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Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.39 número3

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Academic year: 2018

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www.rbceonline.org.br

Revista

Brasileira

de

CIÊNCIAS

DO

ESPORTE

ARTIGO

ORIGINAL

Arquivos

pessoais

de

professores

de

educac

¸ão

física:

organizac

¸ão

arquivística

e

pesquisa

histórica

Meily

Assbú

Linhales

a,b,∗

,

Thaís

Nodare

de

Oliveira

c

,

Fernanda

Cristina

dos

Santos

d

e

Nájela

Paula

Tavares

Camargo

e

aUniversidadeFederaldeMinasGerais(UFMG),EscoladeEducac¸ãoFísica,FisioterapiaeTerapiaOcupacional(EEFFTO),

DepartamentodeEducac¸ãoFísica,BeloHorizonte,MG,Brasil

bUniversidadeFederaldeMinasGerais(UFMG),ProgramadePós-Graduac¸ãoemEducac¸ão:ConhecimentoeInclusãoSocial,Belo

Horizonte,MG,Brasil

cUniversidadeFederaldeMinasGerais(UFMG),EscoladeEducac¸ãoFísica,FisioterapiaeTerapiaOcupacional(EEFFTO),Centro

deMemóriadaEducac¸ãoFísica,doEsporteedoLazer,BeloHorizonte,MG,Brasil

dUniversidadeFederaldeMinasGerais(UFMG),FaculdadedeEducac¸ão(FaE),BeloHorizonte,MG,Brasil

eUniversidadeFederaldeMinasGerais(UFMG),EscoladeEducac¸ãoFísica,FisioterapiaeTerapiaOcupacional(EEFFTO),Belo

Horizonte,MG,Brasil

Recebidoem1deoutubrode2016;aceitoem8defevereirode2017 DisponívelnaInternetem29deabrilde2017

PALAVRAS-CHAVE

Históriadaeducac¸ão física;

Arquivospessoais; Formac¸ãode professores;

Centrosdememória.

Resumo Oestudoguardarelac¸ãocomasatividadesdepesquisaeorganizac¸ãodearquivos feitasnoCemef/UFMG. Identificados como ArquivosPessoaisdeProfessores,taisconjuntos documentaispermitemidentificartrajetóriasdistintaseinterrogarapresenc¸adossujeitosno próprioprocessodeorganizac¸ãodocampopedagógicoeacadêmicodaeducac¸ãofísica. © 2017Publicado por Elsevier EditoraLtda. em nome de Col´egio Brasileirode Ciˆenciasdo Esporte.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.

org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

KEYWORDS

Historyofphysical education; Personalarchives; Teachertraining; Memorycenters

PersonalArchivesofPhysicalEducationProfessors:organizationarchiveandhistorical research

Abstract Thestudy hasaconnectionwith theactivitiesofresearchandarchive organiza-tion done inthe Cemef/UFMG. Identified asProfessors’ Personal Archivesthis documental collectionallowsustoidentifydifferenttrajectoriesinteachers’formation,aswellasquestion

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](M.A.Linhales). http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2017.02.008

(2)

thepresenceofthesubjectsintheorganizationprocessofthepedagogicalfieldofPhysical Education.

©2017PublishedbyElsevierEditoraLtda.onbehalfofCol´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte. ThisisanopenaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/

licenses/by-nc-nd/4.0/).

PALABRASCLAVE

Historiadela educaciónfísica; Archivospersonales; Formacióndel profesorado; Centrosdememoria

Archivos personales deprofesores de educación física: organización de archivos e investigaciónhistórica

Resumen Elestudiotieneunvínculoconlasactividadesdeinvestigaciónyorganizacióndel archivodeCemef/UFMG.IdentificadoscomoArchivospersonalesdeprofesores,estacolección dedocumentosnospermiteidentificardiferentestrayectoriasenlaformacióndelosdocentes, así como cuestionarla existenciadetemas enelprocesodeorganizaciónpedagógica dela educaciónfísica.

© 2017Publicado porElsevierEditoraLtda.ennombre deCol´egioBrasileirode Ciˆenciasdo Esporte.Esteesunart´ıculoOpenAccessbajolalicenciaCCBY-NC-ND(http://creativecommons.

org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Érecenteoprocessodeconsolidac¸ãodapesquisahistórica comocampodeinvestigac¸ãoparaaáreadaeducac¸ãofísica noBrasil.Aliadasaesseprocesso,diferentesiniciativastêm surgidoemuniversidadespúblicasdopaís,comoobjetivode preservac¸ãoecustódiadeacervoshistóricos,comdestaque paraacriac¸ãodecentrosdememóriae documentac¸ão.A experiência em curso noCentro de Memória daEducac¸ão Física,doEsporteedoLazer(Cemef/UFMG)éparte desse processo e, entreoutrascaracterísticas, tem sededicado àpreservac¸ãodearquivos pessoaisdeprofessores, objeto centraldestacomunicac¸ão.

Criadoem2001,oCemef/UFMGestávinculadoao Depar-tamentodeEducac¸ãoFísicadaEscoladeEducac¸ãoFísica, Fisioterapia e Terapia Ocupacional(EEFFTO), da Universi-dadeFederal deMinasGerais(UFMG),econstitui-secomo lugardepesquisa,ensino,extensão,envolvepesquisadores ealunosdegraduac¸ãoepós-graduac¸ão.Nomomentodesua fundac¸ão,opropósitoeraestabelecê-locomolugar institu-cionalcapazdecontribuirparaarecuperac¸ão,preservac¸ão e divulgac¸ão de documentos relativos à história da pró-priaEscoladeEducac¸ãoFísicaque,dispersosnainstituic¸ão, corriam risco de degradac¸ão ou desaparecimento. Atual-mente, alémde consolidar ac¸õesde pesquisa em história daeducac¸ão físicae temáticas afins,o Centro organizao seuacervo,oqualincluiumadiversidadededocumentosde arquivo,bibliotecaemuseu.

Emmeioaosavanc¸oseretrocessosprópriosaos proces-sos de tratamento documental, a elaborac¸ão da Política deAcervos do Cemef/UFMG(2014) priorizou atentarpara aspeculiaridadesdadocumentac¸ãocustodiadanoCentro. Nesses termos, foi estabelecida também a sua Linha de Acervo, que, atualmente, é composta por seis eixos: os ArquivosInstitucionais,osArquivosPessoaisdeProfessores, a Colec¸ão História Oral, a Colec¸ão de Documentos Avul-sos,a Biblioteca e tambémoArquivoCemef/UFMG. Cada

umdessesconjuntostemcaracterísticaspróprias,querpela naturezadosacervosquereúne,querpelomodocomoforam recolhidos ao Centro. Os pressupostos que orientaram a organizac¸ão dos documentos (o que guardar, como guar-dareporqueguardar)ancoram-se,fundamentalmente,na noc¸ãode‘‘princípiodaproveniência’’ourespectdesfonds, conformeestabelecidona literaturaarquivística(Bellotto, 2004;Ducrot,1998).Assim,osarquivoseascolec¸õesdo Cen-trorespeitamnãosomenteaformacomochegaramparaa custódia(ordemoriginal),mastambémascircunstânciase ascondic¸õescontextuaisnasquaisforamproduzidos(fig.1). OsArquivosPessoaisdeProfessores,eixodedestaquena linhade acervosdoCentro, constituemo temadeestudo nestetrabalho,que objetivaproblematizar o processode organizac¸ão dos dez arquivos de professores do curso de educac¸ãofísicadaUFMG,hojecustodiadosnoCemef/UFMG. Emumaperspectivaanalíticamaisverticalizada,oarquivo doprofessorHerbertdeAlmeidaDutraserátomadocomum casoexemplardeapreciac¸ão.

Sobre

os

arquivos

pessoais

de

professores

do

Cemef/UFMG

(3)

Acervo

do

Cemef

Arquivos institucionais

Arquivos pessoais

Coleção história oral

Biblioteca Arquivo do

cemef Coleção de documentos

avulsos

Figura1 Linhadeacervo Fonte:Cemef/UFMG,2014,p.2.

Entretanto, uma aproximac¸ão mais cuidadosa com o campodaarquivologiae deseussaberespermitiu consta-tarque,notrabalhocomosArquivosPessoais,cadaacervo precisavaserreconhecido como umconjunto portadorde uma identidade própria. Tal organicidade reinventa per-manentemente as func¸ões que estruturam os quadros de arranjo,1 em estreita relac¸ão contextual com as múlti-plas atividades do titular do arquivo. Assim, os arquivos pessoais desafiam algumas normas arquivísticas, exigem reestruturac¸ões constantes. Na organizac¸ão desses docu-mentos,somospermanentementeconvocadosaduvidardas premissas da objetividade e da imparcialidade que, por muitotempo,orientaramotrabalhocomosarquivos. Depa-ramos com uma dimensão ativa e interessada da prática arquivística, pois nos reconhecemos como produtores de sentidos (pelas escolhas feitas, pelos arranjos estabeleci-dos).Porcerto,taisoperac¸õesnãoimplicam umdesprezo aodebatemetodológico.

Cada acervo pessoal que chega ao Cemef/UFMG traz sempre uma surpresa. Alguns são prioritariamente compostos de livros nacionais e estrangeiros, outros configurados como conjuntos de textos manuscritos, pla-nos de aulas, pequenos bilhetes, convites, cartas etc. Existem também muitas fotografias, películas cinemato-gráficas, dispositivos, certificados, medalhas esportivas e

1Deacordocom oDicionárioBrasileirodeTerminologia Arqui-vística(Brasil,2005,p.141),osquadrosdearranjosão‘‘esquema estabelecidoparaoarranjodosdocumentosdeumarquivo,a par-tirdo estudodas estruturas,func¸õesou atividadesda entidade produtoraedaanálisedoacervo’’.

placas de homenagem. Uma diversidade que reafirma a necessidade permanente do debate metodológico e conceitual.

ComonosconvidaapensarLucianaHeymann(2008),os documentosguardadosporcadasujeitoouporseusparentes compõemumacervodepistasesinaisdeseustitulares:pelo modocomocadadocumentofoimanuseado,pelaspequenas esutisanotac¸ões,pelosrascunhosesboc¸ados,pela originali-dadecomocadaitemfoiguardadoeposteriormentedoado. Atalpremissaoutraéagregada:paraalémdasmarcas pes-soais,osArquivosPessoaisconstituemtambémsignificac¸ões reveladorasdelac¸ose vínculossociais, redesde pertenci-mentoeformac¸ãodasquaisosindivíduosfizeramparte.Ou seja,omodocomocadaummarcaseupercursopróprioe, ao mesmotempo, desvenda/esconde elementosque com-põem umahistóriasocial daeducac¸ão físicana cidadede BeloHorizonte.

Nopequeno comentário escrito em umplano deaula, nosbilhetesaleatóriosdispersosentrepáginasdelivrosou nosdossiêsdematériasjornalísticascuidadosamente cole-cionadas,encontramosoindivíduo,seu‘‘mododefazer’’, seuestilo.Masencontramos,aomesmotempo,umexercício públicoepartilhadodeac¸ões,cargos outarefas pedagógi-cas,universitárias,esportivas,recreativas.Outrosindícios relevantessãoaquelesconcernentesaferramentaserituais detrabalho:osdiferentesdispositivos didáticos,osmodos criadoserecriadosdelidarcomsaberesepráticas,como ofíciodemestre.

Alguns acervos são constituídos por um conjunto documentalmaisabrangenteeorgânicoquedemonstra dife-rentesaspectosdavidadossujeitos,sejanoâmbitopessoal ou profissional. No Cemef/UFMG, três dos acervos pesso-aistêmessapeculiaridade.Sãoosarquivosdosprofessores Herbert de Almeida Dutra, Odilon Ferraz Barbosa e Fer-nando Campos Furtado. Os dois primeiros foram doados por parentes dos titulares, já falecidos. O terceiro tem sidodoado, paulatinamente,pelo titular,em umprocesso negociadodeproduc¸ãoderelac¸õesdeconfianc¸a.Emoutra direc¸ão,oCentro recebeutambémconjuntosdocumentais que guardamapenasparte das trajetóriasdeprofessores, cujaselec¸ão,emgeral,priorizadocumentosmuito específi-cos,normalmenteadotadosnadocência(agrandemaioria, livros e revistas). São os acervos de Nella Testa Taranto, Edson Pisani Martini, Ivanie TerezinhaBonfim. Além des-ses seisarquivos jáestabelecidos, umterceirogrupo está sendoinventariado.SãoosacervosdeEustáquiaSalvadora deSousa, DietmarMartinSamulski,IsabelMontandon Soa-res e Emerson Silami Garcia. O inventário prévio implica umaatenc¸ãoaoconteúdoeàtipologiadocumentale pos-sibilitaindicarasmelhoresopc¸õesparaaclassificac¸ãodos acervos.

(4)

O

acervo

de

Herbert

de

Almeida

Dutra

Entre osdez arquivos pessoais deprofessores custodiados pelo Cemef/UFMG, o de Herbertde Almeida Dutra (HAD) pode ser considerado exemplar pela riqueza documental queagrega.Notrabalhoanalíticofeito,buscou-seelucidar osmovimentosdeguardaeacumulac¸ãoempreendidospelo titulardo arquivo,ocontexto deacolhimento doreferido acervonoCemef/UFMGeasdiferentesetapasdaoperac¸ão arquivísticaqueconstituíramessearquivopessoal,ouseja, suapreservac¸ão,organizac¸ãoeofertaparaconsulta.Além disso,interessou-noscompreenderosujeitoreveladopelos documentosesuaspossíveiscontribuic¸õesparaahistóriada educac¸ãofísicaemMinasGerais.

Os estudos de Luciana Heymann (1997, 2013), Priscila Fraiz (1998) e Letícia Nedel (2010) foram tomados como referênciaparaareflexão.Nodiálogocomotrabalhodessas pesquisadoras,buscou-seinvestigar‘‘ossentidosconferidos à acumulac¸ão documental’’em umaestreita relac¸ão com a análise das contingências que marcaram a constituic¸ão dessearquivo(Heymann,2013,p.67).Nesseexercício, bus-camostambémidentificaroselementosdeconexãoentreo arquivopessoaldeHADeoarquivoinstitucionaldaEscola deEducac¸ãoFísica,tambémsobaguardadoCemef/UFMG. Denominamosde‘‘operac¸ãoarquivística’’aarticulac¸ão entre três dimensões fundamentais: primeiro, o tempo--lugar dessa fabricac¸ão, ou seja, os exercícios que, no âmbito do Cemef/UFMG, umgrupo de pesquisadores têm buscadofazer, com o propósito de participar do processo de preservac¸ão da memória da educac¸ão física mineira; segundo,osprocedimentoseaspráticas arquivísticas pro-priamenteditas,queenvolvemumfazeratentoaosditames conceitualmenteestabelecidos,nãosemoexercíciodo des-vioedarecriac¸ão,que‘‘desnaturaliza’’regras,fazemergir singularidades;porfim,aterceiradimensão,caracterizada comoa ‘‘escrita’’,ouseja,arepresentac¸ão,na formade uminstrumentodepesquisa(oinventário)dosaspectosque revelame,aomesmotempo,escondemavida,asfunc¸ões, asescolhas,osencontros,ossilêncios,osfazeres...deum

professor.2

Eis que este estudo promoveu,então, o encontro com o papelório de Herbert de Almeida Dutra. Na tentativa de compreender asmaneiras como o titular fez minucio-sas atividades de acumulac¸ão e guarda, percebemos que os documentos recebidos pelo Cemef/UFMG dão a ver o esmero na produc¸ão de dossiês temáticos, na forma de preservar algumas cartas enviadas e recebidas, suas inú-merasanotac¸õespessoais,seumaterialdidático,ostextos manuscritosproduzidosporeleeporoutroscolegas,além detraduc¸õesde artigostécnicos e científicos porele fei-tas.Livros, folhetose revistasespecializadas em assuntos relativosà educac¸ão físicasesomamaomaterial didático (impresso e audiovisual) por ele produzido ouacumulado durante o percurso docente, além da particularidade de

2Assumimoscomopremissa aideiadequeexisteumaestreita relac¸ão entre a pesquisa arquivística necessáriaao processo de organizac¸ãode acervos permanentese a‘‘operac¸ão historiográ-fica’’, que, de acordo com Michel de Certeau (1982), pode ser pensadacomouma‘‘fabricac¸ão’’queinclui‘‘acombinac¸ãodeum lugarsocial,depráticascientíficasedeumaescrita’’.

colecionar recortes de jornais sobre temas relativos à educac¸ãofísica.OacervodeHADapresentatemáticas diver-sas,comonatac¸ão,saúde,caminhada,esportes,atividade física,alimentac¸ão,treinamentoesportivo,alémdos assun-tos atinentes à sua atuac¸ão na gestão pública (na Escola deEducac¸ão Física da UFMG e na Secretaria Nacionalde Educac¸ãoFísicaeDesportosdoMinistériodaEducac¸ão).

Entre 2002 e 2007, os acervospessoais que chegavam aoCemef/UFMGforamtratadoscomo‘‘Colec¸ões personali-zadas---doac¸õesdeex-professores’’.Sobreessemomento, pôde-seconstatarcertadispersãodeacervos,poisos inte-resses imediatos de pesquisa acabaram por ‘‘remexer’’ consideravelmenteosdiferentesconjuntosecomprometer, em alguns casos, a ‘‘ordem original’’. Já em 2007, num segundomomentodeorganizac¸ãodosacervos,foi estabe-lecidooprimeiroGuiadeFontesdoCemef(RosaeLinhales, 2007)eneleumprimeiroquadrodearranjoparao Fundo HerbertdeAlmeidaDutra.Nessafase,nota-sequeoacervo pessoaldeixadeseridentificadocomoumacolec¸ãogenérica ejárecebeadefinic¸ãode‘‘Fundo’’.Comotal,oexercício deresguardaro‘‘princípiodaproveniência’’parecia orien-tarasac¸ões,paraevitarqueessearquivose‘‘misturasse’’ aos demais acervos do Centro. O modo de organizac¸ão escolhidopriorizou oestabelecimento de11 sériesparao FundoHAD,fortementeorientadasportemáticase/oupor tipos documentais. Esse arranjo, mesmo que garantido o respeitoàordemoriginal,revelou-seproblemático,não per-mitiuevidenciarclaramente osparâmetrosparao volume total do acervo. A primeira série, então denominada de ‘‘dossiês’’,umadasmaisproeminentes (em quantidadee assunto),nãoapresentavaquantificac¸ãoporitem documen-tal.Foiquantificadacomo‘‘dossiê’’cadaumadas37pastas cujaorganizac¸ãopréviafoiestabelecidapeloprópriotitular (RosaeLinhales,2007).

Constatou-se, então, a necessidade de um novo ‘‘refazimento’’. Isso implicou um novo processo de higienizac¸ão, concomitante a uma segunda avaliac¸ão geral da documentac¸ão, na busca de opc¸ões para uma reclassificac¸ãoe,especialmente,queinterrogouos chama-dos‘‘dossiês’’,compreendeu-osnãocomopacotesintactos efechadosem simesmos,mascomo pistasquepoderiam ajudarnacompreensãodoarquivopessoaldeHADcomoum arquivonoqualsemanifestaumadocência.

O

processo

de

‘‘refazimento’’

(5)

Fundo herbert de almeida dutra (H.A.D)

Documentos

pessoais Docência Atividades naSEED/MEC Colecionamento

Recortes avulsos Remissivas

Livros

Periódicos e revistas

Coleção de fascículo Recortes de

jornais e revistas organizados pelo

titular

Biblioteca

Comissão de pesquisa

Comissão de pós-graduação

Pareceres Sala de aula

Trabalho de alunos

Campanhas e informativos

Correspondência

Projetos educativos e esportivos

Produção intelectual do

titular

Produção intelectual do outros autores

Bilhetes e anotações

Filmesdidáticos

Miscelânea Diplomas,

atestados e certificados

Tratamento e saúde

Convite de formatura

Procuração e nomeação

Discursos

Documentos complementares

Figura2 QuadrodearranjodoarquivoHAD Fonte:Linhales,2014,p.71.

alargadadotermo,quenãosereduzàsaladeaula,embora ainclua.Nauniversidade,afunc¸ãodocênciaenvolveeexige também o envolvimento com atividades de pesquisa, de sistematizac¸ãodeconhecimentosededesenvolvimentode projetosextensionistasquetransbordamosmuros acadêmi-cosedialogamcomasociedade.

Outrafunc¸ãoamerecerdestaquefoidenominada Cole-cionamento. Algo muito singular ao sujeito HAD em um momentoespecíficodesuavida:aolongodetodaadécada de1990,já aposentado,oprofessorHerbertsededicou a colecionarrecortes dejornais e revistas sobre temas ati-nentesàeducac¸ãofísica,àsaúdeeaosexercícioscorporais. Nãosomenterecortavaeguardava,mastambémfazia exer-cíciosde organizac¸ão e classificac¸ão temáticapara a sua colec¸ão. Assim, essas, entre outras séries, se apresenta-ramcomolugaresplenosdesentidose capazesdemelhor acolher a diversidade de tipos documentais incluídos no

acervo:documentostextuais(1.387manuscritos), documen-tosimpressos(129livros,38exemplares deperiódicosem umuniverso de20títulos),documentosiconográficos (três fotografias)edocumentosaudiovisuais(19filmes,alémde umprojetordefilmes8mm).Iniciamosentãooprocessode classificac¸ão dosdocumentospara aposterior descric¸ãoe elaborac¸ãodosíndices.Nafigura2,onovoquadrodearranjo comascincosériesestabelecidasesuasrespectivas subsé-ries.

A partir da identificac¸ão dos tipos documentais e dos temas evidenciados no acervo, iniciamos um trabalho de compreensão da ‘‘biografia do arquivo’’. Para tanto, foi tambémnecessário o levantamento de informac¸ões sobre otitularnosdemaisarquivosdoCemef/UFMG,pormeiode entrevistascomparentes.

(6)

desnaturalizá-los,demaneiraademonstrarque,assimcomo os indivíduos, os arquivos são muitas vezes objetos de ‘‘ilusões’’quefazemdesaparecerdescontinuidadese des-locamentos, perdas e acréscimos, tanto materiais como simbólicas(Heymann,2013,p.72).

Aapostanãofoiemvão.Aocontráriodisso,encontramos muitaspistas,sensibilidadesqueorientaramummovimento pessoaldeguardaearquivamento.Uma‘‘narrativadesi’’? Talvez!Masnãosomente.Tambémosacasos,osdescuidos, adidática,asmanias,asprojec¸õeseplanos...

Sobre

o

professor

Herbert

OenvolvimentodeHerbertdeAlmeidaDutracomaEscola deEducac¸ãoFísicaéanterioràprópriacriac¸ãodocurso.Em 1947, umdocumentointitulado ‘‘Necessidades decriac¸ão daEscoladeEducac¸ãoFísicaeDesportosdeMinasGerais’’ foi entregue ao então governador Milton Campos e esse atoconstitui-secomobaliza,poisrepresentaumamudanc¸a significativa nos encaminhamentos relativos à afirmac¸ão docampo daeducac¸ão físicaem BeloHorizonte. O texto impressoemformatocadernotevecomosignatáriosos pro-fessores Silvio Raso, Teodomiro Marcellos, Antenor Horta, AyertonAraujo,AntonioMacedo,MariaYeddaVecchio Mau-ricio,HerbertdeAlmeidaDutraeGabrielGodoi.Nadécada de1940,elesatuavamemescolaspúblicasouparticulares, desenvolviamoensinodaeducac¸ãofísica,ouemclubesde BeloHorizonte,comac¸õesrelativasàorganizac¸ãoesportiva, emdiferentesmodalidades.Muitosdelescontinuarama tra-balhar em proldaconsolidac¸ão dopropósito deformac¸ão profissional,tornaram-seprofessoresdaprimeiraEscolade Educac¸ãoFísicadeMinasGerais,inauguradaem1952.

Herbert de Almeida Dutra formou-se no curso de téc-nicadesportiva,em1944,pelaEscolaNacionaldeEducac¸ão Física e Desportos (ENEFD), no Rio de Janeiro. Compôs o grupo de professores daEscola de Educac¸ão Física das FaculdadesCatólicasem1952,comoassistentedoprofessor LitzOctavianoTessarolo,nacadeiraDesportosAquáticos,e tornou-seotitulardessaem1958.

Estudos anteriores feitos no Cemef/UFMG indiciam o envolvimentodeHerbertDutracomaprofissão.Uma entre-vistafeitacomaSr.a

EdelweissDutra3nospermiteconhecer aspectosrelevantesdavidadomarido,falecidoemjunhode 2001,bemcomoadissertac¸ãodemestradodeCássiaLima (2012)sobreasJornadasInternacionaisdeEducac¸ãoFísica. Herbert enfrentou preconceitos de seus parentes quando decidiu formar-se em educac¸ão física, pois sua mãe não reconhecia a área como uma profissão. Por esse motivo, cursoutambémafaculdadededireitocomopropósito de concluir ocursoe entregaraela umdiplomadebacharel (Lima,2012,p.88).

É possível considerar que tais expectativas de ordem familiar e social tenham feito com que Herbert trou-xesse para o âmbito da sua atuac¸ão na educac¸ão física contribuic¸ões recebidas nessa segunda formac¸ão, como a

3AcervoCemef.Colec¸ãoHistóriaOral.Dutra,Edelweiss. Entre-vistaconcedidaaJoãoCarlosFernandes,KellenNogueiraVilhena eLorenaViggianoRochadaSilva.BeloHorizonte,12dejulhode 2011.

preocupac¸ão comasistematizac¸ãode dossiês,aqualtem característicassimilaresàsqueconstituemosprocessos jurí-dicos. Também a capacidade de escrita e sistematizac¸ão (práticapoucousualentreseuspares)eoenvolvimentocom cargosdegestãoerepresentac¸ão.Dacombinac¸ãodasduas formac¸ões,podemos tambémsupor amodelagem de uma atitudepessoal comprometidacoma institucionalizac¸ão e aprofissionalizac¸ãodaeducac¸ãofísica.Ac¸õestaiscomoas dedocumentar, sistematizar e fazercircular conhecimen-tospodemserpensadascomoformasdeinstitucionalizac¸ão, estratégiasprodutorasdelegitimidadeerespeitoparacom aprofissão.

NaEscola de Educac¸ão Física de Minas Gerais, ocupou o cargode diretor entre1963 e 1969, vivenciou todosos embatesedisputas relativosaoprocesso defederalizac¸ão daescola,quepassouapertencer àUFMGem outubrode 1969.Em1975,licenciou-sedainstituic¸ãoefoitrabalharno DepartamentodeEducac¸ãoFísicaeDesportos(DED),órgão subordinadoaoMinistériodaEducac¸ãoeCultura(MEC),em Brasília.Priorizou,nessenovocargo,asac¸õesrelativasaos convêniosdecooperac¸ãotécnicacomaAlemanhaeosEUA, comoobjetivodeintensificar oenvio deprofessores bra-sileiros aesses dois países,para cursos de treinamentoe pós-graduac¸ão.Taisiniciativaspossibilitaramviagens inter-nacionais de trabalho, para as quais o professor Herbert tambémsistematizoudossiês.Suaáreatécnicadeinteresse e estudo foi a natac¸ão e tal especificidade é confirmada peloslivros,periódicosefilmesquecolecionou,bemcomo pelomaterialdidáticoporeleproduzido.

NoarquivopessoaldeHerbert,podemos percebercom positividadeo‘‘embaralhamento’’entreoinstitucionaleo pessoal,umacaracterísticademuitosarquivospessoais.Por vezes,oarquivamentodo‘‘eu’’temuma‘‘func¸ãopública’’, pois,comoressaltaÂngeladeCastro Gomes(2009), arqui-var a própria vida é um modo de publicá-la, construir possibilidadespara umleitorescolhidoouindeterminado. Mesmodepoisdeaposentado,oprofessorHerbert reinven-toumaneiraspróprias dereflexãosobrearelac¸ãoentrea educac¸ãofísicaeasociedade.Issopodeserfacilmente per-cebido pelas características da documentac¸ão acumulada porele.

Peculiaridades

de

um

arquivo

pessoal

(7)

documental o desafio de interrogar qualquer enquadra-mento estabelecido a priori, convoca sempre à reflexão sobreosarranjose rearranjos decada arquivo. Foiassim que,noArquivoHAD,ofazereorefazerforamuma cons-tante,compreendidoscomodimensõesqueseapresentavam necessáriasàpesquisa queantecedeà organizac¸ão deum arquivo. Dela extraímos algumas ênfases que podem ser tomadascomopeculiaridades:asdo‘‘serprofessor’’ e as dopróprioprofessorHerbert.

Aprender

e

ensinar

educac

¸ão

física:

profissionalizar,

colecionar

Umarquivopessoaldeumprofessorincluiumavariedadede tiposegênerosdocumentaiscapazderevelarsuas ativida-desdocentes.O‘‘fazer-se’’professorsetornaperceptível, porexemplo,nosplanosdeaula,nostrabalhoselaborados porseusalunos,nas atividadesde avaliac¸ãoe nas inúme-raslâminaspararetroprojetorsistematizadasporHAD.Para alémdessesdispositivosdidáticos,própriosdasaladeaula, destacamos osartigos lidos, assinalados com comentários e, muitos deles, traduzidos para o português, quando a versãooriginal estava em inglês. O exercício detraduzir, muitasvezesempreendidopelotitular,revela-secomouma operac¸ãodereinvenc¸ãonaqualdestacapartes,enfatizae reelaboraideiasquepodemserpensadascomoac¸õesdeum sujeitoqueaprendeparapoderensinar.

Não menos importantes são os projetos por ele sis-tematizados para ac¸ões de intervenc¸ão na sociedade, especialmenteaquelesparaosquaisfoiconvocadoa colabo-rarcomveículosdecomunicac¸ão,comoatelevisãoeorádio, ecomsetoresdegestãomunicipaleestadual,nasáreasde educac¸ão eesporte. Nessesprojetos, seussaberes docen-tesextrapolaramo cotidianodaformac¸ão deprofessores, propagam-separaasociedadeeestendemoatodeensinar paraoutrostemposelugares.Herberttambémsistematizou relatos,recolheue guardoudocumentosquando empreen-deuviagensqueobjetivaramconhecer,emoutrospaíses,os cursosdeformac¸ãoprofissionalemeducac¸ãofísica.

Ser professor e pensar o seu campo de atuac¸ão pro-fissional também se torna evidente quando analisamos o significativo número de ‘‘Papeizinhos, papéis médios. Definic¸ões, conceitos, glossários, considerac¸ões’’ classifi-camumadassériesqueconstamdeseuarquivo.Essetítulo, dado por ele mesmo, inclui uma infinidade de pequenas anotac¸ões,ideiasprojetadas,destaquessobreassuntosde estudo. Se, à primeira vista, poderiam ser identificados como papéis dispersos, quando analisados na série docu-mentalqueosreúne,dãoaverospropósitosdeestudoede sistematizac¸ãodeconceitosenoc¸õesquepareciam neces-sáriosaoprofessorHerbertemseusexercíciosde‘‘pensar’’ ocampopedagógicoeacadêmicodaeducac¸ãofísica.

No arquivo de HAD também encontramos indícios de seusesforc¸ospessoais e como representante institucional napermanente defesapúblicadaprofissão. São recorren-tesaspistasreveladorasdeumagirrotineiroemdefesada legitimac¸ãodaeducac¸ãofísicacomocampodeatuac¸ão pro-fissional.Seusesforc¸os,nemsemprebem-sucedidos,como membrodoConselhoEstadualdeEducac¸ãooucomodiretor daEscoladeEducac¸ãoFísicadeMinasGerais,indicamac¸ões delideranc¸aederepresentac¸ãopública,pelosdiálogosque

empreendeu, pelos documentose projetos que sistemati-zou,quasesemprecomoporta-vozdeumacoletividade.

Nas décadas de 1970 e 1980, merecem destaque as ac¸õesestratégicasporelecoordenadasnoâmbitode seto-res federais responsáveis pelaformulac¸ão de políticas de educac¸ãofísicaeesporte.Herbertcontribuiuespecialmente em comissões que abordavam a ‘‘Pesquisa em educac¸ão físicaedesporto’’ea‘‘Pós-graduac¸ãoemeducac¸ãofísica’’. Institucionalizareprofissionalizarpareciaexigir,noperíodo, umalargamentodolugaracadêmicodaeducac¸ãofísicano âmbito das universidades e ampliar,assim, o espectro de possibilidades.

Jánadécadade1990,nacondic¸ãodeprofessor aposen-tado,Herbertdedicou-seaconstruirumavolumosacolec¸ão de recortesde jornais e revistas sobretemas atinentes à educac¸ão física. Segundo informac¸ões de seus parentes, manteveumarotinadetrabalhonoescritórioparticulare, entreoutrastarefas,reuniupaulatinamenteumainfinidade dereportagenspublicadasem jornaiserevistasdegrande circulac¸ãosobrediversostemas.

Naorganizac¸ãodesuacolec¸ão,tambémfezexercíciosde categorizac¸ãodosrecortesrecolhidos,pormeiode agrupa-mentostemáticos,posteriormenteestabelecidosemordem alfabética. Um agir classificatório que provoca interrogar sobresuas intenc¸ões. Haveriaumplano detrabalhoa ser feitocomessematerialcoletadooueraapenasum passa-tempodeumprofessoraposentado?Porqueescolheuesses assuntosparacolecionar,enãooutrosafeitosàárea,como osresultadosefeitosdomundoesportivo?Respostasaessas perguntasnãosãooferecidaspeloarquivodeHADe,assim, convocam à pesquisa e confirmam que umarquivo, qual-querum,apresenta-se,muitasvezes,comolacunarepleno desilêncios.

Considerac

¸ões

finais

O trabalho de pesquisa feito noArquivo HAD resultou na conclusãodeuminventárioquepermitiráaos pesquisado-resinteressadosconheceraorganizac¸ãoestabelecidaparao conjuntodocumentaldoadoaoCemef/UFMG.Aorganizac¸ão dessearquivopessoal,comosváriosexercícios defazere refazeroquadrodearranjo,podesertomadatambémcomo umtrac¸opróprioàtrajetóriadoCentroedeseus pesquisa-dores,paraaprendersobreo‘‘comofazer’’comosacervos institucionaisepessoais.

Detodo modo, parece-nos possível constatarque esse arquivoproduziuum‘‘lugar’’institucionalparaatrajetória docentedoprofessorHerbertdeAlmeidaDutranaeducac¸ão físicamineira.Assim,oarquivo,dealgummodo,constitui-se comoumartefatocapazdeconferirlegitimidadesocialpara uma experiência singular. Vale confirmar que o professor Herbertnãoguardouseuspapéisaolongodecincodécadas para‘‘deixá-losparaahistória’’.Entretanto,agora trans-formadosemumarquivo,comparecemcomoumlegadopara ahistóriadaeducac¸ãofísica:‘‘Uminvestimentosocialpor meiodo qualumadeterminadamemória individualé tor-nadaexemplaroufundadoradeumprojetopolítico,social, ideológicoetc.’’(Heymann,2005,p.2).

(8)

própriaEscoladeEducac¸ãoFísica,sugerequeasnarrativas sobreelasejamrecompostas,desconstruamversões monu-mentalizadase fac¸amfalarossilênciostambémpresentes nosarquivosinstitucionais.

Financiamento

ProjetodepesquisafinanciadopelaFundac¸ãodeAmparoà PesquisadoEstadodeMinas Gerais(Fapemig), Edital Uni-versal01/2013.

Títulodoprojeto:Arquivosdeprofessores:construc¸ões conceituais e metodológicas na organizac¸ão dos Arquivos Pessoais do Centro de Memória da Educac¸ão Física, do EsporteedoLazer(Cemef/UFMG).

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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Imagem

Figura 1 Linha de acervo Fonte: Cemef/UFMG, 2014, p. 2.
Figura 2 Quadro de arranjo do arquivo HAD Fonte: Linhales, 2014, p. 71.

Referências

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