a língua como símbolo de liberdade
por
Cristiane Maria de Souza
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Faculdade de Letras/ Universidade Federal do Rio de Janeiro, como quesito para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Lingüísticos Neolatinos).
Orientador: Prof. Doutor Pierre François
Guisan
Folha de aprovação
A imposição do francês oficial sobre as variantes regionais no período da Revolução Francesa,
a língua como símbolo de liberdade
Cristiane Maria de Souza
Dissertação de Mestrado submetida ao corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas – Estudos Lingüísticos Neolatinos (Língua Francesa) da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas.
Aprovada por:
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Presidente, Prof. Dr. Pierre François Guisan (Faculdade de Letras /UFRJ).
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Profa. Dra. Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio (Faculdade de Letras /UFRJ).
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Prof. Dra. Stela Maria Sardinha Chagas de Moraes (Faculdade de Letras/UERJ)
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Prof. Dra. Márcia Atálla Pietroulongo (Faculdade de Letras/UFRJ), Suplente
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Prof. Dra. Mônica Savedra (Faculdade de Letras/PUC-Rio), Suplente
Agradeço por este trabalho primeiro a Deus-Oxalá e a todos os orixás, especialmente a Yemanjá, a Ogum e a Ibejada que tanto me deram força e curiosidade de querer aprender em todos os momentos.
Agradeço a minha mãe Celeste e ao meu padrasto-pai Benedito que me incentivam muito com seus amores incondicionais. Ao meu pai José Eugênio por ter me possibilitado escolher um caminho de vida muito produtivo e no qual eu me encaixo perfeitamente. Aos meus familiares: tia Marlene, tio Beto, tio Luís Carlos, tia Severina, tio Antônio, tia Francineide e tia Bené. Aos primos Darlene, Vivian, Júnior, Gabriele e Nathaly. E especialmente a meu irmão Jair, que eu nunca esquecerei e que será sempre lembrado em minhas empreitadas.
Ao meu orientador, Pierre François Guisan, a quem sou muito grata por acreditar em minha pesquisa e em mim durante todos os momentos. Mesmo aqueles em que esmorecia, sempre tinha a força e a dedicação oferecidas pelo mesmo. Não me vejo com outro orientador principal em nenhuma outra pesquisa, como nunca me vi nesta de agora. Obrigada por toda a paciência, incentivo, crédito e amizade.
Agradeço aos amigos de pré-vestibular e de muitas guerras travadas pela sobrevivência de nossos sonhos e de nós mesmos, Henrique, Graça, Mônica, Eurídice, Wilton, Daniele, Nádia e Robson. Aos padres que possibilitaram a existência do pré que fizemos: padres Martini e Ademir, da pastoral de São Sebastião de Olaria, no Rio de Janeiro. Obrigada por todo o apoio e possibilidade de crescermos como pessoas neste mundo tão grande que nos apresentaram: as Universidades públicas.
Aos meus amigos da Escola Municipal Padre Manuel da Nóbrega em Ramos, como Renata, Luciana, Jussara, Rosângela, Karina, Jean, Christilie, Cristiane Levindo, Keila, Andréa Oliveira, dentre muitos outros que me ajudaram a tentar ser uma pessoa melhor. Aos meus professores desta escola tão querida: D. Sandra, D. Glorinha, D. Vitória, D. Edir, D. Ana, D. Miracyr, D. Margarida, D. Terezinha, D. Suely, D. Maria Orlinda e D. Maria da Penha.
Aos amigos do Colégio Estadual João Alfredo: Daniele Machado, Bianca Borges e Rodrigo.
Aos amigos da Faculdade de Letras da UFRJ: Ana Luiza, Sany, Déborah, André, Alessandra Oliveira, Alana, Maria Clara, Maria Gabriela, Mariana, e Daniele Galindo. As professoras da Faculdade de Letras da UFRJ Márcia Pietrolongo, Consuelo Alfaro e Christina Abreu Gomes, que tanto contribuíram para esta pesquisa.
Aos colegas de mestrado Luiz Carlos, Maria Cristina, Alexandre Bobeda, Mônica, Janaína, Adelaide e Débora.
Aos amigos Kátia, Walcenir, Anderson, Brisa, Jorge, Gustavo, Adriana Pito, Adriana da Hilda, Simone, Elisângela, Davi – meu professor de violão - e seus alunos, e Sebastião, meu professor de natação.
Pour le détruire, il faudrait détruire le soleil, la fraîcheur des nuits, le genre d’aliments, la qualité des eaux, l’homme tout entier.1
Resposta da Sociedade dos Amigos da Constituição de Perpignan ao questionário desenvolvido pelo abade Henri Grégoire sobre a necessidade de eliminar as variantes regionais em solo francês.
1Para destruí-lo, seria necessário destruir o sol, o frescor das noites, o gênero dos alimentos, a qualidade
Sumário:
Resumo ... 7
Resumé ... 8
1 – Introdução... 9
2 – A origem da língua oficial: 2.1 - A norma de língua escolhida ...21
2.2 - Os escritos fundadores da norma e seu grupo de intelectuais ...23
2.3 - A corte francesa e a adoção do falar baseado na escrita...34
3 – O papel da escrita na imposição da língua oficial 3.1 - As comunidades de fala e as comunidades de escrita ...39
3.2 - Escrita e oralidade: O mito da escrita superior à fala...43
3.3 - A escrita em francês oficial: Sua importância para as bases políticas da Revolução Francesa...45
3.4 - A planificação lingüística na França...46
4 – A difusão do discurso revolucionário / língua oficial: 4.1 - O discurso revolucionário jacobino...51
4.2 - O advento da imprensa revolucionária...55
4.3 - A escola e seu papel civilizador...60
5 - O surgimento de uma nova imagem de indivíduo: O cidadão 5.1 - O processo civilizatório do indivíduo, possibilitado pelos símbolos de nação...72
5.2 - O indivíduo portador do discurso revolucionário, com escrita e fala cidadãs...77
5.3 - A importância das políticas lingüísticas na construção de uma nova maneira de encarar o mundo...81
5.4 - A imposição do dialeto vencedor aos cidadãos franceses...85
6 - Abade Grégoire, sua pesquisa, as políticas lingüísticas defendidas e as reações a sua enquête: 6.1 - A pesquisa e as políticas lingüísticas defendidas...88
6.2 - As respostas ao questionário do abade: os símbolos de línguas - nacional e regionais vistas pelos correspondentes...102
6.3 - Formas de resistência mostradas pelos correspondentes em suas respostas ao abade Grégoire e por autores de documentos políticos revolucionários...111
7 – Conclusão... 121
8 – Anexos...127
Resumo
SOUZA, Cristiane Maria de. A imposição do francês oficial sobre as variantes regionais no período da Revolução Francesa, a língua como símbolo de liberdade. Orientador: Pierre François Georges Guisan. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005. Dissertação (Mestrado em Estudos Lingüísticos Neolatinos – Língua Francesa).
Resumé
SOUZA, Cristiane Maria de. A imposição do francês oficial sobre as variantes regionais no período da Revolução Francesa, a língua como símbolo de liberdade. Orientador: Pierre François Georges Guisan. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005. Dissertação (Mestrado em Estudos Lingüísticos Neolatinos – Língua Francesa).
1 – Introdução:
La langue Française a conquis l'estime de l'Europe, et depuis un siècle elle y est classique : mon but n'est pas d'assigner les causes qui ont assuré cette prérogative. Il y a dix ans qu'au fond de l'Allemagne (à Berlin) on discuta savemment cette question, qui, suivant l'expression d'un écrivain, eut flatté l'orgueil de Rome empressée à la consacrer dans son histoire comme une de ses belles époques. On connaît les tentatives de la politique romaine pour universaliser sa langue: elle défendait d'en employer d'autre pour haranguer les ambassadeurs étrangers, pour négocier avec eux; et malgré ses efforts, elle n'obtint qu'imparfaitement ce qu'un assentiment libre accorde à la langue française. On sait qu'en 1774 elle servit à rédiger le traité entre les Turcs et les Russes. Depuis la paix de Nimégue elle a été prostituée, pour ainsi dire, aux intrigues des cabinets d'Europe. Dans la marche claire et méthodique, la pensée se découle facilement ; c'est ce qui lui donne un caractère de raison, de probité, que les fourbes eux-mêmes trouvent plus propre à les garantir des ruses diplomatiques.2
GREGOIRE, Sur la nécessité et les moyens d'anéantir les patois, et d'universaliser l'usage de la langue française, Paris, 1790.
No período que conhecemos como Revolução Francesa, a variante de língua falada
e escrita pela corte do país impunha-se como a língua do Estado nacional que se formava. Neste contexto histórico de transformações, tanto políticas, quanto sociais,
havia a necessidade de que em todo o território francês, a população desenvolvesse a vontade de adaptar-se a esta reformulação de sua sociedade, pois até o momento citado, a grande maioria dos habitantes deste país não falava a língua oficial, nem conseguia
lê-la, já que não conhecia a modalidade escrita de idioma algum, na medida em que as
2 A língua francesa conseguiu a estima da Europa, e em um século ela é clássica no continente: meu
políticas lingüísticas de períodos anteriores não obtiveram bastante sucesso em suas
práticas. Assim, tornava-se necessário impor a língua que recebera a designação de representar este povo, a francesa sobre os locais de comunidades de fala onde os indivíduos comunicavam-se através de variantes regionais, ou os chamados
pejorativamente de patoás pelos políticos revolucionários e, por muitos até nossos tempos. Estes falares seriam formadas pelo basco, o catalão, o provençal, o flamengo, o
gascão, o baixo-bretão, o normando, o picardês, o valão, o champenois, o messin, o loreno, o franco-comtois, o borgonhês, o bressan, o lionês, o dauphinois, o auvergnat, o poitevino, o limousino, o picardo, o languedociano, o velayen, o béarnois e o rouergat,
como enumera o abade Henri Grégoire em seu relatório para a Convenção, em 1790 e, segundo o mesmo, deveriam ser eliminados junto com todas as formas de tirania, pois a
língua da liberdade auxiliá-los-ia a enquadrarem nesta ideologia de nação livre e igualitária. O abade comparava a problemática francesa com o mito da torre de Babel:
On peut assurer sans exagérations qu'au moins six millions de Français, surtout dans les campagnes, ignorent la langue nationale; qu'un nombre égal est à peu près incapable de soutenir une conversation suivie; qu'en dernier résultat, le nombre de ceux qui la parlent purement n'exède pas trois million; et probablement le nombre de ceux qui l'écrivent correctement est encore moindre. Ainsi, avec trente patois différents, nous sommes encore, pour le langage à la tour de Babel, tandis que pour la liberté nous formons l'avant-garde des nations.3
GREGOIRE, Sur la nécessité et les moyens d'anéantir les patois, et d'universaliser l'usage de la langue française, Paris, 1790.
Este imaginário de língua da liberdade e de nação livre e igualitária estaria sendo propagado no período, uma vez que a nova elite política que surgia precisava impor
3 Pode-se assegurar sem exageração que ao menos seis milhões de franceses, sobretudo nas províncias,
suas leis e, ao mesmo tempo, impor-se sobre todos os quadros sociais e políticos em
questão. A língua, assim, seria o instrumento para que as suas decisões fossem compreendidas por toda a população – como se objetivava – e, sobretudo, seria um símbolo muito forte para a adequação dos indivíduos às novas representações sociais do
período. E, desta forma, pensava-se que o novo poder evitaria contra-revoluções, perda de território, ou mesmo, que os indivíduos sentissem estar distantes desta nova
representação de identidade nacional que se desenvolvia, conseguida com muito esforço através do contexto revolucionário.
As transformações bastante radicais conseguiram trazer para o convívio dos
franceses a idéia de engajamento político nunca antes visto na Europa. Fato que podemos ver em Hobsbawm (2006), em sua obra A Revolução Francesa:
A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radical - democrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo.
Neste sentido, através do desenvolvimento da idéia de liberdade propagada com a
Revolução Francesa, pôde-se criar uma grande cadeia de pessoas engajadas em transformar-se em cidadãos desta nação reformulada. Com isto, o sentimento de identificação com esta pátria foi primordial na criação destes indivíduos e, acreditava-se
que deveria haver uma língua em comum que os identificasse e os unisse em seus propósitos. Porém, com a existência de variantes regionais, acreditava-se que isto era
um grande problema para a difusão do sentimento de união nacional.
Procurou-se mostrar que a pátria francesa necessitava de todos os que habitavam em seu território. Para tal empreitada, criou-se a imagem de que as variantes regionais
não ajudariam os indivíduos a enquadrar-se ao novo regime político e social da época,
pois no momento todos os indivíduos eram iguais diante das novas leis nacionais em questão, deveriam, assim, compartilhar do mesmo idioma.
Como a Revolução era baseada em símbolos populares, era necessário popularizar
também a língua oficial como idioma comum a todos. Logo, ligá-la aos símbolos que vinham surgindo no período seria o mais adequado para que houvesse a sua aceitação
pela sociedade francesa. Assim, nos poucos estabelecimentos educacionais existentes na época e, nos jornais, informativos, decretos, nas aulas dos instrutores da língua oficial contratados pelo governo, nas reuniões públicas em geral comandadas por
revolucionários ou seus representantes, dentre outras formas de assembléias, buscou-se introduzir símbolos identificatórios que possibilitassem o sentimento de identificação
nos indivíduos. Os clubes seriam locais onde os indivíduos revolucionários poderiam divulgar a língua oficial e criar um ambiente propício para a criação deste sentimento:
(...) Le club tient tout ensemble de l’école, du cours d’orateur, du journal, de la section de parti et du groupe parlementaire. Ecole, il l’est par les leçons de civisme et de morale républicaine qu’il dispense à ses adhérents : en l’absence d’un enseignement populaire sont la Révolution a bien proposé le principe, mais qu’elle n’esut ni le temps ni les moyens de généraliser, les clubs amorcent ce que fera, un siècle plus tard, la IIIe République avec l’école primaire de village et de quartier. Cours d’orateur : les discussions où tout le monde est admis à prendre la parole sont l’occasion pour les débutants d’apprendre les rudiments de l’art oratoire, pour les orateurs déjà confirmés d’essayer leur talent et leur pouvoir sur l’auditoire. Elles relaient les journaux en portant leur contenu à la connaissance des illettrés. 4
REMOND, René : La vie politique en France (1789-1848), A. Colin, Paris, 1965.
4(...) O clube mantém-se junto da escola, do curso de orador, do jornal, da sessão de partido e do grupo
parlamentar. Escola, ele o é pelas lições de civismo e de moral republicana que dispensa a seus adeptos: a ausência de um ensino popular sobre a Revolução, bem propôs o princípio, mas ela não sabe nem os tempo nem os meios de generalizar, os clubes dividem o que fará, um século mais tarde, a III República com a escola primária de vilarejo e de bairro. Curso de orador: as discussões onde todo mundo é apto a tomar a palavra são a ocasião para os debutantes do aprendizado dos rudimentos da arte da oratória, para os oradores já confirmados ao tentar seu talento e seu poder sobre a auditória. Elas retransmitiam os
Um dos sentimentos mais apregoados nestes clubes, seria o orgulho de pertencer a
esta nação que se voltou para a liberdade de seus membros e, agora, estava possibilitando ideologicamente a todos o direito de serem cidadãos libertos de todos os deveres feudais. Deveres estes que eram bastante cultivados nas províncias falantes das
variantes regionais, mas que agora, deveriam ser eliminados desta nova forma de organizar a sociedade.
A partir deste fator, os indivíduos necessitariam sentir-se cidadãos atuantes nos projetos desenvolvidos para esta sociedade. Eles não deveriam ver-se mais como pessoas sem voz de voto. Eram agora parte atuante e formuladora de todos os interesses
sociais e políticos da Revolução. Logo, esta voz teria que ser somente em francês, e não houve assim projetos com a finalidade de adaptar as leis ou os documentos da época em
variantes regionais. Entretanto, seria privar língua padrão de seu trunfo principal, o de possuir a modalidade escrita oficial no território francês, enquanto as variantes não possuíam escrita.
Desta forma, por se tratarem de línguas ágrafas em sua grande maioria, desenvolveu-se a crença de que as variantes regionais seriam facilmente eliminadas
através da aquisição da escrita em língua francesa, que seria adotada também como fala dos sujeitos. O que não pôde ser confirmado, já que estes mesmos indivíduos passaram a usar o francês em determinados momentos e, estas variantes, no ambiente familiar
dando continuidade a esta situação de diglossia. Este contexto, segundo Jean-Louis Calvet, em seu livro La guerre des langues et les politiques linguistiques (CALVET, 1999), representa a oposição e a convivência na mesma atmosfera da a língua pai, que
de identidade típica de cada região. E, qual seria o contexto em que estas variantes
regionais estavam inseridas?
No período da Idade Média, houve o surgimento de falares regionais oriundos de variações do latim falado, assim como a resistência de comunidades de origem celtas ao
poder incontestável do latim no território francês. Foram alcunhados de patoás de maneira depreciativa pelos parisienses e pelas pessoas ligadas à corte francesa, pois
estariam distanciando-se da língua da nobreza parisiense, logo, eram vistos como falares marginalizados. Já no período da Revolução Francesa, estes falares foram enquadrados como ameaças ao novo regime político e social que surgia, pois impossibilitavam não só
a compreensão das novas entidades políticas e suas leis, como a necessidade de adequar os indivíduos às novas formas de produção oriundas da Revolução pré-industrial que se
desenvolvia na Europa, já que a França encontrava-se com algum atraso tecnológico no que tange à produção de bens em relação à Inglaterra. Acreditava-se, que as variantes regionais atrasariam a criação de indústrias futuras, assim, esperava-se que ao impor a
língua oficial seria o meio mais eficaz para eliminar as variantes regionais, marcantes no território francês.
Estes falares são bastante numerosos, pois somente na região ao norte da França, denominada área de langue d’oïl, existiam e ainda são presentes em nossa época -várias variantes regionais distintas, como o normando, o picardo, dentre outros. E na
região ao sul, denominada de langue d’oc, ou occitano, há a realização de variantes como o catalão, o provençal, o gascon, dentre outros. Além da presença no conjunto do território de variantes de outras famílias lingüísticas, como o bretão, o flamando e o
basco.
Neste ambiente de diglossia, as variantes regionais eram vistas simbolicamente
a razão para o exercício da fala. E também, como ágrafas, ou seja, sem expressão
escrita, mesmo que tivessem obras impressas, como as em provençal, foram enquadradas ainda como demonstrações de marginalidade e falta de identificação com os símbolos da nação francesa.
Com isto, a partir do período revolucionário do final do século XVIII, as variantes regionais foram atacadas de várias formas, para que se construísse uma população mais
adequada à civilidade oriunda dos princípios revolucionários. Esta sociedade, seria a que pudesse utilizar a língua da pátria, a forma de se comunicar que seria a mais adequada aos planos políticos e sociais da época. Desta forma, as variantes regionais
seriam vistas como ameaçadoras a estes planos da nova governabilidade francesa, assim, acreditava-se ser necessário introduzir a língua oficial no contexto destes povos.
Ela seria sua libertadora da tirania em que foram inseridos, seria vista como a língua da liberdade.
O símbolo de língua Francesa que fora criado no Humanismo e estava sendo
legitimado com a Revolução, teve um momento de grande difusão neste mesmo período, já que as novas leis e decretos eram escritos nesta modalidade de língua.
Assim, a maioria das mídias impressas procurava enquadrar-se e seguir o caminho criado pelos revolucionários, pois os responsáveis pelos mesmos acreditavam que a língua oficial seria de extrema importância para a difusão das novas leis escritas com a
Revolução, e para que os indivíduos no território francês pudessem identificar-se com esta nova idéia de nação.
Com símbolos fortes e de total apelo popular, os revolucionários conseguiram que
como a dos indivíduos falantes do bretão, não aceitaram com tanta tranqüilidade esta
imposição.
O ambiente propício para que a imposição ocorresse de forma mais clara e objetiva, seria a escola, pois além de divulgar a modalidade de língua escrita, já que a maioria dos
indivíduos falantes dos variantes regionais não sabia escrever e não tinha acesso ao francês e oficializado, desenvolveria a fala nesta língua imposta. Neste espaço,
pensava-se que se poderia não só fazer com que indivíduos começassem a dominar a língua francesa, como também através dela, propiciaria a criação da imagem de cidadão francês que o novo sistema político-social exigia. E, assim, as variantes regionais
poderiam ser eliminadas de forma cada vez mais eficaz, como se acreditava.
Na grande maioria destas comunidades de fala, existia um amplo sentimento de
identificação dos indivíduos falantes das variantes regionais com o seu falar, logo, os governantes acreditavam que seria necessária a imposição do francês de maneira drástica. Para isto, os responsáveis pela imposição engajaram-se em mostrá-las de forma
depreciada e divulgaram a imagem de uma língua francesa que os levariam à liberdade tanto apregoada nos ideais revolucionários. O abade Henri Grégoire foi um destes
membros da Convenção, que se engajou fortemente na difusão da língua oficial para toda a população francesa.
Henri Grégoire (1750 -1831) nasceu em Vého próximo de Lunéville. Foi padre
constitucional da cidade de Blois e membro assíduo da Convenção, órgão em que fora uma personalidade de grande força no que diz respeito à difusão do francês. Cobrava a sua difusão a fim de que os indivíduos pudessem civilizar-se, pois falar o francês seria
mostra de civilidade, de pertencimento a esta nação livre que surgia.
Assim, desenvolveu uma pesquisa sobre o francês e os patoás, como o próprio
línguas marginalizadas como línguas mortas, que deveriam ser guardadas em museus,
pois seriam parte da riqueza histórica de seu país. Deste modo, o francês era mostrado como a língua que trazia a claridade a todos os que a dominavam, sendo somente através dela que o povo francês poderia entender o que seria a liberdade. Então, os
indivíduos que percebessem a importância de se dominar esta língua, estariam dispostos também a serem cidadãos franceses, na medida em que poderiam ter acesso às novas
leis e reformulações de sua sociedade. Mostrando ser intolerante com a existência das variantes regionais, o abade defendeu a sua aniquilação: a escola seria o local deste ato, segundo o abade.
Em sua enquête, o abade Grégoire desenvolveu uma grande estratégia de desvalorização das variantes regionais, utilizando imagens depreciativas muito fortes e
populares. Como, por exemplo, na questão: O seu patoá tem muitos termos compostos?, ou ainda: A escrita deste patoá possui traços, caracteres outros que o francês?, ou Há gramáticas, dicionários destes dialetos?.
O abade ainda escreveu vários relatórios ao Comitê de Saúde Pública sobre a importância da aniquilação das variantes regionais e, do uso do francês como língua
materna em todo o território. No relatório intitulado Rapport sur les idiomes et patois répandus dans les différentes contrées de la République, 1794, podemos verificar todo o seu engajamento para depreciar as variantes regionais, que eram tratadas como vestígios
do Antigo Regime. Assim, deveriam ser eliminadas, na medida em que todas as instituições feudais estavam sendo abolidas da sociedade francesa. Usou, desta forma,
Neste sentido, com o seu questionário e suas correspondências com os
representantes de cada região, que podiam falar e escrever em francês, pôde fazer uma campanha muito engajada no que diz respeito à difusão do francês e, ao mesmo tempo, a propagação não só do ideário da Revolução, como também de um certo nacionalismo
que possibilitou a sua imposição.
Assim, pretende-se com este trabalho, através do auxilio dos documentos escritos
por Grégoire, assim como relatórios e decretos de outros revolucionários, no que tange as políticas lingüísticas de imposição da época e, as respostas ao questionário do abade, avaliar quais foram os meios ideológicos utilizados pelos governantes para que
houvesse esta imposição e, verificar também quais foram os símbolos que possibilitaram a crença dos indivíduos de estarem tornando-se cidadãos pertencentes a
esta nação francesa. E, assim, avaliar este ambiente de diglossia.
Avaliaremos, desta forma, quais seriam as forças que possibilitaram a imposição de uma variante lingüística em detrimento da desvalorização, de variantes tidas como
dialetos de menor importância para os novos projetos da nação. E, desta forma, analisar quais eram os símbolos de nação impostos a esta sociedade, para que pudesse haver
uma eficaz identificação com esta França em adaptação política e social. Com isto, avaliaremos a investigação desenvolvida pelo abade Grégoire, que em 1790 organizou uma pesquisa nas comunidades onde as variantes regionais eram tidas como línguas
maternas. Defendeu a imposição da variante oficial utilizando símbolos fortes de depreciação destes falares regionais e, ao mesmo tempo, desenvolvendo um símbolo forte de liberdade que somente viria a ser compreendido por aqueles que se
expressassem com a língua que estava sendo imposta.
Para esta avaliação, utilizaremos os arcabouços teóricos de autores como de
(CALVET, 1999), dentre outras obras deste autor sociolingüista, assim como Willian
Labov (1972), que procurou mostrar que a atitude dos indivíduos não é isolada com relação à atitude lingüística de sua sociedade; trabalhos de Benedict Anderson (1983), que procurou apresentar a língua como edificadora dos estados nacionais em
desenvolvimento, do mesmo modo que Henri Meschonnic (1987) em seus textos mostra como se criou o mito de que a língua francesa seria o idioma da nitidez, tudo dentro dos
conteúdos trabalhados pela sociolingüística histórica, além dos trabalhos de Balibar & Laporte e de Certeau, Julia e Revel (1974), autores que pesquisaram sobre as políticas lingüísticas durante a Revolução.
Assim, observaremos como se desenvolveu o mito de língua francesa unificadora e criadora de um sentimento de nacionalismo jamais visto neste território e no mundo; e
nós observaremos este fato a partir dos documentos produzidos pelo Abade Grégoire (1750 -1831), que tratam das políticas lingüísticas para a difusão da língua francesa e as possibilidades de negar as variantes regionais nesta sociedade renovada. Nós
verificaremos os argumentos que o abade utiliza para nos mostrar o valor da língua oficial e, quais imagens ela possuía a fim de possibilitar esta onda de tentativas de
civilizar5 todo o povo do território francês. Com isto, nos baseamos nos princípios da Sociolingüística Histórica e das Representações para analisar estes documentos e verificar quais seriam as ideologias utilizadas para representar a variação em questão ao
mesmo tempo em que depreciar as variantes desprestigiadas. Graças aos trabalhos de Henri Meschonnic (1987) a propósito da imagem de língua perfeita, aos estudos de Stuart Hall (2000) sobre o tema da identidade cultural, aos textos escritos por Benedict
Anderson (1983) no que tange o nacionalismo e de Louis-Jean Calvet (2000, 2002, 2004) sobre a diglossia na França. Logo, observaremos este contexto de conflito
5
linguistico e quais são seus prováveis resultados na sociedade francesa. Deste modo,
tentarmos entender como esta problemática acentua até os tempos de hoje este quadro de diglossia. Verificaremos também como fora desenvolvida esta luta pelo mito de uma língua pura através da desvalorização daquelas tidas como de menor importância para
os projetos revolucionários da época e, de que maneira os representantes destas línguas regionais reagiram a esta tentativa de eliminação de seus falares. Tudo isto com o
2- A origem da língua oficial na França:
2.1 – A norma de língua escolhida
Il y a cent ans, ou environ, je crois, un homme d'esprit disait: « On cherche une langue pour l'usage commun de tous les peuples; elle est toute trouvée: c'est la langue française6». Soyons modestes, et rabattons beaucoup de ces éloges et de cette ambition; il restera vrai que notre langue est une des plus belles et des plus riches que l'on parle sur la terre, une de celles qui ont produit le plus de belles oeuvres en vers et en prose. Elle exprime au plus haut degré le génie de notre nation: elle est une des meilleures parties de l'héritage que nos pères nous ont légué. Et pourtant nous ne la connaissons, nous ne l'étudions guère qu’en vue de la pratique. Ses origines et la suite de son développement sont choses, fort négligées, non-seulement de ceux qui écrivent l'histoire générale de la France, mais de ceux mêmes qui nous racontent l'histoire de la littérature française7. Nous avons, il est vrai, sous le nom d'École des Chartes, un établissement où l'on professe, entre autres sujets d'étude, la science du vieux français.8
EGGER, Emile. De l'histoire et du bon usage de la langue française, Paris, Librairie de L. Hachette et Cie, 1868. 9
Na grande maioria das comunidades de fala estudadas pelos lingüistas, há sempre a necessidade de se unificar a forma como se organizam as variedades de língua dispostas
6 Este assunto está disposto no espirituoso discurso de Rivarol (1784) e em duas obras bastante
instrutivas: uma alemã de Schwab (1803, traduzida em francês por Robelot), outra francesa, de Allou (Paris, 1828).
7 Este outro pode ser encontrado em obras de Geruzez (1861) e de Demogeot (terceira edição. 1857). 8Há cem anos, ou aproximadamente, creio, um homem de espírito dizia : Procura-se uma língua para o
uso comum de todos os povos; ela fora encontrada : é a língua francesa . Sejamos modestos, e rebatemos
muito estes elogios e esta ambição; será verdade que nossa língua é uma das mais belas e das mais ricas que se fala sobre a terra, uma daquelas que produziu a mais bela das obras em prosa. Ela exprime o mais alto nível do gênio da nossa nação: ela é uma das melhores partes da herança que nossos pais nos levaram. E entretanto nós não a conhecemos, nós só estudamo-la na prática. Suas origens e a continuação de seu desenvolvimento são coisas, muito negligenciadas, não somente daqueles que escrevem a história geral da França, mas daqueles mesmos que nos contam a história da literatura francesa. Nós temos, certamente, sob o nome de Escola de Chartes, um estabelecimento onde professa-se, entre outros assuntos de estudo, a ciência do velho francês.
9
nestas sociedades. Isto se dá através de uma hierarquização dos modos de línguas
aceitas ou não por uma determinada associação de indivíduos e, desta forma, os falares e os escritos ligados aos mesmos (ou vice-versa) poderiam auxiliar no estabelecimento de uma organização lingüística dentro de um contexto específico.
Esta conjuntura para muitos estudiosos da linguagem recebe o nome de diglossia,
bilingüismo, polilingüismo, multilingüismo10, etc., em que podemos verificar a existência de conflitos lingüísticos em determinadas comunidades, como na Francesa,
onde coexistem variantes de língua chamadas de regionais - ou pejorativamente de patoás, variantes sociais oprimidas pela existência de um idioma oficial não geográfico - que sempre disputaram e ainda concorrem um lugar mais representativo em sua
sociedade diante de uma língua com o status de língua oficial, a que fora denominada de a língua francesa, na medida em que ela representaria não só a nação francesa, mas
também o seu próprio povo e suas características pessoas; ou podemos verificar também a coexistência menos violenta de variantes e da língua oficial dentro de um mesmo território específico, como podemos observar na Espanha, país em que com o
franquismo11 houve uma grande resistência das comunidades dos falares regionais, cujo
objetivo era de manter seus falares apesar de toda a repressão e censura que sofriam. No início deste regime elas foram perseguidas, porém toda a obstinação de seus falantes possibilitou as suas valorizações no regime político seguinte, e assim, passaram a ser
vistas como propriedades culturais do mesmo.
10
Segundo Jean Dubois (2001), podemos observar a seguinte definição para o termo diglossia:
Historicamente, caracterizava-se pela situação lingüística oriunda da instalação de uma monarquia bavária no poder da Grécia e na qual o katharevousa (língua grega arcaica) era a única língua reconhecida pelo Estado, logo as formas, pronunciação e palavras do cotidiano eram denominadas ‘demóticas’ (dhémotiki). Em seguida, o termo foi empregado, em oposição ao bilingüismo, em todas as situações analógicas à da Grécia. Os critérios eram os seguintes: coexistência de dois sistemas lingüísticos “diferentes” mas próximos entre si e derivados de uma mesma língua, hierarquização social destes sistemas, em que um seria considerado como alto e o outro, baixo, distribuição das funções (os usos na sociedade) de cada uma destas variações.
11 Movimento político-social desenvolvido na Espanha a partir de 1939, onde o General Franco
De fato, podemos entender os termos citados para classificar os contatos
lingüísticos como possibilitadores de construção dialética dentro das ciências da linguagem, já que possibilitam um melhor enquadramento das situações lingüística apresentadas. Podemos dizer, então, que estas noções de diglossia, bilingüismo,
polilingüismo, multilingüismo, dentre outras, na verdade, são elementos que se
entrecruzam e se completam, podendo até ser verificadas como denominações
diferentes de uma mesma problemática que é a questão das línguas em contato. Com isto, podemos entender que é através do contato entre elas que proporciona a criação de seus papéis na sociedade, havendo o enquadramento das mesmas em línguas de maior
ou de menor valor no contexto em que estão presentes.
Assim, verificaremos como este processo de contato lingüístico possibilitou uma
hierarquização bastante eficiente no que tange à imposição de uma variante hegemônica no território francês. Exporemos quais as formas de representação social desta mesma, como elas puderam permitir a sua oficialização e quais seriam seus papéis diante desta
sociedade. Este seria um processo ligado ao período Histórico denominado de Renascimento e tiveram embasamentos mais contingentes nos acontecimentos políticos
da Revolução Francesa. Com isto, observaremos o desenvolvimento desta norma de língua que se tornou oficial e representante da nação francesa.
2.2 - Os escritos fundadores da norma e seu grupo de intelectuais
Le beau français s’est purifié peu à peu par la culture de la cour et des écrivains, sans que les patois aient été beaucoup altérés.12
12 O belo francês purificou-se pouco a pouco pela cultura da corte e dos escritores, sem que os patoás
Jérémie-Jacques Oberlin, em um documento revolucionário sobre a existência de uma variante regional na Lorena.
A França a partir do século XVI passou por um grande processo de modificações políticas e sociais ocasionado por uma maior possibilidade de centralização política
oriunda do Absolutismo, período em que observamos o começo de uma tentativa de valorização dos falares vulgares na Europa diante da língua que fora dominante por
vários séculos, o latim. Este latim se manteve por muito tempo como a língua oficial na Europa, pois era a língua das instituições religiosas, e assim, políticas, durante o grande período nomeado de Idade Média.
Língua que por muito tempo fora considerada vulgar diante do latim, fora originalmente utilizada por grupos de indivíduos que se localizavam ao norte do país.
Havia, assim, na Idade Média, uma divisão do território em duas partes distintas: ao sul do país tínhamos o domínio de langue d’oïl e, ao sul, o de langue d’oc, como convencionou-se chamar pelos lingüistas, historiadores e sociólogos. Esta divisão se
baseava nas diferenças existentes entre os falares do país, mas logicamente, não conseguia dar conta de todas as especificidades de realidade lingüística existentes nestas
terras, já que havia falares milenares como o basco e o bretão, falares regionais bastante significativos no que tange a resistência à dominação lingüística desenvolvida a partir do século citado.
Este falar hegemônico fora desenvolvido durante muitos séculos e, não possuía nenhum meio de uniformização até o momento. Porém, a partir do século XVI, fora
adotado por filósofos que paralelamente à Renascença artística, constituíram uma literatura renovada, influenciada pela Itália e pela antiguidade grego-romana. Este movimento exaltava a língua francesa ao mesmo tempo em que a transformava na
organizar e expressar os pensamentos começou a moldar sua fala a partir da escrita
destes filósofos. Assim, estudaremos os principais autores dos três séculos que consideramos os mais representativos na criação e desenvolvimento desta língua, os séculos XVI, XVII e XVIII. Para tal, teremos o auxílio da Coleção Literária de Lagard
& Michard (1970), e da obra de Bezbakh (2003), Petit Larousse de l`histoire de France. Des origines à nos jours, dentre outras obras sobre a história da França e de sua língua. O século XVI, século que para Lagard & Michard (1970) fora o período em que a arte, a literatura e língua francesas da Idade Média foram introduzidas no Classissismo, na medida em que os autores possuíam a intenção de criar uma imagem do francês
semelhante a já adquirida pelo latim e o grego, autores como Guillaume Budé (1467-1540), o mais antigo dos humanistas13 franceses, publica escritos sobre Direito, sobre o
dinheiro, sobre a língua grega e, após sua morte, divulga-se a obra L’Institution du prince (1547), livro em que faz apologia do saber e do progresso do conhecimento humano; François Rabelais (1494-1553) cujos romances, para Bezbakh (2003), deram
ao francês suas primeiras letras de nobreza, na medida em que, segundo o autor, substituíam com total capacidade os escritos que outrora eram organizados em latim ou
grego; Joachim du Bellay (1522-1560), autor que escreve a obra Défense et illustration de la langue française, obra esta que proporciona ao movimento renascentista alicerces para continuar a construção seja da imagem de língua francesa quanto da mesma;
Pierre de Ronsard (1524-1585), após afirmar seu estilo pessoal com a obra Hymnes
(1556), ele funda uma nova escola, a Pléiade14, em que reúne autores como du Bellay e
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Movimento intelectual chamado de Humanismo. Possuía autores que defendiam a importância de todos os homens em todos os tipos de sociedade. O homem era o centro de toda a instituição social e, por isso, seu discurso era mais que válido em todas as situações, independente de seu papel em sua comunidade.
14 Movimento artístico que se caracterizava pela defesa dos valores antigos, sendo eles vinculados à
Étienne Jodelle; Michel de Montaigne (1533-1592), publica seus Essais (Ensaios) nos
quais defende a moral e a reforma do homem; dentre outros não menos importantes para o movimento.
O último autor citado fora de grande importância no que tange a possibilidade de
tornar a língua francesa uma língua oficial, na medida em que com seus escritos eram vistos como modelo para a nova e mais aceitável forma de língua culta desenvolvida na
França. Seus escritos eram construídos em uma língua bem moldada, o que proporcionou a impressão de os indivíduos estarem diante da língua perfeita, daquela que poderia traduzir o mais claro e racional dos pensamentos humanos. Assim, autores
dos séculos seguintes começaram a dar este mesmo significado a língua que ajudavam a moldar com seus escritos.
Deste modo, no século XVII, com o regime absolutista tornando-se cada vez mais forte através do processo de centralização do poder político, houve também uma centralização econômica e cultural voltadas somente para o suserano. Em conseqüência,
uma nova safra de autores engajou-se na formação de registros em língua oficial , porém, agora, a própria corte começava a assumi-la como parte de seus privilégios, na
medida em que começou a moldar as falas de seus representantes a partir dos escritos da época. Com isto, os autores considerados como clássicos, já que exortavam a antiguidade greco-romana através de suas obras, surgiram com um novo gênero o teatro
francês. Um destes é Pierre Corneille (1606-1684), autor que recebeu benefícios e proteção do cardeal Richelieu, como cita em sua obra Bezbakh (2003). Corneille
compôs inúmeras peças para o Teatro do Marais, onde vários membros da corte prestigiavam-nas, logo, peças como Le Cid (1636-1637), e a partir de 1640, produziu suas grandes tragédias, como Horácio (1640), Rodogune (1644), Andromède (1650),
Francesa em 1647, instituição fundada em 1635 no governo de Luís XIII, o que nos
mostra mais um exemplo de como a corte francesa era ligada ao discurso literário, e assim, ao desenvolvimento da língua que fora designada para representar o povo francês. Desta forma, o autor Jean Racine (1639-1699) também fora um grande
colaborador para esta empreitada lingüística não intencional. Em suas obras, conseguiu trazer o mundo clássico através de suas tragédias. Estas foram bastante apreciadas pela
nobreza que se reunia para apreciar obras como: Andromaque, Britannicus, Phèdre, dentre outras não menos importantes escritas de 1667 a 1677. O seu discurso fora bastante apreciado, já que possuía os estudos religiosos ensinados em Port-Royal,
instituição muito importante para a criação da língua francesa, na medida em que desenvolveu escritos para que se houvesse a manutenção desta língua. Racine, porém,
no período em que criava suas obras, questionou Port-Royal organizando polêmicas teatrais e literárias, alguns anos após, reconcilia-se com a instituição. Fora também, em sua carreira, nomeado por Luís XIV para ser seu historiador, o que mostra sua grande
influência na corte, e a mesma, adotaria seus escritos como mais uma forma de se distinguir do povo.
Outro autor que merece um grande destaque no que tange a influência artística na corte no século XVII é Jean-Baptiste Poquelin, Molière (1622-1673), como o responsável pelo teatro na corte de Luís XIV, após receber o privilégio de apresentar-se
diante do rei no Palais-Royal em 1660. Fortemente influenciado pelo teatro italiano e suas comédias, criou um estilo totalmente cativante, cujo objetivo era ironizar os modos de sua época, além de criar para divertir o rei e sua corte, como podemos ver nas
chamado de comédie-ballet, assim como les Fourberies de Scapin (1670) e le Malade
imaginaire (1673), dentre outras. As peças de Molière auxiliaram na divulgação da língua moldada na escrita, já que utilizava textos que se tornavam bastante cativantes para o público na medida em que eram falados de forma lúdica. Na obra le Bourgeois
gentilhomme, vemos o tema da burguesia emergente que começava a infiltrar-se aos poucos na corte, assim, a peça mostrava de forma bem satírica as tentativas de um
burguês possuidor de muitos bens para tornar-se um homem nobre, e com isto, possuir não só o status, mas a fala dos mesmos. Ele gostaria de descobrir as boas coisas da vida (Molière, 1670), e para isto, deveria adaptar-se à fala dos nobres também. Vemos este
exemplo na aula de filosofia em que o personagem do burguês tenta entender a linguagem que estaria tentando dominar. O mestre de filosofia ensina a oralidade da
língua, mas, diz que apresenta a ortografia ao burguês. Neste sentido, observamos o quanto à fala e a escrita estavam concatenadas, já que o burguês aprendia a fonética nesta aula de ortografia, e aprendia também gêneros literários (prosa e poesia). A prosa
fora associada à fala pelo mestre de filosofia, e o burguês ficara maravilhado por saber que falava prosa e não se dava conta. Assim, a corte encantava-se com a farsa15 de
Molière, na medida em que podia rir dos outros estratos de sua sociedade, afirmando sua hegemonia e a superioridade de sua fala totalmente ligada à escrita.
Neste mesmo século, uma nova corrente filosófica e literária desenvolvia-se: a
descrição dos modos, com autores como René Descartes (1596-1650), autor que criou o famoso Discours de la méthode (1637), obra em que escreve a famosa frase Je pense,
donc je suis.16, também desenvolveu as obras filosóficas seguintes: les Méditations
15Farsa: gênero de peça cômica popular muito simples em que dominam os jogos de cena. Destinado a
brincar com a imagem de alguém ou de fazer rir através da exploração cômica da mesma.
16 A frase citada é bastante representativa no que tange os escritos que se seguiram na França, já que ela é
considerada pelo povo Francês como o ponto de partida de toda a reflexão humana, ela permite ao homem de conhecer-se e de avaliar o mundo que está inserido. Ela quer dizer em português: Penso, logo
(1641), les Passions de l’âme (1649), le Traité du Monde (1633), dentre outras. Este
autor influenciou várias correntes filosóficas como o misticismo de Malebranche e o racionalismo de Diderot (Bezbakh, 2003). Outro autor que se aproximou de Descartes através da mistura de temas religiosos e a matemática, fora Blaise Pascal (1623-1662).
Escreveu obras como: Écrits sur la Grace (1656) e Pensées (1658). Vemos também
Jacques Bénigne Bossuet (1627-1704), autor conhecido pelos seus sermões em forma
de oração fúnebre, como a de Anne d’Autriche (1667), entra para a Academia Francesa em 1671. Temos, nesta época, autores chamados de moralistas, que trabalham a moral através de fábulas, como Jean de La Fontaine (1621-1695), baseadas nos textos do
autor da Antiguidade grega Esopo; François de la Rochefoucauld (1613-1680), que segundo Bezbakh, sua vida ilustra a evolução da nobreza do século XVII, freqüentando
o salão de Madame de Lafayette, onde é reconhecido por suas obras: Réflexions ou Sentences e Maximes Morales (1664); Jean de la Bruyère (1645- 1696), autor que em 1688 escreve Caractères ou les Moeurs de ce siècle; e Nicolas de Boileau (1636-1711)
que publica Satires, em 1666, em seguida, divulga l’Art poétique, obra bastante representativa da época, na medida em que observamos que todos os autores citados
possuem protetores da nobreza e a mesma estava muito engajada em retomar a arte greco-romana, criando assim, base para a discussão desenvolvida na época entre vários autores que defendiam de um lado o respeito às regras de escrita, como Racine, La
Fontaine ou Boileau, e aqueles que acreditavam na existência de gêneros novos, como Perrault, autor de contos de fada, e Fontenelle. Este último publica em 1688 a obra
intitulada Digression sur les Anciens et les Modernes.
No século XVIII, dois autores foram importantíssimos para as tomadas de decisão neste período: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e François Marie Arouet, dito
das virtudes da natureza, a generosidade e a simplicidade, face aos meios mundanos
sofisticados de sua época e aos meios de dificultar o progresso humano que acreditava estar diante. Escreveu obras capitais para o movimento filosófico, como A Enciclopédia17, obra em que junto com Denis Diderot (1713-1784), Bernard Le
Bovier de Fontenelle (1657-1757),
Jean le Rond, dit
d’Alembert (1717-1783),Charles de Secondat, barão de la Brède et de Montesquieu (1689-1755), Étienne
Bonnot de Condillac (1715-1780), Jean Antoine de Caritat, o marquês de Condorcet (1743-1794) - autor que veremos mais adiante através de seu Rapport Condorcet de
abril de 1792, cujo objetivo era ajudar a formar leis de planificação da educação nacional -, e André Chénier (1762-1794), desenvolveu escritos que divulgavam não só suas idéias inovadoras, como a defesa de conceitos democráticos e igualitários que
inspiraram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas divulgavam também a modalidade de língua que seria chamada de língua francesa. Escreveu
também: Discours sur l’origine de l’inégalité, obra bastante venerada pelos revolucionários, sendo assim visto como um dos autores que possibilitaram as novas formas de manifestações e novas maneiras do indivíduo se perceber em sua sociedade.
Já Voltaire engajou-se em formar escritos mais literários, como Candide (1759), um conto filosófico, La Mort de César (1735), uma de suas tragédias históricas, Zadig
(1747), Sémiramis (1748) e Oreste (1750), estas o autor escreveu quando fazia parte da Academia Francesa. Criou peças que foram encenadas na Comédie-Française, como Irene, e engajou-se também na escrita de obras filosóficas, como Traité sur la tolérance e Dictinnaire philosophique. Sua obra em geral perseguia um objetivo estrito: lutar contra a injustiça, a intolerância religiosa, o absolutismo político e a filosofia metafísica,
17 Obra escrita em 17 volumes por vários autores contribuintes – 140 no total - e organizada por Diderot e
d’Alembert no período de 1751 a 1782. Fora chamada também de Dictionnaire Raisonné des Sciences,
des Arts et des Métiers já que objetivava classificar o conhecimento humano e deixá-lo ao alcance de
temas bastante inovadores para o período. Como conseqüência disto, fora considerado
um dos precursores das idéias revolucionárias e inspirador do espírito da Revolução. Fora também um dos autores que mais defenderam a imagem de língua perfeita desenvolvida a partir do século XVI, como já vimos. Um exemplo desta defesa está
registrado em sua obra Correspondance18, em sua carta de número 4432 de 1762, afirmou que a língua francesa era aquela que possuía mais obras-primas em todo o
mundo. Esta afirmação fora escrita em protesto diante da obra de Deodati de Tovazzi, autor italiano que escreveu sua Dissertação sobre a Excelência da língua italiana, em 1761, e que enviou um exemplar para o filósofo francês. Veremos um extrato desta
interessante resposta:
Je suis très sensible, monsieur, à l’honneur que vous me faites de m’envoyer votre livre de l’Excellence de la langue italienne; c’est envoyer à un amant l’éloge de sa maîtresse. Permettez-moi cependant quelques réflexions en faveur de la langue française, que vous paraissez dépriser un peu trop. On prend souvent le parti de sa femme, quand la maîtresse ne la ménage pas assez. (...)
J’ai toujours respecté les Italiens comme nos maîtres; mais vous avouerez que vous avez fait de fort bons disciples. Presque toutes les langues de l’Europe ont des beautés et des défauts qui se compensent. Vous n’avez point les mélodieuses et nobles
terminaisons des mots espagnols, qu’un heureux concours de voyelles et de consonnes rend si sonores: Los rios, los hombres, las historias, las costumbres. Il vous manque aussi les diphtongues, qui, dans notre langue, font un effet si harmonieux: Les rois, les empereurs, les exploits, les histoires. Vous nous reprochez nos e muets comme un son triste et sourd qui expire dans notre bouche; mais c’est précisément dans ces e muets que consiste la grande harmonie de notre prose et de nos vers. Empire, couronne, diadème, flamme, tendresse, victoire; toutes ces désinences heureuses laissent dans l’oreille un son qui subsiste encore après le mot prononcé, comme un clavecin qui résonne quand les doigts ne frappent plus les touches.
Avouez, monsieur, que la prodigieuse variété de toutes ces désinences peut avoir quelque avantage sur les cinq terminaisons de tous les mots de votre langue. Encore, de ces cinq terminaisons faut-il retrancher la dernière, car vous n’avez que sept ou huit mots qui se terminent en u; reste donc quatre sons, a, e, i, o, qui finissent tous les mots italiens.
Pensez-vous, de bonne foi, que l’oreille d’un étranger soit bien flattée, quand il lit, pour la première fois,
. . . e ‘1 Capitano
Che ‘l gran sepolcro liberò di Cristo;. et
18
Molto egli oprò col senno e con la mano? (Le Tasse, Jerus. deliv., ch. i.)
Croyez-vous que tous ces o soient bien agréables à une oreille qui n’y est pas accoutumée? Comparez à cette triste uniformité, si fatigante pour un étranger; comparez à cette sécheresse ces deux vers simples de Corneille:
Le destin se déclare, et nous venons d’entendre Ce qu’il a résolu du beau-père et du gendre. (La Mort de Pompée, acte I, scène 1.)
Vous voyez que chaque mot se termine différemment. (...)
Je finis cette lettre trop longue par une seule réflexion. Si le peuple a formé les langues, les grands hommes les perfectionnent par les bons livres; et la première de toutes les langues est celle qui a le plus d’excellents ouvrages.
J’ai l’honneur d’être, monsieur, avec beaucoup d’estime pour vous et pour la langue italienne, etc.19
VOLTAIRE, Correspondance, carta 4432 (extrato).
Através desta singular resposta podemos verificar um pouco mais as imagens de língua que se desenvolviam na época. A língua francesa concorria em status com a
19 Estou muito sensibilizado, senhor, com a honraria que você me fez ao enviar-me seu livro sobre a
Excelência da língua italiana; é enviar a um amante um elogio de sua amada. Permita-me, entretanto, algumas reflexões a favor da língua francesa, que você pareceu-me menosprezar um pouco em demasia. Toma-se freqüentemente partido de sua mulher, quando a empregada não a auxilia o bastante. (...) Sempre respeitei os Italianos como nossos mestres; mas você confessa que fez bons discípulos. Quase todas as línguas da Europa possuem belezas e defeitos que se compensam. Vocês não possuem mais as melodiosas e nobres terminações das palavras em espanhol, que um feliz concurso de vogais e consoantes torna tão sonoras: Los rios, los hombres, las historias, las costumbres. Faltam para vocês os ditongos, que em nossa língua, fazem um efeito harmonioso: Les rois, les empereurs, les exploits, les histoires. Você reprova nossos e mudos como um som triste e surdo que expira d nossa boca; mas é precisamente nestes e mudos que consiste a grande harmonia de nossa prosa e de nossos versos. Empire, couronne, diadème,
flamme, tendresse, victoire; todas estas felizes desinências deixam na orelha um som que subsiste ainda
após a palavra pronunciada, como uma clave que ressoa quando os dedos não as tocam mais. Confesse senhor, que a prodigiosa verdade de todas estas desinências pode ter alguma vantagem sobre as cinco terminações de todas as palavras de sua língua. Ainda, desta cinco terminações, é necessário separar a última, pois vocês só possuem sete ou oito palavras que terminam em u; resta então quatro sons, a,e,i,o, que terminam todas as palavras italianas. Você acha de boa fé, que a orelha de um estrangeiro seja bem tocada, quando ele lê, pela primeira vez,
. . . e ‘1 Capitano
Che ‘l gran sepolcro liberò di Cristo;. e Molto egli oprò col senno e con la mano?
(Le Tasse, Jerus. deliv., ch. i.)
Você acredita que todos estes o sejam bem agradáveis a uma orelha que não está acostumada ? Compare a esta triste unifomidade, tão cansativa para um estrangeiro; compare a esta secura destes dois versos simples de Corneille :
Le destin se déclare, et nous venons d’entendre Ce qu’il a résolu du beau-père et du gendre. (La Mort de Pompée, acte I, scène 1.)
italiana, que possuía uma imagem bastante sólida de língua representante das clássicas,
a de uma distinta e copiada tradição literária e uma das mais bem organizadas no que tange seu sistema, seu vocabulário, etc. O francês disputava a possibilidade de tornar-se hegemônica diante de uma Europa bastante criativa em arte, sobretudo em literatura,
portanto, em sua dissertação, Deodati de Tovazzi tentava mostrar que a língua italiana não perdia em excelência para a francesa, e seu ato de enviá-la a Voltaire nos permite
entender a luta na época pela hegemonia lingüística no campo intelectual e literário. E, também podemos observar que a imagem de língua perfeita designada à francesa era parte do imaginário europeu, não só francês.
Assim, a partir da imagem de língua perfeita desenvolvida pelos membros dos movimentos literários e intelectuais dos três séculos citados, temos como conseqüência
a aceitação da mesma pela corte francesa. Ela fora aceita gradualmente por seus indivíduos e fora adotada como mais uma característica de sua camada social, apesar dos escritos não terem sido originalmente feitos com este intuito. Fora considerada,
desta forma, mais uma forma de distinção social, porém, com o tempo, uma delas começava a tornar-se gradualmente bastante presente no Estado francês, e com isso,
passava a adotar esta forma de fala para estar próxima à elite dominante. Este grupo fora designado de burguesia20, e começava a tornar-se cada vez mais forte na medida em que fazia parte das decisões políticas, desta forma, deveria adaptar-se à língua da elite para
ser aceita em seu convívio, e para obter status também diante de um grupo tão restrito e não aberto a nenhum meio de ascensão a ela. A nobreza tolerava a presença da burguesia emergente, pois se encontrava cada vez mais sem suas riquezas, assim, a
mesma tinha a obrigação de enquadrar-se nos modos nobres. Desta maneira, a língua
20
Burguesia é um vocábulo derivado do termo burgo, que chegara ao francês através do latim burgus-i e
que designava castelo ou fortaleza. Originalmente, viera do germânico burgs, que queria dizer cidade
pequena, forte. Temos, então em francês o surgimento de expressões como burguês, que denominava os
francesa era a representante não só da elite francesa, mas também, com a Revolução
passou a representar a imagem da nação francesa. Esta língua recebeu até a nomenclatura de língua francesa, o que proporciona a ela a responsabilidade de representar um povo (ANDERSON, 1983), responsabilidade esta que pode ser
considerada oriunda destes juízos sobre a mesma. Deste modo, observaremos a seguir alguns resultados que estas imagens de língua trouxeram para a corte e a sociedade
francesa nos anos seguintes.
2.3 - A corte francesa e a adoção do falar baseado na escrita
Le français, par un privilège unique, est seul resté fidèle à l'ordre direct (...) la syntaxe française est incorruptible. C'est de là que résulte cette admirable clarté, base éternelle de notre langue. Ce qui n'est pas clair n'est pas français21.
Antoine Rivarol, Discours sur l'Universalité de la langue française.
A língua francesa defendida pelos autores do século XVI, passa a fazer parte da grande maioria dos meios intelectuais do país, além de ser instituída como língua oficial
dos meios políticos nos séculos seguintes. Isto se dá pelo fato de ela possuir uma escrita em vias de se oficializar22 desenvolvida pelos autores citados. Esta escrita possibilitou a divulgação da mesma por grande parte do território europeu e, com a imagem de língua
perfeita e com o amparo muito representativo dos intelectuais franceses e, sobretudo, de sua corte, ela passa a ser cada vez mais valorizada pelas elites européias.
21O francês, por um privilégio único, ficou só na fidelidade a ordem direta, (...) a sintaxe francesa é
incorruptível. É lá que resulta esta admirável claridade, base eterna de nossa língua. O que não é claro, não é francês.
22 Esta escrita oficial passou por um processo bastante significativo de implantação, pois teve que
No século XVII, o poder real, através dos atos governamentais de Richelieu23,
percebe que a língua oficial é um instrumento político muito eficaz para a tentativa de
unificação do reino, pois os agrupamentos de indivíduos oriundos dos isolamentos da Idade Média eram sempre vistos como um desafio a vencer e um empecilho aos objetivos de qualquer reinado francês; além disto, a língua francesa possibilitaria uma
maior representatividade do reino em atos diplomáticos. Tudo isto através do gênio de língua que a francesa pretendia carregar.
Desta maneira, a Academia Francesa é criada em 1635, a fim de tornar oficiais os trabalhos gramaticais que poderiam desenvolver uma maior estruturação à língua e ampliar o status que a mesma possuía. No artigo 24 de seu estatuto, a Academia
demonstra o seguinte objetivo:
La principale fonction de l’Académie sera de travailler, avec tout le soin et toute la diligence possibles, à donner des règles certaines à notre langue et à la rendre pure, éloquente et capable de traiter les arts et les sciences.24
Site oficial da Academia Francesa http://www.academie-francaise.fr/role/defense.html
Assim, com esta missão de tornar mais pura a língua francesa, a Academia cria obras como um dicionário. O Dicionário da Academia Francesa teve sua primeira
edição publicada em 1694, e teve o compromisso com a ortografia antiga, influenciada pela etimologia. Porém, a gramática que tanto motivou fora realizada por Port-Royal25:
23 Cardeal e representante mais importante da corte francesa no reinado de Luís XIII. Ele fizera com que o
reino assumisse economicamente essa língua, tornando-a a língua do poder.
24A principal função da Academia será o de trabalhar, com todo o empenho e toda a diligência possíveis,
de proporcionar algumas regras à nossa língua e torná-la pura, eloqüente e capaz de tratar das artes e das ciências.
25Port-Royal fora uma abadia de mulheres que desde a sua fundação em 1204 cuidava da educação de
La Grammaire de Port-Royal, gramática considerada a base de todas as outras no que tange a defesa do purismo da língua francesa.
Se no reinado de Luís XII temos atos políticos bastante representativos para a oficialização da língua francesa, como a criação da Academia, na regência de seu filho,
Luís XIV, tem-se códigos de conduta que moldavam os atos da corte para que pudessem estar sempre ao seu lado, na medida em que o rei via a necessidade de um cerimonial
compreendido em uma etiqueta, esta era a forma de moldar as mentalidades dos homens próximos a ele, funcionando assim, como uma grande estrutura de poder em sua sociedade (Elias, 2001). Dentre estes atos moldadores de sua corte, o rei organizara leis
que impunham o uso da língua oficial em todos os tipos de formas artísticas apresentadas em seu séquito. Como podemos verificar na página oficial da Comédie
Française, na parte em que trata do repertório das obras apresentadas ou a serem
apresentadas:
En 1680, le monopole accordé par le roi aux seuls Comédiens-Français de jouer les pièces en langue française à Paris et dans ses faubourgs crée un fonds de répertoire qui rassemble toute la littérature dramatique existante. Puis le répertoire s'enrichit au jour le jour avec les nouvelles pièces jouées à la Comédie-Française.
Aujourd'hui, une pièce ne peut être inscrite au répertoire de la salle Richelieu qu'après avoir été proposée par l'Administrateur général et
reçue par le Comité de lecture.26 Site oficial de La Comédie Française:
http://www.comedie-francaise.fr
Apesar de todos os atos políticos feitos por estes reinados a fim de difundir a língua
oficial e unificar o território, não houve um verdadeiro comprometimento para a
26
Em 1680, o monopólio concedido pelo rei aos únicos Comédiens-Français de atuar em peças de língua francesa em Paris e em seus subúrbios criar um fundo de repertório que se assemelha com toda a literatura dramática existente. Assim, o repertório se enriquecerá cada dia mais com as novas peças representadas na Comédie-Française.