a vida, entre a literatura latino

-americana e o meio em que esta surge” (p.408).

Mais especificamente em relação ao Peru, espaço contemplado nas narrativas em estudo, Bermudez Gallegos (1996) considera que “na tradição das letras peruanas a criação e a realidade político-social sempre estiveram relacionadas”12 (p.11). Ela reconhece também que muitas obras produzidas nesse país expressam “a capacidade transgressiva do discurso literário peruano e determinadas conjunturas históricas”13 (p.177).

Assim sendo, o escritor-intelectual exerce um importante papel no cenário político-histórico da América Latina, pois, por meio da literatura, cria um espaço onde ressalta, sensibiliza e discute os problemas sociais da região, contribuindo para maior compreensão, a partir de outra perspectiva, a artística, das diferentes realidades latino-americanas, dos diversos aspectos que compõem essas realidades e suas respectivas contradições.

Em outro âmbito, mas sem perder de vista o foco no fazer artístico, convém frisar que com matizes e tons diferentes, a relação existente entre literatura e natureza vem de muito longe. Desde os primeiros registros literários encontrados e, em alguns momentos da

12 “en la tradición de las letras peruanas la creación y la realidad político-social siempre han estado

relacionadas” (BERMUDEZ GALLEGOS, 1996, p.11).

13“la capacidad transgresiva del discurso literario peruano en varias y determinadas coyunturas históricas”

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2 LITERATURA E ECOLOGIA

Todos los pueblos antiguos y modernos tienen, en su poesía, el espejo fiel de la naturaleza que los rodea, porque la naturaleza fue y siempre será la inspiradora de la obra de arte.

(LATCHAM; MONTENEGRO; VEGA, 1956)

Neste capítulo nos propomos a elaborar um panorama sobre a relação entre literatura e natureza desde os primórdios dos registros literários do Ocidente até o momento do Indigenismo e sua vertente sucessora, o Neoindigenismo. Registramos que, embora reconheçamos a importância da criação literária indígena, aqui não contemplaremos essa produção. Faz-se necessário esclarecer que abordaremos algumas representações indígenas que possuem uma configuração diferente da auto-representação destes povos.

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2.1 Vínculo entre literatura e natureza

As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma!

Meu pai, por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minh’alma! ... Disse e ajoelhou-se, numa rogativa: «Não mate a árvore, pai, para que eu viva!» E quando a árvore, olhando a pátria ser ra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

(ANJOS, 1998)

A relação existente entre literatura e natureza é muito antiga, remonta ao período clássico. O primeiro texto literário documentado que retrata a natureza recebeu o título de

Os trabalhos e os dias e foi escrito pelo grego Hesíodo (século VIII a.C.). Seus poemas

possuíam um caráter coloquial e eram impregnados de preceitos morais. O poeta, durante sua juventude, cuidou de um rebanho de ovelhas, além de realizar outras tarefas próprias da vida camponesa. Sua obra é uma combinação de suas experiências com o trabalho no campo somadas à influência de alegorias encontradas em fábulas conhecidas na época.

No século III a.C., surgem os poetas bucólicos gregos: Mosco de Siracusa, autor do poema épico Europa e de composições pastoris; Bión, que compôs o poema Lamento

por Adonis eTeócrito, um importante poeta de sua geração e um dos maiores alexandrinos.

A poesia bucólica ou pastoril tem início com Teócrito, que nomeou sua criação de

“idílios”14

. Foi o poeta do amor e da beleza do campo, além de um amplo observador da tradição de sua época e um renovador de lendas antigas. Assim, os poetas bucólicos gregos

14 Poema lírico de tema bucólico, pastoril. Originalmente, entre os antigos gregos, idílio era qualquer poema

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tinham a predileção por exaltar e louvar os elementos vinculados à natureza, pois suas inspirações vinham do ambiente pastoril.

Virgílio (70-19 a.C.), autor de Eneida, obra-prima da literatura latina, recebeu influências dos “idílios” de Teócrito. O poeta romano terminou no ano de 37 a.C seu primeiro grande trabalho que recebeu o título de Bucólicas, também conhecida como as

dez Églogas, obra na qual desenvolveu temas da tradição pastoril. Nas Bucólicas, além da

natureza, há também registros dos problemas da vida rural como o temor dos pequenos agricultores de perderem suas terras e, consequentemente, privarem-se dos prazeres da vida campestre.

Séculos depois, no Iluminismo, há um resgate da cultura e dos valores clássicos greco-romanos, pois tanto na Grécia Antiga quanto no Império Romano a Arte tinha como

finalidade “imitar” a natureza. Dessa maneira, os iluministas procuraram reaproximar a literatura e o espaço natural, já que o ideal estético neoclássico era tentar representar o homem e a natureza existentes em seu entorno.

Dentre as principais características da poesia neoclássica que remetem à natureza encontram-se o princípio de verossimilhança, no qual as obras artísticas e literárias deveriam imitar a natureza; a idealização da mulher e da vida pastoril, em que o poeta finge ser um pastor e sua musa uma pastora; os valores propagados como fugere urbem, (fugir da cidade): repúdio aos ambientes urbanos e a vida luxuosa da cidade, opção por paisagens campestres e pela simplicidade do campo; o bucolismo como ideal de vida:

locus amoenus (refúgio ameno) e sequi naturam (seguir a natureza), pois somente através

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vinculada à natureza lhe poderia proporcionar e tinha de aproveitar cada momento com grande intensidade, mas de forma sadia, regrada e equilibrada.

Essas características estão presentes em grande parte das poesias que exaltavam a vida campestre na segunda metade do século XVIII, porém a natureza ainda se apresenta como estática, pois o Neoclassicismo tinha a predileção pelo equilíbrio e pela lógica. Uma de suas principais teses propagava que o homem somente seria livre se vivesse em contato com o mundo natural, cujo ambiente serviria como fonte de sabedoria e de lugar onde se encontrariam a verdadeira beleza e a paz espiritual. Jozef (2005) aponta que:

...os princípios estéticos do Neoclassicismo originam-se da fusão dos preceitos aristotélicos aos horacianos, que consideram que a qualidade fundamental do homem é a razão, que tudo subordina ao marco da moral e da verdade. A verdade é o ideal de beleza, é o natural (p.33-4).

Sendo assim, a contemplação da natureza, além de proporcionar prazer ao homem, era também fonte de instrução e conhecimentos, como enfatiza Williams (1990):

...podemos ter certeza de que muitos outros homens além dos escritores contemplaram com intenso interesse todas as características e movimentos do mundo natural: morros, rios, árvores, céu e estrela. Muitos tipos de significados filosóficos e práticos foram extraídos dessas observações praticadas por muitas gerações (p.168).

No Romantismo europeu, a natureza é representada com força e vigor. As paisagens são descritas com sentimentalismo exagerado; além disso, os escritores tentaram retratar as belezas naturais de seus países da forma mais exuberante possível, exaltando principalmente a cor local – elementos específicos e representativos de suas regiões.

A natureza sempre esteve presente na literatura desde os primeiros registros literários encontrados. Esse fenômeno não poderia ocorrer diferentemente na América

Hispânica, onde desde antes do início da conquista se descreviam a sua geografia e seu

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chegaram ao continente americano. Nesses textos, a terra, juntamente com sua vasta e exuberante natureza, exercia uma fascinação naqueles homens.

Séculos mais tarde surgiu o Neoclassicismo hispano-americano paralelamente ao momento em que ecoava por terras americanas o desejo de emancipação política da Metrópole. Jozef (2005) destaca que, nessa época, “a natureza [era] minuciosamente

observada” e também que “o tema ideal desta literatura (...) vai gerar a valorização da

natureza americana com a exaltação da vida rural e a presença do bucolismo” (p.35). Por conta dessa aspiração, tal estética priorizou a relação do homem americano com a natureza de seu entorno, valorizando o espaço como elemento de identidade da região, originando uma poética que antecipa alguns traços do movimento literário posterior, o Romantismo.

O Romantismo hispano-americano recebeu influência do Romantismo europeu, embora os contextos histórico, político e social da América Hispânica e da Europa fossem totalmente distintos. Nesse período várias regiões hispano-americanas haviam declarado sua independência da Espanha e algumas outras estavam em via de fazê-lo. Para Jozef

(2005), foi o Romantismo que suscitou “novas formas de expressão e pensamento,

[acelerando] a criação de uma literatura autóctone, que buscava inspiração na própria terra (...)” (p.44).

O Romantismo auxiliou na formação identitária das recém-formadas nações e, devido a isso, os românticos exploraram os problemas da América, ao mesmo tempo em que retratavam e exaltavam suas belezas naturais. Nesse sentido, a natureza aqui serviu de refúgio e de inspiração para a alma romântica hispano-americana, como descrevem Miliani e Sambrano Urdaneta (1999):

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sentimentos patrióticos da emancipação são substituídos pelo desejo de poder e riqueza. Ferozes caudilhos se arrebatam em nome do sangue e fogo, e destituem do governo os cidadãos cultos e progressistas15 (p.164).

Dentre as tendências românticas que existiram na América Hispânica destacamos o Costumbrismo – uma vertente literária surgida na Europa por volta de 1830 – cuja finalidade era valorizar os indivíduos constitutivos da sociedade de referida região, interpretar e retratar seus costumes e retratar seu entorno natural. Desse modo, segundo Miliani e Sambrano Urdaneta (1999), “das derivações românticas nenhuma tem a

importância do Costumbrismo na abertura de uma via em direção ao autóctone”16

(p.381).

O Costumbrismo não apenas descrevia os problemas políticos, como também a atuação social de algumas personalidades. Dessa forma, em determinados momentos, alguns elementos culturais hispano-americanos são retratados com o emprego da crítica social e, em outras ocasiões, com intenções moralizadoras, apresentadas por via da sátira.

Os escritores costumbristas tentaram retratar com fidelidade a linguagem

coloquial e seus respectivos regionalismos, pois eles “descobrem novos tipos

característicos e os colocam para conversar numa linguagem que não desdenha as formas

populares e regionais da fala”17

(MILIANI; SAMBRANO URDANETA, 1999, p.381). Por isso é muito comum na narrativa costumbrista a presença de várias notas explicativas, cuja função era possibilitar o entendimento do texto aos leitores distantes.

15“La corriente romántica se encuentra aquí con unos pueblos heridos por la anarquía política, sumidos en el

caos social. Las formas de vida colonialista apenas han sido tocadas. Subsiste el latifundio. Se conservan los privilegios de clase. La esclavitud se mantiene. Los sentimientos patrióticos de la emancipación se ven sustituidos por apetencias de poder y riqueza. Feroces caudillos se arrebatan el mando a sangre y fuego, y desalojan del gobierno a ciudadanos cultos y progresistas”15 (MILIANI; SAMBRANO URDANETA, 1999, p.164).

16“de las derivaciones románticas ninguna tiene la importancia del Costumbrismo en la apertura de una vía

hacia lo autóctono” (MILIANI; SAMBRANO URDANETA, 1999, p.381).

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Na Europa, o Realismo e o Naturalismo retrataram as cidades e seus problemas como urbanização e industrialização, já na América Hispânica, esses movimentos que surgiram por volta de 1880, tiveram como tema as controvérsias sociais e étnicas existentes nesta região. Entendemos que assim tenha sido, pois na América Hispânica o processo de industrialização dava ainda seus primeiros passos. Tanto na Europa quanto na América os escritores realistas e naturalistas procuraram destacar em suas obras aspectos da cultura regional e sua natureza. Nas palavras de Belinni (1997): “O romance realista e o naturalista levou em conta além do homem, o entorno social e a natureza que constituíam seu âmbito

vital”18

(p.450).

O princípio do século XX foi o momento de apogeu do romance regionalista. Uma de suas principais características era retratar a relação do homem com seu ambiente. Os romances regionalistas foram os primeiros a chegar aos países europeus e também aos Estados Unidos, além de difundirem-se amplamente entre os próprios países da América Hispânica. Embora essas obras priorizassem os valores locais em detrimento dos universais, projetaram uma importante difusão da literatura hispano-americana.

Entretanto, um dos aspectos mais importantes do romance regionalista foi tentar romper com a tradição de reproduzir modelos artísticos e literários europeus, o que levou os autores a refletir a realidade hispano-americana a partir do olhar próprio, uma vez que a mera imitação de um modelo já estabelecido estava calcada em uma realidade distante da sua. Portanto, ainda que a forma da narrativa regionalista hispano-americana fosse inspirada no padrão europeu, seus livros se ambientavam na natureza americana.

Quanto à forma, procuraram incorporar em seus textos um vocabulário e uma sintaxe próximos à realidade linguística utilizada na América e priorizaram como tema os

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conflitos existentes na região, como por exemplo, a luta dos homens dentro de seu ambiente/natureza e a denúncia dos problemas hispano-americanos (econômicos, políticos, sociais). Nesse sentido, o espaço geográfico passou a ter grande relevância, manifestada pela preocupação de retratar as raízes que uniam o homem a seu ambiente natural.

Na mesma medida em que o romance hispano-americano se aproximava do autóctone distanciava-se da literatura européia. Desse modo, os gauchos, os índios, os

llaneros, suas respectivas tradições, costumes e ambientes – o pampa, a selva, as savanas, a

serra e a llanura – passaram a figurar como protagonistas.

O Criollismo é uma vertente da literatura regionalista. Esse movimento tinha a finalidade de retratar a realidade hispano-americana a partir de seus mais diversos regionalismos e de suas mais variadas paisagens, e de valorizar as tradições, as expressões populares – como as lendas e o folclore –, as crenças, os costumes vinculados à terra, as histórias dos camponeses, do homem simples e de seu entorno e a língua coloquial e cotidiana dessas pessoas.

Para isso, o campo era privilegiado porque conservava os costumes primitivos, enquanto as cidades estavam repletas de influências da cultura européia. Sendo assim, o espaço geográfico passou a representar um grande valor, visto que contribuiu como

“matéria-prima” para a criação literária, pois a intenção dos criollistas era a de valorizar o próprio, como uma forma de consolidar a tão desejada afirmação cultural para a América Hispânica.

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utilizados pela pintura, o que permitiam – e ainda permitem – ao leitor uma construção de imagem muito próxima da narrada.

O colombiano José Eustasio Rivera, os argentinos Ricardo Güiraldes e Benito Lynch e o venezuelano Rómulo Gallegos foram os principais escritores criollistas hispano-americanos, porém, talvez o nome mais conhecido seja o do contista uruguaio Horacio Quiroga, que, em seus relatos, retratou a vida dura do ambiente rural argentino da região das Missões próxima à tríplice fronteira entre a Argentina, Paraguai e Brasil.

Esses autores apresentaram para seus leitores uma grande radiografia de várias regiões da América Hispânica e ainda procuraram utilizar em suas obras a linguagem cotidiana que poderia ser considerada como uma fonte documental para um estudo linguístico sobre o início do século XX. Nesse mesmo contexto literário surgiram outras vertentes que buscaram retratar a relação existente entre literatura e natureza.

Dentre vários movimentos destacamos o Indigenismo por representar uma importante interação conformada entre o homem e o seu entorno, já que o indígena tem um vínculo muito forte com a terra e a natureza. Traçaremos a seguir um breve panorama sobre a representação indígena na literatura.

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2.2 Representações indígenas e heterogeneidade discursiva

...o indigenismo tem grande alcance, dentro do período dos regionalismos, como uma das manifestações do que se costuma denominar, em termos mais globais, o nacionalismo cultural latino-americano.

(CORNEJO POLAR, 2000)

Desde o início da conquista, os textos literários retratam os indígenas e seus costumes, começando pela crônica, que, naquela época, visava descrever a natureza americana e o povo encontrado nesta região, até chegar ao Romantismo, momento de busca pela auto-afirmação da identidade latino-americana. Por isso a natureza e os povos autóctones são valorizados.

Nesse contexto surge o Indianismo, vertente em que o indígena passa a figurar como protagonista; no entanto, embora eles sejam americanos, algumas narrativas os descrevem com traços físicos próprios, mas com caráter alheio. Como ilustração dessa característica, podemos recorrer ao romance brasileiro O Guarani, de José de Alencar (1829-1877). O herói dessa obra é o índio Peri, mas os seus valores não são indígenas. Ele mantém relações de amizade com uma família portuguesa e se comporta como um autêntico cavaleiro medieval, zelando por Ceci, sua donzela, acima de tudo e de todos.

No Indianismo hispano-americano, mas precisamente no Peru, surgiram alguns

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Foi somente nas primeiras décadas do século XX que o índio deixou de ser retratado na literatura como um ser passivo e conformado com as injustiças sociais cometidas contra seu povo. Em 1920 o peruano Enrique López Albújar publica seus

“Cuentos andinos”, obra considerada por alguns literatos, entre eles Escajadillo (1994), como a que inaugura de fato o Indigenismo. Entretanto é a partir dos anos 30 que o romance indigenista chega a sua plenitude (CORNEJO POLAR, 2005). Um representante desse período é o peruano Ciro Alegría (1909-1967), um ícone da literatura indigenista.

Os objetivos principais do Indigenismo são representar o índio, seu problema social e a questão agrária (MARIATEGUI, 2004), evidenciando os conflitos gerados em sua reivindicação pelo uso coletivo da terra (CORNEJO POLAR, 2005) e denunciando a exploração do povo indígena e a constante violência que eles sofriam – e seguem sofrendo. Cabe ressaltar, entretanto, que o Indigenismo ainda cultivava diversas das características e o mesmo tom do Realismo, apresentando as injustiças cometidas contra os indígenas de forma linear e mais realista possível, sem utilizar recursos como o humor e perspectivas narrativas diferentes.

O Neoindigenismo, surgido na segunda metade do século XX, embora haja conservado o desejo de retratar o índio e sua problemática, constituiu-se em um revigoramento do Indigenismo. Os primeiros romances e contos neoindigenistas foram

produzidos durante o “Boom” literário hispano-americano, momento de expressivas mudanças na estrutura narrativa, considerado por Reis (2009) como “um terremoto de

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Dentre as principais características do Neoindigenismo destacamos o emprego de elementos do realismo fantástico, mágico e maravilhoso. Ressaltamos também a incorporação do mítico, a presença do lirismo, o uso de técnicas mais complexas, de perspectivas narrativas diferentes, além da ampliação da problemática indígena (ESCAJADILLO, 1994).

Nesse sentido, o Neoindigenismo partiu da proposta do Indigenismo de defender a causa indígena, porém não manteve a mesma influência do Realismo, já que acrescentou novos recursos e procedimentos à narrativa. Promoveu, dessa maneira, uma acentuada renovação da literatura indigenista, não tanto quanto a sua temática, mas na sua forma e estrutura.

Todas essas tentativas de representação indígena na literatura são sempre um olhar e interpretação de fora para dentro, já que geralmente o escritor pertence ao urbano e escreve sobre o rural. Mas será essa distância que possibilitará uma interpenetração entre dois espaços diferentes, criando assim uma ponte metafórica que interliga dois universos distintos e que torna a literatura uma arte híbrida segundo Canclini, transculturada nas palavras de Rama e heterogênea de acordo com Cornejo Polar.

Muito se discutiu sobre o alcance da representação do índio na literatura indigenista, entretanto foi Mariátegui (2004), em seu livro Sete ensaios de interpretação da

realidade peruana, o responsável por contrapor a polêmica suscitada por tal relação, ao

ressaltar que:

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A literatura (neo)indigenista19 não pode figurar como uma autêntica representante do índio, senão contribuir de forma significativa para a ampliação e denúncia da problemática indígena e tentar estabelecer uma aproximação entre espaços distintos, o de produção e o do referente, já que se trata de uma literatura heterogênea.

Para abordar a heterogeneidade, primeiramente é preciso caracterizar a homogeneidade, já que aquela se opõe a essa. Segundo Cornejo Polar (2003), a homogeneidade se estabelece em um espaço onde não se admitem contradições, por isso incentiva a conciliação e preza por harmonia, equilíbrio e unidade, tanto culturais quanto ideológicos, uma vez que não se permitem pontos de vistas diferentes.

A heterogeneidade estimula que o sujeito aqui seja estável, forte e uniforme, como também sólido, unificado e coerente. Como exemplo de manifestação da homogeneidade,

Cornejo Polar (2003) cita “os sermões da evangelização colonial ou as mais audazes propostas de modernização, (...) [que] podem coexistir num só discurso e lhes conferir uma dimensão histórica sem dúvida incômoda”20 (p.11).

Já a heterogeneidade se constitui pela contradição e antagonismo entre forças e perspectivas diferentes. Dessa forma, a heterogeneidade gera conflitos e produz instabilidade, divisão, fragmentação, duplicidade e pluralidade, bem como gera um sujeito complexo, em choque, disperso, dividido, fragmentado, instável, apresentando uma identidade múltipla e transitória que se transforma e geralmente está à margem dos

processos “cultos” de produção. Essa fragmentação tomou grande proporção com a

19

O uso do termo (neo)indigenismo, na forma em que está grafada aqui, contempla ao mesmo tempo o indigenismo e o neoindigenismo; da mesma maneira a palavra (neo)indigenista considera indigenista e neoindigenista.

20“el sermonario de la evangelización colonial o las más audaces propuestas de modernización, (…)

[que]

pueden coexistir en un solo discurso y conferirle un espesor histórico sin duda turbador” (CORN EJO

(44)

chegada dos europeus à América. Entretanto a “descoberta” do “Novo Mundo” provocou uma atenuante alteração referencial e de paradigmas nos povos de ambas as margens do Oceano Atlântico.

Na Europa até o fim da Idade Média existia a crença de que o mundo era quadrado e, portanto, se as navegações avançassem muito poderiam cair em uma espécie de abismo. Uma das grandes alterações ocorridas na época foi a da espacialidade, da noção geográfica. Na América os nativos não conheciam o cavalo, quando viram os primeiros europeus que aqui chegaram, acreditaram que homem e cavalo eram constituídos de um só ser e assim chegaram a associá-los a divindades pertencentes ao mundo indígena.

Esses são pequenos exemplos que demonstram profundas mudanças de perspectivas ocasionadas pelo contato de povos totalmente diferentes. No entanto, no tocante à opressão, os métodos repressivos utilizados pelos conquistadores “despedaçava o sujeito e pervertia todas as relações (consigo mesmo, com seus semelhantes, com os novos

senhores, com o mundo com os deuses, como o destino e seus desejos)”21

(CORNEJO POLAR, 2003, p.13). Do mesmo modo, os colonizadores negavam “ao colonizado a sua identidade como sujeito, [ao] destroçar todos os vínculos que lhe conferiam essa identidade e [ao] impor-lhe outros que o transtornam e desarticulam”22 (CORNEJO POLAR, 2003, p.13).

Por isso se torna importante buscarmos atuar no sentido de descolonizar, trabalhando com vozes diferentes que não seja a do colonizador e sim a do colonizado. A

21“destrozaba el sujeto y pervertía todas las relaciones (consigo mismo, con sus semejantes, con los nuevos

señores, con el mundo, con los dioses, con el destino y sus deseos)” (CORNEJO POLAR, 2003, p.13).

Referências

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