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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas

DARÍO HENAO RESTREPO

O CÓDIGO XANGÔ

. A cosmovisão mito-poética de

matriz africana em

Changó, el gran putas

de Manuel

Zapata Olivella.

Rio de Janeiro-RJ

(2)

DARÍO HENAO RESTREPO

O CÓDIGO XANGÔ

.

A cosmovisão mito-poética de matriz africana em

Changó, el gran putas

de Manuel Zapata Olivella.

Tese de Doutorado apresentada ao Programa

de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da

Universidade Federal do Rio de Janeiro Área:

Estudos

Literários.

Opção:

Literaturas

Hispânicas.

Orientadora: Profa. Dra. ELENA PALMERO GONZÁLEZ

Rio de Janeiro- RJ

(3)

Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca da Faculdade de

Letras da UFRJ.

XXX Restrepo, Darío Henao. O código Xangô. A cosmovisão

mito-poética de matriz africana

em

Changó, el gran putas

, de

Manuel Zapata Olivella./ Darío Henao Restrepo.

2016.

320 f.

Orientador: Elena Palmero. Tese (Doutorado)

Universidade

Federal do Rio de Janeiro.

Faculdade de Letras, 2016. Bibliografia: f. 158-165.

1. Literatura hispano-americana. 2. Literatura afrocolombiana. 3.

Manuel Zapata Olivella. 4.

Changó, el gran putas

. 5. Literatura,

história, mito e religiosidades afroamericanas.

(4)

DARÍO HENAO RESTREPO

O CÓDIGO XANGÔ.

A cosmovisão mito-poética de matriz

africana em

Changó, el gran putas

de Manuel Zapata Olivella

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro Área: Estudos Literários. Opção: Literaturas Hispânicas.

Orientadora: Profa. Dra. Elena Palmero González

Aprovada em 3 de junho 2016.

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________

Dra. Elena Palmero González- Orientadora

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

______________________________________________

Profa. Dra. Silvia Inés Cárcamo

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

_________________________________________________

Prof. Dr. Eduardo, de Faria Coutinho

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

_____________________________________________

Profa. Dr. Luis Carlos Lima

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

________________________________________________

Prof. Dr. Guillermo Giucci

(5)

In memoriam Manuel Zapata Olivella, filho de Xangô, babalaô da liberdade,

mestre e amigo

Die die la njóóri éku

Pedacinho por pedacinho comemos a cabeça da ratazana

(6)

AGRADECIMENTOS

Em especial, à Professora Doutora Elena Palmero González pela confiança, paciência e sinceridade, definitivas para esta pesquisa.

À Professora Silvia Cárcamo, minha amiga e orientadora faz várias décadas. E, óbvio, ao seu companheiro, meu caro Roberto Arcuri, médico de profissão e humanista da vida.

A Paco, meu queridíssimo malungo Francisco César Manhães Monteiro, apoio vital para esta pesquisa; sua solidariedade e amizade de sempre merecem infinita gratidão de minha parte.

A Eduardo Coutinho, meu professor e orientador no mestrado, hoje um grande amigo meu e da Colômbia.

Ao professor João José Reis que me acolheu na sua casa em Salvador, Bahia de Todos os Santos, e me orientou, em memoráveis cafés da manhã, nos mistérios da história e da cultura afro-brasileira. Seus livros contribuíram muito mais do que consegui registrar neste trabalho.

A Luiz Carlos Lima e a Dadá pela amizade e apoio no Rio de Janeiro. Muito obrigado, Carlinhos, por ter-me apresentado à cultura afro-brasileira em tantos livros, músicas, documentários e filmes.

Aos Professores Ary Pimentel, Viviana Gelado, Nicolau Parés, Marco Antonio Aleixandre, Guiomar de Grammont, Eduardo Assis Duarte, Florentina Souza e Jerome Branche pelo apoio e amizade.

Ao meu caro amigo Jaime Galarza Sanclemente, ex-reitor da Universidade do Valle, em Cali, Colômbia, pelo incondicional apoio e todas as conversas e ajudas bibliográficas. E ao meu amigo Marino Canizales, assessor permanente desta pesquisa.

À UNIVALLE, pela concessão da comissão de estudos para o desenvolvimento desta pesquisa.

Aos meus íntimos amigos que já partiram: o historiador Germán Patiño e os romancistas Óscar Collazos e Arnoldo Palacios.

Aos amigos escritores: Suzana Vargas, Guillermo Giucci, Edgar Collazo, Alfonso Múnera, Roberto Burgos Cantor, William Mina, Ángel Quintero, Luis Rafael Sánchez e Mayra Santos Febres. Esta pesquisa deve muito aos seus maravilhosos livros, mesmo que não pareça.

(7)

Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A Paula e Ximena, minhas filhas, Maria Camila e Mateo, meus netos, amores da minha vida. E aos meus país, Licinia e Cristóbal.

(8)

RESUMO

Este trabalho de pesquisa apresenta um estudo da cosmovisão

mito-poética de matriz africana no romance do colombiano Manuel Zapata

Olivella:

Changó, el gran putas

. O objetivo é fazer uma análise do

código

poético,

aqui de

nominado “código Xangô”, a fim de mostrar como o autor

elabora a representação da diáspora africana nas Américas, poetizando o

ponto de vista das religiões de origem africana: o candomblé, a

santería

e o

vodu. Inédito processo criativo no romance latino-americano pelo qual Zapata

Olivella reivindica a contribuição dos escravos ao mundo e rediscute o papel

da África na configuração da modernidade, do sistema-mundo capitalista.

Diáspora, memória, travessia, malungagem, resistência, negociações,

coexistência, deslocamento, liberdade, lutas e direitos civis são os temas que

emergem de modo problematizador na representação poética de

Changó, el

gran putas

. A tese mostra que se trata de um romance afro-diaspórico,

transnacional, hibrido que aponta uma visão descolonizadora, questionadora

do eurocentrismo e dos velhos paradigmas do colonialismo e os preconceitos

de raça, abrindo campo a novas formas de pensar a diáspora africana e sua

contribuição à humanidade.

(9)

RESUMEN

Este trabajo de investigación presenta un estudio de la cosmovisión

mito-poética de matriz africana en la novela del colombiano Manuel Zapata

Olivella:

Changó, el gran putas.

El objetivo es hacer un análisis del código

poético, aquí denominado “código Changó”, con el fin de mostrar como el

autor elabora una singular y renovadora representación de la diáspora africana

en la literatura latinoamericana, poetizando desde la cosmovisión de las

religiones de origen africano: el candomblé, la santería y el vodú. Inédito

proyecto creativo en la novela afroamericana através del cual Zapata Olivella

reivindica la contribución de los esclavizados al mundo y replantea el papel

de África en la conformación de la modernidad, del sistema-mundo

capitalista.

Diáspora,

memoria,

travesía,

malungaje,

resistencia,

negociaciones, cimarronaje, coexistencia, desplazamientos, libertad, luchas y

derechos civiles son los temas que emergen de modo problematizador en la

representación poética de

Changó, el gran putas

. La tesis muestra que se trata

de una novela afro-diaspórica, transnacional, hibrida, que apuesta por una

visión descolonizadora, crítica del eurocentrismo y los viejos paradigmas del

colonialismo e los prejuicios de raza, abriendo campo para nuevas formas de

pensar la diáspora africana e su aporte a la humanidad.

(10)

ABSTRACT

This investigation presents a study of the mythical-poetic cosmovision

of the African matrix in the novel

Changó, el gran putas

, by the Colombian

author Manuel Zapata Olivella. It analyzes the poetic code, here called the

“Changó code,” to show how the aut

hor elaborates a unique and reformist

representation of the African diaspora in Latin American literature, spinning

poetry from the cosmovision of religions of African origin: candomblé,

santería, and vodún. In this creative project, unprecedented in the

Afro-American novel, Zapata Olivella reclaims the contributions of enslaved

people to the world and posits the role of Africa in the configuration of

modernity within the capitalist world-system. The themes of diaspora,

memory, movement, malungaje, resistance, negotiations, maroonage,

coexistence, displacements, liberty, struggle, and civil rights emerge from the

problematizing approach to poetic representation in Changó, el gran putas.

The thesis shows that this is an Afro-Diasporic, transnational, and hybrid

model, that stakes out a decolonizing vision that is critical of Eurocentrism

and the old paradigms of colonialism and racial prejudice, opening new ways

to imagine the African diaspora and its contributions to humanity.

(11)

RÉSUMÉ

Ce travail de recherche est une étude sur la cosmovision mythique et

poétique d’origine africaine dans le roman

Changó, el gran putas

de l’écrivain

colombien Manuel Zapata Olivella. Le but principal c’est de faire une analyse

du code poétique, appelé ici “code Changó” afin de montrer de quelle manière

l’auteur élabore une représentation singulière et renouvelée de la diaspora

africaine dans la littérature latino-américaine à travers de la poétisation de la

cosmovision des religions d’origine africaine: le candomblé, la santería y el

vodu. Il s’agit d’un projet inédit du roman afro

-américain à travers lequel

Zapata Olivella revendique la contribution des esclaves au monde en mettant

en relief le rôle de l’Afrique dans la conformation de la modernité, du

système-monde capitaliste. Diaspore, mémoire, traversée,

malungaje

,

résistance, négociations, marronnage, coexistence, déplacements, liberté,

luttes et droits civils sont des sujets présents dans la représentation poétique

de

Changó, el gran putas.

La thèse soutient qu’il s’agit d’un roman afro

-diasporique transnational, hybride, qui mise pour une vision décolonisatrice,

critique de l’eurocen

trisme des anciens paradigmes du colonialisme ainsi que

des préjugés de race, et qui ouvre la voie à de nouvelles formes de penser la

diaspora africaine et son apport à l’humanité.

Mots clés: Littérature hispano-américaine; Littérature africaine colombien;

Manuel Zapata Olivella;

Changó, el gran putas

; Littérature, histoire, mythe et

(12)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1- A EPOPÉIA DOS FILHOS DE XANGÔ NAS AMÉRICAS... 27

1.1.O chamado do Muntu ... 27

1.2.Os deuses tutelares ... 40

1.3.Suba a bordo: o navio negreiro ... 52

1.4.Visões da diáspora africana ... 63

CAPÍTULO 2 — A NEGREDUMBRE NO ROMANCE COLOMBIANO ... 80

2.1. A formação de um campo intelectual afro-colombiano ... 80

2.2. O mundo dos escravos em três romances colombianos ... 92

CAPÍTULO 3- O CÓDIGO XANGÔ: OS MISTÉRIOS DO MUNTU ... 126

3.1. A visão de mundo inspiradora de Ngafúa ... 126

3.2. A rebelião a bordo ... 137

3.3. O vodu e a revolução haitiana ... 153

3.4. Africanidade recuperada: mito, memória e utopia ... 189

CONCLUSÔES ... 203

(13)

INTRODUÇÃO

Esta tese procura analisar o código mito-poético de matriz africana no romance

Changó, el gran putas, (2010),1 de Manuel Zapata Olivella, aqui denominado código

Xangó”, pelo qual se alegoriza a história e as contribuições dos africanos escravizados

trazidos ao Novo Mundo. Partimos da hipótese de que aí está a chave de um código

metafísico, cujos eixos ligam-se ao candomblé, a santería e o vodu, rituais poetizados pelo

autor como a matéria que move a construção da narrativa. Desta forma, Zapata coloca o

negro no centro da história, da qual tinha sido esquecido ou posto em lugares marginais. E

o faz a partir da espiritualidade e religiosidade africana, convicto do aporte desta à cultura

humana.

O horizonte intelectual de Zapata é vasto e revela um rico processo de buscas, de

leituras e relações com outros artistas e pensadores, materiais insubstituíveis para a leitura

de uma obra das dimensões de Changó, para penetrar com este acervo nas chaves e

contextos que a própria obra proporciona, isto é, o código Xangô como uma poética da

representação, uma estrutura de sentimento que envolve uma cosmovisão e uma estratégia

de interpretação histórica, de organização da trama, para escrever a épica de 500 anos dos

negros nas Américas. Essa ambição pan-africanista se corresponde com seu tempo, se nutre

de todos os movimentos negros nas Américas e na África e das suas poderosas

manifestações no campo social, político, cultural e artístico.

O próprio Zapata oferece as pautas em seu ensaio, “La negredumbre en García

Márquez” (ZAPATA, 2012: pp 175-181), no qual pela primeira vez faz uma análise do

ponto de vista da cosmovisão iorubá e banto com os mesmos conceitos — sombra, kulonda

e muntu e o que ele chama “negredumbre”—, que sustentam a construção de Changó. Da leitura de Zapata emerge, implicitamente, o contraste entre o código de representação de

Cem anos de solidão e o código de Changó, assunto — este último- que será o fio condutor deste trabalho.

Dando nome arbitrariamente às coisas –um pouco à maneira de Adão – chamo negredumbre a herança biológica que nos chegou da mestiçagem entre o “índio” e

(14)

o “negro”, entre o “branco ” e o “negro”, essa mixórdia africana tantas vezes embaralhada no cadinho da América. O mesmo poderia ser dito da vertente europeia, a blanquedumbre, o cordão mais retorcido de nossa placenta. E certamente, com maior propriedade da indiadumbre, veia primeva em nosso sincretismo.

Quando me refiro à negredumbre, refiro-me a essa sombra oculta de que falam os filósofos iorubás e bantos, viva no ritmo, na palavra que bate com as mãos nas invocações aos mortos. Sentimento africano que ilumina nosso olhar mais profundo, a ferida mais dolorosa, o riso mais desafiador. (ZAPATA, 2011:176)2

A seguir, veja-se a análise inspirada nas ideias do inconsciente coletivo de Carl

Jung, isto é, a parte da psique que retém e transmite a herança psicológica comum da

humanidade, através de seus mestres, o antropólogo Rogério Velásquez e o psicanalista

Francisco Socarrás, (CAICEDO, 2013:304), para sair em defesa da presença da negritude

em Macondo, ou melhor, da forma sui generis como seu amigo a recria:

É claro que Gabo desde muito antes de iniciar sua navegação sabia que não era o primeiro marinheiro a sulcar as águas de Macondo. E, sobretudo, não ignorava o grande capitão Alejo Carpentier. Seus romances Ecué-Yamba-O [1931], El Reino de Este Mundo [1949] e El Siglo de las Luces [1962] demarcavam amplamente a presença da negritude no Caribe e nas Antilhas. Além disso, boiavam nessas correntes muitas outras garrafas com diários de bordo: Lezama Lima, Jacques Roumain, Néstor Caro, Rogelio Sinán e outros mais que haviam dançado a rumba ao som dos tambores da poesia negrista antilhana.

Criador, visionário, cartógrafo dos litorais, Gabo preferiu encalhar seu galeote nos pantanosos mangues de Macondo. E a primeira coisa a que se propôs, deus criador, foi escapar dos horizontes da negritude. Não era o primeiro a tomar decisões dessa índole. Cada autor, em seu momento e em sua realidade, escolheu a seu arbítrio os personagens que podiam subir a bordo de seu navio. Quero mencionar um só antecedente por estar mais carregado de coincidências: Jorge Isaacs e sua María”. (ZAPATA, 2011:178). (Grifos nossos).

A estratégia de García Márquez, segundo Zapata, é comparável à de Jorge Isaacs,

em seu romance María, que não representou os índios, concentrou-se nos escravos da

fazenda onde transcorre o seu romance.

Ao contrário de Isaacs, o criador de Macondo prefere permanecer com seus poucos

(15)

interioranos, turcos e árabes, mas, sobretudo, com os supostos “brancos” que escondem seu sangue pigmentado. Observador arguto e romancista superior, Gabo nos descreverá na casta dos Buendía, o protótipo daqueles que pretendem ignorar que seus avôs conquistadores, de hábitos polígamos e sem mulheres europeias, tiveram de amancebar-se com ameríndias e africanas por vários séculos no Caribe e no resto do continente. Eis aqui a originalidade de Gabo, mostrar -nos a negredumbre sem “negros”. (ZAPATA, 2011:179) (Os grifos são nossos)

Zapata sustenta essa “negredumbre sin negros” no substrato africano que sobrevive

no inconsciente coletivo do Caribe colombiano. Vejamos seus argumentos amplamente:

Desde as primeiras páginas de Cien Años de Soledad até a última, observam-se os traços inconscientes do africanismo:

a. Do incesto como concepção central do romance. A mitologia iorubá se origina no mito de Iemanjá fecundada por seu filho Orungan, de onde nasceram num só parto, sete dias depois de morta, os catorze grandes orixás. O romance se inicia com o temor do incesto dos primos José Arcádio e Úrsula, maldição que se desdobra ao longo de toda sua descendência e culmina com o nascimento do último dos Buendía com sua temida cauda de porco. Da mesma forma, os filhos de Iemanjá e Orungan se enredam numa série de incestos e ódios. Um deles, Xangô, a grande divindade da fecundidade e da guerra, se casa com sua irmã Obá e converte em concubinas suas irmãs caçulas Iansã e Oxum.

b. Relembremos as concepções religiosas dos iorubás e bantos pelas quais os vivos estão perpetuamente ligados a seus mortos para encontrar suas conexões com as aparições do defunto Prudencio Aguilar, seu pacto de honra com José Arcádio Buendía e a posterior perseguição do morto além da Guajira; as repetidas visitas de além-túmulo de Melquíades; a presença silenciosa do fantasma de José Arcádio; os ruídos ocasionados pelos despojos dos pais de Rebeca Ulloa; o duelo entre Francisco El Hombre e o diabo que nos faz lembrar a lenda do pacto entre Peralta e o Senhor, surgida em outra área mulata colombiana.

(16)

Úrsula e até o incrédulo José Arcádio Buendía recorrem a estas práticas. A elas é preciso somar as levitações do padre Nicanor Reyna, também compartilhadas pelos feiticeiros africanos.

d. Supervalorização do sexo no homem e na mulher. Nada está tão ligado ao culto fálico de Elegbá como a monstruosidade viril dos Buendía e a inesgotável libido de uma mulata “adolescente” capaz de saciar a sessenta e quatro homens numa só noite. e. Poderia igualmente adiantar-se um exame dos vocábulos bantos utilizados no castelhano do Caribe e das Antilhas dos quais Gabo também não pode esquivar-se: Macondo, malanga, marimonda, inhame, etc. No entanto, a influência africana na linguagem não deve ser buscada somente na contribuição de vocábulos, mas nas conotações dadas às palavras espanholas e ao livre jogo de suas criações literárias. (ZAPATA, 2011:179-181)

De acordo com esta interpretação, em García Márquez opera o que Zapata

denomina “vivência inconsciente da negredumbre”, visão com a qual distingue uma tradição de escrita na literatura colombiana:

Certamente que o autor de Macondo não anda só nesta vivência inconsciente da negredumbre. Acompanham-no os escritores da costa Héctor Rojas Herazo, Alberto Sierra, Germán Espinosa, Alberto Duque, bem como outros grandes romancistas e poetas do interior: Jorge Isaacs, Tomás Carrasquilla, Eduardo Carranza, Pedro Gómez Valderrama e tantos outros. Menos Jorge Artel, Arnoldo Palacios, Helcías Martán Góngora, Hugo Salazar Valdés, Otto Morales Benítez e alguns quantos mais que pertencemos ao bando quilombola das negritudes. (ZAPATA, 2011:179-181)

A colocação da negredumbre abre o caminho para analisar as estratégias de

representação mito-poética de matriz africana em Changó; romance que se ocupa de todo

o périplo da diáspora africana, da saída da África até a chegada aos diversos lugares das

Américas e a história das lutas durante trezentos e cinquenta anos que acabam nos anos

1960 nos Estados Unidos. Esta perspectiva promoveu uma ruptura radical no processo de

representação da negredumbre no romance colombiano. Diante de uma tradição

invisibilizadora dessas vozes, memórias e histórias, tradição que na Colômbia se inicia com

a história de Nay e Sinar em María (1867) de Jorge Isaacs, Zapata fala a partir de outro

“lugar da cultura” e é esse deslocamento de local de enunciação que introduz a ruptura com uma forte tradição discursiva hegemônica. A partir de uma cosmovisão afro-americana

Zapata configura do mais profundo de uma memória e uma história, a dos sujeitos

escravizados, um código de representação, o código Xangô. Este é o código buscado e

(17)

da história dos negros nas Américas. Isto implicou rediscussões no ideário nacional e na

sua memória histórica, provocando questionamentos dos discursos dominantes, rompendo

com velhos paradigmas e abrindo campo para novas formas – mais críticas e inclusivas –

de avaliação da nação colombiana. E, é claro, rompendo as fronteiras nacionais para

elaborar um romance em sintonia com todos os movimentos no continente e com a própria

África. Sem dúvida, a obra se insere num momento histórico na qual serão produzidas,

negociadas e confrontadas as práticas da memória e do esquecimento. No ponto de

encontro de vários mundos e submundos, confronta-se a existência conflitiva de diversas

formas de memória e de suas representações históricas. Converte-se assim num espaço de

luta contra a imposição de relatos que deturpam o passado e as contribuições dos

escravizados.

Para resgatar o legado de África e o passado escravo em Changó, Zapata recorreu

à noção de negredumbre— essa permanência no inconsciente coletivo —, com a qual fez

a sua leitura de Cem anos de solidão. O código de representação em Changó surge então

de poetizar a negredumbre e sua marca mais profunda nas Américas: a religiosidade. Além

do mais, o processo da diáspora, longamente pesquisado pelo Zapata, está associado a

outros assuntos — memória, liberdade, resistência, trietnicidade e tradição oral —, muitas

vezes tratados em seus ensaios e aos quais recorremos na presente tese.

Changó conta com uma recepção à qual ainda falta muito a ser analisado e interpretado, com o que ela mesma oferece como poética e cosmovisão junto com os

contextos sugeridos das realidades afro-americanas – um arco que vai desde a travessia nos

navios negreiros até as lutas de Malcolm X – que Zapata pesquisou durante toda a sua vida.

Uma revisão da recepção crítica anima a proposta de leitura com a qual abordaremos seu

romance, com referências a toda a sua obra e aos romances colombianos representativos

que dão conta da presença negra a partir dela mesmo, a trama mito-poética que o sustenta,

o que nos leva a examinar com detalhe sua aposta estética e o código de representação que

o próprio Zapata denominou de realismo mítico.

O realismo mítico surge da dimensão religiosa, metafísica, ontológica percebida e

interpretada poeticamente na escritura de Changó. Segundo Zapata:

(18)

procurem ser algo diferente do que hoje são: isso é uma atitude mítica. Neste ponto — o elemento imaginário, mítico, do que costumamos considerar como real —, em Changó estou metendo as mãos e manuseando a história, partindo do que o homem fez, do que o homem é, e do que pode ser, é quando proponho minhas concepções míticas. Não estou partindo exclusivamente de um mundo fabulado que não tem a ver com a história nem com a realidade social, porque então cairia na subjetividade mítica, como proposta por Hesíodo e Homero. Estou manuseando em forma mítica os elementos históricos como uma tradição. Denomino este procedimento usado em Changó de realismo mítico: parto de personagens vivos, que são reais e os estou mitificando. (MINA, 2006: pp. 174-175) (Os grifos são nossos).

O convívio de Zapata com as religiões de matriz africana foi profundo; ele mesmo

era filho de Xangô. Conheceu e admirou autores que também se ocuparam do assunto,

como Alejo Carpentier (El reino de este mundo) e Jorge Amado (A tenda dos milagres).

Ao longo de sua vida se interessou em conhecer sobre os rituais africanos no continente e

todas as filosofias de vida que os africanos escravizados trouxeram. Basta ler o “Cuaderno

de Bitácora”(diário de bordo), escrito para ajudar os leitores na compreensão de Changó,

para ter uma ideia do universo das culturas africanas e da história dos povos africanos que

chegaram às Américas. Zapata resgata os mitos iorubás, representações coletivas que

possuem a força das tradições, mas constituem também mecanismos de operação lógica,

ou antes, de lógica mítica, para apreender o real. Exatamente como os ritos, que, além disso,

estão ligados aos mitos, constituem métodos de manuseio da própria realidade. Isto é, os

mecanismos de pensamento, das operações do comportamento humano, e, finalmente, das

trocas sociais, muito ao contrário do mundo moderno, no qual é preciso inverter a ordem

dos elementos. E fornece, principalmente, um método que enriquece a tradição realista na

literatura latino-americana. O realismo mítico concretiza-se em Changó como uma grande

cerimônia simbólica de candomblé, santería ou vodu, um eterno presente onde se repete o

passado no futuro, todos os acontecimentos da vida humana sendo conjugados como

destino prefigurado nas Tábuas de Ifá, fixados pelos orixás e traduzíveis em odus, o sistema

divinatório iorubá. O processo de criação de caráteres reproduz nas personagens as

caraterísticas da psicologia das divindades.

Outros conceitos básicos das religiões iorubá e banto sustentam a visão de mundo

em Changó. O primeiro, as duas sombras que todo ser vivo possui:

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a vida dos filhos ainda por nascer. Isso somos. Rastro visível e ebulição do sangue oculto. (ZAPATA, 2011:175).

Com outro conceito, o de kulonda, Zapata explica a gênese do homem como fruto

de um acordo prévio entre um ancestral e o novo descendente:

O primeiro é doador e protetor do kulonda, semente semeada no ventre da mãe geradora da vida, da inteligência e da palavra. Por sua vez, o protegido velará pela preservação da sua existência, para enriquecê-la com a sabedoria, as suas façanhas, as artes e uma prole numerosa, com o que o ancestral ascende na sociedade hierárquica dos mortos. Toda contravenção dessa lei, acarretará ao transgressor a perda da sombra protetora e as honras e distinção do defunto. (ZAPATA, 2011:175).

E, finalmente, Zapata faz uso do conceito muntu (homem):

[...] o conceito muntu [homem] alude não apenas aos vivos, como também aos mortos, intimamente ligados aos animais, árvores e estrelas. Nesta concepção do mundo, o homem não é o rei da criação, mas sim uma semente que se nutre da seiva da vida e da morte. (ZAPATA, 2011:175).

Com estes conceitos, arma-se o universo mítico em Changó, em profunda relação

com as religiões de origem africana. O culto dos antepassados, aos mortos, a consulta das

Tábuas de Ifá, o papel dos orixás e loas, o relacionamento de todos os seres vivos na

natureza e a personificação dos deuses em seres humanos estão presentes na trama do

romance. As religiões de origem iorubá – o candomblé, a santería e o vodu – se

caracterizam tanto pela prática de oráculo quanto por seus rituais de transe ou possessão;

com rituais muitos ricos e extraordinariamente belos, com música e danças sagradas,

práticas religiosas coerentemente incorporadas ao romance.

Em Changó, se poetiza o chamado dos deuses nas cerimônias rituais e nos atos de possessão, quando descem ao espírito dos iniciados, montam em seus cavalos. A relação

entre os orixás, os santos e os espíritos dos ancestrais e os homens ordena a realidade da

ficção, sob o comando do orixá do fogo e da justiça com o qual se intitula o romance.

Resumindo até aqui, poderíamos dizer que a noção de negredumbre e uma

concepção da história latino-americana estreitamente vinculada à diáspora negra e à

escravidão, ambas resgatadas da própria reflexão ensaística de Zapata Olivella, assim como

a recuperação de toda uma tradição religiosa de matriz africana, profundamente estudada

(20)

concepção mito-poética e especificamente na concepção artística do romance Changó el gran putas. Esse problema científico central abre um leque de problemas que são tratados oportunamente em cada capítulo da tese, conforme descreveremos nas páginas seguintes.

A tese se insere na área dos Estudos Literários Hispânicos do Programa de

Pós-graduação em Letras Neolatinas da UFRJ, especificamente, na linhade pesquisa Estudos

Literários: Poéticas, história e crítica, e seus resultados científicos se articulam ao Projeto

“Poéticas do deslocamento nas letras hispânicas contemporâneas: mobilidades culturais e historiografia literária”, coordenado pela Profa. Dra. Elena Cristina Palmero González,

orientadora desta pesquisa.

Os objetivos de trabalho estão fundamentalmente direcionados para a análise do

romance de Manuel Zapata Olivella, Changó, el gran putas, em suas principais

coordenadas temáticas e compositivas, para fundamentar como sua original forma de

apreensão do realismo, em vínculo profundo com uma concepção mítica da história,

alicerçam um código realista-mítico de representação artística, “o código Xangô”.

Considerando o caráter afro-americano do romance, também abrimos

possibilidades de análise, integração e comparação com outros textos literários relevantes

no domínio da cultura afro-caribenha, norte-americana, colombiana, brasileira e africana

da segunda metade do século XX, contribuindo para um olhar mais orgânico das chamadas

literaturas afro-americanas e destacando, de maneira pontual, uma tradição no romance

afro-colombiano, na qual se insere o romance estudado.

Em sentido convergente, acompanhamos o desenvolvimento intelectual de Zapata

Olivella, mergulhando em entrevistas, textos autobiográficos e outros materiais, em busca

de uma fundamentação diacrônica do processo de formação e amadurecimento de uma

visão do mundo e de uma poética da escrita. Por momentos, recorremos ao contraponto

entre a obra ficcional e a produção ensaística de Zapata Olivella para uma melhor

caracterização da narrativa, sobretudo no que concerne à feitura mito-poética de Changó.

Esses objetivos específicos se articulam ao objetivo geral de desenvolver fontes

críticas em torno da obra de Manuel Zapata Olivella e do romance Changó, el gran putas,

um texto lamentavelmente pouco estudado no Brasil.

Assim, para o desenvolvimento desta pesquisa, foram integrados procedimentos de

análise textual e hermenêutica literária com procedimentos provenientes da historiografia

(21)

Além das próprias teorizações de Zapata, as principais referências são os trabalhos

sobre diáspora de Edward Said (2005), Paul Gilroy (2001), J. Lorand Matory (2015) e

Stuart Hall (2009); os estudos sobre memória, história e esquecimento de Paul Ricoeur

(2003), assim como sua teoria da tripla mímesis; os ensaios sobre as Antilhas de Édouard

Glissant (2005) e Antonio Benitez Rojo (1996); finalmente, a leitura, ou, em alguns casos

releitura, das fontes do pensamento de Zapata: W.E.B. Du Bois, Las almas de la gente

negra (1903); Jean Price-Mars, Ainsi parla l´Oncle (1929); C.R.L. James, Los jacobinos negros (1938); Placide Temples, Bantu Philosophy (1945); Cheikh Anta Diop, Naciones negras y cultura (1954); J. Olumide Lucas, The religion of Yorubas (1956); Frantz Fanon,

Pele branca máscaras negras (1952) e Los condenados de la tierra (1963); Léopold Sédar

Senghor, Libertad, negritud y humanismo (1970); Lydia Cabrera, El monte (1975); Roger

Bastide, Las Américas negras (1969); Jhan Janheinz, Muntú: las culturas neoafricanas

(1970); Fernando Ortiz, Hampa afrocubana. Los negros brujos (1960). Também, Histoire

de l´Áfrique noire (1972) de Ki-Zerbo e a monumental História Geral da África (1996), em 8 volumes, publicada pela Unesco, de consulta obrigatória, junto com os livros do

africanista brasileiro, Alberto da Costa e Silva, A enxada e a lança (1996), A manilha e o

limbambo (2002) e Um rio chamado Atlântico (2011), ajuda fundamental nesta leitura.

A essa bibliografia soma-se a mais recente e especializada no Brasil, Colômbia,

Cuba, Peru, Haiti e Porto Rico, na qual encontramos extraordinários desenvolvimentos.

Por exemplo, os livros de João José Reis sobre a escravidão no Brasil, (REIS, 1989, 1996,

2003, 2008, 2010); os trabalhos de Alfonso Múnera sobre os negros em Cartagena,

Colômbia (MÚNERA, 1998, 2005); os livros de Ángel Quintero sobre as músicas mulatas

do Caribe (QUINTERO, 2009); os ensaios e romances da escritora porto-riquenha Mayra

Santos (SANTOS, 1991, 2000, 2006, 2011, 2015); e toda uma recente bibliografia sobre

história, cultura e religiões afro-americanas na qual se destacam obras como Literatura e

afrodescendência no Brasil: antologia crítica. 4 v. (2011) de Eduardo Assis Duarte;

Negociação e conflito (1989) e Rebelião escrava no Brasil (2003) de João José Reis; Os nagô e a morte (1993), de Juana Elbein dos Santos; A família-de-santo nos candomblés jeje-nagôs da Bahia (2003),de Vivaldo Costa Lima; A formação do candomblé (2006), de

Luís Nicolau Parés; Xangô, o senhor da casa do fogo (2010), de Raúl Lody; Mitologia dos

orixás (2001), de Reginaldo Prandi; O dono da terra. O caboclo nos candomblés da Bahia

(22)

citados e de muitos outros consultados em meu levantamento bibliográfico no Rio de

Janeiro, Salvador e Belo Horizonte foram um apoio fundamental para esta pesquisa.

Nas últimas décadas do século XX, a recepção e avaliação da vasta obra de Zapata

foi ganhando espaço em artigos de imprensa e em revistas, e, pouco a pouco, nos estudos

universitários. Os pioneiros foram os acadêmicos afro-norte-americanos, aos quais se

devem os primeiros trabalhos de pesquisa sobre sua obra e em diálogo com o próprio autor,

a quem convidaram muitas vezes a proferir conferências nas universidades dos Estados

Unidos. A trilha aberta pelos ensaios pioneiros dos pesquisadores Marwin Lewis, “La

trayectoria novelística de Manuel Zapata Olivella, de la opresión a la libertación”(LEWIS,

1985); Ian I. Smart, “Changó, el gran putas, una nueva novela poemática” (SMART,

1985); e Yvonne Captain Hidalgo, “El espacio del tiempo en Changó, el gran putas”

(CAPTAIN, 1985), tiveram um papel decisivo e ajudaram muito aos estudos na Colômbia

sobre a obra de Zapata.3 A pesquisadora Yvonne Captain-Hidalgo dedicou a Zapata a sua

tese de doutorado na Universidade de Stanford: The realm and possible realities: a

comparative analysis of selected Works by Alejo Carpentier and Manuel Zapata Olivella

(CAPTAIN-HIDALGO, 1984), trabalho comparativo que contempla aspectos

fundamentais na narrativa da diáspora, a relevância do papel da religião na liberação dos

povos e a relevância política e social da espiritualidade nas comunidades negras. Anos

depois, com seu livro The Culture of Fiction in the Works of Manuel Zapata Olivella

(CAPTAIN-HIDALGO, 1993), reafirma e amplia vários de seus postulados sobre a obra.

A partir desses trabalhos pioneiros, a crítica, tanto nos Estados Unidos, como na Colômbia,

começou a ocupar-se da obra de Zapata, processo de reconhecimento que culminaria na

tradução ao francês com o título Changó, ce sacre dius por Dorita Piquero de Nouhaud

(ZAPATA, 1991) e ao inglês pelo colombianista Jonathan Tittler, com o título Changó, the

Biggest Badass. (ZAPATA, 2010).4.Nas últimas duas décadas, vem crescendo o interesse

3 Estes trabalhos foram apresentados na reunião anual da Associação de Colombianistas Norte-Americanos

no Recinto de Quirama, Antioquia, evento que ocorreu de 13 a 15 de junho de 1984. Foram publicados por Raymond L. Williams (Org.). Ensayos de Literatura Colombiana. (WILLIAMS, 1985).

4 Este trabalho ocupou mais de 10 anos do professor Tittler, o que lhe permitiu uma comunicação estreita

(23)

acadêmico por essa obra e já existe um número relevante de trabalhos que começam a

desobstruir caminhos para a análises mais densas em diversas universidades do mundo.5

Além da Colômbia, três foram os ambientes com os quais Zapata interagiu,

definitivos para a criação do romance: os Estados Unidos, o Caribe (Cuba, Haiti, Martinica)

e o Brasil (Bahia, Rio, Minas Gerais e Recife). Viajou a todos esses lugares e teve a

oportunidade de estabelecer relações com artistas e intelectuais desses países. Os poetas

Langston Hughes, Nicolás Guillén, Aimé Cesaire, Léopold Sédar Senghor, Emilio

Ballagas; romancistas como Alejo Carpentier, Jorge Amado, Adalberto Ortiz, Jaques

Alexis; pesquisadores como Fernando Ortiz, Nicomedes Santacruz, Roger Bastide, Pierre

Verger, Gilberto Freyre, Édouard Glissant, Juana Elbein dos Santos, Mestre Didi, Lydia

Cabrera, Clóvis Moura, Frantz Fanon; líderes como Abdias do Nascimento. Ao lado deles,

vale a pena mencionar toda a geração de intelectuais e artistas colombianos da chamada

Geração do Meio Século, encabeçada por García Márquez, da qual fez parte. Todo esse

universo de relações evidencia a universalidade de Zapata Olivella e o nível de diálogo

intelectual que manteve com seus contemporâneos. Um bom exemplo é a revista Letras

Nacionales, que dirigiu entre 1965 e 1972, na qual dá conta das múltiplas iniciativas de diálogo com o mundo literário e cultural da Colômbia e do continente.

O primeiro capítulo da tese, “A epopeia dos filhos de Xangô nas Américas”, se

desenvolve em quatro momentos. No primeiro, fazemos uma breve relação da história

intelectual de Zapata e de seu projeto criativo, focando dois momentos chave dessa

trajetória: a viagem à terra dos ancestrais, a pequena ilha de Goré em Senegal, na procura

da solução poética que aí achou para seu romance, um mundo tutelado pelos deuses e os

ancestrais africanos, e a viagem do jovem Zapata aos Estados Unidos em 1946, com

destaque para sua estadia em Nova York. Ali no Harlem viveu experiências decisivas que

o ajudaram a compreender as realidades dos afro-norte-americanos em tempos de grande

turbulência e da luta contra a discriminação racial e pelos direitos civis. Também

salientamos nessa seção o significado da amizade com o poeta Langston Hughes e a

5 Assisti ao Congresso de Popayán 19 a 21 de novembro de 2014 dedicado a Manuel Zapata Olivella,

(24)

epifania na noite em que não pôde comparecer ao Carnegie Hall para ouvir o concerto do

contralto Marian Anderson. No segundo momento, fazemos um breve panorama dos

deuses do panteão iorubá e esboçamos uma primeira aproximação à trama de Changó,

estabelecendo relações entre o texto e algumas referências contextuais do universo

afro-religioso, no intuito de destacar pistas que guiarão o trabalho interpretativo e o exercício

analítico. No terceiro momento, organizamos uma reflexão em torno à significação do

navio negreiro na constituição do mundo moderno ocidental. Nesse sentido discutimos a

aproximação que pensadores, como Dubois, Fanon, James, Césaire, Depreste, William,

Gilroy e Hall, fazem entre escravidão e capitalismo, colocando o navio negreiro no centro

das principais contribuições dos escravizados à modernidade. Ainda nessa seção

apresentamos um amplo panorama teórico em torno à compreensão da diáspora negra e da

escravidão no pensamento contemporâneo. No quarto e último momento, apresentamos um

breve panorama do tema da diáspora negra na literatura, na historiografia, na antropologia

e nos estudos religiosos, no intuito de oferecer um espectro de visões, dentro do qual inserir

e destacar a visão de Zapata e sua recriação poética do candomblé, da santería e do vodu.

O segundo capítulo, “A negredumbre no romance colombiano”, situa o contexto

literário mais próximo da obra de Zapata Olivella, o sistema literário colombiano, e tem

dois momentos. No primeiro, fazemos um panorama da tradição literária afrocolombiana

a partir de romances icônicos escritos nos séculos XIX e XX. A história de como foi

representada a negredumbre admite uma diversidade de tons e matizes, começando pelo

livro do padre Alonso de Sandoval, Tractatus de Instauranda aethiopum salute (1626);

passa pela María (1867), de Jorge Isaacs; La marquesa de Yolombó (1926), Las memorias

del ódio (1947), de Rogerio Velásquez; Las estrellas son negras (1949), de Arnoldo

Palacios; até Chambacú, corral de negros (1963), Changó, el gran puta s (1983) e El

fusilamiento del diablo (1986), de Manuel Zapata Olivella; El amor y otros demônios

(1994), de Gabriel García Márquez, e La ceiba de la memoria (2007), de Roberto Burgos

Cantor. No segundo momento, fazemos uma análise detalhada de três romances, pela sua

importância e valor estético e pela relação desses universos romanescos com o mundo

representado em Changó. Fechamos o capítulo com a reflexão do próprio Zapata Olivella

sobre Cien años de soledad no contexto de uma literatura colombiana da negredumbre e a

apresentação de Macondo como espaço dos filhos de Xangô, alegorizando com esta voz de

(25)

foi-se forjando no âmbito da representação romanesca sua presença e contribuição –

material e espiritual – à conformação da nação colombiana.

O terceiro capítulo, intitulado “O código Xangô: os mistérios do Muntu” e voltado

para o trabalho analítico e interpretativo do romance Changó, el gran putas, está

organizado como uma travessia, acompanhando a mesma ordem de estruturação da obra:

as origens, a saída do porto de Nembe e a viagem no navio negreiro Nueva India, passando

pelas rebeliões do período colonial, os quilombolas e os tempos da Inquisição em

Cartagena, a revolução do vodu no Haiti, a contribuição dos escravos na luta pela

independência, até as lutas dos afro-americanos nos Estados Unidos. Analisamos o ciclo

completo para mostrar como funciona o código mito-poético de matriz africana no romance

e para destacar o que consideramos suas principais contribuições à literatura

afro-americana contemporânea.

Por último, apresentamos as Conclusões, que não pretendem fechar a tese. Pelo

contrário, nossas reflexões ficam abertas, na expetativa de serem questionadas e ampliadas

em contextos em que novas indagações no campo das religiões afro-americanas permitam

(26)

CAPÍTULO 1

A EPOPEIA DOS FILHOS DE XANGÔ NAS AMÉRICAS

A presença africana não pode ser reduzida a um fenômeno marginal da nossa história. Sua fecundidade inunda todas as artérias e nervos do novo homem americano

Manuel Zapata Olivella6

1.1.O chamado do Muntu

NUMA TARDE, DIANTE da baía de Santa Marta, Zapata me contou que, enquanto

escrevia Changó, el gran putas, sentiu a necessidade de ir até a África, o ponto de partida

dessa diáspora brutal que empurrou milhões de seres humanos como escravos às Américas.

O processo criativo lhe pedia essa viagem à terra dos ancestrais, pois lhe urgia amarrar

muitos fios soltos sobre a saga que vinha pesquisando havia mais de vinte anos para seu

romance. Lá começava a história que se propunha resgatar do esquecimento. Suas múltiplas

leituras, suas peripécias pelos universos afro-americanos e o convívio com os mais

destacados intelectuais e artistas negros do século XX,7 levaram-no à profunda convicção

de que nos horrores da travessia transatlântica vinha incubada a resistência, a luta pela

liberdade e a solidariedade, circunstâncias que os africanos confrontaram com seus deuses

e suas línguas até onde lhes foi possível. Por isso, decidiu iniciar o romance com um poema

épico “A terra dos ancestrais” governado pelos deuses tutelares da religião iorubá e toda

sua cosmovisão. Essa é a concepção do mundo que ordena toda a trama histórica do

6 (ZAPATA, 1997, 143).

7 Nos anos 1940, 1950 e 1960, Zapata conheceu e travou amizade com destacadas figuras afro-americanas,

(27)

romance, o destino dos escravos africanos que chegaram às Américas nos navios negreiros,

segundo a explicação mítica, pela maldição de Xangô. Aposta ambiciosa, pois este santoral

do qual tão pouco ficou na Colômbia, ao contrário de países como Cuba, Haiti e Brasil,

dificulta muito a leitura do romance para o leitor não familiarizado.8. O que não ocorre, por

exemplo, com Cien años de soledad, cuja complexa trama é construída sobre o grande

código da Bíblia e da mitologia greco-romana, e com algumas das tradições aborígenes e

africanas que entremeadas com as europeias. No caso de Zapata, sua decisão levou-o a

reivindicar o mundo dos africanos no novo continente a partir do mais profundo de suas

cosmovisões, representação da qual emerge uma vigorosa épica e um forte sentimento de

malungagem9 de solidariedade entre todo o movimento afrodiaspórico que chegou às

Américas.

Até o dia de sua morte, em 19 de novembro de 2004, Zapata conservou a lucidez

de sempre e a memória para contar infinitas histórias sobre as viagens, os livros e as

pesquisas. Ele sintetizou muito de tudo isto na épica que alinha Changó, el gran putas,

esforço paciente de toda a vida para historiar e poetizar 500 anos de suor e sangue de

negros, cafuzos e mulatos na configuração do Novo Mundo. Outros livros — Tierra

mojada (1947); He visto la tierra (1949); Pasión vagabunda (1949); La calle 10 (1960);

Chambacú, corral de negros (1963); En Chimá nace un santo (1963); El fusilamiento del diablo (1986) e Hemingway, el cazador de la muerte (1993)— também fizeram parte de seu compromisso ético e estético com os marginalizados e os despossuídos, com os

condenados da terra, como dizia o martiniquense Frantz Fanon em seu livro mais célebre

e influente. (FANON, 1961).10 Somam-se à obra narrativa de Zapata vários livros de

ensaios, já citados, além de mais de uma centena de artigos em revistas e jornais.

8 Tive a gratificante experiência, em meus cursos de literatura colombiana na Universidad del Valle, de ver

como os estudantes se apaixonavam pelo universo de Changó, el gran putas depois de conhecerem o contexto de toda a mitologia africana que o organiza. Indução para a qual é de grande ajuda o livro de Manuel Zapata Olivella, El árbol brujo de la libertad. África en Colombia. Orígenes, transculturación, presencia. Ensaio histórico mítico (2012).

9 Malungagem é um conceito proveniente da palavra malungo, tal como a resgata o pesquisador guianês

Jerome Branche, dos povos bantos da África Central, falantes de kikongo, umbundu e kimbundu e no qual se cruzam e combinam pelo menos três ideias: de parentesco ou irmandade, em seu sentido mais amplo; de uma canoa grande; e, finalmente, de infortúnio. Para os falantes bantos que fizeram a travessia atlântica, significava companheiro de navio (Revista Poligramas, 2009).

(28)

A oportunidade de ir à terra dos ancestrais apresentou-se em janeiro de 1974, com

o convite para participar do colóquio A negritude e a América Latina em Dakar, capital de

Senegal, convocado por seu amigo, presidente do país, o poeta e filósofo Léopold Sédar

Senghor.11 Os convidados ao colóquio foram levados por Senghor a visitar, diante de Dakar,

a pequena ilha de Goré, onde se conserva o reduto amuralhado do que havia sido uma

fortaleza prisão na qual eram recluídos os africanos caçados nos antigos reinos do Níger, à

espera dos navios negreiros que os levariam para a “viagem sem retorno”.12 Os Estados

africanos declararam a ilha de Goré um monumento continental para comemorar a partida

dos milhões de filhos da África para as Américas. Nas ruas da cidade, conta Zapata, ao

tangido do corá, os griôs reviviam em seus relatos os lamentos e cantos dos prisioneiros

despedindo-se para sempre da sua África natal. Isto o levou a pedir ao presidente Senghor

que o deixasse passar despido uma noite numa das escuras e sufocantes abóbadas da

fortaleza da ilha de Goré. Sentia-se um escolhido por algum dos orixás do panteão iorubá

para cumprir o ato sacramental de padecer e rememorar ali, a noite inteira, os suplícios

sofridos por seus antepassados. As razões que apresentou ao presidente foram comoventes:

Estou há vários anos escrevendo um romance sobre a epopeia da negritude na América, aquela que se inicia precisamente aqui, nesta “Casa dos Mortos”. Queria passar a noite despido sobre as pedras lacerantes, afundar nas úlceras e nos prantos de meus ancestrais durante a longa espera dos navios para serem conduzidos a Cartagena das Índias, onde nasci e onde preservamos seu alento e sua memória. (ZAPATA, 1997, 99)

Essa era a experiência vital que lhe faltava para dar solução poética ao mundo que

recriaria no romance. O relato do que aconteceu fala por si mesmo.

Naquela noite, sobre a rocha, molhado pela chuva marítima, entre caranguejos,

11 Segundo o próprio Zapata, o colóquio propiciou um clima dinâmico de confrontações sobre a identidade

afro-americana; negritude e indigenismo; contribuições socioculturais; religião; linguística, cultura, folclore, música; e o papel dos afro-americanos nas lutas de emancipação.

As delegações por países – América Latina, África e Europa – e a variedade de seus representantes permitiram um riquíssimo intercâmbio interdisciplinar e de pontos de vista (...). Encontrou-se na fonte comum da África uma resposta para a sua própria identidade (Zapata, 1997: 98).

12 Os outros lugares a partir dos quais operava o comércio de escravos para as Américas ao longo do litoral

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ratazanas, baratas e mosquitos, sob a pálida luz de uma alta claraboia gradeada, lua de defuntos, diante de mim desfilaram jovens, adultos, mulheres, crianças, todos acorrentados, silenciosos, para mergulhar nos porões, o ranger dos dentes mastigando os grilos. As horas corriam sem estrelas que dessem termo à escuridão. Alguém, sorridente, os olhos relampejantes, desprendeu-se da fila e, aproximando-se, posou sua mão acorrentada sobre minha cabeça. Algo como uma lágrima rolou pela sua face. Tive a incomensurável e indefinível sensação de que meu mais antigo avô ou avó me havia reconhecido! (ZAPATA, 1997, pp. 99-100).

Naquela noite resolveu, por esses mistérios da criação, toda a organização de seu

romance, concebeu um mundo que estaria tutelado pelos deuses de seus ancestrais

africanos.

Muitos anos antes da providencial noite passada nos calabouços da ilha de Goré,

Zapata viveu a epifania que o comprometeria a contar a saga da diáspora africana. Não

imaginava, nessa noite gélida passada durante o inverno de 1946, em Nova York, que se

depararia na vida com outra revelação com a qual daria forma final a sua saga no lugar

onde seus ancestrais passaram pela aterradora e indesejável porta de não retorno. Nessa

noite, no Harlem, uma multidão imaginada lhe gritou: “De que lhe serve viajar tanto se

nos esquece agora? A pobreza em que vivia, passando as noites entre o pulguento Mill`s Hotel e os bancos do metrô, frustraram sua intenção de comparecer ao concerto de Marian

Anderson no Carnegie Hall. Não conseguiu os dólares para comprar a entrada. Imensa

decepção. A cantora Anderson representava para Zapata algo mais sublime que seu

próprio canto, a voz de rebeldia de todos os negros oprimidos na América do Norte.

Abatido, aproximou-se das portas do teatro, já sem esperança de escutá-la, e viu entrar a

mais alta linhagem de Nova York. Diante dele, segundo suas próprias palavras em He

visto la noche:

(30)

Essa noite foi a do grande juramento. Estava há vários meses na grande metrópole, acumulando experiências e conhecimentos da vida dos seres humanos, em especial a dos negros. Diante da multidão que entrava no Carnegie Hall, privado de compartilhar o concerto, fez um percurso imaginário.

Desfilavam na minha mente as crianças negras do Chocó, piolhentas e parasitadas; as horas de cansaço dos operários no Panamá, entre cujos olhares ansiosos descobri os olhos cansados de meu irmão, o quebrador de pedras da Zona do Canal; os plantadores maláricos de bananeiras na Costa Rica e os galpões abandonados da ferrovia onde seus filhos morriam de espru por falta de vitaminas; e mais perto, na Nicarágua, as moedeiras de milho que compartilharam comigo a cabaça de angu de seus filhos; em Honduras, os soldados descalços, analfabetos e obedientes de Carías Andino, surdos às desgraças de seus próprios irmãos; a peregrinação dos índios da Guatemala, alimentando-se de pães duros e levando nas costas os recém-nascidos mumificados com suas carinhas sujas e sem luz; as fogueiras nos parques do México, em redor das quais os famintos, vagabundos e camponeses sem terra, nos abrigamos do frio e, ali mesmo, em Nova York, os espectros do Bowery, do Harlem doente e dos porões do Mill´s Hotel, trêmulos de frio, despertados pelos piolhos. Todos eles esticam para mim suas mãos suplicantes, os olhos inexpressivos, para me gritar:

- De que lhe serve viajar tanto se nos esquece agora? Para que sonhar tanto e visitar nossas cabanas? Por que entrou na cabana pobre para pedir abrigo se sua caneta não amaldiçoa nossa dor? Você é dos nossos, lembre-se de sua avó, dobradora de tabaco; de suas tias sob telhados rompidos; de sua mãe que nunca pode visitar um transatlântico, uma de suas pouquíssimas ambições de mulher que viu o mar na infância. Olhe, hoje não pode, apesar de sua grande aflição, escutar a Anderson que é uma dos nossos, insultada pelos mesmos que a aplaudem. Eia! Avante! Jure que a partir de hoje, onde quer que se encontre sob qualquer ameaça, lutará por nós! Os aplausos no interior do teatro apagaram de minha mente aquela alucinação e já consciente de meus atos, disse com todas as minhas forças:

- Sim, eu juro! (ZAPATA, 1974: 146)

Ele recordará este juramento como o ponto mais alto da ânsia de ser, da vontade de

conhecer o mundo e poder expressá-lo com sua caneta, de fazer justiça poética com esses

seres que havia conhecido em suas andanças. Essas inquietações e vontade de mundo

levaram Zapata a interromper seus estudos de medicina quando completaria o quinto ano

na Universidade Nacional de Bogotá. Depois de muitos meses percorrendo os Estados

Unidos, vinha de fazer o mesmo na América Central e México, essa noite nova-iorquina

foi uma verdadeira epifania para suas inquietações espirituais e seus desejos de

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afro-americano mais lido no mundo, o que melhor captou e reproduziu o espírito de sua raça,

bardo inegável do movimento Renascimento de Harlem, o movimento cultural negro dos

anos 1920. Zapata qualifica Hughes em suas memórias como seu conselheiro providencial:

O saudoso Langston Hughes me ofereceu sua cama no Harlem porque sua tia estava arrumando sua biblioteca. Contei a ele o propósito de pôr num romance a história completa da luta dos negros nos Estados Unidos. Apalpou o meu corpo para certificar-se de se estava vivo ou morto. Ao comprovar que me faltava a experiência da morte, me revelou o mistério para gravar sem ouvi-las, as vozes de todos os linchados, vivos e mortos na história de sua grande nação.

-Vá às Cataratas do Niágara e escute-as. É o discurso mais autêntico da luta de nosso povo por sua liberdade; as vozes reunidas dos pequenos e grandes gigantes é na história sem nome de nós, os negros. O que você não entender, o velho Bourhard Dubois contará para você. Seu pensamento jaz esculpido nas rochas sob o Niágara. (ZAPATA, 1990:348)

Zapata leu com fervor As almas da gente negra do recomendado W.E.B. Dubois,

leitura que somada às experiências vividas em suas andanças pelos Estados Unidos, e

muito especialmente aos meses passados no Harlem, moldaram seu ideário e o ajudaram

a entender seu próprio mundo no Caribe colombiano. A leitura da poesia, do teatro e das

memórias de Hughes, como a de outros de seus companheiros, incentivou o seu processo

criativo e a compreensão do ideário de seus irmãos de raça. Queria sentir a humanidade

dos habitantes do populoso e lendário bairro negro nova-iorquino. Aquilo vivido e

observado nas ruas do Harlem ele descreve relacionando com suas lembranças de

infância:

Meu conhecimento do Harlem foi lento e trágico. Suas crianças jogando beisebol, permitiram que me compenetrasse na sua linguagem. Vendo-os com suas roupas desbotadas, relembrei minha infância em Cartagena, nos bancos de areia do Getsemaní e os quintais de Chambacú. As mesmas faces sorridentes em meio à miséria. O espírito altivo, a alegria transbordante. (ZAPATA, 1990:348)

Havia chegado a Nova York com os originais do seu primeiro romance, Tierra

Mojada, escrito em 1942, quando iniciava seus estudos de medicina, e um roteiro para cinema sobre o líder quilombola do Palenque de San Basilio, Benkos Biohó. Esse universo

ao qual aspirava dar horizonte e carregá-lo de experiências, impulsionado por sua

militância comunista, foi a razão de sua paixão vagabunda. Um de seus professores

(32)

doutor Alfonso Uribe, a quem o conhecimento dos sintomas dos doentes havia dado

reputação de sábio. Conta Manuel:

Expus a ele meus delírios e rebeldias. Depois de auscultar o coração, medir a febre delirante e a consistência de meus músculos, seus olhos fixos sobre os meus, explorando além do olhar alucinado, declarou seu diagnóstico sem vacilações:

— Afã de ser!

Deixei o consultório com uma ideia que se converteria em obsessão: antes de diplomar-me como médico devia graduar-me na escola da vida, tendo por mestres os pobres do mundo. (ZAPATA, 1990: pp.193-194).

Os cinco anos de medicina lhe foram de muita utilidade em sua peregrinação; em

muitos momentos lhe permitiram conseguir emprego em hospitais. Embora seu interesse

fosse além, sempre utilizava o pouco que poupava para seguir caminho. Além de He visto

la noche, o testemunho de suas peripécias pelos Estados Unidos, escreveu a peça teatral,

Hotel de vagabundos (1955), inspirada em sua estadia no Mill`s Hotel. Estes escritos oferecem chaves muito importantes para a formação de Zapata; ilustram como foi

nutrindo-se intelectual e espiritualmente para escrever sua vasta obra ensaística e criativa

até culminar em Changó, o romance completo da diáspora africana como o qualifica o

pesquisador afro-americano Marvin Lewis (LEWIS, 1987: 118). Apreciação justa para

esse vasto afresco poético, pioneiro no Atlântico negro, dos africanos nas Américas,

partindo da África, atravessando os tempos da escravidão e da colonização e culminando

nos anos das lutas pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Por que um escritor

negro colombiano se ocupou com tanta propriedade de seus irmãos no país do Norte?

Pergunta incontornável ao nos ocuparmos de Changó; encontramos a resposta em He

visto la noche e Hotel de vagabundos, obras de cunho autobiográfico nas quais o jovem Zapata molda suas vivências no mundo popular nova-iorquino, sobretudo o que tocou e

sentiu no Harlem profundo, perambulando por suas ruas e convivendo com seus

habitantes. Associava em sua mente estas experiências com as da sua infância, na

Cartagena da miséria em Chambacú, que oito anos depois inspiraria o romance

Chambacú, corral de negros (1963). Doravante, as realidades e o destino dos afro-norte-americanos seriam uma referência central para Zapata. No Harlem, surge o embrião da

saga que escreveria várias décadas depois, fechando-a precisamente no lugar onde havia

sido assassinado Malcolm X. Sua convicção férrea, farol de toda sua obra, era simples e

(33)

Era a época do combate à discriminação racial e pelos direitos civis, movimentos

que pôde conhecer de dentro e sentir a ebulição vivida no Harlem, quando já não restava

senão a lenda do passado dos grandes clubes do jazz, e era muito chocante o que ele mesmo

denominou numa das suas crônicas, o Harlem esquecido, cuja pobreza contagiava Zapata

de amargura,

Doíam em mim suas casas amontoadas, onde se armazenavam centenas de inquilinos, sujos e cansados do trabalho, sem alegria em suas horas de descanso. Às vezes, pude surpreender suas vidas no calor da intimidade e aqueles rostos negros, mesmo querendo manifestar alegria ao visitante, não conseguiam apagar as rugas firmes que a dor havia tatuado em sua miséria. (ZAPATA, 1974: 137).

Esta ênfase na dor e na miséria, seu sentimento de revolta, são inspirados por sua

convicção marxista e por suas preocupações sociais. Nas suas primeiras obras – Tierra

mojada, Chambacú, corral de negros – o olhar de Manuel esteve focado em desentranhar esses universos de miséria e desabrigo, desprezados sob todo tipo de preconceitos e

estereótipos. Nas décadas posteriores, com suas várias viagens dentro e fora da Colômbia,

e uma vasta pesquisa de campo no território nacional, irá configurando uma rica e

complexa visão da formação sociorracial do país, na qual o afrodescendente ganhará ênfase

até tornar-se o eixo central de suas preocupações e a fonte inspiradora para escrever

Changó, el gran putas.

Foi longo o caminho percorrido desde as suas primeiras novelas até escrever El

fusilamiento del diablo, momento crucial para chegar a Changó. Foi durante a escrita desse

livro que teve a ideia de relacionar Changóao “El putasda tradição popular colombiana.13

Ao ponto de deixar de lado o original do romance sobre Manuel Saturio Valencia – o último

negro executado por fuzilamento, por sua revolta no Chocó, em 1907 – para dedicar-se a

escrever o romance que o mantinha em vigília e para o qual estava há mais de 20 anos

coletando materiais e buscando uma forma e uma cosmovisão.

13 Numa longa entrevista, El hombre que vió la noche (TURRIAGO, 1990), o autor conta como chegou ao

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Forma e cosmovisão que têm uma genealogia nas pesquisas de Zapata Olivella, em

suas leituras e preocupações intelectuais, em suas viagens e relações com outros

intelectuais, em especial, com os intelectuais da diáspora africana e todo esse grande

movimento de reivindicação nos Estados Unidos, no Brasil, nos países da África e do

Caribe. Não foi tarefa fácil num país como a Colômbia, com uma longa hegemonia

hispano-católica e com elites que construíram o Estado/Nação sobre a exclusão e

menosprezo das maiorias do país. Este quadro foi mudando com a modernização do país e

a formação de novas classes em torno dos processos de industrialização de cidades como

Bogotá, Medellín, Cali, Barranquilla, Cartagena, entre as mais destacadas grandes cidades

em ascensão a partir dos anos 1920 e 1930. A chegada de Manuel Zapata Olivella à capital,

em meados dos anos 1940, coincidirá com todas estas mudanças e os novos campos

intelectuais que estavam se configurando para entender e pensar a Colômbia a partir dos

paradigmas do pensamento moderno.

As propostas de Zapata enriquecem o olhar da literatura colombiana e oferecem

pistas valiosas para outras leituras desses romances – um trabalho comparado nunca feito

– e sua relação com o país, como meditações simbólicas que, em última instância,

proporcionam um horizonte de compreensão histórica e política a partir dos códigos

poéticos de representação que as embasam. Por exemplo, a complexa “estrutura de

sentimento”14 dentro da qual são construídas a obra de Gabo e a de Zapata, seus diferentes

códigos de representação nunca antes contemplados pela crítica, permite compreender os

amplos horizontes nos quais os dois escritores empreenderam a escrita de suas obras, como

é natural, com as características e ênfase próprias de criadores tão destacados e singulares.

Fascínio e mistério se conjugam nessa viagem ao mundo na qual Manuel Zapata

nos faz penetrar em Changó. Subir a bordo é um exercício espiritual para compartilhar a

intimidade dos filhos da diáspora africana e todas as suas experiências, em suas misérias e

grandezas, tão próxima de todos os seres humanos. Para sua compreensão, ajuda em muito

a obra de Manuel Zapata Olivella e toda a imensidão de universos aos quais nos leva pela

sua mão sábia, com a humildade, o olhar e a paciência dos velhos babalaôs iorubás.

“Paciência é o remédio para tudo na vida” foi um provérbio iorubá orientador na vida desse

filho de Xangô.

14 O conceito de estrutura de sentimento será usado aqui na perspectiva de Raymond Williams nas suas obras:

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