E S P A Ç O F U N C I O N A L D O G R U P O D E E N F E R M A G E M N O S C U I D A D O S P R I M Á R I O S D E S A Ú D E *
Nilce Piva Adami **
A D A M I , N. P. Espaço funcional d o g r u p o de e n f e r m a g e m nos cuidados primários de saúde. Rev. Esc. Enf. USP, S ã o P a u l o , 7 5 ( 2 ) : 1 7 9 - 1 8 2 , 1 9 8 1 .
A autora relaciona as atividades que vem sendo desenvolvidas pelo pessoal de enfer-magem ao nível de cuidados primários em serviços básicos de saúde. Comenta, também, obstáculos a serem superados para a efetiva participação desse pessoal no primeiro nível de assistência à saúde ofertados à população.
I N T R O D U Ç Ã O
B R A V O2 c o n s i d e r a q u e u m sistema d e saúde r e g i o n a l i z a d o d e v e existir e m f u n ç ã o de:
— oferecer c o b e r t u r a u n i v e r s a l , possibilitando o acesso d a p o p u l a ç ã o ao tipo d e assistência m a i s a d e q u a d a a seu estado d e s a ú d e , doença ou i n v a l i d e z ;
— p r o v e r assistência i n t e g r a l de s a ú d e , e l i m i n a n d o b a r r e i r a s econômicas, es-paciais e c u l t u r a i s ;
— r e d u z i r os custos assistenciais, u t i l i z a n d o de p r e f e r ê n c i a os serviços de cui-dados p r i m á r i o s e a m b u l a t o r i a i s , r e s e r v a n d o a assistência h o s p i t a l a r p a r a os pa-cientes q u e d e l a necessitarem de f o r m a i n d i s c u t í v e l ;
— d e s c e n t r a l i z a r a assistência de saúde, m e d i a n t e u m sistema de n í v e i s de a t e n d i m e n t o h i e r a r q u i z a d o , d e s e n h a d o de tal m o d o q u e todos os serviços ,desde os m a i s simples até os m a i s especializados, s e j a m acessíveis p a r a q u e m deles necessi-t a r , p o r m e i o de u m esquema de r e f e r ê n c i a ;
— o r g a n i z a r a e q u i p e de s a ú d e , compondo-a d e profissionais, técnicos e au-x i l i a r e s de d i v e r s a s disciplinas, d e f o r m a a q u e esses e l e m e n t o s s e j a m responsáveis pela saúde da c o m u n i d a d e . P a r a o b o m ê x i t o do t r a b a l h o p r o g r a m a d o , as atividades dessa e q u i p e d e v e m ser c o o r d e n a d a s p o r m e i o d e ações efetivas d e c o m u n i c a ç ã o e s u p e r v i s ã o .
Neste m o d e l o d e assistência r e g i o n a l i z a d a , o n í v e l p e r i f é r i c o do sistema t e m p o r competência f u n c i o n a l a p r o v i s ã o d e c u i d a d o s d e p r i m e i r a l i n h a à p o p u l a ç ã o , e n g l o b a n d o dois sub-níveis a saber:
— assistência p r i m á r i a e l e m e n t a r , p r e s t a d a p o r pessoal a u x i l i a r q u e a t u a e m postos de s a ú d e ; e
* Parte do trabalho apresentado no Simpósio "Participação da enfermeira na Assistência Primária de Saúde", realizado na 42.a
Semana de Enfermagem da ABEn — Seção e Distrito de São Paulo, 1981. ** Professor Assistente Doutor do Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde
— assistência p r i m á r i a m a i s d i f e r e n c i a d a , p r o p o r c i o n a d a por u m a equipe i n t e g r a d a por profissionais e e l e m e n t o s a u x i l i a r e s , responsáveis pelas ações nuclea-res previstas n a p r o g r a m a ç ã o de t r a b a l h o de centros de saúde.
A T U A Ç Ã O DO G R U P O DE E N F E R M A G E M
A análise do elenco de atividades que são p r ó p r i a s do n í v e l p r i m á r i o , realizadas tanto e m postos como e m centros de saúde, indica a existência e a p r e d o m i -n â -n c i a de ações típicas da á r e a de e -n f e r m a g e m . Este f a t o , a l i a d o a u m processo histórico v e r i f i c a d o nos serviços de s a ú d e , c o m p r o v a a existência de u m espaço f u n c i o n a l ocupado de f a t o pelo pessoal desse g r u p o profissional. No e n t a n t o , o ple-n o a p r o v e i t a m e ple-n t o f u ple-n c i o ple-n a l dessas categorias de pessoal, d e v e r i a ser o b j e t o de estudos, t e n d o e m vista a racionalização do d e s e n v o l v i m e n t o e operação dos ser-viços básicos, c o n f o r m e j á foi preconizado p o r R I B E I R O & O L I V E I R A4
n u m documento c o n j u n t o do C O F E N e A B E n , sobre a e n f e r m a g e m no P r o j e t o do P R E V - S A Ú D E .
S e m e n t r a r e m detalhes, m a s p r o c u r a n d o v i s u a l i z a r o p a n o r a m a observado e m a l g u n s serviços básicos de saúde, é possível r e l a c i o n a r as seguintes ações, como t r a b a l h o desenvolvido pelo g r u p o de e n f e r m a g e m 1 3
:
— controle sistematizado de gestantes e c r i a n ç a s sadias, de pacientes com de-t e r m i n a d a s doenças de-transmissíveis e crônicas, com especial ade-tenção p a r a a dede-tec- detec-ção de riscos m e d i a n t e a aplicadetec-ção de critérios estabelecidos. V a l e ressaltar q u e a F u n d a ç ã o S E S P teve a p r i m a z i a de i n i c i a r a simplificação das ações de saúde, int r o d u z i n d o a p a r int i r de 1 9 5 8 o a int e n d i m e n int o de e n f e r m a g e m ao g r u p o m a int e r n o -i n f a n t -i l . D e v -i d o aos bons resultados alcançados c o m essa exper-iênc-ia, -i n c o r p o r o u posteriormente a a t i v i d a d e e m tela, n o controle da tuberculose e da hanseníase; — identificação e t r a t a m e n t o p a d r o n i z a d o de afecções e t r a u m a t i s m o s m a i s c o m u n s , com e n c a m i n h a m e n t o a outros n í v e i s assistenciais, segundo a a v a l i a ç ã o de cada caso;
— p r o m o ç ã o da m e l h o r i a a l i m e n t a r p a r a os g r u p o s de alto risco (gestantes, nutrizes e c r i a n ç a s ) ;
— aplicação de v a c i n a s básicas e especiais, visitas d o m i c i l i a r e s , de t r a t a m e n -tos e seu controle;
— realização de alguns exames laboratoriais simples, a l é m da colheita e e n v i o de m a t e r i a l ao l a b o r a t ó r i o de r e f e r ê n c i a ;
— educação e m aspectos de s a ú d e p a r a i n d i v í d u o s e grupos da c o m u n i d a d e tendo em vista f a c i l i t a r adaptações v o l u n t á r i a s a c o m p o r t a m e n t o s n a área da saúde;
— p r o m o ç ã o da a r t i c u l a ç ã o do sistema f o r m a l de saúde com o i n f o r m a l por m e i o da valorização da atuação de agentes tradicionais da c o m u n i d a d e , como a "cu-r i o s a " . Este t "cu-r a b a l h o t e m p o "cu-r o b j e t i v o a p "cu-r á t i c a n ã o lesiva dessas pessoas, a f i m de m e l h o r a r , desta f o r m a , a assistência à p a r t u r i e n t e de baixo risco materno-fetal e ao recém-nascido.
tradicionais: gerência, t r e i n a m e n t o e s u p e r v i s ã o . Q u a n t o à sua atuação e m papéis a m p l i a d o s , a l g u m a s e x p e r i ê n c i a s v ê m d e m o n s t r a n d o a excelência do seu desempe-n h o , como p o r e x e m p l o desempe-n o S e r v i ç o de E desempe-n f e r m a g e m de S a ú d e P ú b l i c a do Hospital de C l í n i c a s de P o r t o A l e g r e5, o n d e essa p r o f i s s i o n a l presta assistência d i r e t a à p o p u l a ç ã o m a t e r n o - i n f a n t i l e a g r u p o s c o m doenças crônicas estabilizadas.
C O M E N T Á R I O S F I N A I S
F i n a l i z a n d o , é v á l i d a a colocação de a l g u n s pontos p a r a r e f l e x ã o q u a n t o a obs-táculos a s e r e m superados p a r a a efetivação dos cuidados p r i m á r i o s e a adequação da p a r t i c i p a ç ã o do pessoal de e n f e r m a g e m nesse n í v e l de a t e n d i m e n t o , tais co-m o4-6'7:
1 . S e b e m q u e s i m p l e s , a r e d e básica, do p o n t o de v i s t a técnico apresenta a l g u m a s c o m p l e x i d a d e n o aspecto p r á t i c o , c o m o p o r e x e m p l o resistência à sua im-p l a n t a ç ã o , d e v i d o a:
— d i f i c u l d a d e s n a i n t e g r a ç ã o e coordenação inter e intra-instituições de saú-d e ; e
— resistência à adequação da tecnologia existente à adoção de tecnologia m a i s simples e de métodos n ã o t r a d i c i o n a i s , p r i n c i p a l m e n t e os voltados p a r a a des-c o n des-c e n t r a ç ã o do saber.
2 . A p o i o legal p a r a o exercício profissional da e n f e r m a g e m em f a c e da n o v a filosofia de t r a b a l h o dos serviços básicos de saúde. A legislação da p r á t i c a profissio-n a vigeprofissio-nte desde 1 9 5 5 profissio-n ã o p r e v i u , de d i r e i t o , a assuprofissio-nção de profissio-novos papéis q u e profissio-n o m o m e n t o j á estão sendo assumidos de f a t o .
3 . Redefinição e operacionalização das funções da e n f e r m e i r a , considerada s u a a m p l i a ç ã o , p a r a q u e , desta f o r m a , s e j a m evitadas possíveis atitudes monopo-listas de profissionais de saúde, q u a n t o à d e l i m i t a ç ã o de a t i v i d a d e s .
4 . A m p l i a ç ã o do n ú m e r o de cargos p a r a o pessoal de e n f e r m a g e m — o f e r t a o r a c o n c e n t r a d a e m serviços hospitalares p r i n c i p a l m e n t e — a f i m de atender às n o v a s propostas dos serviços básicos de s a ú d e .
5 . A l t e r a ç õ e s n o sistema f o r m a l de p r e p a r o de r e c u r s o s h u m a n o s de enfer-m a g e enfer-m , q u a n t o aos seus o b j e t i v o s e conteúdo teórico-prático, a t u a l enfer-m e n t e c e n t r a d o s e m experiências de a p r e n d i z a g e m v o l t a d a s p a r a a r e c u p e r a ç ã o da s a ú d e .
6- I n c o r p o r a ç ã o , n a p r á t i c a p r o f i s s i o n a l , dos achados de estudos científicos, a f i m de q u e possa ser c o m p r o v a d a a eficácia de experiências colocadas e m p r á t i c a . A utilização desses achados p e r m i t i r á a d e m o n s t r a ç ã o do efeito das i n t e r v e n ç õ e s d a e n f e r m a g e m de c a r á t e r t a n t o assistencial como a d m i n i s t r a t i v o .
A D A M I , N. P. T h e role of the nursing group in the p r i m a r y health care. Rev. Esc. Enf. USP, S ã o P a u l o , 7 5 ( 2 ) : 1 7 9 - 1 8 2 , 1 9 8 1 .
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