OBRA DE JULES VERNE
Edmar Guirra dos Santos
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos – Opção: Literaturas de Língua Francesa)
Orientador: Professor Doutor Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina
JULES VERNE
Edmar Guirra dos Santos
Orientador: Professor Doutor Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras
Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos
requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas
(Estudos Literários Neolatinos – Opção: Literaturas de Língua Francesa)
Banca examinadora:
________________________________________________________________
Presidente, Professor Doutor Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina - UFRJ
________________________________________________________________
Professora Doutora Celina Maria Moreira de Mello - UFRJ
________________________________________________________________
Professora Doutora Rosa Maria de Carvalho Gens – UFRJ
________________________________________________________________
Professora Doutora Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold, Suplente - UFRJ
_______________________________________________________________
Professora Doutora Lúcia Teixeira de Siqueira e Oliveira, Suplente – UFF
Ao final de mais de quatro anos de trabalho, mesmo que seja difícil fazer uma lista
exaustiva de todas as pessoas que me ajudaram diretamente ou indiretamente nesta pesquisa,
gostaria de expressar os meus mais sinceros e cordiais agradecimentos ao Professor Pedro
Paulo Garcia Ferreira Catharina, não só pela orientação dessa dissertação, mas pelo incentivo,
preocupação, paciência e pela confiança em querer me acompanhar nessa etapa dos estudos
acadêmicos que, espero, seja seguido de novos estudos sob sua orientação.
Que seja igualmente agradecido à Professora Celina Maria Moreira de Mello por
despertar em mim o gosto pela literatura francesa, pelos ensinamentos e pelas indicações mais
do que precisas e enriquecedoras. Agradeço também as professoras Rosa Maria de Carvalho
Gens, Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold e Lúcia Teixeira de Siqueira e Oliveira por
aceitarem muito gentilmente fazer parte da banca examinadora desta dissertação.
Esse trabalho universitário pôde ser realizado graças a diversas ajudas, pontuais ou
regulares, que gostaria de destacar. Primeiramente, a ajuda financeira do CNPq que me
permitiu dedicação à pesquisa desde a época da iniciação científica.
A ajuda de Irineu Corrêa pelo tempo despendido nas pesquisas a materiais das
bibliotecas nacional da França e do Rio de Janeiro. Obrigado pela preciosa ajuda! Agradeço
ao Professor Dominique Maingueneau que aceitou me receber na Universidade Paris XII e
discutir meu trabalho. Os resultados desses encontros, que ultrapassaram o restrito quadro da
leitura da sua obra, me servirão, inclusive, em trabalhos futuros. Meus agradecimentos
também à Adriana e Alban, à Hélène e Didier que muito me ajudaram em terras francesas.
Jules Verne não teria desprezado, na minha opinião, a nova tecnologia que é a
Internet. Graças a esse novo meio de comunicação pude conhecer Carlos Patrício e Frederico
Jácome, caros amigos vernianos a quem endereço meus agradecimentos pela ajuda e
incentivo. Obrigado também ao verniano Alexandre Tarrieu por me abrir as portas de sua
(jv.gilead.org.il/forum) e o Portal Jules Verne de Frédéric Viron (www.fredericviron.com).
Agradeço também a todos os amigos brasileiros, franceses ou americanos e aos meus
familiares, pela presença, pela palavra amiga e estímulo, e por entenderem minha ausência em
alguns momentos.
Peço desculpas de antemão às pessoas que não citei, mas que contribuíram igualmente
Verne. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2010. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas - Opção: Literaturas de Língua Francesa. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ, 2010.
RESUMO
Verne. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2010. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas - Opção: Literaturas de Língua Francesa. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ, 2010.
RÉSUMÉ
SUMÁRIO
1. AS VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS DE JULES VERNE ... 1
2. RETRATOS ... 15
2.1 Retrato: interface literária ... 15
2.2 Retrato: interface pictural ... 29
2.3 Interseção entre as interfaces literária e pictural do retrato ... 39
3. A PESQUISA VERNIANA PARA A COMPOSIÇÃO DOS RETRATOS... 42
3.1 Intertexto e interdiscurso: o trabalho da citação e a questão documental ... 43
3.2 Das relações intertextuais com o magazine Le Tour du monde ... 57
3.3 Das relações interdiscursivas com as teorias de Lavater e Gall ... 78
3.4 Dos diálogos com Gobineau e Darwin ... 97
4. BRANCOS VERSUS SELVAGENS: AS ANÁLISES DOS RETRATOS ...113
4.1 O sistema descritivo e o retrato ...114
4.2 Cinq semaines en ballon: colonialismo justificado ...122
4.3 Les enfants du capitaine Grant: do bom selvagem ao racismo avant la lettre...131
4.4 Le Chancellor: regressão do homem ao estado bestial ...152
5. A CENOGRAFIA ENUNCIATIVA DOS ROMANCES ...173
5.1 O ethos do enunciador: a legitimação da cenografia enunciativa em Verne ...174
5.2 Magasin d’éducation et de récréation: a vitrine da editora Hetzel ...180
5.3 Do habitus e da perpetuação de ideias ...198
5.4 Os personagens e a legitimação discursiva ...201
6. CONCLUSÃO ...207
7. REFERÊNCIAS ...213
1 - AS VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS DE JULES VERNE
Jules Verne (1828-1905) é o autor mais traduzido no mundo, talvez o mais lido. Joëlle
Dusseau afirma na biografia do escritor que “pelo número de exemplares vendidos, Jules
Verne é o quarto autor no mundo, o primeiro francês e o campeão dos autores traduzidos
todos os anos”.1 No entanto, em 1893, Verne declara numa entrevista: “Le plus grand regret
de ma vie est que je n’ai jamais compté dans la littérature française”.2 De onde vem esse
paradoxo que parece confirmar a máxima francesa nul n’est prophète en son pays? Os
motivos para tais constatações são múltiplos.
A infância de Jules Verne em Nantes marca profundamente o autor das “Viagens
extraordinárias”. O próprio escritor o reconhece, no final de sua vida, nos seus “Souvenirs
d’enfance et de jeunesse”:
Et d’abord, ai-je toujours eu du goût pour les récits dans lesquels l’imagination se donne libre carrière? Oui, sans doute, et ma famille a tenu en grand honneur les lettres et les arts – d’où je conclus que l’atavisme entre pour une forte part dans mes instincts. Puis, il y a cette circonstance que je suis né à Nantes, où mon enfance s’est tout entière écoulée. Fils d’un père à demi-parisien et d’une mère tout à fait bretonne, j’ai vécu dans le mouvement maritime d’une grande ville de commerce, point de départ et d’arrivée de nombreux voyages au long cours.3
Para compreendermos as “Viagens extraordinárias” é fundamental saber como Jules
Verne se tornou escritor. Por mais decisivo que seja, o encontro entre Verne e Hetzel é
igualmente o resultado de um longo caminho pessoal e intelectual em que Verne sempre
manifestou seu desejo de tornar-se escritor. O itinerário verniano, de seu nascimento em
1 “[...] au nombre d’exemplaires vendus, Jules Verne est le quatrième auteur mondial, le premier français et le
champion des auteurs traduits chaque année”. In: DUSSEAU, Joëlle. Jules Verne. Paris: Perrin, 2005, p. 9.
2
Citado por Lucien Boia em: BOIA, Lucien. Jules Verne - les paradoxes d’un mythe. Paris: Les belles lettres, 2005, p. 11. A entrevista original e integral apareceu com o título “Jules Verne at home: his own account of his life and work”, in McClures Magazine, vol. 11, N° 2, jan. 1894. Traduzido do inglês por Sylvie Malbraneq, foi publicada no Magazine Littéraire, Nº 281, em outubro de 1990, e se encontra disponível em: http://jv.gilead.org.il/butcher/sherard.html Última consulta: 20/09/2008.
Nantes até sua instalação em Paris, mostra algumas incertezas e hesitações que marcaram seu
percurso antes de obter sucesso em 1860.4
Filho de Pierre Verne (1799-1881), procurador judicial em Nantes, e de Sophie Allotte
de la Fuÿe (1801-1887), de origem de nobre família de armadores e navegadores escoceses,
Jules Verne se juntava a mais um irmão e três irmãs para compor uma família católica
praticante. De 1833 a 1846, Verne e seu irmão Paul estiveram em período escolar, tendo
aprendido a ler com uma professora particular; em seguida Verne entra para a escola
Saint-Stanislas, parte para o seminário Saint-Donatien e, enfim, para o Lycée Royal, onde obteve
seu baccalauréat em filosofia e retórica.5 Depois desse exame, Verne aceita estudar Direito
para atender ao desejo de seu pai, que se oferece para pagar seus estudos.
Já em Paris, em 1847, cursando Direito, Jules Verne se mostra inclinado para o teatro
e escreve dois dramas românticos: Alexandre VI e Un drame sous Louis XV. Nesta mesma
época, participa de jantares semanais organizados pelos Onze-sans-femme, grupo de homens
solteiros composto por escritores e músicos.6
Em 1848, durante o período atribulado da Revolução, Verne, ainda inclinado para a
literatura e para o teatro, continua seus estudos de Direito, mesmo sem muita convicção. Em
1850, anuncia a seus pais que não deseja tornar-se advogado e se dedica à escrita de peças e
operetas com a colaboração de Aristide Hignard, seu vizinho. De 1851 a 1855, o escritor
ocupa o posto de secretário particular do diretor do Théâtre Lyrique, Jules Seveste. Neste
teatro, tem pela primeira vez encenada uma de suas peças: Les pailles rompues, escrita em
colaboração com Alexandre Dumas Filho, amigo de Verne na época, peça que não obteve
sucesso. Paralelamente ao emprego de secretário, Verne publica algumas novelas no periódico
Musée des Familles, dentre as quais Amérique du Sud, étude historique. Les Premiers Navires de la marine mexicaine (1851); La Science en famille. Un voyage en ballon (1851); Martin
4 As informações biográficas de que trataremos foram extraídas da biografia de Joëlle Dusseau, que citamos
acima, do livro Jules Verne - Une vie, une époque, une oeuvre, da mesma autora, ou ainda da biografia que Willian Butcher escreveu em 2006.
5
VIERNE, Simone. Jules Verne. Une vie, une époque, une oeuvre. Paris: Balland, 1986, p. 13.
Paz, L’Amérique du Sud, moeurs péruviennes (1852); Maître Zacharius ou l’horloger qui avait perdu son âme (1854); Un Hivernage dans les glaces (1855).
Em 1856 conhece Honorine Devianne, com quem se casaria um ano depois. Dessa
relação nasce seu único filho, Michel Verne. Em 1857, adentra no mundo da crítica de arte
participando do Salão para o qual redige oito artigos, publicados na Revue des beaux-arts.
Esses artigos são considerados por Butcher como o primeiro livro verniano, dada sua
extensão: 32.000 palavras.7 A divulgação recente desse episódio da carreira de Jules Verne é
particularmente fecunda para futuros estudos.
Em 1858, Jules Verne, voltado para a literatura, o teatro, as artes e a cultura, termina
uma opereta que Jacques Offenbach, diretor de Bouffes-Parisiens, aceita montar em fevereiro
de 1858. Monsieur de Chimpanzé coloca em cena um personagem na pele de um macaco. O
assunto da origem símia do homem estava em voga. Os trabalhos dos naturalistas seriam em
breve renovados pelas teorias de Darwin.8
De 1858 a 1861 Jules Verne faz algumas viagens com seu amigo Aristide Hignard:
Inglaterra, Escócia, Noruega. Em agosto de 1861, tenta voltar da Escandinávia para participar
do nascimento de seu primeiro e único filho, mas Honorine dá a luz a Michel sem a presença
de seu marido.
Nessa época, Baudelaire traduz para o francês textos do escritor Edgar Allan Poe.
Jules Verne, que não lê nenhuma língua estrangeira, fascina-se pelo universo estranho do
7
“Sem nenhum esforço aparente, ele publicou oito longos artigos relativos ao “Salon de 1857” resultando num total de surpreendentes 32.000 palavras. Levando em conta a extensão e, sobretudo, a unidade do tema, podemos legitimamente considerar esses estudos coletivamente como um livro. O Salon de 1857 representa, assim, o primeiro grande trabalho verniano em prosa terminado sem grandes esforços [...] O livro foi publicado sob a forma de artigos na Revue des beaux-arts: La tribune des artistes.” In: BUTCHER, William. Jules Verne. The
Definitive Biography. New York: Thunder’s Mouth Press, 2006, p. 129-130. A tradução é relativa à passagem
seguinte: “With no apparent effort he published eight long review articles of the 1857 Salon, an amazing total of 32,000 words. Given their scope and unity of theme, we should undoubtedly consider the articles collectively to be a book. The Salon 1857 thus constitutes Verne’s first completed prose endeavor of any length. […] Verne’s book appeared as individual articles in the Revue beaux-arts: Tribune des artistes […]”
8 Charles Darwin (1809-1882) só publicará A origem das espécies, com base nas teorias da seleção natural, um
escritor americano, a quem dedica um estudo, em 1862: Edgard Poe et ses oeuvres. Ele
começa seu texto da seguinte maneira:
Voici, mes chers lecteurs, un romancier américain de haute réputation; vous connaissez son nom, beaucoup sans doute, mais peu ses ouvrages. Permettez-moi donc de vous raconter l’homme et son oeuvre; ils occupent tous les deux une place importante dans l’histoire de l’imagination, car Poë a créé un genre à part, ne procédant que de lui-même, et dont il me paraît avoir emporté le secret; on peut le dire chef de l’École de l’étrange ; il a reculé les limites de l’impossible; il aura des imitateurs. Ceux-ci tenteront d’aller au-delà, d’exagérer sa manière; mais plus d’un croira le surpasser, qui ne l’égalera même pas.9
Tendo analisado o escritor e sua obra ao longo de quatro longos capítulos, Verne
desejou, alguns anos depois, escrever a continuação e o fim de um chef d’oeuvre da literatura
de Poe, As aventuras d’Arthur Gordon Pym (1838), objetivando rematar a obra do mestre da
literatura fantástica. Se existe um romance atípico entre as “Viagens extraordinárias” de Jules
Verne, este é Le sphynx des glaces (1897). Trata-se de um romance fantástico que nasceu da
proposta de continuação do romance de Poe. Em outra ocasião, pudemos analisar esta obra
com base no princípio da intertextualidade e constatamos que esta aventura verniana se
inscreve numa longa linha de romances bem sucedidos que permitiu que Verne dispusesse de
um suporte (escrito) a partir do qual pôde se legitimar e se lançar numa veia literária que não
constitui o essencial de sua obra.10 Na verdade, desde então, a escrita de Edgar Poe sempre
servirá de molde para a escrita verniana: as Histórias extraordinárias de Poe precedem as
Viagens extraordinárias de Jules Verne. Impregnado das narrativas fantásticas de Poe, Verne
pode construir as suas com o aval do seu futuro editor, Jules Hetzel. O encontro entre eles
acontece em 1862, graças a Alexandre Dumas ou Alexandre Dumas Filho.11 Graças a esse
encontro surgem as “Viagens extraordinárias” que levarão Verne a obter sucesso junto ao
público-leitor.
9 Esse artigo foi publicado no periódico Musée des Familles e se encontra disponível em:
http://jv.gilead.org.il/almasty/aepoe/ Última consuta : 12/03/2009.
10 GUIRRA, Edmar. “Da intertextualidade entre Jules Verne e Edgar Allan Poe” In. Anais do I Colóquio Vertentes do fantástico na literatura. São Paulo: Faculdade de Letras UNESP-Araraquara, 2009. Versão em
cd-rom ISSN: 2175-7933.
11
Depois de muitas decepções – literárias, artísticas, profissionais –, Jules Verne parece
alcançar seu objetivo: legitimar-se como escritor. Em 1862, ele apresenta a Hetzel o
manuscrito de um romance intitulado Voyage en l’air - une découverte de l’Afrique inconnue,
survolée par un ballon manoeuvrable. Escrito como um autêntico relato de viagem, o texto
leva Hetzel a pensar ter encontrado o escritor para seu futuro projeto pedagógico-editorial. O
editor aceita publicá-lo e a obra aparece em 1863 com o título Cinq semaines en ballon -
Voyage de découvertes en Afrique par trois anglais. Devido ao sucesso de vendas do
romance, um contrato é assinado e Jules Verne pode, finalmente, começar a viver da sua
literatura. Depois desse episódio, Verne é encorajado pelo editor a continuar escrevendo na
via da viagem imaginária, trazendo uma dimensão épica em que o extraordinário se apoie
sobre as descobertas da época. Isso resumirá a ambição que construirá as “Viagens
extraordinárias”.
No entanto, os objetivos de Hetzel não se restringiam somente em publicar este
romance de Jules Verne. Hetzel tinha o desejo de criar “uma biblioteca associando educação e
recreação”.12 Assim, cria, em março de 1864, com Jean Macé, o Magasin d’Éducation et de
Récréation, cujo objetivo era “constituir um ensino de família no verdadeiro sentido da
palavra, um ensino sério e atraente ao mesmo tempo, que agrade aos pais e seja proveitoso
para as crianças.”13 Verne é então convidado a se associar a este projeto lúdico-instrutivo
destinado, em geral, à leitura infanto-juvenil. Desta maneira, renova seu contrato com Hetzel
pelo qual fica incumbido de entregar ao editor três volumes por ano. Depois desse contrato,
Jules Verne publicará, em formato de folhetim e só depois em volume, diversos de seus
romances no Magasin d’Éducation et de Récréation, dentre os quais destacamos nesta
dissertação Les enfants du capitaine Grant (1867-1868), primeira viagem a um “mundo
primitivo” publicada na revista. Pode-se dizer que a vasta obra literária de Jules Verne foi
12 Cf. COMPÈRE, Daniel. Jules Verne. Parcours d’une oeuvre. Amiens: Encrage, 1996, p. 15.
13 “Constituer un enseignement de famille dans le vrai sens du mot, un enseignement sérieux et attrayant à la
fois, qui plaise aux parents et profite aux enfants.” MACÉ, Jean & STHAL, P.-J. Magasin d’Éducation et de
Récréation, Paris: Hetzel, Mar/1864, p. 1. Citaremos mais longamente informações editoriais sobre a revista e
quase inteiramente um trabalho de encomenda e que o Magasin servia de vitrine para que a
editora de Hetzel expusesse os romances de Jules Verne, antes de publicá-los em volume.
Efetivamente, com a revista, Hetzel deu a Verne a oportunidade do sucesso. Mas não
devemos, entretanto, reduzir a obra de Jules Verne a esse registro. As amizades e relações de
Hetzel no mercado editorial, público e político atestam isso. Através desses conhecimentos,
Jules Verne também publicará alguns romances na área destinada aos folhetins de diários
político-literários, notadamente em Le temps. É neste diário que encontramos o folhetim de Le
Chancellor (1875), primeiro de Verne a ser publicado no jornal, cuja história e análise
trazemos para integrar o corpus da pesquisa.
Em suma, se Jules Verne não obteve sucesso na sua carreira de juventude, Cinq
semaines en ballon será um divisor de águas. As viagens literárias do romancista, sobretudo
as seis primeiras, permitem-nos ver como o seu desejo de se tornar escritor se coaduna com o
projeto do seu editor, permitindo-lhe amadurecer o gênero a partir do qual escreverá. É
interessante verificar que até mesmo os títulos desses seis primeiros romances definem
claramente a futura “cosmogonia” das “Viagens extraordinárias”, para retomar a expressão de
Roland Barthes.14 Nós os apresentamos aqui em ordem de publicação pela editora Hetzel:
Cinq semaines en ballon - Voyage de découvertes en Afrique par trois anglais (1863); Voyage au centre de la Terre (1864); De la Terre à la Lune - Trajet direct en 97 heures et 20 minutes
(1865) ; Voyages et aventures du capitaine Hatteras. Les Anglais au pôle nord - Le Désert de
glace (1866); Les Enfants du capitaine Grant - Voyage autour du monde (1867-1868) ; e Vingt mille lieues sous les mers - Tour du monde sous-marin (1869-1870).
Esses primeiros romances nos permitem definir os dois primeiros eixos fundamentais
das “Viagens extraordinárias”: o espaço e o tempo, a geografia e a história, ambos marcados
pela ciência. Do âmago da Terra ao fundo submarino e aos continentes, por ar, mar ou terra,
passando pelos pólos e pela Lua, a ambição das “Viagens extraordinárias” se define: trata-se
14
de percorrer o espaço geográfico, descrever o planeta e interrogar o homem diante de um
mundo em evolução.
Assim, Jules Verne é editado e seus esforços são, finalmente, recompensados. Ele
deve esse novo status a Hetzel. Em 1867, Verne reconhece o papel que seu editor representou
na sua vida, despedindo-se e assinando uma das cartas que trocam entre si, dessa maneira:
“votre Verne, celui que vous avez inventé.”15
Nos primeiros romances de Jules Verne, a geografia constitui a pedra fundamental das
“Viagens extraordinárias.” Ela é o cimento do edifício que o autor construirá ao longo de mais
de quarenta anos. Muitos estudiosos de Verne afirmam que a geografia é para ele o que a
História foi para Alexandre Dumas. Certamente, este é um dos pontos originais da ficção
verniana. Claude Roy afirma que “O mundo tem seis continentes: a Europa, a África, a Ásia,
a América, a Austrália e Jules Verne.”16 A geografia se faz tão presente nos romances do
escritor que estudiosos aplicam, com frequência, o rótulo de “romances geográficos”,
defendendo, assim, não só uma originalidade para Verne, mas definindo uma espécie de
gênero para o qual o autor escrevia.
Investigando a fortuna crítica do autor, podemos dizer, em resumo, que a obra
verniana nasce do cruzamento de três gêneros, todos três pertencentes – para utilizar uma
terminologia ulterior – à paraliteratura. Trata-se de uma mistura que reúne vulgarização
científica, romance popular e literatura para crianças. Estes gêneros são frequentemente
caracterizados como gêneros bastardos e destinados a veicular mensagens não literárias. Os
escritores que os praticavam tinham pouca possibilidade de reivindicar sua excelência
literária, uma vez que teriam abandonado ideais estéticos na intenção de obter a
consideração de um vasto público.
15 DELLA RIVA, Piero Gondolo; DEHS, Volker & DUMAS, Olivier; Correspondance inédite de Jules Verne et de Pierre-Jules Hetzel (1863-1886). Genebra: Slatkine, 1999, p. 73.
Desde 1971, com a publicação de Jules Verne – une lecture politique, de Jean
Chesneaux (1922-2007), os esforços têm sido constantes para a “reabilitação” da obra do
escritor. Chesneaux propôs uma leitura evidenciando o caráter engajado da obra de Verne.
Desde então, o prestígio literário de Verne continuou aumentando, culminando, em 2005,
com as comemorações pelos cem anos da sua morte. Muitos estudos sobre a obra verniana
têm sido publicados e, com o relançamento de diversas de suas obras, corroboram a
tendência de considerar Jules Verne como um autor sério, multifacetado, possuidor de uma
obra original e instigante, criador de mistérios e enigmas.
No entanto, mesmo na segunda metade do século XIX, encontramos diversos artigos
ou notas, suficientemente elogiosos e publicados em vias reconhecidas. Depois do lançamento
e do sucesso imediato de Cinq semaines en ballon, em 1863, no mês de fevereiro do mesmo
ano, o jornal Le Temps congratula “um nome até agora desconhecido de que não temos que
predizer o sucesso porque esse sucesso já está feito”; o livro “é um resumo rápido e
interessante das descobertas feitas pelos mais célebres viajantes.”17 No ano seguinte, afirma:
“Verne é o criador de um gênero na nossa literatura.”18 Seria esse novo gênero o do romance
geográfico ou do romance científico? Diríamos, ao menos, que a geografia e a ciência foram
as fontes das quais Jules Verne usou e abusou para a criação de sua obra. Mais tarde, Thomas
Grimm – pseudônimo d’Amedée Escoffier – qualifica Verne no Le Petit Journal, em agosto
de 1875, como “o criador de um gênero novo em literatura, o ensino geográfico pela
ficção”.19
17 “Un nom jusqu’ici inconnu, dont nous n’avons pas à prédire le succès, car ce succès est déjà fait”; “ [...] est un
résumé rapide et intéressant des découvertes faites par les plus célèbres voyageurs”. Le Temps, le 17 février 1863. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k2214461 Última consulta: 23/10/2008.
18 “Verne est le créateur d’un genre de notre littérature.” Le Temps, le 19 décembre 1864. Disponível em:
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k222240d Última consulta: 23/10/2008.
19
Como o romance histórico, o romance geográfico, na segunda metade do século XIX,
desfruta de um grande prestígio.20 O desenvolvimento da escolaridade, na França, e retomada
das viagens extracontinentais que marcaram a segunda onda da colonização permitiram
aguçar uma maior curiosidade sobre partes do planeta ainda pouco conhecidas, ou mesmo
desconhecidas. Além disso, desde o início, a dimensão científica das “Viagens
extraordinárias” é colocada em evidência. Hetzel escreve em 1867 que seu “objetivo é, de
fato, resumir todos os conhecimentos [...] e refazer, na forma atraente e pitoresca que lhe é
própria, a história do universo.”21
Sublinhando o caráter didático da obra de Verne, Émile Zola, num curto texto
publicado em 12 de maio de 1866 em l’Événement, deixa transparecer a satisfação de ver as
crianças da França “em boas mãos”:
O senhor Jules Verne é o artista da ciência. Ele coloca toda sua imaginação a serviço de deduções matemáticas, pega as teorias e extrai delas fatos verossímeis, senão práticos. Não é o pesadelo de Edgar Poe, é uma imaginação amável e instrutiva, são relatos escritos para crianças e pessoas do mundo, cheios de interesse dramático e de ensinamentos úteis. [...] É uma excelente ideia dramatizar a ciência para torná-la acessível aos neófitos.22
Em razão do caráter fantástico e visionário dos seus romances, Jules Verne tem sua
obra recomendada e renomeada “viagens imaginárias” pelo escritor e crítico Théophile
Gautier. Em 1849, o poeta de Albertus e romancista do Capitaine Fracasse e Mademoiselle
de Maupin conheceu Jules Verne e, assim como Zola, foi um dos importantes críticos
20 Cf. CHARTIER, Roger & MARTIN, Henri-Jean. Histoire de l’édition française; le temps des éditeurs. Paris :
Fayard, 1985, p. 190.
21 “Son but est, en effet, de résumer toutes les connaissances [...] et de refaire, sous la forme attrayante et
pittoresque qui lui est propre, l’histoire de l’univers.” MACÉ, Jean & STHAL, P.-J “Avertissement de l’éditeur” In: Magasin d’éducation et de récréation. Tome II, 1867, p. 1-2. Retomaremos integralmente essa citação no quinto capítulo desta dissertação.
22 « M. Jules Verne est le fantaisiste de la science. Il met toute son imagination au service de déductions
literários que dedicou uma crítica às “Viagens extraordinárias”. Num artigo publicado no
Moniteur Universel, em Julho de 1886, Gautier afirma:
O melhor a se fazer em tal situação é fechar tudo, persianas, venezianas e cortinas, estender-se numa poltrona de moleskine, enrolado num albornoz argelino, e ler à meia-luz, à qual o olho se adapta rapidamente, algum livro agradável e refrescante, as viagens imaginárias do senhor Jules Verne, por exemplo, cujos títulos, apenas, já fazem correr um leve frisson sobre a pele:
Les anglais au Pôle Nord; Le désert de glace; Cinq semaines en ballon; Voyage au centre de la Terre; De la Terre à la lune. Eles oferecem a mais
rigorosa possibilidade científica de ocorrer. A quimera é, aqui, montada e guiada por um espírito matemático. 23
Na época da morte de Jules Verne, em 1905, o jornal Le Temps publica que Verne
foi um dos apóstolos mais fervorosos da ciência. Seus romances guardarão o valor mais alto, aquele de ter adivinhado todos os últimos e mais impressionantes progressos da ciência moderna. Previstas, estabelecidas em equações e em fórmulas, as invenções que serão a glória do século que acabou de findar e desse que começa.24
Como podemos constatar, para vários críticos, Jules Verne uniu, no gênero romanesco,
o extraordinário da ciência e a geografia. O pesquisador verniano Olivier Renaud integra-se a
esse coro: “É um mago, e sua magia é a ciência. Tínhamos antes dele o romance histórico, o
romance analítico, o romance íntimo, o romance de capa e espada – ele cria o romance
eletro-geográfico. Chamavam-no, outro dia, de Joanne-Hoffmann”25, associação do nome do criador dos guias de viagem na França (Les Guides Joanne), Adolphe Joanne, com aquele do escritor,
compositor e pintor alemão Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, mestre da narrativa
fantástica.
23
“Ce qu’il y a de mieux à faire en pareil cas, c’est de fermer tout, persiennes, stores, rideaux, de s’allonger sur un fauteuil de moleskine, enveloppé d’un burnous algérien, et de lire dans la demi-obscurité à laquelle l’oeil se fait bien vite, quelque livre agréable et rafraîchissant, les voyages imaginaires de M. Jules Verne par exemple, dont les titres seuls vous font courir sur la peau un léger frisson: Les anglais au Pôle Nord ; Le désert de glace ;
Cinq semaines en ballon ; Voyage au centre de la Terre ; De la Terre à la lune. [...] ils offrent la plus rigoureuse
possibilité scientifique d’arriver. La chimère est ici chevauchée et dirigée par un esprit mathématique.” Texto de Théophile Gautier publicado no Moniteur Universel, nº 197, Julho/1886, apud TOUTTAIN, Pierre-André (dir.).
Jules Verne. Paris : nº 25, L’Herne, 1974, p. 85.
24 “[...] un des apôtres de la science les plus fervents. Ces ouvrages garderont une valeur plus haute, celle d’avoir
déviné tous les derniers et le plus saisissants progrès de la science moderne. On trouve prévues, fixées en équations et en formules, les inventions qui seront la gloire du siècle qui vient de finir et de celui qui commence.” Le Temps, le 26 mars 1905. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/ bpt6k238197c Última consulta: 24/10/2008.
25 “C’est un magicien, et sa magie à lui, c’est la science. Nous avions avant lui le roman historique, le roman
Para a presente dissertação, acreditamos que as informações acima, biográficas ou
contextuais, mostram a complexidade em que se inscrevem as “Viagens” de Jules Verne. Ao
mesmo tempo, são informações que elucidam e nos ajudam a reconstruir o universo verniano,
que pretendemos estudar.
Em aspectos gerais, nos três romances que citamos e que compõem o foco da presente
pesquisa – Cinq semaines en ballon, Les enfants du capitaine Grant e Le Chancellor –, Jules
Verne se vale do tema de viagem para estruturar as diversas tramas. Este aspecto, que agrupa
os romances num conjunto, evidencia o caráter geográfico das obras, visto termos o norte da
África como cenário para Cinq semaines en ballon; o Chile, a Austrália e a Nova Zelândia
como cenário para Les enfants du capitaine Grant e o Oceano Atlântico para Le Chancellor.
Estas “Viagens extraordinárias” servem como pretexto para que Jules Verne apresente aos
jovens leitores europeus partes do globo terrestre ainda pouco conhecidas, salientando não só
sua geografia, mas também seu relevo, sua fauna e flora, seus habitantes, bem como seus
costumes.
As viagens interrogam também os mistérios que dizem respeito ao homem e sua
evolução, numa época em que diversas teorias surgiam para uma possível explicação de suas
origens, das quais se destacam aquela do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882),
exposta no célebre estudo A origem das espécies, de 1859, e aquela de Joseph Arthur
Gobineau (1816-1882), diplomata e escritor francês que escreveu o Essai sur l’inégalité des
races humaines, em 1853-1855. Verne, com seu conhecimento enciclopédico, vale-se de uma
prática corrente no século XIX que consistia em descrever os homens a partir de sua aparência
física e, mais particularmente, analisando-lhes os traços faciais. Estes parâmetros eram
provenientes da Fisiognomonia – ciência elaborada pelo filósofo e teólogo protestante suíço
fisionomia – e pela Frenologia – estudo das características e das funções intelectuais do
homem através da conformação externa do crânio, elaborado pelo médico alemão Franz Josef
Gall (1758-1828). Assim, Jules Verne apresenta aos leitores os povos que habitam nestes
“mundos primitivos”, ou os que de lá vieram, através de descrições baseadas em
conhecimentos “científicos”, que realizará ao longo dos romances.
Definimos como foco da pesquisa empreendida o cotejo das descrições
prosopográficas dos romances mencionados, visando estabelecer uma linha de coerência com
o ethos do enunciador e a cenografia enunciativa na qual se inscreve, tendo como base as
teorias de análise do discurso propostas por Dominique Maingueneau, a conceituação do
Descritivo de Philippe Hamon e o conceito de habitus, tal como é elaborado pelo sociólogo
Pierre Bourdieu.
Para problematizar, tendo como ponto de partida a recorrência de descrições
prosopográficas dos “selvagens”, nos romances abordados, procuramos identificar a função
de tais imagens dentro destas narrativas, e saber em que medida, para criar seus personagens,
Jules Verne dialoga com os discursos científicos ou pseudocientíficos de sua época e relatos
de viajantes, onde se incluem imagens pictóricas. Buscamos entender como o autor se vale
desses discursos para corroborar o fortalecimento de um habitus dominante e, por
conseguinte, legitimar sua cenografia enunciativa. Tendo como ponto de partida o romance
Cinq semaines en ballon, primeiro romance verniano que não conheceu nenhuma via de
publicação folhetinesca, um outro problema que investigamos nesta dissertação, e o que
justifica a escolha dos romances do corpus, consiste em verificar se o ethos do enunciador dos
romances se reconfiguraria ao associar-se ao projeto editorial do Magasin d’éducation et de
récréation ou do diário Le Temps.
Com base no projeto da editora de Hetzel – divertir e instruir –, pode-se inferir que os
retratos literários nestas obras de Jules Verne exerceriam a função de apresentar os habitantes
europeu. A maneira pela qual esses personagens são descritos indicar-nos-ia que o autor
efetuou e incorporou leituras de Lavater, Gall e Darwin, por exemplo, e teve igualmente como
fonte bibliográfica e iconográfica certos relatos de viajantes do século XVIII e XIX,
elaborando, portanto, um ethos enunciativo responsável pela perpetuação de um habitus
dominante e legitimando seu discurso na cena enunciativa em que se insere. No que tange
também a esse tipo de ethos enunciativo, aventa-se que ele estaria presente no primeiro
romance de Jules Verne (Cinq semaines en ballon) e se modificaria significativamente
quando associado ao projeto editorial da revista ou do jornal sendo, portanto, um instrumento
de reiteração de pressupostos e crenças coletivas.
No segundo capítulo dessa dissertação, intitulado “Retratos”, definimos as interfaces
literária e pictórica do retrato, bem como estabelecemos uma breve interseção entre os
elementos que podem aproximar uma da outra. Nesse capítulo, apresentamos a pesquisa de
base que nos ajudou a compreender, sobretudo, a construção e a função do nosso objeto de
pesquisa.
O terceiro capítulo, intitulado “A pesquisa verniana para a composição dos retratos”, é
dividido em sub-itens em que discutimos a presença do discurso científico e histórico na obra
de Jules Verne, em especial nos retratos dos romances do corpus que analisamos. Nesse
capítulo, mostramos que Jules Verne se serviu da revista Le Tour du monde como fonte
primária para a construção dos retratos e, ainda, que mantém diálogo interdiscursivo com a
ciência de Lavater e Gall. Visto que alguns dados das correntes naturalistas, da crescente
noção de “racismo” e da literatura de Jules Verne mantêm pontos em comum, aproximamos
usando as noções de relações transtextuais de Gérard Genette e de intertexto e interdiscurso,
renovadas pela Análise do Discurso por Dominique Maingueneau e Patrick Charaudeau.
No quarto capítulo, intitulado “Brancos versus selvagens: a análise dos retratos”,
analisamos contrastivamente os retratos dos personagens brancos e selvagens dos romances
do corpus prevendo que o contraste entre os retratos, para cada romance, converge para uma
noção geral. Aqui, abordamos os retratos à luz da teoria do descritivo de Philippe Hamon e,
eventualmente, das noções propostas por Adam & Petitjean.
No quinto e último capítulo, abordamos sócio-discursivamente o corpus trabalhado.
Usando a noção de ethos, do ponto de vista da Análise do Discurso de Maingueneau, e sua
função na cenografia enunciativa em que os romances se inscrevem, perfilamos os
enunciadores dos romances, acreditando que estes estão ligados a visões de mundo bem
definidas, em outras palavras, a um habitus que se desejava perpetuar através da leitura.
Nesta dissertação, trabalharemos com as edições princeps dos romances. Publicadas
em 1975 pela editora Michel de l’Ormeraie, as edições compostas pelos textos integrais de
Jules Verne reconstituem a forma material das edições originais publicadas no século XIX por
Jules Hetzel. Quando se fizer necessário ao longo da dissertação, lançaremos mão das
ilustrações e das legendas originais que as acompanham. Estas podem ser consultadas no site
de referência jv.gilead.org.il/forum, bem como as versões originais dos romances.
Em se tratando das citações que se encontram no presente trabalho, preservamos, para
o caso dos textos de Jules Verne e os pequenos contos do Magasin d’éducation et récréation,
o original, em francês. Qualquer outro tipo de citação, não existindo uma versão para o
2 - RETRATOS
“Seres de papel”26. Tal é a designação que Roland Barthes dá aos personagens. Para
este autor, eles se constituem como uma categoria narrativa, elementos textuais que imitam e
representam as pessoas.
O escritor, para identificar seus personagens, dá-lhes traços de humanidade, fator
indispensável à verossimilhança. Com frequência, essa identidade e esse traço de humanidade
são conferidos aos personagens através da descrição de um “corpo” que é dotado de
movimento, de um rosto, de qualidades físicas e também morais. Esses traços, que constituem
o retrato de um personagem, visam dar vida, no universo da escrita, a um ser fictício que terá
um papel de maior ou menor relevância em um texto.
Como toda noção ligada à criação literária, o retrato suscita algumas questões teóricas
relativas à composição e à elaboração do personagem, à função que ele ocupa na economia
geral do texto e às concepções de mundo que o autor apresenta e que deseja transmitir através
dele. Porém, para inscrevê-lo em condições específicas, abordaremos suas concepções tal
como foram descritas desde o período clássico, quando funcionava como gênero - usando
uma terminologia ulterior-, até o século XIX, em que aparecerá como figura de pensamento
no interior de uma trama.
2.1 -
Interface literária
A Antiguidade já conhecia o retrato literário cujos exemplos mais célebres estão em
Os caracteres de Teofrasto (372 a.C. - 287 a.C.), traduzidos do grego para a língua francesa
em 1688pelo ensaísta e moralista francês Jean de La Bruyère. Nesta obra, Teofrasto tinha o
projeto de tratar de todas as virtudes e de todos os defeitos humanos. Afirmava: “[...]
detenho-me sodetenho-mente na ciência que descreve os costudetenho-mes, que examina os hodetenho-mens e que revela sua
26
personalidade”27. Em sua obra, Teofrasto visava caracterizar um tipo – como por exemplo,
um dissimulado, um insolente, um covarde, um estúpido - através de seus comportamentos
em diferentes situações. Para esboçar o retrato de um homem dissimulado, por exemplo,
afirma:
A dissimulação não se deixa bem definir; se nos contentarmos em fazer dela uma simples descrição, podemos dizer que é certa arte de compor as palavras e as ações com uma má finalidade. Um homem dissimulado se comporta dessa maneira; ele aborda seus inimigos, fala com eles e os faz crer desse modo que ele não os odeia; diante deles, elogia abertamente aqueles para os quais prepara secretos embustes.28
Apesar de sua importância para a tradição do retrato em literatura, os retratos contidos
em Os Caracteres não constituem um sentido moral como em uma fábula – são somente
evocações de cenas contínuas que salientam os traços mais característicos de um tipo humano.
Estes retratos mostram um tipo, através de suas palavras, suas reações, seus atos mais
significativos em apresentação dinâmica, ressaltando o que é particular num fenômeno mais
ou menos geral. Por outro lado, em As vidas dos homens ilustres, escrito alguns séculos
depois dos Caracteres, Plutarco (46-120 dC.) emprega o mesmo procedimento, porém
aplicado à caracterização de um indivíduo, de uma personalidade em particular.
Conscientemente, Plutarco renunciou à apresentação exaustiva do retratado para evocar
gestos, palavras e detalhes mais significativos que lhe permitiriam definir aquilo que constitui
a verdadeira natureza da pessoa representada. Seguindo o método de traçar o retrato de um
grego e em seguida o de um romano, a fim de compará-los, declara:
Não escrevo histórias, mas vidas; aliás, não é sempre nas ações mais magníficas que se mostram mais as virtudes ou os vícios dos homens. Um problema cotidiano, uma palavra, uma brincadeira dão melhor a conhecer o caráter do homem do que batalhas sangrentas e ações memoráveis. Os pintores extraem a semelhança de seus retratos nos olhos e nos traços do rosto, onde o natural e os modos aparecem mais sensivelmente:
27
«[...] je me renferme seulement dans cette science qui décrit les moeurs, qui examine les hommes et qui développe leurs caractères.» THÉOPHRASTE. Les Caractères de Théophraste. Traduits du grec. Paris : Estienne Michallet, 1688, p. 3. Disponível em :
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k105077m.r=Th%C3%A9ophraste.langEN Última consulta: 20/03/2009.
28 «La dissimulation n’est pas laissée à bien définir; si l’on se contente d’en faire une simple description, l’on
eles tratam bem menos outras partes do corpo. Que me seja assim também permitido penetrar nos recônditos mais secretos da alma, a fim de extrair os traços mais marcantes da personalidade e de pintar, de acordo com esses indícios, a vida desses dois grandes homens, deixando para outros o detalhe dos combates e das ações mais brilhantes29.
Os filósofos e historiadores da Antiguidade, portanto, reconheciam a representação
como a função primeira do retrato. Contudo, a arte do retrato literário evoluiu através dos
séculos e é a esse título que a utilização do verbo pintar, na explicação de Plutarco, não é
gratuita. “Pintar um personagem”, que nos remete à pintura, revela-se, assim, através da
qualificação do gênero da pintura. Daniel Bergez em seu livro Littérature et peinture30
destaca que o surgimento da noção de indivíduo, favorecido pelo espírito renascentista, época
em que o retrato pictural conhece um sucesso sem precedentes, poderia ter ajudado o
desenvolvimento da arte literária do retrato.31 No entanto, para que o retrato literário ganhasse
impulso, foi necessário aguardar os meados do século XVII, quando começou a se definir
como uma “arte mundana feita de inteligência e sofisticação estilística.”32 Graças à ação
social inovadora da Préciosité, movimento cultural e literário do século XVII, marcada pelas
obras de Madeleine de Scudéry (1607-1701) que reunia em seus Salões os hommes des
Lettres, o retrato foi transformado em “divertimento da sociedade” e seu escritor em um
historiador de seu tempo33. Na época desses Salões, o retrato literário retomava o estatuto
genérico difundido por Plutarco e coadunava-se às regras estéticas do retrato pictural, isto é,
descrevia fielmente o indivíduo (modelo) a fim de distingui-lo como um tipo à parte. No caso
de Madeleine de Scudéry, que transpunha o que assistia nos Salões para suas obras, essa
29« Je n’écris pas des histoires, mais des vies; d’ailleurs ce n’est pas toujours dans les actions les plus éclatantes
que se montrent davantage les vertus et les vices des hommes. Une question ordinaire, une parole, un badinage, font souvent mieux connaître le caractère d’un homme que des batailles sanglantes et des actions mémorables. Les peintres prennent la ressemblance de leurs portraits dans les yeux et les traits du visage, où le naturel et les moeurs éclatent plus sensiblement : ils soignent beaucoup moins les autres parties du corps. Qu’il me soit de même permis de pénétrer dans les plus secrets réplis de l’âme, afin d’y saisir les traits les plus marqués du caractère, et de peindre d’après ces signes la vie de ces deux grands hommes en laissant à d’autres le détail des combats et des actions les plus éclatantes. » PLUTARQUE. Les vies des hommes illustres. T.II. Trad. Jacques Amyot ; sous la resp. de Gérard Walter. Paris: Gallimard, 1951, p. 299.
30
Cf. BERGEZ, Daniel. Littérature et peinture. Paris: Armand Colin, 2004, p. 87.
31 Mais adiante trataremos de alguns critérios que permitem a inserção de uma obra no gênero pictural retrato e
dos dados relevantes para essa discussão, que podem aproximar o retrato literário da sua interface pictórica.
32 BERGEZ, 2004, p. 87. 33
fidelidade descritiva era garantida por uma descrição de nuanças anatômicas, como vemos no
retrato de Cléomire em Le Grand Cyrus:
Cléomire é grande e bem feita: todos os traços do seu rosto são admiráveis; não se pode exprimir a delicadeza da sua tez; a majestade de toda sua pessoa é digna de admiração, sai dos seus olhos um brilho indescritível que imprime respeito na alma de todos aqueles que a olham; para mim, confesso que nunca pude me aproximar de Cléomire sem sentir no coração um certo temor respeitoso que me obrigou a pensar mais em mim, estando perto dela, do que em nenhum outro lugar do mundo onde eu já tenha estado. Os olhos de Cléomire são tão admiravelmente belos que nunca se pôde representá-los bem. [...] Sua fisionomia é a mais bela e a mais nobre que jamais vi; e deixa transparecer uma tranquilidade no seu rosto que permite ver claramente qual é a de sua alma. Enfim, se se quisesse dar um corpo à Castidade para ser adorada por toda a terra, eu gostaria de representar Cléomire; se se quisesse dar um outro à Glória para ser amada por todo mundo, gostaria ainda de fazer sua pintura; e se se desse um à Virtude, eu gostaria também de representá-la.34
Esse retrato tinha a função de evidenciar os traços físicos e morais da personagem,
diferentemente do que vemos nos Caractères de La Bruyère (1645-1696), cujos retratos
literários operavam-se por camadas de descrições sucessivas que são somente frases distintas
que descrevem atemporalmente os traços de um arquétipo.
No prefácio dos Caractères, La Bruyère descreve suas intenções para com o público:
Restituo ao público o que ele me cedeu: tomei dele emprestado a matéria desta obra; é justo que, tendo concluído com toda atenção pela verdade de que sou capaz e que ele merece de mim, eu lhe retribua. Ele pode olhar à vontade esse retrato que faço dele segundo sua natureza e, se ele reconhecer em si alguns dos defeitos em que toco, corrigir-se.35
34
« Cléomire est grande et bien faite : tous les traits de son visage sont admirables ; la délicatesse de son teint ne se peut exprimer ; la majesté de toute sa personne est digne d’admiration, et il sort je ne sais quel éclat de ses yeux qui imprime le respect dans l’âme de tous ceux qui la regardent ; pour moi, je vous avoue que je n’ai jamais pu approcher Cléomire, sans sentir dans mon coeur je ne sais quelle crainte respectueuse qui m’a obligé de songer plus à moi, étant auprès d’elle, qu’en nul autre lieu du monde où j’aie jamais été. Les yeux de Cléomire sont si admirablement beaux, qu’on ne les ai jamais pu bien représenter. [...] Sa physionomie est la plus belle et la plus noble que je vis jamais, et il paraît une tranquilité sur son visage qui fait voir clairement quelle est celle de son âme. Enfin, si on voulait donner un corps à la Chasteté pour la faire adorer par toute la terre, je voudrais représenter Cléomire ; si on en voulait donner un à la Gloire pour la faire aimer par tout le monde, je voudrais encore faire sa peinture ; et si l’on en donnait un à la Vertu, je voudrais aussi la représenter. » SCUDÉRY, Madeleine apud COUSIN, Victor. La société française au XVIIe siècle d’après Le Grand Cyrus de Mlle de Scudéry. Paris : Didier, 1858, p. 277-278. Disponível em :
httpgallica.bnf.frark12148bpt6k2014489.r=%22le+grand+cyrus%22.langPT Última consulta: 02/10/2009.
35 « Je rends au public ce qu’il m’a prêté: j’ai emprunté de lui la matière de cet ouvrage ; il est juste que l’ayant
Notamos que os Caractères de La Bruyère, publicados no final do século XVII,
seguem nitidamente objetivos moralistas e pedagógicos, oferecendo uma visão panorâmica da
sociedade de sua época. La Bruyère, como um emulador de Teofrasto, mostra-se impregnado
do seu método e princípio minuciosos em realizar recortes na coletividade dos homens.
Assim, para um “homem de mérito” ele esboça:
Um homem de mérito, que ocupa esse lugar, nunca é importunado por sua vaidade, ele se incomoda mais pelo lugar de destaque que não ocupa, e do qual acredita ser digno, do que pelo lugar que ele ocupa: mais capaz de apreensão do que de orgulho ou de desprezo pelos outros, ele só se importa consigo mesmo.36
Embora sejam contemporâneos, La Bruyère não é, na composição dos seus retratos,
um anatomista como Madeleine de Scudéry; apresenta-se, sobretudo, guiado pelos princípios
da moralidade pública.
A noção de retrato literário continuou a adquirir outras nuanças a partir da intervenção
de críticos, como por exemplo, Charles Augustin Sainte-Beuve (1804-1869) com seus
Portraits Littéraires, Portraits contemporains e Portraits de femmes. Com estes estudos
críticos, publicados a partir de 1844, Sainte-Beuve inaugura o retrato enquanto crítica
literária. Ele se auto-definia desse modo: “Comparo-me algumas vezes a um gravador (a mais
triste das especialidades dos artistas) que passa seus dias diante da prancha de cobre, que se
esforça para deixar mais exata e mais fiel: assim faço eu com essas imagens literárias que se
sucedem”.37 Seu método era o de biografar personalidades da literatura, visando “compor uma
galeria um pouco irregular, porém completa, própria a dar uma ideia dinâmica da poesia e da
literatura contemporânea”.38 Ao longo dos oitocentos artigos que constituem a obra, ele nos
36
« Un homme de mérite, et qui est en place, n’est jamais incommodé par sa vanité, il s’étourdit moins du poste qu’il occupe, qu’il n’est humilié par un plus grand qu’il ne remplit pas, et dont il se croit digne : plus capable d’inquiétude que de fierté ou de mépris pour les autres, il ne pèse qu’à soi-même. » LA BRUYÈRE, 1998, p. 160.
37
« Je me compare quelquefois à un graveur (le plus triste des métiers de l’artiste) qui passe ses journées devant la planche de cuivre qu’il s’applique à rendre plus exacte et plus fidèle : ainsi fais-je pour ces images littéraires qui se succèdent ». SAINTE-BEUVE, Charles Augustin. Oeuvres Complètes. T.1. Paris : Galllimard, 1956, p. 647.
38
apresenta, em textos curtos, cerca de trezentos retratos de autores diversos. Assim fazendo,
efetua ao mesmo tempo uma pintura histórica e social da época.
Segundo o modelo da biografia, assim como o praticava Sainte-Beuve, Jules Verne
também se aplicou em escrever um retrato. Seu modelo foi o compositor e dramaturgo francês
Victor Massé (1822-1884). O artigo, que apareceu com o título de Portraits d’artistes –
XVIII, foi publicado na Revue des Beaux-Arts, vol. 8, 6a tiragem, nas páginas 115 e 116, em 15 de março de 1857. O texto, encontrado somente em 2006 por William Butcher, especialista
na obra de Jules Verne, permaneceu inédito até o ano de 2008 quando foi publicado em Jules
Verne - Salon de 1857.39 Neste livro, figuram também os sete artigos de crítica de arte escritos
por Verne, na idade de vinte e nove anos.
No artigo destinado ao compositor bretão, Jules Verne afirma: “Estas poucas linhas
não têm a pretensão de apreciar a fundo seu talento de compositor; escrevo mais uma
biografia do que uma crítica; dedico-me mais ao homem do que ao artista”.40 No entanto,
Jules Verne apresenta a carreira de Victor Massé, ressaltando o sucesso de suas operetas
cômicas e exaltando suas qualidades de compositor.
No século XIX, o retrato encontrará seu verdadeiro “espaço” no romance, gênero no
qual representará não somente personalidades da vida social, mas também seres fictícios.
Daniel Bergez observa que é com Honoré de Balzac que a estética, a técnica e mesmo a
ideologia do retrato vão se fixar de modo durável. A partir da posição de onisciência que o
narrador ocupa em relação ao personagem, este é situado num conjunto de tipos, o que
permite inscrever sua singularidade numa generalidade inteligível. Bergez salienta que, no
caso dos retratos balzaquianos, o efeito de coerência é assegurado por duas grandes
determinações: a fisiognomonia, que estabelece um sistema de correspondência entre o
caráter do personagem e seu aspecto físico; e a relação de implicação recíproca entre o
39 BUTCHER, William. Jules Verne – Salon de 1857. Paris : Acadien, 2008, p. 30-35
40« Ces quelques lignes n’ont pas la prétention d’apprécier à fond son talent de compositeur; je fais plutôt de la
personagem e o meio em que ele vive; um bom exemplo dessa técnica está na descrição da
Maison Vauquer e de seus pensionistas, no início de Le père Goriot41. Ambas as
determinações, somadas ainda à frenologia, ciência que tenta explicar o caráter do indivíduo
através das conformações do crânio, estarão igualmente presentes nos retratos descritos na
obra de Jules Verne.
No percurso feito acima, nota-se que, desde meados do século XVII, o retrato já
apresentava um enfraquecimento no que diz respeito ao seu caráter “genérico”, como o que se
apresenta em Plutarco, por exemplo. Paulatinamente, constitui-se sobretudo como uma figura
de pensamento situada no interior de uma descrição.
Édouard Pommier, em seu livro Théories du Portrait42, elucida-nos a respeito da
figura retrato, buscando definições nos dicionários que, segundo o autor, começam a
multiplicar-se no século XVII. Pommier, retomando Edmond Hugnet, chama a atenção para o
uso do verbo portraire, que tem o sentido de traçar e desenhar:
É o traço que se desenha para formar o contorno de alguma coisa; desse sentido geral deriva aquele de “representar”, “pintar”; o substantivo retrato possui os sentidos, que se sobrepõem de alguma forma, de traçado e figura de geometria, de forma, de figura, plano e disposição, de plano e projeto, de imagem e representação, de imagem como semelhança43.
Detendo-se ainda ao século XVII, Pommier menciona que houve uma especialização
definitiva do termo, que se fixou pelo substantivo sobre a representação da figura humana.
Este fenômeno foi também observado na Espanha onde a palavra retrato era definida como “a
imagem imitada de uma personagem”44, e na Itália, onde rittrato era “a figura extraída do
natural”45.
41 Cf. BERGEZ, 2006, p. 88.
42
POMMIER, Édouard. Théories du portrait. De la Renaissance aux Lumières. Paris: Gallimard-NRF, 1998, p. 15.
43 «C’est le trait qu’on tire pour former le contour de quelque chose ; de ce sens général dérive celui de
représenter, peindre ; le substantif portrait a les sens, qui se superposent en quelque sorte, de tracé et figure de géométrie, de forme, figure, plan et disposition, de plan et projet, d’image et représentation, d’image comme ressemblance.» HUGNET, Edmond. Dictionnaire de la langue française du XVIe siècle, Paris, 1965, p. 88-89 apud POMMIER, 1998, p. 15.
44
POMMIER, 1998, p. 16.
Na França, constata-se o mesmo tratamento. O dicionário de André Félibien, cuja
primeira edição data de 1676, parte também do verbo portraire:
O verbo portraire é uma palavra geral que se estende a tudo o que se faz quando se deseja obter a semelhança de alguma coisa. Entretanto, não se emprega indiferentemente a qualquer tipo de assunto. Diz-se o retrato de um homem, ou de uma mulher, mas não se diz o retrato de um cavalo, de uma casa ou de uma árvore.46
Pommier observa que o retrato é, desde então, e definitivamente, reservado à imagem
do homem representado tal como é, pois os dicionários que aparecerão vão sancionar a opção
de Félibien, a começar, em 1680, por aquele de Richelet, que privilegia somente o gênero
pictural: “Retrato. Esta palavra se diz dos homens somente e falando-se de pintura. É tudo o
que representa uma pessoa segundo sua natureza com cores”.47 No Dictionnaire Universel, de
Antoine Furétière, de 1690, temos aproximadamente a mesma definição para o retrato:
“representação feita de uma pessoa tal como ela é ao natural”.48 Enfim, a Academia Francesa,
no seu primeiro dicionário, em 1694, ratifica o uso estabelecido e diferencia o retrato pictural
do retrato literário, dando ênfase à interface pictórica, visto ser a primeira entrada: “Imagem,
semelhança de uma pessoa que tenha existido, através do pincel, do buril, do lápis etc.”49
Numa segunda entrada, define o retrato literário como se derivasse do pictórico: “Retrato
significa também a descrição que se faz de uma pessoa, tanto do corpo como do espírito.
Diz-se também da descrição de todo gênero de coisas.”50 Não se deve perder de vista que o retrato
46«Le mot portraire est un mot général qui s’étend à tout ce qu’on fait lorsqu’on veut tirer la ressemblance de
quelque chose; néanmoins on ne l’emploie pas indifférement à toutes sortes de sujets. On dit le portrait d’un homme, ou d’une femme, mais on ne dit pas le portrait d’un cheval, d’une maison ou d’un arbre». FÉLIBIEN, André. Des principes de l’Architecture, de la Sculpture, de la peinture et des autres arts qui en dépendent. Avec
un dictionnaire des termes propres à chacun de ses arts. Paris: [s.éd.], 1676, p. 721-722. Disponível em
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k856621 (Última consulta 10/07/2008).
47
«Portrait. Ce mot se dit des hommes seulement et en parlant de peinture. C’est tout ce qui représente une personne d’après nature avec des couleurs.» RICHELET, Pierre. Dictionnaire Français. Genève : [s.éd.], 1680, p.194. Disponível em: Http://gallica.bnf.fr/ ark:/12148/bpt6k509323 Última consulta 10/07/2008.
48
«Représentation faite d’une personne tel qu’elle est au naturel.» FURETIÈRE, Antoine. Dictionnaire
Universel. T. I, Paris : [s.éd.], 1690. Disponível em:
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/CadresFenetre?O=NUMM-50614&M=chemindefer Última consulta 10/07/2008.
49 «Image, ressemblance d’une personne ayant existé, par le moyen du pinceau, du burin, du crayon etc.»
ACADÉMIE FRANÇAISE. Le Dictionnaire de l'Académie françoise, dédié au Roy. T. 2. L-Z. Paris : Vve J. B. Coignard et J. B. Coignard, 1694. p. 282. Disponível em:
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k50398c.image.f283.langFR# Última consulta: 02/04/2009.
é feito à imagem e semelhança do modelo, como pretendem Furetière e Richelet, mas também
se constitui enquanto figura de pensamento no interior de um texto.
Para o estudo acerca da figura de pensamento retrato e dos termos correlatos, como a
charge e a caricatura, também cotejamos outros quatro diferentes dicionários: Dupriez,
Morier, Fontanier e Littré. De antemão, podemos afirmar que o retrato é composto por duas
outras figuras de pensamento: a prosopografia – parte da descrição ligada às características
físicas e exteriores do personagem; e a etopeia – parte da descrição que se atém aos traços
morais do personagem. De acordo com a tradição retórica, estas figuras recebiam o nome de
effictio e notatio, respectivamente, como menciona Kazimierzs Kupisz em seu artigo “Ce don
troublant de la beauté; autour du portrait féminin dans les comptes amoureux”. Kupisz
salienta ainda que entre as duas figuras existe não somente uma oposição, mas possibilidades
de influência, de troca e de fusão.51
Em Les figures du discours, de Pierre Fontanier, retrato é a “descrição tanto moral
quanto física de um ser animado, real ou fictício”52. Fontanier menciona que, frequentemente,
toma-se como retrato seja a etopeia, seja a prosopografia isolada, mas que a figura será tratada
em seu dicionário como sendo a reunião dessas duas figuras. Em Gradus – les procédés
littéraires, de Bernard Dupriez, não há diferença no que diz respeito às definições de
Fontanier, embora sejam feitas observações importantes que devem ser lembradas. Segundo
Gradus, como toda descrição, o retrato pode ser construído pelo ponto de vista de um
personagem, com ou sem identificação da parte do autor ou do leitor ou, ainda, constituir-se
através das narrações ou dos diálogos.53
Ainda analisando as informações adicionais sobre retrato, em Gradus, temos como
figura análoga a charge ou caricatura, formada quando um retrato é apresentado sob uma luz
51
Cf. KUPISZ, Kazimierzs. Ce don troublant de la beauté; autour du portrait féminin dans les Comptes amoureux. In. DEBREUILLE, 1988, p. 67.
52 «On appelle souvent du nom de portrait, soit l’Ethopée, soit la Prosopographie, toute seule; mais le portrait tel
que l’on entend ici, doit les réunir l’une à l’autre. C’est la description tant au moral qu’au physique d’un être animé, réel ou fictif.» FONTANIER, Pierre. Les figures du discours. Paris: Flammarion, 1977, p. 428.