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Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.39 número3

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www.rbceonline.org.br

Revista

Brasileira

de

CIÊNCIAS

DO

ESPORTE

ARTIGO

ORIGINAL

Entre

ac

¸ões

e

discursos:

a

recepc

¸ão

dos

usuários

às

informac

¸ões

de

um

programa

de

educac

¸ão

em

saúde

da

rede

pública

na

cidade

de

Vitória/ES

Thacia

Ramos

Varnier

a

e

Ivan

Marcelo

Gomes

a,b,∗

aUniversidadeFederaldoEspíritoSanto(UFES),CentrodeEducac¸ãoFísicaeDesportos(CEFD),Vitória,ES,Brasil

bUniversidadeFederaldoEspíritoSanto(UFES),CentrodeEducac¸ãoFísicaeDesportos(CEFD),ProgramadePós-Graduac¸ãoem

Educac¸ãoFísica,Vitória,ES,Brasil

Recebidoem4deoutubrode2016;aceitoem8defevereirode2017 DisponívelnaInternetem29deabrilde2017

PALAVRAS-CHAVE

Obesidade;

Educac¸ãoemsaúde;

Estilodevida;

Comportamentode

risco

Resumo Estetrabalhoinvestigacomoosusuáriosobesosdeumprogramadeeducac¸ãoem saúdedeVitória/ESlidamcomasinformac¸õesrecebidas.Apesquisatevecomoinstrumentos paraobtenc¸ãodasinformac¸õesaobservac¸ãoparticipanteeentrevistas.Osdadosmostramque osindivíduosapresentaramcomportamentosdeconformidadecompadrõesinformadoscomo saudáveis. Concluiqueo imperativodo estilode vidasaudávelacaba porcontribuir para a aceitac¸ãodessasnormas.

©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´e umartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).

KEYWORDS

Obesity;

Healtheducation;

Lifestyle;

Risk-taking

Amongactionsandspeeches:thereceptionofusershavinglinkedtheinformations ofaneducationinhealthprogramofthepublichealthnetworkatthecityVitória---ES

Abstract ItinvestigateshowobeseusersonaEducationinHealthprogramatVitória/ESdeal withtheinformationreceived.Theresearchhadlikeinstrumentsfortheobtaininginformations the participant observation and interviews. The data shows that the individualspresented

Esseestudoéparteresultantedeumadissertac¸ãoquecompõeumapesquisafinanciadapelaCoordenac¸ãodeAperfeic¸oamentodePessoal deNívelSuperior(Capes)pormeiodoProgramaPró-EnsinonaSaúde(Editaln.24/2010),vinculadoaoProjetointerinstitucionalintitulado PolíticasdeFormac¸ãoemEducac¸ãoFísicaeSaúdeColetiva:AtividadeFísica/PráticascorporaisnoSUS,cujaparceriasefezentreogrupo depesquisaPolifesdaUniversidadeFederaldoRioGrandedoSul(UFRGS),ogrupodepesquisaEducac¸ãoFísica&SaúdeColetiva&Filosofia daUniversidadedeSãoPaulo(USP)eogrupodepesquisaLesefdaUniversidadeFederaldoEspíritoSanto(UFES).

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](I.M.Gomes).

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2017.02.006

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behaviorofconformityinstandardsinformedlikehealthy.Itconcludesthattheimperativeof ahealthylifestyleultimatelycontributesontheacceptanceofthesenorms.

©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

PALABRASCLAVE

Obesidad;

Educaciónensalud;

Estilodevida;

Asunciónderiesgos

Entremedidasydiscursos:laacogidaquelosusuarioshacendelainformacióndeun programadeeducaciónensaluddelaredsanitariapúblicadelaciudaddeVitória(ES)

Resumen Enesteartículoseanalizacómolosusuariosobesosdeunprogramadeeducaciónen saluddeVitória(ES)hacenfrentealainformaciónrecibida.Elestudioutilizacomoinstrumentos paralaobtencióndeinformaciónlaobservaciónylasentrevistasalosparticipantes.Losdatos muestranquelosindividuospresentancomportamientosdeconformidadconpautasse˜naladas comosaludables.Sellegaalaconclusióndequelanecesidaddeunestilodevidasaludable acabaporcontribuiralaaceptacióndeestasnormas.

©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Estees unart´ıculoOpenAccessbajolalicenciaCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Nosúltimosanos,houveumaumentodonúmerodeac¸ões educativas governamentais na área da saúde pública por meio de políticas e programas de saúde voltados para a prevenc¸ão e promoc¸ão de saúde dapopulac¸ão brasileira. Essas estratégias educacionais propõem a educac¸ão cor-poral das pessoas para a adesão de um estilo de vida saudável/ativo,consideradocomomodeloideal contempo-râneo(Bagrichevskyetal.,2007;Fraga,2006;Gomes,2008; Ramiro, 2008). Com a incorporac¸ão e ampliac¸ão do con-ceitoderiscopelaepidemiologia,osindivíduosobesos,com sobrepesoesedentários,ganharamnotoriedadenosestudos daáreadasaúdeetornaram-se,sobretudo,alvosdasac¸ões educativas por apresentar um estilo de vida considerado inadequadoe capazdetrazer riscosà saúdedoindivíduo (Castieletal.,2010).Dentreosprogramasrelacionadosà temática, destacamos um oferecido nas unidades básicas desaúde(UBS)dacidadedeVitória/ES.1Oobjetivo,neste estudo,foi investigarcomoosparticipantes lidamcom as informac¸õesquerecebemdoprograma.

Oprograma fazparte deumprojetoque seiniciouem 2006etemumaproposta direcionadaaocombateda obe-sidadenocampodasaúdepúblicanacidadedeVitória.De acordocomosdocumentosdoprojetoacessados,2,o pro-gramafomentao incentivoápráticadeatividadesfísicas, aorientac¸ãoadequac¸ãodaalimentac¸ãoeocontrole psico-lógico,promove areduc¸ão depesoe, consequentemente, mudanc¸as de hábitos de vida dos indivíduos, maiores de

1Respeitando aspectos éticos da pesquisa, omitimos a

iden-tidade do referido programa. O projeto desta pesquisa foi enviadoparao Comitê de Ética/UFESeaprovado sob o número 13016813.3.0000.5542.

2Relatórioanualeprojetodoprograma.Fontesnãopublicadas.

18anos,comobesidadeesobrepesocomcomorbidades.Por meiodeencontrossemanaiscomacomunidadesão ofereci-dosmóduloscomdezencontroscompalestrasedinâmicas degrupo,cujopropósitoédeinformar,orientareeducaros participantessobreoscuidados,agravoseriscosquetodas aspessoas(inclusiveosparentes)têmemrelac¸ãoàsaúde, buscaaprevenc¸ãoeapromoc¸ãodasaúde,emespecialdos fatores relacionados à obesidade. O acompanhamento de seususuárioséporumaequipemultiprofissionalcomposta por: professores de educac¸ão física,médicos, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, enfermeiros e agentes comunitáriosdesaúde.

Paraodelineamentodestapesquisa,acompanhamostrês módulos(30encontros)oferecidospeloprograma emuma UBS.Ocorpodeanálisedestapesquisafoicompostoporoito usuáriosqueacompanharamregularmenteosencontrosdo programaofertadoemumaUBSem2013,alémdapsicóloga edaprofessoradeeducac¸ãofísicadaUBS.

Emrelac¸ãoànossatrajetóriametodológica,anossa imer-sãonocampofoipormeiodaobservac¸ãoparticipanteedo usodeentrevistas semiestruturadas(Macedo,2000).Além disso,nestapesquisahouveatentativadeumexperimento inspirado no método das narrativas de mapas corporais (Gastaldoetal.,2012).Ressaltamosqueessatécnica meto-dológica nãofoionossométodo principal,masnosserviu deapoioparaenriquecerasnossasanálises.3Aseguir, apre-sentamososargumentosdesenvolvidos,nestapesquisa,em quebuscamosinformac¸õesrelatadaspelospróprios partici-pantesparaentendercomoeleslidamcomasinformac¸ões recebidaspelosespecialistasecomousamtaisinformac¸ões nocotidiano.

(3)

A

recepc

¸ão

aos

discursos

dos

especialistas

do

programa

Nãoédifícilperceberoquantoocorposetornouobjetode preocupac¸ãonosdiasatuais.Ocorposetornao lócusdas ac¸õese escolhas humanas,são exigidosesforc¸os individu-ais constantespara amanutenc¸ão corporal.Na sociedade deconsumoéproporcionadaaoconsumidorumainfinidade deopc¸õesparaseremseguidaseconsumidasem buscade ‘‘solucionar’’ os problemas e alcanc¸ar o corpo desejado (Bauman, 2001). Em referência a essa afirmac¸ão, está o relato deumaparticipantedoprograma que demonstraa preocupac¸ãodeseguirconselhos‘‘corretos’’parapoder cui-dardoseucorpo:‘‘[...]agenteveioparaaprenderalgumas

coisasquederepenteagenteestáfalhandonaalimentac¸ão. Então,agenteestáquerendoparapoderaperfeic¸oar, enten-deu?’’(Manuela,trechododiáriodecampoem14ago.).4

Aoconsiderartalinfortúniocomoresponsabilidade indi-vidual, os indivíduos são os sujeitos ativos para buscar a resposta certa de suas angústias e afastar-se, assim, do estado de incerteza. Agora, quem tem a resposta do que é saudável ou não, do que é correto e do que pre-cisasercorrigido sãoosconselheiros.Énessesentidoque osespecialistas,legitimadospeloconhecimentocientífico, setornaram verdadeirosconselheiros modernos das ac¸ões humanas(Bauman,1999).

No que concerne aosinteresses desta pesquisa, o pro-grama como uma ac¸ão educativa de educac¸ão em saúde seriaumbomexemplodeconselheiro.Segundorelatodos participantes,ointeresseemprocuraroprogramaestá rela-cionadoàbuscadoemagrecimento;eparaqueessedesejo fossealcanc¸ado,oprojetoseriaumapossibilidadedeajuda erealizac¸ão:

Entreinogrupo,porqueeujátavamesentindofofinha, comosediz...acimadomeupeso.Jáestavaprocurando

algumacoisaparapoder...umaajuda,umaautoajuda,

aieuviqueogruposeriamaisfácil paramim(Silvana, entrevista).

Oobjetivoéperderpeso,eliminarpeso.Estoume sen-tindo mal já, com pressão alta [...] (Vânia, trecho do

diáriodecampoem14ago.).

Comopodemosobservar,oprogramasetornouum instru-mentoauxiliadorparaqueosusuáriospudessemalcanc¸aro seuobjetivo:oemagrecimento.Deacordocomosrelatos,a gorduracorporaléatribuídacomoelementoperturbadordo corpo,torna-sealvodepreocupac¸ãoeameac¸aparaa har-moniadoorganismo.Incômodosesofrimentosemrelac¸ãoa pressãoalta,doresnacolunaecolesterolaltoforam ressal-tados.Assim,comaajudadosespecialistas,osintegrantes teriam ferramentaspara usarna ‘‘batalha individual’’da perda de peso. Segundo Bauman (1999), o conhecimento científico, informadopelos especialistas, é capaz de pro-porcionaraosindivíduosapoioetécnicasparaadiminuic¸ão deincertezaseambivalências,parapoderem agirno con-trole de suas próprias vidas. Esse processo, por sua vez,

4Valeressaltarquepreservamosasidentidadesdosparticipantes

nestapesquisaaoadotarnomesfictíciosnasnarrativas apresenta-das.

representaa dependênciadosindivíduos diante dos espe-cialistas,aomesmotempoemque‘‘liberta’’osindivíduos para o cuidado individual. Contudo, essa emergência de diferentesespecialistase conselheiros,alémdecontribuir paraintensificar a responsabilidade dos indivíduos para o cuidadocomocorpo,colabora,também,paraosurgimento deangústiaeincertezadomundocontemporâneoem vir-tudedosinúmerosedistintosconselhosoferecidos(Bauman, 1999).

Apesar de a ciência ter legitimidade para orientar as ac¸õeshumanasnasociedadecontemporânea,elanão ofe-recegarantiasduradouras.Para Castiel(1999),o conceito de risco se inclui nessa perspectiva. Ele não se consti-tuiemafirmac¸õesdeterminísticas,masemprobabilidades. Ou seja, não temos garantias sobre a soluc¸ão de nossas angústias, mas caminhos são oferecidos para nos levar a ‘‘possíveis’’soluc¸õesquenemsempresãoalcanc¸adas.Vale ressaltar que em uma sociedade em que o discurso do cuidado com o corpo está atrelado a um corpo sarado e a um estilo de vida ativo, os sujeitos que fogem dessa categorizac¸ão, como indivíduos com sobrepeso, obesos e sedentários,sãoosquemaissofremdiantedasexigências.

Ao investigar os motivos que fizeram os participantes buscaremo emagrecimento, bem como as suas angústias referentesaocuidado como corpo,percebemosque essa buscaesteveatreladaa‘‘fatoresexternosasuavontade’’, comoinfluênciadodiscursomédico,dapressãosocialeda aceitac¸ãosocial,vinculadaapreocupac¸õesestéticas. Acre-ditamosqueapreocupac¸ãodosusuárioscomoganhodepeso corporal,anegatividadedagordurae,consequentemente,a buscapeloemagrecimentopossamserreflexosdosdiscursos normativosemoraispropagados nasociedadeque perpas-samnossujeitosquefogemdopadrão,comoporexemplo, osindivíduoscomsobrepeso/obesos.

Segundo Ortega (2003), o corpo, ao longoda história, ganhapaulatinamente destaquepormeiodeintervenc¸ões que visam a aumentar o seu controle das ac¸ões e per-formances.Em se tratandode controledo corpo,o saber médico,representadohojepelabiomedicina,ilustrariabem essaafirmac¸ão.Exames,diagnósticoseconsultassetornam verdadeiros‘‘rituaishigiênicos’’nabuscapelavigilânciae fiscalizac¸ãodocorpo.Éemreferênciaaessesrituaisquea preocupac¸ãoememagrecersetornoulatente:

[...]ah,foinodiaemquemediapressão,queeununca

tivepressãoalta.Elafoisemprebaixa,aífuimedirtava dando14, 15,16 asemana toda,aíeufalei: ‘gente,o queestáacontecendo?Porqueelaestásubindoassim?’ Aí a médica falou: ‘temque perder peso, fazer cami-nhada,fazerdietapararegularasuapressão’.[ela]Me passouumremédio.Agentevaiaomédicoe estátudo alto, aí você ficadesesperada [...]. (Maria Aparecida,

entrevista).

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papeldarazãoedamoralemproldavidasaudável, tornam--seconselheirosdasac¸õeshumanas(Bauman,2001).

Asinformac¸õesnosindicaramtambémqueoutras instân-ciasinfluenciaramnaescolhadosusuáriosporemagrecer.A regulac¸ão sobre o cuidado com o corpo e a cobranc¸a em relac¸ão àformafísica forammotivosdepreocupac¸ão não sódosmédicos,masencontramosrelatosemqueparentes epessoas pertencentes ao círculosocialdos participantes assumiramessediscurso:

[...] omeu marido falaassim: ‘vocêtem que

emagre-cerporquefaz bempra suasaúde,vocêficacomfalta dear, você tem que emagrecer! Vai caminhar!’[...]Aí

vocêpensaassim:‘ai,euestougorda.Paraelemandar eucaminharefazerexercícioéporqueeuestougorda.’ (Vânia,trechododiáriodecampoem02out.).

DeacordocomGoellner(2003),odiscursodabeleza vin-culadoànormalizac¸ão estéticaganhamaiorincidência no cuidado com o corpo das mulheres. Em relac¸ão ao corpo comexcessodepeso, podemosnotarque apressãosocial exercidasobreessessujeitosarticula-se,sobretudo,comos discursosemergentesnasociedadereferentesàassociac¸ão entreapráticadeatividadefísicacomosinônimodesaúde eaaparênciacorporalmagracomoreferênciadebelezae saúde.Aassociac¸ãodaaparênciacorporalcomasaúdedos indivíduos estáatrelada àemergência doque Poli Neto e Caponi(2007)denominammedicinadabeleza.Nessa pers-pectiva, o corpo que sofre intervenc¸ão pela medicina da belezaalmejaatingiropadrãonormalestabelecido.Assim, obelosetornanormaleofeio,patológico.Aestética corpo-ralpassaarepresentaroqueésaudávelounão.Nanarrativa aseguir,aparticipanteacreditaqueacobranc¸aexternapara oemagrecimentoestejaatreladaaofatodeelaapresentar umcorpoforadopadrãodesejado:

Ah,tem[cobranc¸a]porquesaemdarotina,saemdo nor-mal, daquele estereótipo e tem que ser todo mundo magrinho.Quemtemasortedesermagrinhotudobem, que não tem, tem que lutar para pelo menos chegar perto,porquenãovaificarmagrinho!(Marinalva, entre-vista)

A supremacia do modelo magro na sociedade contem-porâneacontribui para a rejeic¸ão de outrosmodelos que diferemdoideal,exigedosindivíduosesforc¸osparaalcanc¸ar talestereótipo. Essabuscapelo abandonodocorpogordo está atrelada ao desejo de encontrar no corpo magro o equilíbrioeafelicidadee,dessemodo,podertransmitira imagemdeumapessoafelizerealizada(Vasconcelosetal., 2004).

Em nossaimersãoao campo,pudemos observarque os participantesrecebiamasinformac¸õesdosespecialistascom assentimentoeaprovac¸ão.Dicaseestratégiasparaaadesão deumestilodevidasaudáveleramfornecidaspelos especi-alistaserecebidaspelosparticipantescomoalgoqueestaria atreladoàbuscaporseguranc¸a,almejava-se,dessaforma,o afastamentodedúvidaseincertezasemrelac¸ãoaocuidado comocorpo.Emnossasanálises,pudemosinterpretarque osintegrantesprocuravamabsorverasinformac¸ões forneci-daspelosespecialistas,buscavamtransportá-lasparaoseu cotidiano:

OntemeulembreiqueeufuinaOAB,aíeutinhaqueir nosétimoandar.Eupareina frentedoelevador,euea menina,edisseassim:‘bora[vamos]deescada?’[risos] Agentedesceuesubiudeescada,chegamoscomaperna dolorida![risos](Silvana,trechododiáriodecampoem 04set.).

Oagirracionalmentepodeserevidenciadonasac¸õesdos participantesaoselecionaremcertostiposdealimentos,ao inseriremapráticadeatividadefísicanasac¸õesrotineiras, ao assumirem um comportamento comedido com vistas à diminuic¸ãodoexcessoalimentar,oquedemonstrao empe-nhodosparticipantesemseguirasinformac¸õestransmitidas pelosespecialistas.Ainserc¸ãodapráticadeatividadefísica edeumaalimentac¸ãomenoscalóricanocotidianodos usuá-rios pôde ser constatada, também, nos mapas corporais construídos.

Todavia,nãosomenteoconhecimentocientíficose con-figuroucomoelementoimportanteparaocuidadodocorpo dos usuários,masháoutro elementoque estáalémdesse paradigma racional: ‘‘o estar com [o outro]’’. Além das orientac¸ões veiculadas pelos especialistas, os lac¸os afeti-vosconstruídosnosencontrosforamelementossignificativos paraosparticipantes emrelac¸ãoaocuidadocomocorpo. Percebemos que esse convívio em grupo contribuiu para a formac¸ão delac¸osafetivos entreos sujeitos envolvidos (usuárioseespecialistas),bemcomoparaaemergênciada sensac¸ãodereconhecimentodosparticipantes aose iden-tificarem com as dificuldades enfrentadas pelos próprios indivíduosdogrupo.Essatrocadeinformac¸ões‘‘não cientí-ficas’’,produzidaecompartilhadapelossujeitosenvolvidos naperdadepeso,colaborouparaqueessesnãodesistissem diantedospercalc¸osencontradosnocaminho:

[...]Me senti à vontade nogrupo, porque todosestão

nomesmobarco[risos].Então,eume sentià vontade, porquetodosestãocomomesmoobjetivo.Tudofoium prazermesmo,conheceraspessoaseagentedevezem quandoseencontra[foradogrupo]evirouamizade![...]

Fezmuitobem,muitasconversas,cadaumcontavaseus problemas,tevemuitatroca(Marinalva,entrevista).

ParaBauman(2001),omelhorconselheiroéaqueleque servecomoreferênciaparaasuperac¸ãodosproblemas.Ou seja,diantedeproblemassemelhantes,exemplificadospor pessoas que passam pelos mesmos infortúnios, é que as pessoasseidentificamnatentativadesuperá-los.Éno com-partilhardasinformac¸õesapartirdaexperiênciadooutro queteremosideiadesuasdificuldadesedeseuslimitesna soluc¸ãodosproblemas.Dessaforma,esperamos,assim, des-cobrirasaídadasnossasangústiasedenossosofrimentoao nosidentificarcomosproblemasdosoutros.Porém,aúnica certezaéqueosproblemasdeverãosersanados individual-mente.DeacordocomRabinow(1999),essacaracterística contemporânea,emqueosinteressesprivadossetornaram elementos depreocupac¸ão dasac¸õeshumanas,éomarco daemergênciadabiossociabilidade,em queaorganizac¸ão socialsebaseiaemcritériosreferentesàpreocupac¸ãocom asaúde,performancescorporais,doenc¸aseoutros.O inte-resseestánapreocupac¸ãorelacionadaàordemprivadados indivíduos,enãocomacoletiva.

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justificaria a aceitac¸ão desses indivíduos diante das informac¸õesrecebidasdoprograma:

Paramim,nãofoidifícil,porquefoisómereeducar, por-queeujáviviadentrodeumacasa,viviadedieta,eusó nãoestavasabendocomomereeducar.Euachoquepara pessoaquetemmuitoaquilodeirparabarzinho,comer cachorroquente,disso,daquilooutro,édifícil.Maspra mim,aquilofoitranquilo(Jaciara,entrevista).

[...]mudaaprópriaalimentac¸ão,muda,maissalada

eprocurarfazerdeváriasmaneiras,dealternaros pro-dutos,porquesenãoenjoa.Sóanoitequetemqueser obifedefrango,maseugosto.Paramimnãoésacrifício não[...](Marinalva,entrevista).

Diantedessasnarrativas,podemosperceberqueos par-ticipantesnãoatribuíramà mudanc¸adehábito comouma prática que dispensousacrifícios.5 Podemos arguir que os participantes investigados se apresentaram adeptos das informac¸õesrecebidas,atribuemvalorpositivo atais prá-ticasdecuidadocomocorpo.Deacordocomasnarrativas, incômodosdeordembiológica,comohipertensão,doresnas costas efalta dear, tiveramseusefeitos minimizadosem func¸ão do emagrecimento corporal. Benefícios relaciona-dos à estética corporal, como o uso deroupas que antes nãocabiameaexaltac¸ãodosesentirbonitaaoemagrecer, reforc¸am a nossa tese de que a preocupac¸ão com a gor-dura corporal, na sociedade contemporânea,ultrapassa a justificativadeefeitosdanososàordembiológicados indi-víduos, mas está vinculada à preocupac¸ão estética. Para Ortega (2003),as bioasceses são reflexos depráticas que buscamaconformidadecomanorma,comaadaptac¸ãoas regras, como umaúnica forma de osindivíduos se prote-geremsocialmente.Oautoracrescentaqueessabuscapela uniformidadeedaconformidadeànormaseriaumamaneira denos‘‘esconder’’ounos‘‘camuflar’’paraescaparda tira-niadabeleza.

Em relac¸ão ao comportamento comedido dos usuários frenteàsinformac¸õesrecebidas,apesarderelataremque seguem as recomendac¸ões sem sacrifícios, notamos que algumas dificuldades foram apontadas como obstáculos a seremsuperados.Ocontexto social,em queosindivíduos investigadosestãoimersos,podeajudaracomporocenário referente àdificuldade deseadequaraumestilo devida saudável, bemcomo colocarem xeque odiscurso respon-sabilizadordocuidadocorporaldirecionadoaosindivíduos queapresentamcomportamentosderisco,emqueelessão osúnicosresponsáveispelasuacondic¸ãocorporal.Queixas referentesàfaltadetempolivreeadificuldades financei-rasemconsumirtiposdeprodutosvoltadosparaomercado saudável foram expressas pelos participantes durante os encontros,oqueevidenciaqueascircunstâncias relaciona-dasaocuidadocomocorpoextrapolamoslimitespessoais, abrangemdimensõeseconômicasesocioculturais.

Emrelac¸ãoàbuscapeloemagrecimento,ogrupo inves-tigado também apresentou representac¸ões diferentes em relac¸ão ao cuidado com o corpo obeso. Enquanto alguns

5Valeressaltarquenãoacompanhamososusuáriosapósotérmino

dosencontros.Assim,somenteumapesquisacomum acompanha-mento mais ampliado poderia verificar se essas informac¸ões se materializaramcomohábitonocotidianodessessujeitos.

participantes almejavam emagrecer até chegar ao corpo ideal(magro),outrosnãotinhamnoescopodepreocupac¸ão amesmaintensidadedesseobjetivo:

Pretendo melhorarcada vez mais, emagrecercada vez maisechegaraomeupesocerto,namedidacerta(Maria Aparecida,entrevista).

[...]eunãoquerochegar opeso daminhaaltura.A

médica falou que para minha altura seria cinquenta e cinco,mastambémnãoquero,semprefuiassim, gordi-nha(Jaciara,entrevista).

Diante doapresentado, podemos notar que nemtodos os participantes são meros indivíduos que absorvem as informac¸ões passivamente em relac¸ão ao cuidado com o corpo.A ponderac¸ão em relac¸ão ao emagrecimentoe ao usodessasinformac¸õesnocotidianodemonstraquea usuá-riaseassumecomoprotagonistadasuaac¸ão,decidesobre aescolhaquemelhorconvémasuarealidade.

CompartilhamosdopensamentodeMoser(2011)ao apre-sentar o conceito de positividade de risco no campo da saúde.Paraapresentac¸ãodoconceito,oautorseapropria, previamente,dainterpretac¸ãodeCanguilhem(1995)sobre saúde.Ao considerar tal concepc¸ão, Moraes enfatiza que assumirosriscostambémseriaumaformacriativade pro-duzirsaúde.Apartirdessepressuposto,aoconsiderarmoso casocitadoemqueaparticipanteassumeacondutaemnão atingiropesoideal,mesmodiantedasnormaseprescric¸ões que eramdispostas, vimos que a integrante decidiu criar outraslinhasdefugaquedesviaramdoprescritopelaordem médica.Nãoquereremagrecermaisdoqueoconsiderado correto nos sinaliza como uma ac¸ão que demonstra essa aberturaaonovo, aoutrosporosepossibilidades deviver diante daquilo que é considerado incorreto. Moser (2011) reiteraquelanc¸ar-seaoriscoéumaformadeagir-saúde.

Diante disso, podemos compreender que o corpo, em especial o corpoobeso, na sociedade de risco, nãoé um corpolivreparausufruirdeseusdesejosevontades. Esco-lhassãodirecionadasnatentativadebalizarassuasac¸ões emproldaadesãodeumestilodevidasaudável.Contudo, mesmodiantedessecenário,CarvalhoeMartins(2004) sali-entamserpossívelconseguirumamaiorliberdadedenossas escolhas,desdequeosindivíduospassema[re]conheceras suas ‘‘verdadeiras’’ necessidades, realizá-las e querê-las. Ouseja,‘‘oquerer’’seriaumaac¸ãocapazdeaumentara nossapotênciadeagir.Compreendemosqueaproduc¸ãode lac¸osafetivos,construídanocotidianodaspráticasemsaúde pormeiodaproduc¸ãodeencontros,podemserdispositivos potentes,usadospelosespecialistas,natentativadeincitar osusuáriosa reconheceremassuasvontadese seus dese-josreaisemrelac¸ãoaocuidadocomocorpo.Dessemodo, consideramosaproduc¸ãodelac¸osafetivoscomoproduc¸ão desaúde,namedidaemquecompreendemosaconstruc¸ão devínculoscomocapacidadepositivaparaaampliac¸ãoda potênciadevidaeaintensificac¸ãodeexistênciadossujeitos (Spinoza,2007).

Considerac

¸ões

finais

(6)

socialrepresentadapelosabermédico,oslac¸ossociaisdos participantes (familiares e pessoas próximas), bem como ainterferênciadaestéticacomo valormoraldeaceitac¸ão social, também foram elementos apresentados e que contribuíramparaqueosparticipantesbuscassem aperda depeso.Arejeic¸ãodagordurasemanifestanapreocupac¸ão deapresentarumaaparênciabela,aoconsideraramocorpo magro(sarado)comomodeloidealdebeleza.Asociedade contemporânea,portanto,impõeaosindivíduosuma pres-sãoculturalparaemagrecer.Emdecorrênciadessacobranc¸a externae o temorà gorduraé que usuáriosescolheramo programa como uma forma de conselheiro seguro para a orientac¸ãodesuasac¸õeseescolhasnabuscapelo emagreci-mentoedadiminuic¸ãodasangústiasmodernasvinculadasà gordura.

Em relac¸ãoà adesãodosusuáriosàsinformac¸ões rece-bidas, os indivíduos apresentaram comportamentos de conformidadeaoabsorverem etransportarem ascondutas orientadaspelosespecialistasparaoseucotidiano. Acredi-tamosqueessacondutaestejarelacionadaàbuscanãosóde alíviosrelacionadosadoresnocorpo,hipertensãoediabete, mas à própria busca dos participantes em serem aceitos socialmente.Portanto,aoconsiderarmosqueomodelo cor-reto de viverbem, em umasociedade contemporânea, é atreladoaoestilodevidasaudável,pormaisqueos parti-cipantescom excessodepeso apresentemdificuldadesde aderiraesseestilo,a‘‘naturalizac¸ão’’dessesideaisacaba porcontribuir na formac¸ão deconformidades de hábitos, ao acreditarem que essa seria a única forma correta de vida.

Nãopodemos deixardeconsiderar quea naturalizac¸ão desses discursos na sociedade contemporânea acaba por interiorizarelegitimartaisideaisnoimagináriosocial,oque dificultaarupturadessesdiscursosnormatizadoresnas dife-rentesinstânciassociais.Acreditamosserumgrandedesafio superaressediscursoderegulamentac¸ãodavida.Todavia, apossadosdos resultados apresentados por essa pesquisa, apostamos que é nochão das práticas em saúde que tais discursospodem serburlados/corrompidos. Aoapresentar taisconsiderac¸ões,compreendemosqueaproduc¸ãodelac¸os afetivospodeserumaforc¸amotoracapazdefornecer arran-josnoentendimentode corpose na criac¸ãodemodosde vidasqueescapamàsprescric¸õesbaseadasnos conhecimen-tosbiologizantes.

Assim,compreendemosqueasrelac¸õessociais materia-lizadasnocotidianoemqueaspráticasdesaúdesão produ-zidasearticuladasentreosdiferentessujeitosdoprocesso deproduc¸ão dosaber(especialistas, funcionáriose comu-nidade)setornamumterritóriopropícioparaaformac¸ãoe [re]configurac¸ãodemodosdevidafrenteàsac¸õesenormas ‘‘duras’’, generalizantes e biologizantes presentes nesse contexto.Entendemosqueaformac¸ãodessaredede encon-troéimportanteàmedidaquetornamaispotenteacriac¸ão deumambientefavorávelparaareivindicac¸ãodepolíticas efetivas,bemcomoseconstitui emmomentosmais propí-ciosparaelaborac¸ão dediscursosquenãoserestrinjamà prescric¸ãodoscuidadoscorporais.Éevidentequeencontrar modosconscientes ecriativos deseproduzir saúdetalvez sejaograndedesafioasersuperado.Considerareincitara produc¸ãodoslac¸osafetivosentreossujeitospodecontribuir paraumamaiorqualidade dasrelac¸õesdesses indivíduos. Umaatenc¸ãoaorisco,alémdoqueseentendedecontrole,

seria, também, pensar em produzir saúde (Moser, 2011). Nesse sentido, compreendemos ser fundamental o estudo sobreessastemáticas que perpassamem nossocotidiano, pois é apartir dessas reflexõesque podemos entenderas amarrasproduzidaseascenderpossíveisválvulasdeescape comodispositivosdereac¸ãoaessasnormassociais.

Financiamento

PesquisarealizadacomapoiofinanceirodaCoordenac¸ãode Aperfeic¸oamentodePessoaldeNívelSuperior(Capes),sob aformadebolsademestrado,pormeiodoPrograma Pró--EnsinonaSaúde(Editaln.24/2010).

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

Referências

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