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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Academic year: 2018

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HISTÓRIA E FICÇÃO NA REPRESENTAÇÃO DE EVA PERÓN: margens confluentes

RIO DE JANEIRO

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HISTÓRIA E FICÇÃO NA REPRESENTAÇÃO DE EVA PERÓN: margens confluentes

1 volume

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas como quesito para a obtenção do Título de Doutora em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos).

Orientadora: Professora Doutora Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva.

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Elaborado pelo Sistema de Geração Automática da UFRJ com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).

O639h

Ortega Clímaco, Adriana

História e ficção na representação de Eva Perón: margens confluentes / Adriana Ortega Clímaco. -- Rio de Janeiro, 2017.

184 f.

Orientadora: Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva.

Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós Graduação em Letras Neolatinas, 2017.

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HISTÓRIA E FICÇÃO NA REPRESENTAÇÃO DE EVA PERÓN: margens confluentes

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutora em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos).

Aprovada em:___/___/____

___________________________________________________________________________ Profa. Dra. Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva – UFRJ

Presidente

___________________________________________________________________________ Prof. Dra. Elena Palmero González - UFRJ

___________________________________________________________________________ Prof. Dra. Ana Cristina dos Santos - UERJ

___________________________________________________________________________ Prof. Dra. Elda Firmo Braga – UERJ

___________________________________________________________________________ Profa. Dra. Suely Reis Pinheiro – UFF

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Para meu amores, André Gustavo e Dandara.

AGRADECIMENTOS

A minha família, em especial aos meus sogros, Antônio e Jandyra Clímaco: sem sua acolhida e ajuda tudo seria muito mais difícil.

A Elizabeth e Isabela Mattozinho pelo cuidado amoroso de Dandara.

Aos amigos pelo apoio constante.

A Professora Cláudia Heloisa Iméllizieri Luna Ferreira da Silva pela paciência e orientação precisa.

Aos Professores integrantes da Banca de Exame desta tese, Elena Cristina Palmero González, Ana Cristina dos Santos, Elda Firmo Braga, Suely Reis Pinheiro, Silvia Inés Cárcamo de Arcuri, Luciano Prado da Silva.

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A História e a Ficção escrevem-se para corrigir o porvir.

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CLÍMACO, Adriana Ortega. História e ficção na representação de Eva Perón: margens confluentes. Rio de Janeiro, 2016. Tese (Doutorado em Letras Neolatinas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

O tema do presente trabalho é a relação entre história e ficção na representação de Eva Perón. São analisadas a autobiografia La razón de mi vida, de Eva Perón, o romance Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, e a biografia Evita: jirones de su vida, de Felipe Pigna. Apresentam-se questões relativas ao efeito de historicidade construído na narratividade do discurso histórico, bem como os mecanismos de ficcionalização da matéria histórica. As obras foram analisadas a partir dos conceitos de história e historiografia de Bloch, Certeau, White e Benjamin; ficção, de Iser; autobiografia, pacto autobiográfico e autoficção, de Pozuelo Yvancos, Lejeune, Bourdieu e Alberca; hagiografia, de Certeau, e imaginário, de Le Goff. Verificou-se em La razón de mi vida, a representação autobiográfica, em Santa Evita, a hagiográfica e, em Evita: jirones de su vida, a política. Foram observados os elementos criadores do efeito de historicidade, por um lado, e os ficcionalizadores da história, por outro. A reflexão considerou também o imaginário evitista na confluência entre as margens da história e da ficção.

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CLÍMACO, Adriana Ortega. História e ficção na representação de Eva Perón: margens confluentes. Rio de Janeiro, 2016. Tese (Doutorado em Letras Neolatinas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

El presente trabajo tiene como finalidad la relación entre historia y ficción en la representación de Eva Perón. Se analizan la autobiografía La razón de mi vida, de Eva Perón, la novela Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, y la biografía Evita: jirones de su vida, de Felipe Pigna. Se presentan cuestiones a cerca del efecto de historicidad construido en la narratividad del discurso histórico, así como los mecanismos de ficcionalización de la materia histórica. Se analizaron las obras a partir de los conceptos de historia e historiografía de Bloch, Certeau, White y Benjamin; ficción, de Iser; autobiografía, pacto autobiográfico y autoficción, de Pozuelo Yvancos, Lejeune, Bourdieu e Alberca; hagiografía, de Certeau, e imaginario, de Le Goff. Se verificó en La razón de mi vida, la representación autobiográfica, en Santa Evita, la hagiográfica y, en Evita: jirones de su vida, la política. Se observaron los elementos creadores del efecto de historicidad, por un lado, y los ficcionalizadores de la historia, por otro. La reflexión consideró también el imaginario evitista en la confluencia entre las orillas de la historia y la ficción.

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CLÍMACO, Adriana Ortega. História e ficção na representação de Eva Perón: margens confluentes. Rio de Janeiro, 2016. Tese (Doutorado em Letras Neolatinas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 20167

The aim of this work is relating history and fiction in the representation of Eva Perón. The autobiography La razón de mi vida by Eva Perón, the novel Santa Evita by Tomás Eloy Martínez, and the biography Evita: jirones de su vida by Felipe Pigna were analyzed. They present issues about the effect of historicity built on the narrativity of historical discourse, as well as the mechanisms for the fictionalization of historical matter. The works were analyzed from history and historiography concepts by Bloch, Certeau, White and Benjamin; from fiction by Iser; autobiography, autobiographical Pact and autofiction by Pozuelo, Yvancos Lejeune, Bourdieu and Alberca; hagiography by Certeau, and imaginary by Le Goff. In La razón de mi vida, the autobiographical representation was found, in Santa Evita, the hagiographic representation and in Evita: jirones de su vida, politics. The elements observed were the effect of historicity, on the one hand, and the fictionalizers of history, on the other. The study also considered the imaginary of Evita at the confluence between the margins of history and fiction.

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INTRODUÇÃO 13

1 ENTRE A HISTÓRIA E A FICÇÃO 19

1.1 O efeito de historicidade 27

1.2 O espaço biográfico 38

1.3 O imaginário: confluência da história e da ficção 51

2 REPRESENTAÇÃO AUTOBIOGRÁFICA DE EVA PERÓN 54

2.1 Pacto autobiográfico e formação de si na narrativa 54 2.2 Relato autobiográfico da infância: construção de si vinculada ao projeto

político peronista 62

2.3 Lar e família: alegorias da nação 68

2.4 Efeito de historicidade em La razón de mi vida 73

3 REPRESENTAÇÃO HAGIOGRÁFICA DE EVA PERÓN 81

3.1 Origens: infância de Eva Perón em Santa Evita 82

3.2 Evita longe de ser Evita: do anonimato à ascensão 86

3.3 Nomes de Evita 93

3.4 Irrupção do maravilhoso: maldições, milagres e relíquias de “Santa” Evita 98 3.5 Modo de narrar: autoficção, metáfora animal e alegoria da história 105

4 REPRESENTAÇÃO POLÍTICA DE EVA PERÓN 114

4.1 Efeito de historicidade em Evita: jirones de su vida 114 4.1.1 De “Cholita” a “Esa mujer”: cronologização da biografia de Eva Perón 115

4.1.2 Visão panorâmica: contextualizão 122

4.1.3 Definir ideias: conceitualização 127

4.1.4 Discussão das fontes e versões 129

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4.2.1 Marcas de si: subjetividade 136

4.2.2 Contando uma história: enredo e diálogo 144

5 MARGENS CONFLUENTES: IMAGINÁRIO EVITISTA 147

5.1 O mito de Evita 147

5.2 Margens confluentes 157

CONSIDERAÇÕES FINAIS 163

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 167

ANEXO A 178

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INTRODUÇÃO

A presente tese doutoral propõe investigar a relação entre história1 e ficção na representação de Eva Perón (1919-1952) na autobiografia La razón de mi vida (1951), no romance Santa Evita (1995), de Tomás Eloy Martínez (1934-2010), e na biografia histórica

Evita: jirones de su vida (2012), de Felipe Pigna (1959), obras ficcional e não ficconal, respectivamente. O tema das obras é a vida de Eva Maria Duarte de Perón (1919-1952), conhecida como Evita, mulher do ex-presidente da Argentina, Juan Domingo Perón (1895-1974), figura emblemática para o Peronismo (movimento político derivado do nome do ex-presidente), caracterizado, dentre outras razões, por políticas trabalhistas.

Em sua autobiografia, La razón de mi vida, Eva Perón dedicou-se a apresentar os fundamentos de seu interesse pelas causas populares e seu apoio ao presidente Perón, seu marido.

Em linhas gerais, Santa Evita tematiza, além da vida e morte de Eva Perón, o sequestro e a ocultação de seu cadáver embalsamado. Neste romance que é também uma biografia ficcional, o mito de Evita é recriado através da união entre história e ficção como principal procedimento narrativo.

A biografia Evita: jirones de su vida, escrita pelo historiador Felipe Pigna, relata eventos da vida de Eva Perón, apresentando farta documentação para situá-la historicamente a partir de seu papel na política argentina.

A questão da relação entre a história e a ficção, de suas similaridades e diferenças, do que emerge na confluência de suas margens motiva-me há tempos, razão pela qual graduei-me em letras após concluir a graduação em história. Refletir sobre variadas representações forjadas na tessitura discursiva permite conhecer um pouco mais da experiência humana e de seu imaginário.

A motivação para o estudo desta temática relacionada à representação de Eva Perón surgiu após a análise de Santa Evita que realizei, anteriormente, em dissertação de mestrado.2 Na ocasião, considerei como sua característica principal a relação entre história e ficção, verifiquei a relativização dos limites desses campos em duas margens complementares: ficcionalização da história e efeito de historicidade da ficção (CLÍMACO, 2014, p. 59, 60). A

1 Na presente tese, opto pelo uso da palavra história com inicial minúscula, seguindo o uso mais comum entre os teóricos da história e da literatura nos quais se apoia este trabalho, não se fazendo, portanto, distinção gráfica da história como disciplina dos demais sentidos da palavra.

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identificação dos procedimentos relativizadores no romance levou-me a questionar se estes também estariam presentes em obra não ficcional. Por este motivo, optei por analisar a autobiografia LRMV3 e a biografia EJSV. Além disso, retomo o estudo de SE para analisar o relato da biografia de Evita como vida de santo, hagiografia.

Para situar os autores com relação às suas obras, expõem-se a seguir alguns dados de suas biografias.

María Eva Duarte de Perón nasceu em 1919, em Los Toldos, província de Buenos Aires. Filha natural de Juana Ibarguren e de Juan Duarte, que não a reconheceu, fato este que marcou sua infância. Mudou-se para a capital aos quinze anos e ali iniciou sua carreira de atriz. Em 1944, conheceu Perón durante um ato beneficente para as vítimas de um terremoto em San Juan. Casaram-se em 1946. Desenvolveu intenso trabalho ao lado de seu marido. A partir de sua iniciativa, fundou o ramo feminino do Partido Peronista e instituições de assistência como a Fundação Eva Perón, dentre outras, à qual dedicava até dezoito horas diárias de trabalho.

Por sua dedicação aos mais humildes, foi por eles reverenciada, carinhosamente chamada de Evita, embora seus opositores reservassem-lhe epítetos desrespeitosos como “Essa mulher”, “Égua”, etc. Tornou-se um dos expoentes do peronismo, talvez mais popular que o próprio Perón, embora sempre declarasse estar a sua sombra. Escreveu LRMV, publicado em 1951, Mi mensaje, editado postumamente, e uma obra pouco conhecida,

Historia del peronismo, segundo Alicia Poderti (2010, p. 78), igualmente editada postumamente, fruto das aulas sobre peronismo que ministrou na Escola Superior Peronista. Faleceu em 26 de julho de 1952, vítima de câncer de útero, doença que a deixou muito debilitada nos últimos meses de vida.4

Autor de SE, Tomás Eloy Martínez (1934-2010), argentino, nascido em Tucumán, além de escritor literário teve intensa atuação como jornalista e professor universitário de literatura. Sua longa carreira no jornalismo e na escrita de romances é destacada por Oviedo (2001, p. 407). Recebeu o Prêmio Ortega y Gasset, organizado e outorgado pelo jornal El País, em 2009, na categoria Trajetória, por sua produção jornalística. As fronteiras entre jornalismo e literatura diluem-se em sua carreira. Livros como La pasión según Trelew

(1974); Lugar común la muerte (1979); El sueño argentino (1999) y Requiém por un país

3 Ao longo do texto, as obras do corpora e suas citações serão identificadas pelas siglas: LRMV (La razón de mi vida; (SE) Santa Evita e EJSV (Evita: jirones de su vida).

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perdido (2003) são relatos e crônicas testemunhais que exemplificam a narração da realidade como ficção.

Martínez foi redator em periódicos, em Buenos Aires, como Primera Plana,

Panorama e La Opinión. No exílio, permaneceu na Venezuela entre 1975 e 1983, e lá fundou e dirigiu o jornal El Diario de Caracas. No México, em Guadalajara, anos depois, organizou o jornal Siglo 21. Além disso, foi colaborador permanente de La Nación, Argentina, El país, Espanha, e The New York Times Syndicate. Em 2009, na Argentina, foi incorporado como membro da Academia Nacional de Jornalismo. Em sua carreira acadêmica, fez conferências e cursos em universidades dos Estados Unidos, Europa e América Latina, além de ser professor emérito da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, na qual dirigiu o Programa de Estudos Latino-Americanos.

A biografia publicada no site da fundação que leva seu nome, a Fundación Tomás Eloy Martínez, menciona que talvez Martínez tenha obtido mais projeção internacional como romancista. Publicou seu primeiro romance, Sagrado, em 1969, depois La mano del amo

(1991), El vuelo de la reina (Prêmio Internacional Alfaguara, 2002), El cantor de tango

(2004) e Purgatorio (2008). Os romances La novela de Perón (1985) e SE (1995), destaques da literatura contemporânea, tornaram-no o autor mais traduzido da Argentina.

Sobre Martínez e suas obras La pasión según Trelew (1974), La novela de Perón

(1985) e SE (1995), comenta Jorge Carrión:

su biografía entre tres países – Argentina, Venezuela y los Estados Unidos – y su dedicación tanto a la creación literaria como a la docencia impulsaron la difusión de esas grandes crónicas en que la ficción es puesta al servicio de la posible verdad histórica. (CARRIÓN, 2012, p. 25)

Autor de EJSV, Felipe Pigna nasceu em Mercedes, província de Buenos Aires, em 1959. Professor de História, dirige o Centro de Difusão da História Argentina da Universidade Nacional de San Martín. Historiador que segue linha revisionista da história argentina, Pigna goza de prestígio neste país, aproximando a história ao grande público através de diferentes meios: livros, artigos em jornais e revistas, histórias em quadrinhos, programas em rádio e televisão, filmes, páginas na internet e nas redes sociais, nas quais interage com o público.

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ciclo de entrevistas ¿Qué fue de tu vida? no Canal 7. Dirigiu o projeto “Ver a história” que originou o documentário 200 anos de história argentina, série exibida em treze capítulos pela TV Pública e pelo Canal Encontro. Apresentou a série de documentários sobre os bicentenários, Unidos pela Historia, do History Channel, que foi transmitida simultaneamente em toda a América Latina e recebeu o Prêmio Martín Fierro de melhor documentário em 2011.

Publicou El mundo contemporâneo (1999), La Argentina contemporânea (2000),

Pasado en presente (2001), Historia confidencial (2003), Los mitos de la historia argentina

(2004), Los mitos de la historia argentina 2 (2005), La larga noche de la dictadura y La noche de los bastones largos (2006, em conjunto com María Seoane), Los mitos de la historia argentina 3 (2006), La historieta argentina (2007, coleção de histórias em quadrinhos), Evita

(2007), José de San Martín: documentos para su historia (2008), Los mitos de la historia argentina 4 (2008), Historias de nuestra historia: una historia animada para chicos y no tan chicos (seis volumes, 2009), 1810, La otra historia de nuestra Revolución fundadora (2010),

Libertadores de América (2010, Prêmio Manuel Alvar, em Madrid), Mujeres tenían que ser

(2011), Los mitos de la historia argentina 5 (2013), Al gran pueblo argentino, salud (2014),

La voz del gran jefe (2014).

As produções historiográficas de Felipe Pigna alcançam grande difusão, como dito anteriormente. Parece interessante observar este fenômeno de divulgação da história argentina. Não se propõe aqui uma investigação da história da leitura ou da recepção destas obras, mas verificar um elemento que parece estar relacionado a este gosto pela história, especificamente, pela história produzida por Pigna: o modo como se constrói a narração dos eventos históricos. Além disso, o papel do autor historiador como produtor da história.

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Assim, a tese de doutorado reúne o corpus apresentado composto por obras de caráter híbrido, narrativas de histórias de vida, para responder aos seguintes problemas de pesquisa: em primeiro lugar, como se dá a relação entre história e ficção na construção da representação de Eva Perón; em segundo lugar, que elementos presentes nas obras relativizam tal relação, ficcionalizando a matéria histórica, por um lado, e criando o efeito de historicidade da ficção, por outro; qual o papel do historiador na criação do efeito de historicidade.

As hipóteses iniciais para resolução desses problemas são: em LRMV, Eva Perón constrói uma representação de si vinculada ao projeto político peronista; em SE, a representação de Eva Perón é feita seguindo o gênero hagiográfico, e que tal gênero contribui para a criação do efeito de historicidade; a metáfora animal, presente em SE, constitui o modo de narrar do romance; a biografia EJSV apresenta elementos ficcionalizadores da matéria histórica em sua composição e, ao mesmo tempo, transforma ficção em relato histórico; a autoria do historiador realiza o efeito de historicidade.

No primeiro capítulo, Entre a história e a ficção, discuto o conceito de história como ciência dos homens no tempo, segundo Marc Bloch, e uma construção regida por um conjunto de práticas científicas, de acordo com Michel de Certeau, além de uma narrativa, como apontado por Hayden White, e o papel do historiador alegorista, segundo Walter Benjamin. Sobre a ficção, apoio-me na reflexão proposta por Wolfgang Iser. Após essas considerações, o capítulo apresenta os demais conceitos constituintes da fundamentação teórica deste trabalho, dividindo-se em três partes: o efeito de historicidade, o espaço biográfico e o imaginário na confluência da história e da ficção.

A respeito do efeito de historicidade, observo como este é criado de modo textual na narratividade e paratextualmente. Como elementos textuais criadores do efeito de historicidade são identificadas as notas, as citações, o tratamento do tempo, a objetividade, a conceitualização, a cronologização, a criação do enredo e a argumentação. Quanto ao elemento paratextual, a presença do nome próprio do historiador autor com seu duplo reconhecimento – dos pares e do público – possibilita o efeito de historicidade.

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Enquanto caminhava a pesquisa, a questão do imaginário surgiu claramente como o elemento que resulta da confluência entre a história e a ficção, por este motivo este capítulo teórico também apresenta reflexões sobre este conceito, a partir das proposições de Jacques Le Goff.

No segundo capítulo, Representação autobiográfica de Eva Perón, analiso LRMV. Identifico o pacto biográfico e a construção de si na narrativa, o relato da infância relacionado ao projeto político peronista. Observo também a construção do lar e da família como alegorias da nação. Apresento os elementos que possibilitam o efeito de historicidade na obra: autoria e pacto autobiográfico; construção do enredo; detalhes; referências a personagens e instituições reais; menção de datas históricas; citação de documentos; conceitualização e fotografias.

No terceiro capítulo, Representação hagiográfica de Eva Perón, analiso SE. Observo como a narrativa apresenta elementos do relato da hagiografia, construindo ficcionalmente a vida de Evita como um relato de “Vida de santo”5, narrando suas origens; sua ascensão, seus

nomes e designativos. Observo a irrupção do maravilhoso e, por fim, o modo de narrar composto de autoficção, metáfora animal e alegoria da história.

No quarto capítulo, Representação política de Eva Perón, analiso EJSV. Identifico os elementos criadores do efeito de historicidade, por um lado, (cronologização, contextualização, discussão de fontes e versões, e autoria do historiador) e que revelam a ficcionalização da história, por outro (subjetividade, enredo e diálogo).

No quinto capítulo, Margens confluentes: o imaginário evitista, discuto o mito de Evita em sua dicotomia, antiperonista e peronista, e o relaciono às representações autobiográfica, hagiográfica e política, refletindo sobre o imaginário evitista na confluência entre a história e a ficção.

Por fim, apresento as Considerações finais e as Referências bibliográficas, bem como os Anexos A, B e C.

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1. ENTRE A HISTÓRIA E A FICÇÃO

Ao refletir sobre história e ficção, parto da lacuna apontada por Cristine F. Mattos, em “Para uma reflexão teórica na leitura de obras de Tomás Eloy Martínez” (2003) para o desenvolvimento da presente pesquisa. Mattos, ao refletir teoricamente sobre as obras de Tomás Eloy Martínez, afirma que SE permite adentrar universos de fronteiras movediças entre a literatura e a história. A autora observa que faltariam aos trabalhos que analisam a obra martineziana desbravar complexa rede estrutural produtora do apagamento das fronteiras literária e histórica. Destaca que o texto de Martínez pode ser definido pela presença simultânea de gêneros e subgêneros, ao invés de se buscar optar por um entre os diversos gêneros (CLÍMACO, 2014, p. 20).

A fundamentação teórica do presente trabalho articula, portanto, conceitos de história, ficção, narrativa de extração histórica, elementos relativizadores dos limites entre história e ficção, hagiografia, biografia e imaginário.

Quanto à conceituação de história, trabalho com a concepção de Marc Bloch da história como a ciência dos homens no tempo e não, simplesmente, a ciência do passado (1992, p. 26). Desta forma, não se toma o passado como tempo privilegiado, voltando-se a história para a existência humana.

Ampliando essa concepção, acrescento a teoria proposta por Michel de Certeau (2000). Para este autor, a história é uma operação que segue um conjunto de práticas científicas. Tais práticas envolvem a pesquisa, o tratamento dos fatos e sua divulgação na forma textual (CERTEAU, 2000, p. 22). Essa operação histórica possui um duplo efeito: por um lado, historiciza o atual, presentifica uma situação vivida; por outro, a imagem do passado mantém o seu valor primeiro de representar aquilo que falta. Do presente, parte-se para o passado, buscando-se uma compreensão para uma falta, objetivando preencher uma lacuna. A historiografia, portanto, nesta concepção, está em permanente construção, é inacabada. O historiador identifica lacunas no trabalho de outros pesquisadores, na abordagem tradicional ou costumeira de determinado evento. Estas lacunas são disfarçadas pelo historiador, formando o não dito, o silêncio sobre o que não se pode verificar, afinal o historiador não confessa em sua produção o que não localizou, o que faz com que seu discurso pareça completo, fechado, acabado (CLÍMACO, 2014, p. 23).

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textualidade da história: seu tecido organiza unidades de sentido e nelas opera transformações cujas regras são determináveis. Desta forma, a historiografia torna-se objeto semiótico, na medida em que constitui um relato ou um discurso próprio (ibdem, p. 51). Através do texto, a história se dá a conhecer e isto revela que trabalha sobre o limite, situada com relação a outros discursos, recortando seu objeto de análise e desenvolvendo sua própria discursividade (ibdem, p. 50). Nesta tese, reflete-se sobre a discursividade peculiar da história, a historicidade.

Sobre os limites, Certeau (2000, p. 55) afirma que, ao ultrapassá-los, a história deixaria seu lugar, decompondo-se em ficção (narração do que aconteceu) ou reflexão epistemológia (elucidação de suas regras de trabalho). Seria, portanto, possível entender seus limites como perceptíveis, bem marcados por imposições e particularidades (ibdem, p. 66) que permitem ao discurso produzido a partir da pesquisa historiográfica seu reconhecimento por outros historiadores. A história é mediatizada pela técnica, segundo o autor (ibdem, p. 78), colocando-se ao lado da ciência na medida em que prioriza seu modo próprio de constituir-se. A não utilização das técnicas da história a colocariam ao lado da literatura.

A ficção, por sua vez, não está presa a limites. Embora regida por um conjunto de técnicas, a ficção é livre. Seu conjunto de técnicas textuais visa à produção de um sentido que permita a manifestação do espírito e da arte, não exatamente a um domínio, a um campo científico, se comparada à história.

Em comum, narrador literário e historiador possuem a escrita para contar suas histórias e divulgar suas pesquisas, respectivamente. É o modo de narrar que difere. O historiador constrói o discurso histórico, com recursos textuais tais como notas, citações, discussão de fontes, etc., específicos ao gênero narrativa histórica. Seu discurso objetiva a construção de um conteúdo verificável, perceptível, atestável a partir da materialidade dos documentos, das fontes. No entanto, cabe destacar, a história não é apenas o fato, o evento relatado ou vislumbrado no documento, mas o relato, a narrativa que se constrói sobre ele. Nesse sentido, é o historiador quem, por meio da escrita, do discurso, historiciza um fato, ampliando a história que passa a ser fato mais o discurso sobre ele produzido.

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como suficiente para a narrativa. O papel do imaginário na composição da narrativa permite distinguir ficção e relato histórico.

Para refletir sobre ficção, utilizo o conceitual elaborado por Wolfang Iser (1983, p. 386), que observa que esta compõe uma tríade com o real e o imaginário. O texto literário ficcional permite a realização do imaginário através dos atos de fingir, que são três: seleção, combinação e autodesnudamento (ISER, 1999, p. 68). O imaginário adquire aparência de real através dos atos de fingir. Desta forma, o mundo é representado como se fosse real.

O processo efetuado pelo autor de escolha de elementos presentes no mundo contextual para integrar o fictício é denominado por Iser ato de seleção, o primeiro ato de fingir (ISER, 1999, p. 68). Relacionado a este está o segundo, o ato de combinação, através do qual relações intratextuais são criadas, possibilitando novas composições e ultrapassagem de limites (ibdem, 1999, p. 69). Completando os atos de fingir, tem-se o terceiro,

autodesnudamento da ficcionalidade. Por meio deste ato, a literatura se dá a conhecer como ficção, portanto algo diverso da realidade (ISER, 1983, p. 397).

Iser utiliza a expressão “como se” para explicar o modo como o mundo ficcional representado no texto é considerado: “como se fosse real”. Isso significa que essa representação ocorre para um determinado fim: causar reações sobre o mundo (ISER, 1983, p. 402). Isto é possível porque se irrealiza o mundo do texto, transformando-o em análogo, em explicação do mundo, ativando assim o imaginário com a participação do leitor (ibdem, p. 406).

Segundo Jorge Carrión, a ficção está presente em textos de não-ficção:

O conflito entre Ficção e História, com suas mil metamorfoses (Religião e Ciência, Utopia e Realidade, Sonho e Vigília, Mentira e Verdade, Especulação e Demonstração), é o mais apaixonante de todos os que constituem, como uma tensão vibrátil e dinâmica, ao ser humano. A não ficção é incapaz de resolver esse problema, mas o congela provisoriamente, o põe em quarentena. Contorna-o.

(CARRIÓN, 2012, p. 26, tradução nossa).6

Importa, também, para esta pesquisa o conceito de narrativa de extração histórica, definido por André Trouche (2006). Este conceito permite refletir sobre a narrativa que enceta diálogo com a história, como forma de produção de saber e como intervenção transgressora. Trouche considera em seu trabalho a existência da relação entre história e ficção na literatura, sob formas textuais diversas, antes do advento do gênero romance histórico no século XIX.

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Desta forma, elimina a tendência da crítica a tomar o romance histórico tradicional como modelo para as obras que apresentam diálogo com a história. Com este conceito, o autor abrange não apenas o romance e o romance histórico, mas outras formas narrativas não classificadas como romance, enfatizando o discurso que transfere à ficção retomar e questionar a experiência histórica, procedimento comum ao processo literário hispano -americano (CLÍMACO, 2014, p. 55).

Fiz opção pelo conceito de narrativa de extração história em História e ficção em Santa Evita(CLÍMACO, 2014, p. 55), devido à sua distinção com relação a outros conceitos como: romance histórico (LUKÁCS, 1977), novo romance histórico latino-americano (MENTON, 1993), também chamado por alguns de romance histórico hispano-americano, e metaficção historiográfica (HUTCHEON, 1991).

Seymour Menton, em desdobramento do romance histórico de Lukács, desenvolve o conceito de novo romance histórico latino-americano para designar a produção literária latino -americana escrita a partir de 1979. Menton aponta que tais obras possuem como característica: subordinação da reprodução mimética de determinado período histórico, em graus distintos, à apresentação de algumas ideias filosóficas; distorção consciente da história mediante omissões, exageros e anacronismos; ficcionalização de personagens históricos; metaficção ou comentários do narrador sobre o processo de criação; intertextualidade; e presença de conceitos bakhtinianos – dialogismo, carnavalização, paródia e heteroglosia (MENTON, 1993, p. 42-44). Segundo o autor, para que uma obra possa ser reconhecida como romance histórico, há um marco temporal: sua ação deve desenvolver-se total ou parcialmente num passado não experimentado diretamente pelo autor (ibdem, p. 32). Isto exclui de seu estudo romances que, embora possuam dimensões históricas, abordam um período experimentado diretamente pelo autor (ibdem, p. 33).

Penso que este é um falso problema, tanto do ponto de vista ficcional, quanto do historiográfico, pois a valorização de uma concepção de história que privilegia a visão retrospectiva foi abandonada no século XX, a partir da Escola dos Annales (CLÍMACO, 2014, p. 51). Além disso, outro ponto discutível do posicionamento de Menton diz respeito à característica do novo romance latino-americano que trata da história de forma a distorcê-la através de omissões, exageros e anacronismos (MENTON, 1993, p. 43).

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construção que se dá através da elaboração de versões históricas fictícias, apontando-se para sua textualização (CLÍMACO, 2014, p.52).

Estou de acordo com Trouche para quem a classificação novo romance histórico latino-americano, como proposta por Menton, é apressada, devido à existência de um enorme abismo entre o romance histórico tradicional e as narrativas produzidas nas últimas décadas (1980-2000), na América Latina (TROUCHE, 2006, p. 29).

A terminologia metaficção historiográfica, proposta por Linda Hutcheon (1991) também tenta explicar a relação entre história e ficção, sendo caracterizadora do pós -modernismo na literatura. Segundo Hutcheon, são assim classificados os romances famosos, populares e autorreflexivos que, paradoxalmente, aproximam-se de acontecimentos e personagens históricos (HUTCHEON, 1991, p. 21). Ainda segundo a autora, a recusa da pretensão da verdade histórica e o aproveitamento das mesmas verdades e mentiras do registro histórico são observáveis nas metaficções historiográficas (ibdem, p. 152).

Esse é um ponto a se criticar na definição de Hutcheon, visto que, como apontado por Alcmeno Bastos (2007, p. 44), não é apropriada a questão da verdade ou da mentira do registro histórico pois isso não é um problema para a ficção. Além disso, a história não tem pretensão à verdade. Esta se refere ao verificável, ao que possa ser comprovado por documentos nos quais se apoia o historiador, sendo isto absolutamente desnecessário à ficção (CLÍMACO, 2014, p. 54).

Uma classificação genérica estrita não se constitui uma preocupação na presente tese, por isso considero o corpus selecionado como narrativas de extração histórica. Cabe ressaltar que, de acordo com Trouche (2006, p. 32), uma das tendências atuais que se revela bastante proveitosa e com estudos de maior êxito e densidade é a que aponta no sentido da relativização dos limites entre história e ficção. Isto associado ao já dito, anteriormente, sobre o trabalho de Cristine Mattos, indica a motivação para a presente tese.

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Tomo de empréstimo a expressão “efeito de historicidade”, utilizada por Alcmeno Bastos (2007, p. 106), para designar o que acontece quando recursos ficcionais substitutivos, como criação de personagens, eventos e instituições análogas a personagens, eventos e instituições de extração histórica documentada são empregados na ficção.

Os procedimentos identificados em SE como ficcionalizadores da história foram: a matéria histórica e o mito; a quebra da linearidade temporal, os personagens históricos e sua ficcionalização; o narrador que se apresenta como autor e personagem de sua narrativa e, por fim, as metáforas e os símbolos (CLÍMACO, 2014, p. 70).

É possível afirmar que a narrativa está composta de duas margens complementares: de um lado, os elementos ficcionalizadores da história; do outro, os que criam um efeito de historicidade na ficção. No meio ou misturando-se a eles, fundindo-os, a metaficção, criando uma narrativa ficcional que não substitui a narrativa histórica, antes questiona e tematiza o que a história silenciou. Os elementos que criam o efeito de historicidade em SE são: a elaboração de documentos históricos; o tratamento dado aos documentos; as notas; o ensaio e a intertextualidade (CLÍMACO, 2014, p. 123).

Diluem-se, em SE, as margens entre ficção e história. A ficcionalização da história e a criação do efeito de historicidade da ficção visam a discutir a produção da história, dando voz ao que esta havia silenciado. O não dito é colocado em discussão. A produção da história é questionada. A ficção pode ousar por em cena o que foi descartado, omitido, silenciado pela escrita da história. Não substitui a história, nem a nega, pode-se dizer que a complementa (CLÍMACO, 2014, p. 177). Nesta tese, reflito sobre essas margens também em obra não ficcional, produto de pesquisa histórica, portanto historiografia, escrita da história. Em que medida a ficção se faz presente em LRMV e em EJSV, é uma das perguntas a responder.

Faz-se necessária, portanto, a conceituação de meta-história formulada por Hayden White (1995). O teórico afirma que o trabalho histórico é manifestamente “uma estrutura verbal na forma de um discurso narrativo em prosa” (WHITE, 1995, p. 11). Tal discurso tem a pretensão de “ser um modelo, ou ícone, de estruturas e processos passados no interesse de

explicar o que eram representando-os.” (ibdem, p. 18). Chama trabalho histórico tanto a

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Enfatiza White que meta-histórico não se refere aos conceitos teóricos dos quais se utiliza o historiador para dar a suas narrativas o aspecto explicativo. Distingue três estratégias que criam a impressão explicativa: explicação por argumentação formal, explicação por elaboração de enredo e explicação por implicação ideológica (WHITE, 1995, p. 12). O plano meta-histórico seria mais profundo, um nível no qual

o historiador realiza um ato essencialmente poético, em que prefigura o campo histórico e o constitui como um domínio no qual é possível aplicar as teorias específicas que utilizará para explicar “o que estava realmente acontecendo” nele. Esse ato de prefiguração pode, por sua vez, assumir certo número de formas cujos tipos são caracterizáveis pelos modos linguísticos em que estão vazados. (WHITE, 1995, p. 12, grifo do autor)

White denomina esses tipos de prefiguração como os quatro tropos da linguagem poética: metáfora, metonímia, sinédoque e ironia (1995, p. 12). Destaca que muito se fez para aproximar a história da ciência, discutindo-se os elementos que permitem classifica-la numa das modalidades científicas, mas pouca atenção se deu aos seus elementos artísticos. Para o autor (ibdem, p. 13), compõem a base meta-histórica de todo trabalho histórico o modo tropológico dominante e seu protocolo linguístico concomitante. Quanto ao trabalho de seleção operado pelo historiador, White, a partir de seus estudos sobre a consciência histórica oitocentista, conclui que “os melhores fundamentos para escolher uma perspectiva da história em lugar de outra são em última análise antes estéticos ou morais que epistemológicos” (ibdem, p. 14).

White busca contribuir para a discussão acerca do problema do conhecimento histórico que permeou o século XIX: “que significa pensar historicamente e quais são as características inconfundíveis de um método especificamente histórico de investigação?” (WHITE, 1995, p. 17). Aponta como no século XX essas questões ainda não obtiveram uma resposta definitiva. Afirma que autores como Valéry, Heidegger, Sartre, Lévi-Strauss e Foucault expressaram dúvidas a respeito de uma consciência especificamente “histórica”, “sublinharam o caráter fictício das reconstruções históricas e contestaram as pretensões da história a um lugar entre as ciências.” (ibdem, p. 17). Pensar sobre o componente poético, figurativo, ficcional da obra EJSV é um dos objetivos desse trabalho.

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como espetáculo na perspectiva dos vencedores, manifestando empatia com os monumentos dos vencedores. Já o materialismo histórico, segundo sua definição, não se preocupa com um nexo causal entre momentos da história; possui percepção qualitativa do tempo; discerne a história dos vencidos, propondo-se a contá-la, por entender que o passado poderia ser outro. O historiador alegorista, materialista histórico, dedica-se à produção de uma história capaz de explodir o continuum de uma história sem significado, trazendo à tona um passado saturado de agoras.

Em Benjamin, verifica-se o presente como ponto de partida para o historiador. O autor preocupa-se com a ascensão do fascimo e isso faz com que reflita sobre a história e a postura acrítica do historicismo, como se evidencia em sua sexta tese sobre a história:

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo "como ele de fato foi".

Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de

um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como

seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem

também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. (BENJAMIN, 1987, p. 224)

Em seu estudo sobre Benjamin, Penido (1989, p. 67) afirma que, através da alegoria, o historiador alegorista vislumbra a salvação das coisas. O alegorista descontextualiza o objeto que se transforma em morto, deixando de significar por si próprio. Este objeto, para irradiar novos sentidos, depende da ação do alegorista, que é, portanto, arbitrária. Assim, o historiador deve proceder com os documentos tal qual o alegorista com os objetos. Os fragmentos da história devem ser descontextualizados e receber outros sentidos. Cabe ao historiador utilizar os cacos da história como citações, dando-lhes novo sentido. Historiador e alegorista são onipotentes. O historiador está comprometido com uma história que resgata as intenções fracassadas – esse é o seu foco de luz sobre os documentos.

A nona tese sobre a história apresentada por Benjamin é de grande importância nesta pesquisa, visto que o narrador de SE estabelece seu modo de narrar segundo a concepção de história nela mencionada:

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suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (BENJAMIN, 1987, p. 226)

O historiador, para Benjamin, deve construir uma experiência com o passado. O narrador em SE, comportando-se como um historiador alegorista, assim o faz em sua representação hagiográfica de Eva Perón.

1.1 O efeito de historicidade

Há uma propriedade que permite à história contar-se: a narratividade. Tal propriedade lança mão de formas e estratégias discursivas que possibilitam ao narrador, no caso, ao historiador, transformar em discurso os fatos acontecidos, relacionando-os em causa e efeito, estabelecendo assim um modo inteligível de configuração do real. Desta forma, os leitores podem ter acesso àquilo que aconteceu.

Refletindo sobre a narratividade da história, pergunto-me em que ela difere da ficção. O que faz com que um relato seja pertencente ao discurso histórico e outro ao literário, questiono. A relação entre história e ficção é tema sobre o qual se debruçaram pensadores os mais diversos desde a Antiguidade e, obviamente, tal questão está longe de se resolver definitivamente. Interessa-me pensar em alguns aspectos relacionados ao modo como se constroem tais discursos: o que confere um caráter histórico a determinada narratividade, portanto, como adquire historicidade um discurso, ou ainda, o que cria esse efeito?

Não me refiro exclusivamente ao sentido de historicidade como histórico, logo presente num espaço e numa temporalidade. Faço menção a propriedades que constituem a textualidade do discurso histórico diferenciando-o de outros discursos; àquilo que Krzysztof Pomian chama “marcas de historicidade”:

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Como já dito anteriormente, a expressão “efeito de historicidade” foi utilizada por Alcmeno Bastos (2007, p. 106), para se referir ao emprego na ficção de recursos ficcionais que fazem analogia a personagens, eventos e instituições de extração histórica documentada, gerando no leitor a sensação de estar diante do que realmente aconteceu. Por sua vez, “efeito de historicidade” remete ao “efeito de real” produto de reflexão de Roland Barthes (2004, p. 178) que assim denomina o fato de, na história objetiva, o “real” não ser nunca mais do que um significado não formulado, abrigado atrás da onipotência aparente do referente.

Barthes analisa o discurso de historiadores clássicos como Heródoto, Maquiavel, Bossuet e Michelet, buscando neles traços distintivos do discurso histórico (2004, p. 163). Segundo o autor, a observação da enunciação, do enunciado e da significação permite tecer algumas considerações.

Quanto à enunciação, o discurso histórico parece comportar dois tipos regulares de embreantes (shifters): embreantes de escuta e os de organização. Os do primeiro tipo designam “toda menção das fontes, dos testemunhos, toda referência a uma escuta do historiador, recolhendo um alhures do seu discurso e dizendo-o” (BARTHES, 2004, p. 164,

grifo do autor). O autor pontua que explicitar tal escuta é uma escolha, pois é possível não se referir a ela. No entanto, os historiadores optam por fazê-la porque visam à objetividade científica. Já os do segundo tipo são os signos pelos quais o historiador organiza seu próprio discurso, retomando-o e modificando-o; indicam um movimento do discurso em relação a si mesmo, revelando a coexistência de dois tempos – o tempo da enunciação e o tempo da matéria enunciada (ibdem, p. 165).

Dessa confluência temporal originam-se fatos de discurso tais como a aceleração da história, o aprofundamento do tempo histórico e as inaugurações do discurso histórico. Sobre o primeiro, Barthes (2004, p. 165) destaca que um capítulo que cobre séculos pode conter o mesmo número de páginas de outro que cobre apenas alguns anos. Quanto mais se aproxima do tempo do historiador, mais forte é a pressão da enunciação e mais lentamente caminha a história, o que demonstra a ausência de isocronia o que atenta implicitamente contra a linearidade do discurso. O segundo refere-se às idas e vindas na história como, por exemplo, as digressões com retorno no tempo, para explicar cada personagem introduzido no relato. Por fim, as inaugurações do discurso histórico são os lugares onde se encontram o começo da matéria enunciada e o exórdio da enunciação.

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sendo seu modelo poético, e o prefácio, ato caracterizado de enunciação que pode ser prospectiva, quando analisa o discurso a seguir, ou retrospectiva, quando julga o discurso. Segundo Barthes,

A entrada da enunciação no enunciado histórico, através dos shifters organizadores, tem por finalidade não tanto dar ao historiador a possibilidade de exprimir a sua

“subjetividade”, como geralmente se diz, quanto “complicar” o tempo crônico da

história confrontando-o com outro tempo, que é o do próprio discurso, e que se poderia chamar, por condensação, o tempo-papel; em suma, a presença, na narração

histórica, de signos explícitos de enunciação visaria a “descronologizar” o “fio”

histórico e a reconstituir, mesmo a título de mera reminiscência ou nostalgia, um tempo complexo, paramétrico, de modo algum linear, cujo espaço profundo lembraria o tempo mítico das antigas cosmogonias, também ele ligado por essência à palavra do poeta ou do adivinho; os shifters de organização atestam, com efeito – mesmo por certas digressões de aparência racional –, a função preditiva do historiador: é na medida em que ele sabe o que ainda não foi contado que o historiador, tal qual o agente do mito, tem necessidade de duplicar o escoamento crônico dos acontecimentos por referências ao tempo próprio de sua palavra. (2004, p. 167, grifo do autor)

Os embreantes de destinação estão geralmente ausentes no discurso histórico que é, aparentemente, um discurso sem tu, embora sua estrutura implique, na realidade um “sujeito”

da leitura. São encontrados, segundo Barthes, “apenas quando a história dá uma lição” (2004, p. 168). Mais frequentes são os signos do enunciador:

todos os fragmentos de discurso em que o historiador, sujeito vazio de enunciação, vai-se pouco a pouco enchendo de predicados variados destinados a fundá-lo como uma pessoa provida de uma plenitude psicológica, ou ainda (o termo é preciosamente repleto de imagens) de uma continência. (BARTHES, 2004, p. 168, grifo do autor)

Ao preencher-se, o enunciador ausenta-se de seu discurso, consequentemente, este carece de qualquer signo que remeta ao emissor da mensagem histórica, fazendo com que a história pareça contar-se sozinha: a isto corresponde o discurso histórico dito objetivo (BARTHES, 2004, p. 169). É estabelecida uma ilusão referencial, visto que o enunciador pretende deixar o referente falar por si só.

A respeito do enunciado do discurso histórico, Barthes reflete que este deve prestar-se a um recorte que produza unidades do conteúdo. Tais unidades são representativas do que fala a história (BARTHES, 2004, p. 170). O historiador precisa nomear os objetos históricos. A palavra da qual se utiliza para fazê-lo pode economizar uma situação ou sequência de ações; “ela favorece a estruturação na medida em que, projetada em seu conteúdo, ela própria é uma pequena estrutura” (ibdem, p. 172).

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significado implícito, segundo um processo metafórico” (BARTHES, 2004, p. 173); a segunda formada por fragmentos do discurso de natureza arrazoadora; e a terceira que comporta funções da narrativa ou pontos cardeais de onde o enredo pode tomar um andamento diferente (ibdem, p. 174). Há, portanto, apresentação de evento de modo a ser compreensível, argumentação sobre este e uma narrativa de enredo na constituição do discurso histórico.

Sobre a significação, Barthes chama a atenção para uma história que não significa, cujo discurso limita-se a uma série de anotações, como, por exemplo, cronologias e anais. Já no discurso histórico constituído (“forrado”), os fatos relatados funcionam quer como índices, quer como núcleos cuja sequência tem valor indicial, e mesmo quando os fatos fossem apresentados de maneira anárquica, eles significariam pelo menos a anarquia e remeteriam a uma certa ideia da história humana (BARTHES, 2004, p. 175).

Os níveis de significados do discurso histórico relacionam-se intimamente: há um nível imanente à matéria enunciada, que detém todos os sentidos que o historiador dá voluntariamente aos fatos que relata. Podem ser: as lições morais ou políticas que o historiador tira de certos episódios. Se esta lição é contínua, atinge-se um segundo nível: um significado que transcende ao discurso histórico, transmitido pela temática do historiador (BARTHES, 2004, p. 175). Preencher o sentido da história é o objetivo do discurso histórico: “o historiador é aquele que reúne menos fatos do que significantes e os relata, quer dizer, organiza-os com a finalidade de estabelecer um sentido positivo e de preencher o vazio da série pura” (ibdem, p. 176).

O discurso histórico produz-se a partir de elaboração ideológica e do imaginário. Barthes considera imaginário como “a linguagem pela qual o enunciante de um discurso (entidade puramente linguística) “preenche” o sujeito da enunciação (entidade psicológica ou ideológica)” (2004, p. 176). Destaca ainda que o fato histórico, a partir do momento em que a linguagem intervém, só pode ser definido de modo tautológico, visto que o notado procede do notável, no entanto, paradoxalmente, o notável é aquilo que é digno de memória, portanto, de ser notado. Segundo Barthes, esse é o paradoxo da pertinência do discurso histórico:

o fato nunca tem mais do que uma existência linguística (como termo de um discurso), e, no entanto, tudo se passa como se essa existência não fosse senão a

“cópia” pura e simples de uma outra existência, situada num campo extra-estrutural, o real. (BARTHES, 2004, p. 176)

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direta com o significante e o discurso, encarregado apenas de exprimir o real” (BARTHES,

2004, p. 177, grifo do autor). A história tem a pretensão de ser um discurso realista e, ao produzir-se, como já mencionado anteriormente, cria o efeito do real (ibdem, p. 178).

O papel do historiador na criação do efeito de historicidade ao produzir seu discurso histórico está na construção que faz através da escrita, com elementos textuais, e em fazer uso de um imaginário que o consagra como autoridade (a isso, voltaremos mais adiante).

A intencionalidade do historiador, autor do discurso histórico, na criação das marcas de historicidade é destacada por Pomian:

Considera-se histórica uma narrativa quando ela apresenta marcas de historicidade que certificam a intenção do autor de permitir que o leitor saia do texto e quando essas marcas programam as operações supostamente aptas a permitir a verificação das alegações feitas ou a reprodução dos atos cognitivos dos quais tais alegações são a finalização. Em suma: uma narrativa é considerada histórica quando exibe a intenção de submeter-se a um controle de sua adequação à realidade extratextual do passado do qual trata. (POMIAN, 2003, p. 21)

As marcas de historicidade textuais são criadas na narrativa através da palavra e remetem a uma exterioridade. Além das que permitem ao leitor a verificação dos fatos que o historiador encadeia e narra em sua construção, como as notas e as citações, há também outras pistas que possibilitam reconhecer o discurso histórico, tais como o tratamento do tempo, a objetividade, a conceitualização, a criação do enredo e a argumentação.

A respeito das marcas que pretendem fazer este discurso verídico e crível, portanto, passíveis de verificação, Pomian (2003, p. 21) alerta para o fato de que essa deve poder ser executada por todo leitor competente, a menos que as fontes tenham sido destruídas em acidentes comprovados após a redação. Notas e citações que não são possíveis de serem verificadas por seu caráter ficcional não constituem o discurso histórico. Neste caso, o leitor estará indiscutivelmente diante de obra ficcional.

Trabalhar a partir de fontes e explicitá-las são normas da profissão de historiador (PROST, 2015, p. 39). A construção de fatos documentáveis permite que o texto do historiador receba um status de ciência, isto porque garante que, ao invés de sequências de opiniões subjetivas, a história expressa a verdade, aquilo que se pode comprovar (ibdem, p. 54).

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rodapé: “As notas na margem inferior de página são essenciais para a história: elas constituem o sinal tangível da argumentação. A prova só é aceitável se for verificável.” (ibdem, p. 235).

Da mesma forma, as citações compõem o discurso histórico. O historiador traz a palavra de outros historiadores para seu texto e com eles dialoga, estabelecendo a rede de saber à qual se vincula sua produção. Segundo Certeau, o uso da citação produz um efeito de verdade que serve de certificação ou confirmação:

a linguagem citada tem por função comprovar o discurso: como referencial, introduz nele um efeito de real; e por seu esgotamento remete, discretamente, a um lugar de autoridade. Sob este aspecto, a estrutura desdobrada do discurso funciona à maneira de uma maquinaria que extrai da citação uma verossimilhança do relato e uma validade do saber. Ela produz credibilidade. (CERTEAU, 2000, p. 111)

O tratamento do tempo por parte do historiador é, também, marca de historicidade. O tempo da história é um tempo objetivado que,

visto do presente, é um tempo já decorrido, dotado consequentemente de certa estabilidade e que pode ser percorrido ao sabor da investigação. O historiador remonta o tempo e faz o movimento inverso; pode acompanhá-lo, mentalmente, nos dois sentidos, embora saiba muitíssimo bem que ele se escoa apenas em um sentido. (PROST, 2015, p. 104).

O trânsito no tempo é operação peculiar da história. Geralmente, no discurso, apresenta-se de forma linear para facilitar o relato e a compreensão, visto que para estabelecer e explicar relações de causalidade torna-se difícil apresentar a simultaneidade dos eventos, ainda assim há alguns recursos, como o flasback, na narração dos eventos históricos.

Prost afirma que o tempo objetivado apresenta duas características complementares: em primeiro lugar, exclui a perspectiva teleológica, o que impede a admissão de um tempo claramente orientado e, em segundo lugar, permite fazer prognósticos, ressaltando a diferença entre profecia e prognóstico: este último avança do presente para o futuro, apoia-se no diagnóstico respaldado no passado (PROST, 2015, p. 105). Não estou totalmente de acordo com a ideia da exclusão da perspectiva teleológica, pois, como já mencionado nesta pesquisa, o que é transformado em fato histórico é aquilo que é da ordem do notável para o qual buscam-se explicações. Ora, isto poderia supor uma certa orientação temporal, ainda que puramente produto de elaboração textual.

Para Prost, o tempo dos historiadores e a biografia individual compartilham características:

Cada qual pode reconstruir sua história pessoal, objetivá-la até certo ponto, como remontar, relatando suas lembranças, do momento presente até a infância ou inverter o movimento a partir da infância até o começo da vida profissional, etc. A memória, a exemplo da história, serve-se de um tempo já decorrido. (PROST, 2015, p. 106).

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O tempo da memória, o da lembrança, nunca pode ser inteiramente objetivado, colocado à distância, e esse aspecto fornece-lhe sua força: ele revive com uma inevitável carga afetiva. É inexoravelmente flexionado, modificado, remanejado em função das experiências ulteriores que o investiram de novas significações. (PROST, 2015, p. 106)

A história não é uma memória. Seus tempos dependem de registros diferentes. Fazer história, em lugar de registrar lembranças, ou imaginar para atenuar a ausência de lembranças, é construir um objeto científico, historicizá-lo, construir sua estrutura temporal, espaçada, manipulável (PROST, 2015, 106).

Como o tempo não é dado ao historiador, faz-se necessário que o construa num trabalho próprio ao seu ofício. Essa construção se dá em duas tarefas: estabelecer uma cronologia, isto é, classificar os acontecimentos na ordem do tempo, e periodizar, recortar o tempo em períodos. A periodização “permite pensar a um só tempo, a continuidade e a ruptura” (PROST, 2015, p. 107). Ainda segundo Prost, periodizar é “identificar rupturas, tomar partido em relação ao variável, datar a mudança e fornecer-lhe uma primeira definição. Entretanto, no interior de um período, a homogeneidade prevalece.” (ibdem, p. 107). Através da periodização, abrem-se os caminhos da interpretação do objeto. É preciso frisar que “cada objeto histórico tem sua periodização” (ibdem, p. 111), como a de Eva Perón, na biografia de Felipe Pigna, como analiso mais adiante.

A narração, a elaboração de enredo, possibilita o trabalho com o tempo da história visto que este “não é uma reta, nem uma linha quebrada feita por uma sucessão de períodos, nem mesmo um plano: as linhas entrecruzadas por ele compõem um relevo. Ele tem espessura e profundidade” (PROST, 2015, p. 114).

A objetividade textual constitui marca de historicidade. O discurso histórico é um texto objetivado e digno de crédito. Nele, o eu é proscrito, aparece, no máximo, no prefácio, quando o autor explicita suas intenções. O historiador tenta excluir sua personalidade do texto que produz, evitando implicar-se e manifestar emoções. Promove o ocultamento de si, aparecendo em raras oportunidades, como no início ou fim de capítulo, notas e discussões com outros historiadores, ou sob formas atenuadas, pelo emprego de “nós” que associa autor e leitores ou por uma referência à corporação de historiadores através de expressões mais impessoais, por exemplo, “diz-se”. Acabada, a obra limita-se a fornecer enunciados objetivos (PROST, 2015, p. 238).

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determinados aspectos e contradizê-lo ou renová-lo em outros” (PROST, 2015, p. 239). O diálogo com os pares é, portanto, fundamental.

Já o leitor, geralmente, está ausente no texto do historiador, que não o consulta ou com ele assume uma relação didática, isto porque a posição que o historiador pretende ocupar é a do próprio saber objetivo constituído pela profissão, sendo seu discurso “um saber que se enuncia ou melhor ainda, se manifesta” (PROST, 2015, p. 239).

Outra operação realizada pelo historiador e que gera historicidade é a conceitualização. O historiador lança mão de um repertório de conceitos ao analisar fatos já mencionados anteriormente por outros e, caso estes não consigam expressar o que tenta dizer, elabora novos conceitos. Resultante do mesmo tipo de operação intelectual, a generalização ou o resumo, os conceitos são abstrações utilizadas pelos historiadores para compará-las à realidade (PROST, 2015, p. 123). A conceitualização é, portanto, um procedimento e busca da história para organizar a realidade histórica; entretanto essa organização é relativa e sempre parcial, “porque o real nunca se deixa reduzir ao racional, ele comporta sempre uma parte de contingência e as particularidades concretas transtornam necessariamente a ordem irrepreensível dos conceitos” (ibdem, p. 124). Ou seja, ainda que seja uma ordem imperfeita, incompleta e desigual, a conceitualização consegue, de alguma forma, ordenar a realidade. Por meio da instrumentalidade dos conceitos, os historiadores buscam consolidar a organização da realidade; além disso levam o passado a exprimir sua especificidade e suas especificações (ibdem, p. 131).

Destaca-se, uma vez mais, a história como um ofício, uma prática decorrente de um aprendizado. Isto supõe a existência de um conjunto de técnicas a aprender, a dominar. Não é por menos que muitos historiadores referem-se à corporação, à oficina da história. A produção dos demais, dos que vieram antes, ou mesmo contemporâneos, é incorporada e discutida pelo historiador, que a faz avançar, por isso é que Prost afirma que “é necessário ser historiador para fazer história” (PROST, 2015, p. 133) e ao mesmo tempo, de modo paradoxal, “ao fazer história é que alguém se torna historiador” (ibdem, p. 134).

A história organiza-se como enredo, mais um elemento indicativo de historicidade. A elaboração literária e retórica específica, associada à linguagem, faz com que o livro de história seja facilmente reconhecível como tal. O modo de narrar do historiador, como elabora seus fatos e suas interpretações deve ser observado. Penso que a historicidade constrói-se na narratividade:

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um primeiro elemento para chegarem a um segundo elemento mais tardio e explicam como se fez a passagem do primeiro para o segundo; por outras palavras, é necessário e basta, para haver uma narrativa, que haja dois acontecimentos, ou situação, por ordem do tempo. (PROST, 2015, p. 213)

Qualquer objeto histórico é passível de narração. Múltiplos procedimentos literários tornam a exposição mais viva e significativa, numa construção que não é necessariamente linear. As mudanças são explicadas pela narrativa, assim como as permanências; naturalmente isso implica numa busca das causas e intenções. A construção do enredo consiste, logo, em configurar um tema. Este não é encontrado pronto pelo historiador; deve ser construído e modelado. O historiador cria o enredo, um ato fundador, que “incide, também sobre as personagens e os cenários; implica a escolha dos atores e dos episódios” além de determinar “o plano em que o historiador se coloca” e a constituição dos fatos (PROST, 2015, p. 219):

A criação de enredos configura, portanto, a obra histórica e, inclusive, determina sua organização interna. Os elementos adotados são integrados em um cenário, através de uma série de episódios ou de sequências meticulosamente ordenados. A disposição cronológica é a mais simples, sem implicar qualquer tipo de imposição. (PROST, 2015, p. 220).

Dentre os recursos empregados na criação de enredos, em seu aspecto literário, tem-se o flashback, a pluralidade dos tempos e a panorâmica. “A história é um enredo no sentido literário do termo: o dos romances, peças de teatro e filmes.” (PROST, 20115, p. 221), sendo que, segundo Paul Veyne, “a história é um romance real” (1998, p. 11), no sentido de que narra acontecimentos verdadeiros. Considero o termo “verdadeiros” no sentido de verificáveis, passíveis de comprovação, e não a história como verdade em contraposição à ficção, mentira. A oposição à ficção não é a verdade, e sim a não-ficção.

Prost chama a atenção para o fato de que a narração distingue-se da narrativa contemporânea de ação, porque o narrador não é o ator, nem o espectador imediato da ação; ele aparece depois da ocorrência e já conhece o desfecho, ele faz seu relato, porque está separado dela por um intervalo de tempo inscrito na própria trama dos enunciados; além disso, a narração implica o conhecimento prévio do desenrolar e do desfecho do enredo, e a descrição em forma de relato é construída como argumentação (PROST, 2015, p. 223, 224).

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argumentação presente no enredo criado pelo historiador constitui marca de historicidade, pois, embora utilize a imaginação, esta não é livre, tampouco ilimitada, como na ficção.

Outro elemento da narratividade do enredo são os personagens. Ora, o historiador não tem a liberdade do romancista para criá-los livremente. Apresenta personagens reais, com seus nomes próprios – marcas registradas, segundo Alcmeno Bastos (2004, p. 87) –, que incorporam ao texto toda a semântica que carregam:

enquanto o romance deve revelar, aos poucos, as características dos personagens – incógnitos para o leitor – cujos nomes próprios haviam sido citados desde o começo, a história recebe personagens já bem definidos, sobrecarregados com todos os saberes acumulados pela tradição e pela historiografia. (PROST, 2015, p. 243)

Além dos nomes próprios, são marcas registradas também os pontos de referência do cenário criado no enredo, estes constituem, segundo Prost, recursos que despertam a imaginação do leitor, tais como pequenos detalhes aparentemente inúteis e o recurso à cor local (PROST, 2015, p. 246). De acordo com Alcmeno Bastos, são as datas históricas, os nomes de ruas e estabelecimentos bem como de produtos ou técnicas utilizadas que permitem evocar a época narrada (2004, p. 87).

Até o momento, expus os elementos textuais que criam o efeito de historicidade. Passo agora a abordar as marcas de historicidade extratextuais. São elas: o reconhecimento do historiador por seus pares, pelas instituições de pesquisa e de ensino superior, e da opinião pública, a fama do historiador, ou melhor dizendo, o conhecimento prévio que se tem acerca dele e de sua produção anterior. Ora, o mesmo escrutínio pelo qual a história passou ao se constituir como disciplina e, logo, em etapa posterior, como ciência, se impõe a cada produção historiográfica, ainda que isso fique no campo do não dito.

Considerando a história uma prática social, um duplo reconhecimento – dos pares e do público – consagra o historiador (PROST, 2015, p. 15). A história presentifica-se na sociedade através de disciplina universitária, de livros e de grandes personagens, mas também “por um grupo de pessoas que se afirmam historiadores com o acordo de seus colegas e do público” (ibdem, p. 33).

Referências

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