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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
ARTIGO
DE
REVISÃO
Crescendo
e
enfraquecendo:
um
olhar
sobre
os
rumos
da
Educac
¸ão
Física
no
Brasil
Pedro
C.
Hallal
a,be
Victor
Andrade
de
Melo
c,d,∗aUniversidadeFederaldePelotas,ProgramadePós-graduac¸ãoemEpidemiologia,Pelotas,RS,Brasil
bBolsistadeProdutividadeemPesquisadoCNPq-Nível1B-CAMS-Educac¸ãoFísica,Fonoaudiologia,FisioterapiaeTerapia
Ocupacional,Brasil
cUniversidadeFederaldoRiodeJaneiro,FaculdadedeEducac¸ão,RiodeJaneiro,RJ,Brasil
dBolsistadeProdutividadeemPesquisadoCNPq-Nível1D-CAMS-Educac¸ãoFísica,Fonoaudiologia,FisioterapiaeTerapia
Ocupacional,Brasil
Recebidoem21dejaneirode2016;aceitoem1dejulhode2016
PALAVRAS-CHAVE Educac¸ãoFísica; Pesquisa; Ciência
Resumo Oobjetivodestetextoélanc¸arumolharparaaatualconformac¸ãodaEducac¸ãoFísica brasileira,notadamentenoquetangeàrelac¸ãoentredistintasperspectivasdeinvestigac¸ão. Percebendo queo crescimento daárea,algo aserlouvado, não tem logrado darrespostas aosdesafiosqueacercam,emfunc¸ão,até, deumacertafragmentac¸ãoquetem avercom ocorrências históricas recentes, nofim sugerimos que ospesquisadores devem retomar um caminhodediálogo,posturasemaqualobliterar-se-áaresoluc¸ãodeproblemasque,nolimite, podemmesmocolocaremriscoaprópriaexistênciadadisciplinaacadêmica.
©2016Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´e umartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
KEYWORDS PhysicalEducation; Research;
Science
Growingandfading:alookintothedirectionsofPhysicalEducationinBrazil
Abstract TheaimofthisarticleisdiscussthecurrentscenarioofPhysicalEducationinBrazil, particularlyintermsoftheviewsofdifferentresearchparadigms.Werealizethatthe quantita-tivegrowthofthefieldhasbeenunabletoovercomesomechallengesofthearea,particularly duetoafragmentationthathashistoricalexplanations.Weconcludebyurgingresearchersto dialoguemorefrequently;thisismandatorytohelpsolvesomeproblemsthat,ontheedge, couldevenputatrisktheexistenceofthisacademicdiscipline.
©2016Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](V.A.Melo). http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2016.07.002
PALABRASCLAVE EducaciónFísica; Investigación; Ciencia
Crecerydebilitarse:unamiradasobreloscaminosdelaEducaciónFísicaenBrasil
Resumen Elobjetivodeesteartículoesrealizarciertasconsideracionessobrelaconformación actualdelaEducaciónFísicaenBrasil,especialmenteenloqueserefierealarelaciónentre lasdiferentesperspectivasdeinvestigación.Noshemosdadocuentadequeelcrecimientode estecampo,algoquedebeserelogiado,nohalogradoresponderalosretosdelárea,también debidoaciertafragmentaciónquetienequeverconacontecimientoshistóricosrecientes.Al finalsesugierequelosinvestigadoresdebenretomaruncaminodediálogo,unaposturasinla cualnosepuedensolucionarlosproblemasque,enúltimainstancia,puedenponerenpeligro lapropiaexistenciadeladisciplinaacadémica.
©2016Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Estees unart´ıculoOpenAccessbajolalicenciaCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
O objetivo deste texto é lanc¸ar um olhar para a atual conformac¸ão da Educac¸ão Física brasileira, notadamente no que tange à relac¸ão entre distintas perspectivas de investigac¸ão. Partindo de um panorama histórico da constituic¸ãodadisciplina,intenta-seperceberque respos-taspodeessatrajetóriadaràresoluc¸ãodealgunsproblemas que, a nossover, têm obliterado umamaiorconsolidac¸ão qualitativada áreadeconhecimento e, nolimite, podem mesmocolocaremriscosuaexistência.
Nãoseriaequivocadoafirmarqueaconformac¸ãodoque hojechamamosdeEducac¸ãoFísica---umaáreaacadêmica jábemdelineadanoscenáriosnacionaleinternacional---é frutodeumamudanc¸anadinâmicadeproduc¸ãodo conhe-cimento, da definitivavalorizac¸ão da racionalidadecomo parâmetro decompreensãodomundo, desdobramento do projetoiluminista.
De umlado, as preocupac¸ões com a educac¸ão physica
emergiramcomoaumentodoscuidadoscomainfância, pro-cessoquesematerializou,entreoutrosaspectos,namelhor conformac¸ão de propostas pedagógicas, manifestaaté na estruturac¸ão da escola moderna (Julia, 2001; Vigarello e Holt, 2008). Deoutro lado,tinham relac¸ão com o avanc¸o daspossibilidadesdemaiorcompreensãodofuncionamento corporal,comodesenvolvimentodeumaabordagemque, commaisacuidade,entendiaoscomplexosmecanismosda saúdeedadoenc¸a,mudanc¸aqueseexplicitounatransic¸ão deummodelodemedicinamaisartesanalparaoutromais científico(Vieira,2003;Faure,2008).
Essas ocorrências foram desdobramentos de diversos fatos contextuais articulados observáveis em alguns paí-ses europeus, entre os quais se destacou o pioneirismo britânico.1 O pensamento ilustrado impulsionou o
desen-volvimento científico que, por sua vez, potencializou os mecanismos de produc¸ão com a estruturac¸ão do modelo fabril. A vulgarizac¸ão da manufatura (fábrica, indústria) interferiuprofundamentenadinâmicasocial(Soares,2007; Hobsbawm,2009).Oscentrosurbanoscresceram, assistiu--seàestruturac¸ãodenovosestratospopulacionaisforjados apartirdanoc¸ãodeclasse(aburguesiaeooperariado).
1Paramaisinformac¸ões,verThompson(2001).
Nessecenário,aesfera públicadelineou-secomo lócus privilegiado de vivências. Fortaleceu essa tendência a gestac¸ão deummercadode entretenimentoquedialogou comoavanc¸otecnológico.Consumoeespetáculopassaram asernoc¸õesvalorizadas.2
Da mesma forma, novos artefatos/invenc¸ões foram fundamentais no incremento dos contatos internacionais, necessários tendoem vista tanto a obtenc¸ão de matéria--primaquantooescoamentodoexcessodeproduc¸ão.Com isso,transformou-seadinâmicadeinformac¸ão,relacionada àpotencializac¸ãoeaocontroledosnegócios.
Articulou-se com tais mudanc¸as o fato de que o Estado-Nac¸ãoseconformoucomo organizac¸ão políticapar excellence,paulatinamenteademocraciaseinsinuoucomo condic¸ão para a estruturac¸ão dos países. A reboque, percebe-se a autonomizac¸ão das esferas sociais (Weber, 2004;Hobsbawm,2009).
Nesse processo, o corpose deslocou para o centro da cena, tornou-se umapreocupac¸ão generalizadaem vários âmbitos.Estabeleceu-secomoumimportantepontode con-vergênciaeexpressãodasambiguidadesecontradic¸õesda novadinâmicasocial.Aoseuredorsemanifestaclaramente atensãoentreparâmetrosdecontroleeliberdade(Vieira, 2003;Weber,1988).
Exponenciou-se,assim,aimportânciadaeducac¸ão phy-sica, como antes constituída na fronteira entrereflexões de natureza pedagógica, relacionadas à implantac¸ão de estratégiasdeajustesdos indivíduos aocomplexocenário social,eolharesadvindos dasciênciasmédicas,expressão doaumentodaspreocupac¸õescomasaúdeehigiene,noc¸ões consideradasfundamentaisparagarantiraconsolidac¸ãodos projetospolíticose econômicosem andamento(Vigarello, 2003).
No Brasil, a conformac¸ão da Educac¸ão Física (isso é, conjunto de preocupac¸ões e iniciativas que se estrutu-ram num campo, com agentes, corpus de conhecimento, ac¸ões diversas de formac¸ão e representac¸ão) tambémse deu no século XIX, no momento em que comec¸ava a
seconsolidar a nac¸ãorecém-independente (Meloe Peres, 2014).
Por aqui, como na Europa, pedagogos e médicos com-partilharamoprotagonismonadefinic¸ãodosrumosdaárea incipiente.Osprimeirosproduzirammanuaisepropostasde intervenc¸ão,majoritariamenteapartirdesuasexperiências concretase/ouinspirac¸ãonoqueforaproduzidonaEuropa e nos Estados Unidos (Cunha Junior, 1998; Souza, 2011). Ossegundos,damesmamaneiradialogaramcomocenário internacional,entabularamaspioneirasinvestigac¸ões naci-onais,boaparteapresentadanaformadetesesdefendidas nosprecursorescursossuperioresdemedicina(Paiva,2003; Gondra,2004).
Seconsiderarmosospadrõeshodiernos,eratudomuito provisórioe mesmo precário.Masse tivermosem contao espíritoe as condic¸ões daquele momento, inegavelmente devemosencararessescomoosprimeirospassoscientíficos daEducac¸ão Físicanopaís,e issoocorreu como diálogo, contato ou, ao menos, convivência entre duas naturezas distintasde produc¸ãode conhecimento,uma advindadas ciênciasmédicas,outradasciênciashumanasesociais.
A Educac¸ão Física seconsolidou nodecorrer doséculo XX. Nesse longo período, percebe-se o avanc¸o nos deba-tes conceituais, desdobramento, até, do maiornúmero e aprofundamentodasinvestigac¸ões;odelineamentode inici-ativasdeformac¸ãoprofissional;aestruturac¸ãodeentidades representativas;aconformac¸ãodeestratégiasdedifusãodo conhecimento(congressos,periódicos,cursos,livros).
Aindaqueemcertosmomentose/ouesferastenha pre-ponderadoumououtroladoemesmoexistidoalgumatensão nadefinic¸ãodosrumosdaárea,épossívelsugerirquehouve, senão umdiálogo costumeiro, ao menosuma boa convi-vênciaentreosagentesenvolvidoscomasduas naturezas de produc¸ão de conhecimento que integram a Educac¸ão Físicadesde suas origens. Consolidaro campo, mais rela-cionadoà intervenc¸ãodo que àpesquisa, parece tersido ointuito maior que,de certaforma,criou lac¸osentre os personagens.3
Umaimportanteinflexãonesseprocessodeconsolidac¸ão dadisciplinaseobservanadécadade1970.Emfunc¸ãode mudanc¸as noâmbito educacional (uma nova estruturac¸ão dos cursos superiores de formac¸ão), bem como no cená-riopolítico(ummaiorinvestimentodogovernodeexcec¸ão em projetosesportivos), aárea deconhecimento paulati-namenteassumiuumanovaconformac¸ão,notadamenteno quetangeaseusparâmetroscientíficos.4
Facetas notáveis do incremento do esporte de ren-dimento foram a criac¸ão de laboratórios de fisiologia do exercício5 e o envio de profissionais para estágios e
cursos de pós-graduac¸ão no exterior (especialmente nos EstadosUnidos).Odiscursocientíficocomec¸ouasetornar maismobilizadonasiniciativasdaáreadeconhecimento.
3Nãoháumestudoqueabordetodooperíodo.Sobrealguns recor-testemporais,verMelo(1996),FerreiraNeto(1999)eSchneider (2010).
4Aindanãotemosgrandenúmerodeestudosquefac¸amumbom balanc¸odos anos1970. Para os interessados, sugerimos Oliveira (2003).
5Um balanc¸o sobre a trajetória desses laboratórios pode ser encontradoemRochaetal.(2005).
Importantesimpactosdesseprocessohouvenagraduac¸ão e na pós-graduac¸ão, nesse caso com a criac¸ão de cursos demestrado na área.Além disso, percebe-seumamelhor estruturac¸ãodosperiódicos,bemcomofunda-seuma enti-dadecientíficaquedialogavacomoconjuntodemudanc¸as, oColégioBrasileirodeCiênciasdoEsporte(CBCE).6
Noâmbitodessasocorrências,atémesmoemfunc¸ãoda naturezadosinvestimentos, haviacertapredominânciade umdosmodelosdeproduc¸ão,queaessa alturajámelhor se consolidara. Mesmo assim, isso não significou exclusão daoutraperspectivadeinvestigac¸ão,manteve-seainda,a nossover,umcertograurelevantedediálogo,aomenosde respeitoeconvivência.7
Osanos1980,todavia,trouxeramnovasinjunc¸ões.Uma parte dosimpactos teveaver coma melhorestruturac¸ão dapolíticacientíficanacional,atédasagênciasdefomento e de administrac¸ão governamental (Capes, CNPq e FAPs estaduais),oqueincrementouinvestigac¸ões,mastambém desencadeou novas tensões ao redor da distribuic¸ão de recursos (por meiode bolsas e editais), relacionadas não somente àpossibilidade deumaatuac¸ão profissionalmais efetivacomotambémàdefinic¸ãodemecanismosdestatus e distinc¸ãopara ospesquisadores.A propósito, paulatina-mente setornoumaisusualque profissionaisdaEducac¸ão Físicafrequentassemcursosdepós-graduac¸ãonaáreaefora dela.
Esseconjunto demudanc¸as sedeunummomento polí-ticorico,agitadoetenso.Opaíspassavaporumprocessode redemocratizac¸ão.Asinstituic¸õesnacionaisserepensavam ao se engajar nessatransic¸ão. O quadro nemsempre era equilibrado, eracostumeiramente marcadopelo enfrenta-mentodeposic¸õesdiametrais,situac¸õestípicasdecenários semelhantes.8
Todasasáreasdeconhecimentosentiramimpactosdesse processo, que foi mais agudo para aquelas cujosacordos erammaisfrágeis,aconformac¸ãoeramenossólida,o está-giodeconsolidac¸ãocientíficaeraaindaprecário.Noâmbito daEducac¸ãoFísica, nãopoucas vezesisso setraduziuem disputas entreobeme omal,em posic¸õessimplistas,em rupturas. De alguma forma se rompeu um delicado equi-líbrio que existia havia muitas décadas. Movimentos de fragmentac¸ãoforamumdesdobramentodessastensões.
Obviamente que essa tendência não se pode explicar somente pelas tensões internas da Educac¸ão Física. Até mesmoanovadinâmicacientíficamundialenacional, cres-centemente complexa e burocratizada, ajuda a entender queprocessosemelhantetenhasepassadoemmuitasáreas, emalgumascommenosfragmentac¸ãoemaisdiversificac¸ão. Aprincípio,issosequer éumproblema,na medidaem que expressanãosomentenovasmaneiras deorganizac¸ão dacomunidadecientífica,comotambémumanovapostura
6Sobrea trajetória doCBCE,ver Paiva(1994)eFerreiraNeto (2005).
7Pelomenosemparte,podeserconsideradaumaexpressãodessa tendênciaaprópriacomposic¸ãodediretoriasdoCBCE.Emvárias gestões,foiintegradaporpesquisadoresdediferentestradic¸õesde pesquisa,algunsdosquaisatéestabeleceriamnofuturooposic¸ões diversas.
dos pesquisadores, que já não sentiam a necessidade de declarar fidelidades medievais a uma sóárea, se per-mitiamdialogarcomoutroscamposdeconhecimento,até mesmoporumacompreensãodequeosdesafiosimpostos pelarealidadeexigiamnovosesforc¸os.Essetrânsito,aliás, pareceseraindamaisclaroem áreasquesecaracterizam menos por uma identidade epistemológica stricto sensu
científica do que por uma característica de intervenc¸ão, comoéocasodaEducac¸ãoFísica.
Vale ressaltar que, a despeito das tensões, a área de conhecimentocresceu muitoem termosquantitativos nas últimasdécadas.Onúmerodeprogramasdepós-graduac¸ão aumentou de três, somente com curso de mestrado, na décadade1970,paramaisde30,boaparte tambémcom cursos de doutorado, nos dias atuais.9 A produc¸ão
cien-tífica atingiu patamares nunca imaginados, veiculada em periódicosnacionaiseinternacionais,bemcomoemlivrose anais de eventosque, a propósito, tornaram-se cada vez mais comuns, palcos em que se expõem os avanc¸os das investigac¸ões, mas também se dramatizaram os conflitos candentes.
De fato, o acesso ao conhecimento, no âmbito da Educac¸ão Física brasileira, aumentou em todosos níveis. Uma análise baseada apenas em números sugere que a áreaevoluideformaextraordinária.Todavia,seráqueesse crescimento em termos quantitativos tem sido acompa-nhado de um fortalecimento qualitativo, se pensarmos a área como um todo? Sem negar que houve algum aperfeic¸oamentodasiniciativasdepesquisa,oque ponde-ramoséseissotemsidocompatívelcomovolumedoque temsidoproduzidoesetememcontaumadisciplinauna eintegrada.
O fatoé que o cenário atual nos apresenta uma área muito fragmentada, composta por subáreas diversas que pouco interagem.Observa-se tambémumacada vez mais comummigrac¸ão(enãosomentediálogo)depesquisadores oriundos da Educac¸ão Física ligados às ciências humanas e sociaispara outros campos de conhecimento (especial-menteEducac¸ão,CiênciasSociais,História,Comunicac¸ão), aproveitam---eporvezesatémesmoprotagonizam--- movi-mentos demaior valorizac¸ão das práticas corporais como objetos de pesquisa, reversão de umatendência anterior decerto desprezopelos temas em func¸ão depreconceito intelectual(MeloeSantos,2013).
IssoébomparaaEducac¸ãoFísica?Nãotemosdúvidade queodiálogomultidisciplinar(e,quemsabe,até interdis-ciplinar)éalgoaservalorizado.Damesmamaneira,além deserfatoirreversível,podesermuitobenéficoparaaárea aevoluc¸ãodassubáreas, sedaísepuderaportaralgoque contribua com a resoluc¸ão dos problemas mais gerais da disciplina.
TomemoscomoexemploaSociedadeBrasileirade Ativi-dadeFísicaeSaúde,criadaem2007.Desde1997,seorganiza umCongressoBrasileirodeAtividadeFísicaeSaúde.Desde 1995,publica-seumaRevistaBrasileiradeAtividadeFísica eSaúde.Nosanospares,eventosregionaislevama
discus-9ReconhecidospelaCapes,são,hoje,32cursosdemestrado aca-dêmico,doisdemestradoprofissionale20dedoutorado.Disponível em: <http://capes.gov.br/cursos-recomendados>. Acessoem: 19 jan.2016.
sãosobreatemáticaatodososcantosdoBrasil.Tambémé oferecidoumcursoanualdeimersão,noqualdoutorandose recém-doutoressãoestimuladosaplanejarsuascarreiras.10
Em2014,oCongressoMundialdeAtividadeFísicaeSaúde PúblicafoinoRiodeJaneiro.
Damesmaforma,podemosmencionaroscongressosde História da Educac¸ão Física e do Esporte, que ocorrem desde1993,bemcomoaparticipac¸ãodepesquisadoresda nossa área em eventos da Associac¸ão Nacional de Histo-riadores (Anpuh), o mesmo que ocorre nas iniciativas de outrasentidadescientíficas,comonasdaAssociac¸ão Nacio-nal de Pesquisa e Pós-Graduac¸ão em Educac¸ão (Anped) e da Associac¸ão Nacional de Pós-Graduac¸ão e Pesquisa em CiênciasSociais (Anpocs). Encontramos até mesmo inves-tigadores oriundos da Educac¸ão Física que veiculam seus artigosemimportantesereconhecidosperiódicosdas ciên-ciashumanasesociais.
Em todos os casos, há que se celebrar o trânsito de conhecimentos e aprendizado de outras possibilidades de investigac¸ão que podem trazer contribuic¸ões para melhorpensar os diversostemas que integram aampla e flexíveláreadeEducac¸ãoFísica.
É plenamente compreensível que as subáreas mante-nhamsuasiniciativaspróprias,normalmenteorganizac¸ãode eventos,publicac¸ãodeperiódicosecriac¸ãodesociedades científicas. É certoque, ao longo dosúltimos anos,essas iniciativastêmsidoesforc¸oslouváveis.Masoquetemsido feitoparaquehajamaiorinterac¸ão?
Oque é inaceitável, anossover, é quea consolidac¸ão dassubáreas oblitere oufragilize a existênciade espac¸os deconvivência nosquaisostemasdeinteressecomumda áreasejam debatidos. Mais ainda, que isso seja o efeito dequalquerformadedesrespeito,desvalorizac¸ãoou desi-gualdade na forma de encarar asmais diversas tradic¸ões de investigac¸ão. Ponderamos, portanto, que existe uma diferenc¸aentrediversificac¸ãosaudávelefragmentac¸ão per-niciosa.
Nos dias de hoje, no Brasil, qual o fórum conjunto da disciplina? O CBCE prevê em seu estatuto congregar ‘‘profissionais e estudantes que possuem em comum o interesse pelo desenvolvimento dos estudos e pesquisas relacionadas à área acadêmica convencionalmente deno-minada Educac¸ão Física’’.11 No entanto, a entidade tem
tidodificuldadesdeexercermaiorprotagonismo,um indi-cadordasjá citadasrupturasdosanos 1980,mastambém da sua relutância em repensar seu modus operandis. Chamaaatenc¸ão,por exemplo,que amaioria dos bolsis-tas de produtividade em pesquisa do CNPq não costuma participar dos encontros promovidos por essa sociedade científica.
Estariamessespesquisadorespriorizandooseventosdas subáreas, deixandode interagirem fórunsmaisgerais da Educac¸ão Física? Qual o momento em que os pensadores daFisiologiado Exercíciodialogamcomos pensadores da História do Esporte? Qual o espac¸o em que a Biomecâ-nicadialogacomaPedagogia?Ondeestáodiálogoentrea
10Paramaisinformac¸ões,ver:http://www.sbafs.org.br/.Acesso em:18jan.2016.
AtividadeFísicaeSaúdeeaAprendizagemMotora? Reconhe-cendoqueégrandeodesafiodeestabelecermaiorcontato entrediferentestradic¸ões epistemológicas,nãoseria pos-sível recuperar ao menosuma convivência mais fraterna, disposic¸ão inicial sem a qual qualquer relac¸ão já nasce maculada?
Parece evidente que a área de Educac¸ão Física deve voltar ase constituirnumespac¸o paratodos osseus pes-quisadores,nãosecontentarcomofatodequea‘‘fugade cérebros’’--- a mudanc¸a de área dealguns investigadores ---sedênãoporquestõesepistemológicas(decisãopessoal plenamenteaceitável), mas sim por decorrências contex-tuaisquetornam aconvivência inviabilizada.Apropósito, seosprofissionais sãoformados,noscursos degraduac¸ão, apartirdas maisdiferentesdisciplinas, dasmaisdistintas tradic¸ões,após-graduac¸ãoeapesquisacomoumtodonão teriadetambémexpressaressacaracterística?
Essadisposic¸ãoparareverteroquadrodefragmentac¸ão, por certo,não pode se manifestar apenasno âmbito das intenc¸ões;temdesematerializaremac¸õesconcretas.Como contemplarmelhoranossadiversidadenasiniciativas liga-dasàpesquisa,aténoâmbitodosmecanismosdeavaliac¸ão econcessãoderecursos?Emqualquercaso,tratar-se-áde, nomínimo,respeitaraspeculiaridadesdecadaperspectiva deinvestigac¸ão,nãoestabelecerparâmetrosquedeixemde atenderàpluralidadedaárea,quesomentedigamrespeito aumadastradic¸õescientíficas.
Issonãosignificaconcessões, posturaque nãocombina comodesenvolvimentocientífico.Origordeve,dequalquer maneira,seruma marcadetoda investigac¸ão e disso não podemosabrirmão.Bastaapenasentenderquenãoháum únicocritérioderigor,dadaadiversidadedemecanismose perspectivasdepesquisa.
Devemosrecuperarpontosdecontatoquegerema pos-sibilidadedemaiordiálogo.DadosdaPesquisaNacionalde SaúdedoEscolar(200912e201213)demostramquemetade
dosalunosdononoanodascapitaisdopaísrelataram não tertidoduas aulasdeEducac¸ãoFísicanasemana anterior àpergunta.Emoutraspalavras,metadedosalunos,nofim doensinofundamental,temzeroouumasessãosemanalna escola.
Qual a respostacoletivaque a Educac¸ão Físicavai dar para esse resultado incômodo? Isso é só um problema dos pesquisadores vinculados à perspectiva sociocultu-ral? É uma preocupac¸ão exclusiva dos investigadores das ciênciasbiomédicas?Nãoteríamos,nosmaisdiversos âmbi-tos (intervenc¸ão, formac¸ão, política em geral e política científica), de ter pautas em comum que nos unam em torno de causas que sejam gerais para a área? Não seria essa uma possibilidade de ‘‘combater’’ a excessiva fragmentac¸ão?14
Aotocarnessetema,devemoslembrarque,em func¸ão dascaracterísticasdenossaárea,temosoenormedesafiode reduziradistânciaentreosavanc¸osdenossaproduc¸ão cien-tíficaeoqueéempregadopelosprofessoresqueatuamna
12 Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/ populacao/pense/default.shtm>.Acessoem:16jan.2016.
13 Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/ populacao/pense/2012/>.Acessoem:16jan.2016.
14 PerspectivasemelhantejáfoiabordadaporVaz(2008).
escola,naacademia,nosclubes,nocampoesportivo.Será queapesquisaatualmenteproduzidanosprogramasde pós--graduac¸ãoestásendoútilparaosprofissionaisdeEducac¸ão Física?Obviamentenemtodainvestigac¸ãotemobrigac¸ãode seraplicada,masessenãodeveriaserumaspectoatambém mobilizarnossaatenc¸ão?
Devemosteremcontaque,felizmente,disputas acirra-dasentreasdiferentessubáreas,marcadasatépordistintos e diametraispontosde vistacientíficos e políticos,fazem parte da história daEducac¸ão Física noBrasil. Ainda que nem sempre, majoritariamente essa diversidade pode ser encaradacomoumaexpressãodeumaconstruc¸ãonão auto-ritária,indicadordequesetratadeumaáreavivaeintensa, algo a ser louvado. Por mais desgastantes que sejam, tais tensões têm sido importantes para o crescimento do campo.
Noentanto,nãosepodemconfundir disputas acadêmi-cas,científicasepolíticascomembatespessoais,questões deinteressecontextualcomprojetosfuturosdeumaárea maissólida,críticanecessáriacomqualquerformade pre-conceito.Aseguiresseprocesso,inviabilizaremosoconvívio entreasdiferentessubáreasdaEducac¸ãoFísica.Comisso, daremos ‘‘um tiro nopé’’, esvaziaremos a forc¸a de nos-sasreivindicac¸õeseaimportânciadenossadisciplina,algo que em última instância não vai fazer bem para qual-quer um de nós envolvidos, tampouco para a sociedade brasileira.
Se não considerarmos seriamente o desafio de rever-teressequadrodefragmentac¸ão, corremosorisco dever num futuro próximoa nossaáreadissolvida, já que redu-zidaaapenasalgunsdosseuselementosconstituintes.Isso seriatantoumanegac¸ãodasuatrajetóriahistóricaquanto algo que impactaria negativamente a própriainserc¸ão da Educac¸ão Física no campo científico, não dificilmente a tornariasimplesmenteumapêndicedeoutrasáreas conso-lidadas.
Enfim, as grandes questões de nossa áreade conheci-mentonãopodemserplenamenterespondidasporsomente uma das suas subáreas constitutivas.Se quisermosque a Educac¸ãoFísicacresc¸a,mastambémsefortalec¸a---issoé, umdesenvolvimentosistêmico,nãosomentecircunstancial e frágil--- é essencial que a convivência e o diálogo pro-fícuo voltem a ocorrer.15 Do contrário, corremos o risco
de que as diversas ‘‘gavetas’’ que hoje ainda compõem umamesma‘‘estante’’sejamvistas,nofuturo,como frag-mentos de algo que ficou no passado, que não existirá mais.
Antes queisso ocorra,talvez sejamesmo hora de vol-tar ao passado. Não de forma idealizada, pois os tempos queseforamtambémtinhamláseusproblemas.Trata-sede olharparaopassadoparalembrarque,comoárea, nasce-mosedesenvolvemo-noscomoumafaunadiversa,integrada porgenteeconhecimentoadvindodediferentestradic¸ões depesquisa.Senãoatuarmosdeformaminimamente inte-grada,corremosoriscodesequerexistirparaalémdeuma frágilinstitucionalidade.
Recuperar o diálogo e a convivência não é somente um ajuste com o passado, mas uma compreensão que o
presente nos impele para que possamos perspectivar um futuroalvissareiro.16
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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16 Vale observar que alguns dos temas neste artigo tratados têm merecido, em maior ou menor grau, com enfoques distin-tos, a atenc¸ão de outros autores, como, por exemplo, Bracht (1999). Da mesma forma, não desconhecemos outros colegas que em momentos anteriores se envolveram em debates sobre os mais diversos assuntos afeitos à Educac¸ão Física brasileira (ver porexemplo, o debate sobrea avaliac¸ão dapós-graduac¸ão entabulado pelos colegas Mauro Betti, Yara Maria de Carvalho, Jocimar Daolio, GiovaniDe Lorenzi PireseEduardo Kokubun na
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