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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Academic year: 2018

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

O SAGRADO E O PROFANO NA DIVINA COMÉDIA: UMA RELEITURA DAS ILUSTRAÇÕES DE ALBERTO MARTINI NO SÉCULO XX

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O SAGRADO E O PROFANO NA DIVINA COMÉDIA: UMA RELEITURA DAS ILUSTRAÇÕES DE ALBERTO MARTINI NO SÉCULO XX

Linda Salette Miceli Ferreira

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como quesito para a obtenção do Título de Doutor(a) em Letras Neolatinas (Estudos Literários – opção Literatura Italiana).

Orientadora: Profª. Drª. Sonia Cristina Reis Coorientador: Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona

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Ferreira, Linda Salette Miceli

O Sagrado e o Profano na Divina Comédia: uma releitura das ilustrações de Alberto Martini no século XX/ Linda Salette Miceli Ferreira. – Rio de Janeiro: UFRJ/ FL, 2017.

150f.: Il.: 1cm.

Orientadora: Sonia Cristina Reis Coorientador: Fabiano Dalla Bona

Tese (Doutorado) – UFRJ/ FL/ Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, 2017.

Referências Bibliográficas: f. 120-123.

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O SAGRADO E O PROFANO NA DIVINA COMÉDIA: UMA RELEITURA DAS ILUSTRAÇÕES DE ALBERTO MARTINI NO SÉCULO XX

Linda Salette Miceli Ferreira

Orientadora: Profª. Drª. Sonia Cristina Reis Coorientador: Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como quesito para a obtenção do Título de Doutor(a) em Letras Neolatinas (Estudos Literários – opção Literatura Italiana).

Examinada por:

______________________________ Presidente, Profª. Drª. Sonia Cristina Reis ______________________________ Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona

______________________________ ______________________________ Profª. Drª. Flora Di Paoli Faria Prof. Dr. Mauro Porru

______________________________ ______________________________ Profª. Drª. Geysa Silva Profª. Drª. Maria Lizete dos Santos (Suplente) ______________________________ ______________________________ Profª. Drª. Cláudia Fátima M. Martins Prof. Dr. Frederico Liberal de Goes (Suplente)

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DEDICATÓRIA

Esta Tese de Doutorado é dedicada a todos aqueles que permaneceram incansavelmente ao meu lado. Foram tempos muito difíceis em que tudo me fazia escapar deste término, porém, nestes últimos momentos, a força veio.

Deus, sempre em primeiro lugar, me carregou com seu braço forte me amparando. Meus Guias me incentivaram a levantar a cabeça e seguir em frente, mesmo com minhas fraquezas e dores. Nunca terei palavras para agradecê-los, isto vem do coração.

Pai e Mãe, vocês sempre foram a minha base, minha fortaleza. Dedico também a vocês este caminho lindo que segui, muitas vezes doloroso, mas o mais belo que poderia ter escolhido.

Eric, meu companheiro, meu amigo, meu amor! Agradeço cada dia de compreensão, cada incentivo, cada bronca, porque me fizeram seguir sempre em frente, mostrando meu valor como profissional e como pessoa.

Agradeço aos meus orientadores espirituais Celso e Thalita, por cada palavra de incentivo, de carinho e de paciência que tiveram comigo durante essa caminhada. Obrigada pela presença constante em minha vida, vocês me ensinam a ser melhor e a entender que jamais estarei sozinha, que tenho uma infinidade de amor ao meu redor!

Gisele, mais uma vez tenho que te agradecer por ter me apontado o caminho certo a seguir. Hoje não somos mais aluna e professora, mas colegas de profissão e amigas. O meu muito obrigada por tudo!

Gostaria de agradecer ainda ao Professor Doutor Fabiano Dalla Bona por todo apoio acadêmico que tive em relação ao meu estudo de imagens e pelo seu carinho comigo.

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fraqueza e cada ponto forte meu. Nestes últimos momentos você foi maravilhosa, pois quando achei que estava tudo acabado, você me amparou e me deu forças para continuar. Não tenho palavras para te agradecer!

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AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente, a Deus e aos meus Guias pela minha vida e por tudo o que Ele me concede juntamente com a espiritualidade.

Agradeço também aos meus queridos professores, mas, em especial, aos de Italiano, com os quais sempre aprendo muito. E, em particular, meu agradecimento à professora Sonia Cristina Reis, minha orientadora, ao meu Coorientador professor Fabiano Dalla Bona e à professora Flora De Paoli Faria.

Segue, ainda, o agradecimento ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas e à CAPES, por financiar meus estudos no Doutorado como bolsista.

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“... onde houver trevas, que eu leve a luz”.

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RESUMO

O SAGRADO E O PROFANO NA DIVINA COMÉDIA: UMA RELEITURA DAS ILUSTRAÇÕES DE ALBERTO MARTINI NO SÉCULO XX

Linda Salette Miceli Ferreira

Orientadora: Profª. Drª. Sonia Cristina Reis Coorientador: Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona

Resumo da Tese de Doutorado submetido ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como quesito para a obtenção do Título de Doutor(a) em Letras Neolatinas (Estudos Literários – opção Literatura Italiana).

Estudo do Sagrado e do Profano no texto poético e na ilustração (Santaella e Nöth: 2008) da Divina Comédia (1321) de Dante Alighieri (1265 – 1321), realizada na edição (2008) da obra dantesca, por Alberto Martini (1876 – 1954). Como aporte teórico para a construção discursiva é utilizado Maingueneau (2006) e para as questões sobre a ilustração Barthes (1990) e Aumont (2008). O corpus se refere às três Cânticas da Divina Comédia (as do livro Inferno, as do Purgatório e do Paraíso). Especificamente, serão estudados os Cantos XXXIV do Inferno, XII do Purgatório, XI e XXXIII do Paraíso. Nestes cantos serão verificados os pecados (luxúria, soberba e avareza) e as beatitudes (castidade, humildade e generosidade).

Palavras-chave: Dante Alighieri, Divina Comédia, Alberto Martini, texto, imagem, ilustração.

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ABSTRACT

O SAGRADO E O PROFANO NA DIVINA COMÉDIA: UMA RELEITURA DAS ILUSTRAÇÕES DE ALBERTO MARTINI NO SÉCULO XX

Linda Salette Miceli Ferreira

Orientadora: Profª. Drª. Sonia Cristina Reis Coorientador: Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona

Abstract da Tese de Doutorado submetido ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como quesito para a obtenção do Título de Doutor(a) em Letras Neolatinas (Estudos Literários – opção Literatura Italiana).

A study of the Sacred and the Profane in poetic texts and illustrations (Santaella and Nöth: 2008) from Divine Comedy (1321) by Dante Alighieri (1265 – 1321),

performed in the Dante’s work edition (2008), by Alberto Martini (1876 – 1954). As a theoretical subsidy for the discursive construction, it was used Maingueneau (2006), and for the matters about illustration, Barthes (1990) and Aumont (2008). The corpus refers to the three Canticles from Divine Comedy (from the canticasInferno, Purgatorio and Paradiso). More specifically, the cantos XXXIV from Inferno, XII from Purgatorio, XI and XXXIII from Paradiso will be studied. In these cantos the sins lust, pride and greed will be analyzed, and the beatitudes (castity, humility and generosity).

Palavras-chave: Dante Alighieri, Divina Comédia, Alberto Martini, texto, imagem, ilustração.

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RIASSUNTO

O SAGRADO E O PROFANO NA DIVINA COMÉDIA: UMA RELEITURA DAS ILUSTRAÇÕES DE ALBERTO MARTINI NO SÉCULO XX

Linda Salette Miceli Ferreira

Orientadora: Profª. Drª. Sonia Cristina Reis Coorientador: Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona

Riassunto da Tese de Doutorado submetido ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como quesito para a obtenção do Título de Doutor(a) em Letras Neolatinas (Estudos Literários – opção Literatura Italiana).

Studio del Sacro e del Profano nel testo poetico e nell’illustrazione (Santaella e Nöth: 2008) della Divina Comédia (1321) di Dante Alighieri (1265 – 1321), fatta nell’edizione (2008) dell’opera dantesca, da Alberto Martini (1876 – 1954). Come appoggio teorico per la costruzione discorsiva viene usato Maingueneau (2006) e per le questioni sulle illustrazioni Barthes (1990) e Aumont (2008). Il corpus si riferisce alle tre Cantiche della Divina Comédia (quelle del libro Inferno, quelle del Purgatorio e quelle del Paradiso). Specificamente, verranno studiati i Canti XXXIV do Inferno, XII do Purgatorio, XI e XXXIII do Pardiso. In questi canti verranno controllati i peccati (lussuria, superbia e avarizia) e le beatitudini (castità, humiltà e generosità).

Palavras-chave: Dante Alighieri, Divina Comédia, Alberto Martini, texto, imagem, ilustração.

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Na Tese serão utilizadas algumas siglas para facilitar a leitura, para evitar a repetição de títulos e nomenclaturas, a saber:

DA Dante Alighieri

DC Divina Comédia (edição com as ilustrações de Alberto Martini) Inf Inferno

Purg Purgatório Par Paraíso VN Vita Nova

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SUMÁRIO

LISTA DE ILUSTRAÇÕES E ABREVIATURAS

INTRODUÇÃO ______________________________________________________ 18

1. DANTE ALIGHIERI E A ÉPOCA DA ESCRITA DA COMÉDIA ___________ 25 1.1. Dante Alighieri e a Divina Comédia _______________________________ 35

1.2. A arquitetura da Divina Comédia __________________________________ 43

2. A DIVINA COMÉDIA E SUA RELAÇÃO COM AS ARTES DO SÉCULO XX _64

2.1. A produção de Alberto Martini ___________________________________ 65 2.2. A Divina Comédia ilustrada por Alberto Martini _____________________ 78

3. SOBRE O SAGRADO E O PROFANO NA DIVINA COMÉDIA ____________ 84 3.1. A ilustração do Sagrado e do Profano do poema dantesco na visão de Alberto

Martini _____________________________________________________ 91 3.2. As cenas do sagrado e do profano na Divina Comédia ________________ 99

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ________________________________________ 118

5. REFERÊNCIAS __________________________________________________ 120

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INTRODUÇÃO

A presente Tese tem como objeto de interesse o estudo do sagrado e do profano na edição ilustrada da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265 – 1321), com desenhos de Alberto Martini (1876 – 1954). Tal temática justifica-se pelo fato de o texto dantesco trazer, além de tantas outras questões históricas, filosóficas, teológicas, a possibilidade de discutir a relação entre os discursos escrito e imagético.

Como pesquisadora, oriunda da área de Letras, sinto-me motivada a discutir as ilustrações de Alberto Martini feitas para a edição ALIGHIERI, Dante. La Divina Commedia. Illustrata da Alberto Martini. Milano: Mondadori Electa, 2008, tendo sido publicada a primeira edição ilustrada em 1949. Como aporte teórico para a construção discursiva é utilizado Maingueneau (2006) e para as questões sobre a memória Weinrich (2001). Como corpus de pesquisa, será utilizada a Divina Comédia ilustrada por Alberto Martini.

Esta investigação sobre a Divina Comédia ilustrada busca dar continuidade à pesquisa sobre as relações imagéticas entre o texto poético e o texto imagético, visando o aprofundamento da investigação realizada para a Dissertação de Mestrado (FERREIRA: 2013)1, em que foram discutidas as cenas dos cantos I, III e VIII, da cântica Inferno, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, no século XV, período correspondente ao Renascimento italiano, por meio das ilustrações de Sandro Botticelli (1445-1510).

O corpus se refere às três Cânticas da Divina Comédia (as do livro Inferno, as do

Purgatório e do Paraíso). Especificamente, serão estudados os Cantos XXXIV do

Inferno, XII do Purgatório, XI e XXXIII do Paraíso.

Vale acrescentar que a escolha por este artista, Alberto Martini, foi feita a partir do fato de que o mesmo era italiano e de uma época em que a DC estava sendo

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Dissertação de Mestrado defendida em 2013, disponível em:

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revisitada por muitos artistas não só italianos, como o francês Gustave Doré (1832 – 1883).

A Divina Comédia, obra prima da Literatura Ocidental, mereceu, por esse motivo, muitas traduções em vários idiomas, inclusive para o português do Brasil, e, foi também motivo para uma série de revisitações artísticas. Uma obra que atravessou séculos desde a sua escrita na Idade Média, merecendo leitores ilustres como é o caso de Giovanni Boccaccio, tendo tido outros leitores menos célebres até o século XX.

No decorrer da historiografia literária, essa e outras obras dantescas caíram em ostracismo, particularmente nos séculos XVI e XVII, tendo sido retomada no XVIII, por GiambattistaVico (esta discussão será apresentada no capítulo 1).

A principal obra dantesca é estudada nesta Tese como um arquitexto, já que, segundo Genette (1982), o objetivo da poética não é o texto por si só, mas sim o arquitexto, quer dizer, tudo aquilo que ele possui, os tipos de discurso, os gêneros dentro dele etc. Assim, é possível perceber que, dentro desse poema dantesco, existem situações de enunciação, que toda obra literária possui que, segundo Maingueneau (2006), permite uma análise em três cenas distintas (cena englobante, cena genérica e a cenografia), que permitirá observar o discurso de Dante nas ilustrações de Alberto Martini para a Divina Comédia com base na construção das cenas de enunciação presentes na obra em análise, pois é essa construção enunciativa que possibilita o entendimento das cenas em estudo.

É importante aqui retomar o fato de a obra dantesca ser uma produção do século XIV e a mesma obra, com ilustração de Alberto Martini, ser do século XX. Isso evidencia que várias cenas descritas na Divina Comédia recebem uma representação ilustrativa diferente da concepção estética como, por exemplo, a concepção de pecado (profano) e de beatitude (sagrado).

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obras dos corpora (poema e ilustração), a partir dos discursos ligados ao pecado/profano (luxúria, soberba e avareza) e dos discursos ligados ao sagrado/beatitude (castidade, humildade e generosidade); e ainda apresentam a leitura da obra dantesca, realizada pelo artista Alberto Martini em sua Divina Comédia

ilustrada, que me permite ver a sua ilustração como a criação de um texto de autoria própria; indicando o tipo de ruptura estética que Alberto Martini constrói em sua edição ilustrada em relação ao arquitexto da Divina Comédia.

A partir das questões propostas apresentadas no parágrafo anterior para a investigação nesta Tese, hipotiza-se que a força do texto de Dante Alighieri imprimiria um dado discurso nas ilustrações de Alberto Martini para a representação do profano e do sagrado.

Martini, ao retomar as mesmas figuras retratadas por Dante em sua obra-prima para referir-se diretamente às questões sagradas e profanas, trataria do pecado (profano) e da beatitude (sagrado), bastante próximo dos discursos ligados ao pecado/profano (luxúria, soberba e avareza) e dos discursos ligados ao sagrado/beatitude (castidade, humildade e generosidade) na obra da Idade Média.

As ilustrações de Alberto Martini, no entanto, trazem uma interpretação que paradoxalmente gera um texto autoral em relação à principal obra dantesca, devido ao rompimento com a estética da sua época que havia sido construída em relação à Divina Comédia, pois as suas ilustrações promoveriam um diálogo com a obra poética, configurando-se como um texto visual a partir de um arquitexto.

No estudo realizado para esta Tese foi necessário rever outras obras de Dante com relevância para o estudo dos modelos poéticos, a partir da era medieval, que são a

Vita Nuova e De vulgari eloquentia. Isso porque estas duas obras auxiliam bastante na compreensão da Comédia dantesca, já que foram anteriores a grande obra do poeta, onde ele pode tratar outras questões, como o amor, na primeira, dando prosseguimento ao amor por Beatriz na DC.

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concluída, em 1308, quatro anos depois, em 1312, o Purgatório e, em 1321, ano de sua morte, a última Cântica, a do Paraíso.

O interesse de artistas por ilustrar a obra dantesca ocorreu muito antes do século XX, como por exemplo, as ilustrações de Alessandro Vellutello (1515 – 1544) para a

Divina Comédia, na Itália, no século XVI, de Francesco Scaramuzza (1803 – 1886), sempre na Itália no século XIX e, na França, Paul Gustave Doré (1832 – 1883), ainda no século XIX. As ilustrações para a cântica do Inferno da obra dantesca, feitas pelo artista francês, foram objeto de minha pesquisa durante a Iniciação Científica. Tal fato conduz para uma inquietação, que é, justamente, a motivação desses artistas, e aqui me refiro ao interesse de ilustradores e pintores que realizaram trabalhos sob a temática da obra-prima de Dante Alighieri.

A motivação dos artistas, nem sempre, era própria, uma vez que, até meados do século XIX, se tem notícias de que os mecenas tinham um papel fundamental na arte, já que eram eles que ditavam as regras de como as pinturas deveriam ser realizadas. O estudioso de Literatura Italiana, Asor Rosa, afirma sobre o mecenato que:

Grande e crescente importância assume, portanto, neste quadro, o fenômeno do mecenato, isto é a disponibilidade do príncipe a financiar a execução ou a impressão de obras de arte ou literárias e a sustentar ao redor de si com donativos e salários letrados, pintores, escultores, arquitetos, cientistas (Asor Rosa: 1987, p. 108)2 (TP)

Distante da época dos principados na Itália, a Divina Comédia continua a inspirar artistas, como é o caso de Alberto Martini. Por esse motivo, a presente investigação se move em direção a averiguar as cenas do século XX, que favoreceram a publicação dessa obra para poder então verificar como se deu a motivação da revisitação e ilustração da obra de Dante.

2Grande e crescente importanza assume perciò in questo quadro il fenomeno del mecenatismo, cioè la disponibilità del principe a finanziare l’esecuzione o la stampa di opere d’arte o letterarie e a sostentare

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O método de estudo para tratar desse objeto se debruçará sobre a noção de memória (WEINRICH: 2001), objetivando mostrar como esta é importante para os três universos da Comédia. Serão revisitadas concepções de memória, a partir dos diálogos entre Dante (figura ficcional na Divina Comédia) e as almas do inferno, do purgatório e do paraíso, representados nas ilustrações de Alberto Martini.

Já a discussão sobre texto e texto poético, no caso, específico da Divina Comédia, de Dante Alighieri, será discutido o conceito de texto com base em Genette (1982), uma vez que, para o estudioso, o objeto da poética não é o texto em si, considerado dentro de uma singularidade, mas um arquitexto, um arquivo textual para outras obras, ou seja, por meio do texto serão estudadas as suas partes, como já mencionado.

Tratando do percurso metodológico, a relação texto poético e ilustração encontra na teoria da cena de enunciação, descrita no Discurso Literário (2006), de Maingueneau sua base, uma vez que a leitura ou interpretação de um texto passa por três cenas: a englobante, a genérica e a cenografia, sendo a primeira necessária para o entendimento global do texto, a segunda a divide em gêneros de discursos particulares e a terceira é construída pelo próprio texto.

A cena de enunciação, no caso, reduz-se apenas às duas primeiras cenas, porém, o discurso irá impor a sua cenografia de alguma maneira por meio de sua enunciação. É importante ressaltar que a cena de enunciação de cada época em especial consegue fazer com que o leitor entenda o que se passa por um específico modelo cultural.

Ainda relacionado à ilustração, será estudada a obra de Santaella e Nöth (2008), os quais ajudam no entendimento da leitura que se pode fazer a partir da ilustração em sua totalidade e em suas seções.

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Uma das questões que intrigam nas ilustrações de Alberto Martini para a Divina Comédia é o seu caráter de criação autoral. Nesse sentido, busco entender esse aspecto da obra martiniana a partir de seu campo artístico, para poder encaminhar a discussão do entendimento do espaço social de interação entre artistas no século XX, e análise das influências recebidas por Alberto Martini em relação às escolhas ou tendências de períodos artísticos diferentes, como no caso do corpus da Tese de Dante e de Martini.

Naturalmente, será necessário buscar uma compreensão da época da Divina Comédia, nesse sentido, com a obra de Eco (1989), que traz um estudo sobre modos de ver a Idade Média, já que esse estudo possibilitará a aproximação ao texto dantesco.

A obra de Barthes (1990), O óbvio e o obtuso, também ajudará, no sentido da leitura da imagem, visto que, a partir dela, será possível averiguar o sentido simbólico que a imagem proporciona. Além disto, Aumont (2008), em A imagem, auxiliará a verificar como é a relação entre o espectador e a ilustração e como a imagem da Divina Comédia representa o mundo, tanto quando se trata da obra de Dante como para a

Divina Comédia de Alberto Martini.

Para o desenvolvimento deste trabalho, propomos uma organização em três capítulos. Iniciando a discussão, trazemos, no primeiro deles, intitulado Dante Alighieri e a época da escrita da Comédia, um estudo sobre as questões relativas ao poeta e a sua grande obra literária, tendo como subcapítulos Dante Alighieri e a Divina Comédia e A arquitetura da Divina Comédia. Será realizada uma biografia dantesca e também um estudo sobre como, ainda hoje, a obra do poeta florentino é atual.

No segundo capítulo, A Divina Comédia e a sua relação com as artes do século XX, apresentamos a relação do poema dantesco com as artes do século XX, no qual está inserido o artista (ilustrador e pintor) que é o foco desta pesquisa, Alberto Martini. Tem-se como subcapítulos A produção de Alberto Martini e A Divina Comédia ilustrada por Alberto Martini. Será realizada uma biografia do artista, juntamente com suas obras, até o momento em que ele fez sua edição ilustrada da Divina Comédia.

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ilustração do sagrado e do profano do poema dantesco na visão de Alberto Martini, e o segundo As cenas do sagrado e do profano na Divina Comédia.

Para este capítulo serão utilizadas: a obra de Barthes (1990) que ajudará, no sentido da leitura da imagem, visto que, a partir dela, será possível averiguar o sentido simbólico que a imagem proporciona; além disto, Aumont (2008), que auxiliará a verificar como é a relação entre o espectador e a ilustração e como a imagem representa o mundo.

Posteriormente a isto, apresenta-se ainda uma lista com as principais obras de Alberto Martini e também as cânticas completas dos cantos da DC aqui estudados.

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1. DANTE ALIGHIERI E A ÉPOCA DA ESCRITA DA COMÉDIA

Esse capítulo faz-se necessário para oferecer um percurso biográfico referente ao período anterior à escrita da Comédia, uma vez que neste trajeto, Dante Alighieri desenvolveu trabalhos literários e teve contato com intelectuais de sua época que foram importantes para o seu crescimento como artista, fato que aponta diretamente para a realização de sua maior obra literária que foi a Divina Comédia.

Os estudos de formação educacional de DA foram no Trivium e no Quadrivium, cujos cursos eram compostos pela gramática (latim), lógica e retórica, seguidos pela aritmética, geometria, astronomia e música. Após estes anos, ele prosseguiu seus estudos frequentando palestras em escolas de franciscanos, em Santa Croce, e de dominicanos, em Santa Maria Novella, em Florença, sua cidade natal. Esta formação foi de grande importância para as futuras obras de DA, visto que, graças a esses estudos, ele teve as bases para escrever um tratado inteiramente em latim, o De vulgare eloquentia, como será tratado mais adiante neste capítulo.

Ainda jovem, depois da morte de seu pai (entre 1281 e 1283), por ser menor de idade, foi-lhe imposto um tutor, e o escolhido foi Brunetto Latini (1220- 1294), que foi um dos personagens de grande importância no século XIV italiano, responsável pela criação da figura do intelectual civil. Provavelmente, Brunetto transmitiu alguns de seus ensinamentos ao seu tutorando, DA, pois ele, assim como muitos de seus pares da época, trabalhava como civil, ocupando um cargo administrativo na administração da cidade de Florença, além de exercer a atividade que realmente lhe agradava, que era a poesia. A esse respeito Ferroni afirma:

Brunetto cria a figura do intelectual «civil», que faz convergir o próprio fazer literário (para o qual é essencial o apelo aos modelos dos antigos escritores) com a existência individual e a atividade política. O homem culto se reconhece assim no modo em que aplica o seu saber a um juízo e a uma intervenção moral sobre o mundo: nisto consiste o senso do ensinamento transmitido por Brunetto a Dante (que o recorda no canto XV do Inferno)3. (FERRONI: 1992, p. 57) (TP)

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Desse contato de DA com seu tutor, pode ser notado o encontro do poeta de Florença com a arte e também com a política, já que Brunetto mostrou-se um intelectual que reunia em si a literatura e a política, ensinando-o que um intelectual devia possuir um conhecimento global, amplo, não somente em relação à literatura, mas também à sociedade. Esse fato ajudou ainda mais nas relações políticas e sociais que DA tinha dentro de seu Comune, que era uma forma de governo autônomo existente na Península Itálica naquele período.

Nesses comuni, os cargos administrativos eram fundamentais para o bom desenvolvimento da cidade, e, portanto, eram os próprios cidadãos que os administravam, é o que declara Ferroni (1992: p. 57) em: “Na sociedade comunal, a administração pública requer uma direta participação dos cidadãos e as relações civis são determinadas essencialmente pelo correto uso da palavra no interior das instituições4”. (TP)

Ocupavam cargos nesses comuni, intelectuais formados e que tinham ideais que superavam a simples função administrativa que exerciam. Florença, no século XIV, já era uma cidade-estado livre e uma de suas principais atividades era a indústria têxtil, a qual fornecia os manufaturados para vários locais da Europa.

Assim sendo, DA, mesmo ocupando um cargo administrativo no comune, aos 30 anos de idade, já tinha seus poemas lidos e recitados, e suas cópias eram realizadas até externamente à Florença. Isto fez com que ele se associasse ao grêmio dos médicos, farmacêuticos e pintores, fato muito comum entre os homens da sociedade da época que tinham como objetivo trocar experiências intelectuais, visando à divulgação do próprio trabalho. Associou-se a este grêmio devido ao estilo de trabalho que desenvolviam, sendo esses trabalhos vendidos em lojas de farmacêuticos.

politica. L’uomo colto si riconosce così nel mondo in cui applica il suo sapere a un giudizio e a un

intervento morale sul mondo: in ciò consiste il senso dell’insegnamento trasmesso da Brunetto a Dante (che lo ricorda nel canto XV dell’Inferno)”. (FERRONI: 1992, p. 57)

4“Nella società comunale, l’amministrazione pubblica richiede una diretta partecipazione dei cittadini e i rapporti civili sono determinati essenzialmente dal corretto uso della parola all’interno delle istituzioni”.

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Quando DA ainda estava principiando seu trabalho como poeta, uma figura teve uma função muito importante para a sua formação artístico-literária que foi Guido Cavalcanti (1255 – 1300), com quem estabeleceu uma relação estreita de amizade e aprendizado, ou seja, relacionavam-se como mestre e aprendiz. Ele surgiu para DA, no momento em que ele estava tentando entrar para um grupo de poetas e, nesta época, esses intelectuais ainda escreviam como a tradição dos trovadores, de acordo com Reynolds (2011: p. 46). A poesia de Cavalcanti era conflituosa, demonstrando um embate entre idealismo e desejo, traços bem diversos da escritura dantesca. Cavalcanti o ajudou inúmeras vezes, lendo e criticando seus poemas, auxiliando-o sempre na escrita.

DA, a princípio, sempre se opôs aos poetas que se enquadravam no perfil dos Fedeli d’amore, uma vez que tinha uma visão mais terrena, ou seja, menos emocional, menos sensível em relação ao amor. Esses fiéis de amor eram poetas que cultivavam o Amor e rendiam obediência a ele. Em Florença, esses poetas constituíam um grupo de alto nível cultural e social que trocavam experiências literárias; porém os mesmos não eram bem aceitos pelos outros poetas, que eram contra esse modelo literário dos fiéis de amor. DA, contudo que possuía um modelo de escrita diverso do deste grupo, queria fazer parte desse grupo seleto, decidindo, portanto, colocar alguns de seus sonetos em circulação, anonimamente, e, de acordo com a aceitação dos leitores, o poeta conseguiria saber se se tornaria integrante desse grupo, uma vez que seu trabalho era anônimo.

Conforme recebia retornos positivos relacionados a sua poesia, DA escrevia poemas mais audaciosos e enviava-os para um grupo ainda maior de poetas, que os interpretaram, sendo que, um desses sonetos foi o que DA incorporou como primeiro poema de seu livro a Vita Nuova. Logo, aos 17 anos de idade, ele já pertencia a este grupo que, com o passar do tempo e das trocas de experiências, o fez alcançar sua maturidade literária.

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mostrar um pouco de como era essa fase, ainda jovem, em relação aos seus trabalhos literários, Reynolds declara:

O contraste entre a alegria e o horror se reflete nos aspectos contraditórios de sua personalidade: por um lado, realista, terreno e sensual, por outro íntegro, idealista e visionário. Sua formação responde por ele até certo ponto, mas não pode explicar como, partilhando essas influências com seus contemporâneos, ele foi capaz de superá-las, tornando-se um dos maiores poetas do mundo ocidental. Não há nenhuma explicação para a sua genialidade, mas algumas pistas da razão pela qual Dante se desenvolveu desta forma podem ser encontradas nos eventos políticos em sua vida e em suas obras. (REYNOLDS: 2011, p. 42)

De acordo com Reynolds, o poeta, ainda jovem, era uma pessoa complexa, com ideais sempre além dos pensados normalmente pela sociedade do século XIV, principalmente nas questões políticas. Possuía ainda um alto amadurecimento poético em relação aos seus contemporâneos.

DA, no início de sua atividade como poeta, teve apoio ainda de um dos principais poetas da época, Guido Guinizelli5, (1230 – 1276). Porém, ao longo do tempo, devido aos posicionamentos políticos de cada um desses poetas, começaram a haver rupturas, não literárias, mas sim políticas, posto que era impossível que pessoas de diferentes partidos políticos pudessem permanecer juntas. Isso quer dizer que, ainda que pertencessem a partidos diferentes, o que na época era muito comum, a experiência poética continuava ocorrendo, mesmo porque, ainda que não pudessem se reunir, eles tinha a possibilidade de trocar informações por meio de cartas, a respeito de seus trabalhos poéticos. No caso de DA com seu amigo Guido Cavalcanti, houve essa separação, porém eles continuaram trocando experiências relacionadas à poesia por correspondência, uma vez que cada um era pertencente a um grupo político diverso.

Tendo presente um pouco da biografia social e política de DA, vale acrescentar ainda um breve panorama sobre seus trabalhos literários, evidenciando seu percurso até a realização da DC. Seguem abaixo algumas dessas obras.

5

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O primeiro livro de DA, intitulado Vita Nuova, foi escrito, no período de 1292 a 1293, dois anos após a morte de Beatriz Portinari, em 1290, figura de mulher que frequenta toda a obra de DA, representando a mulher-anjo, ou seja, a visão de mulher do

Dolce Stil Nuovo6, que é a figura de uma mulher contemplada, amada, intocada pelo poeta, sublime. Ele tratou do amor, em sua obra, fazendo uma ligação entre ele e o coração gentil que via na mulher, ou seja, a mulher era a dona da graça, da doçura e da humildade, sendo esta uma visão idealizada do amor. Esta mulher encarna a figura de anjo, sendo uma intermediária entre a terra e o céu, fazendo com que o homem se eleve, aproximando-se de Deus.

DA dividiu esta obra em duas partes, sendo a primeira dedicada à narração dos acontecimentos e dos sentimentos que motivaram a composição dos poemas e, a segunda, a análise de cada um deles. A obra compõe-se de rimas (canções e sonetos) e de 39 capítulos, em prosa, e seu título remete a uma experiência absoluta que modificou sua vida. Ele dá início à obra narrando seu encontro, aos nove anos de idade, com Beatriz, sua amada, e prossegue expondo os acontecimentos até encontrar-se novamente com ela, nove anos depois.

Essa obra mostra a trajetória percorrida por DA na sua formação literária, trazendo consigo elementos novos, de experimentações nunca antes feitas em textos poéticos, optando pela escrita em vulgar florentino e não em latim, tendo em vista que ele queria que sua obra pudesse atingir o público e não somente as altas camadas da sociedade. Nota-se que a difusão da VN deu-se por meio das cópias manuscritas de Giovanni Boccaccio, cuja primeira edição data de 1576.

Em 1290, aproximadamente, DA já era conhecido em Florença como um competente poeta, tendo seus poemas cantados, decorados e recitados e, consciente disto, começou a ousar em sua escritura. Primeiramente, ele escrevia como os trovadores, sendo seus temas: o amor não correspondido, a personificação da morte, o amor oculto, os desentendimentos com a mulher amada, entre outros.

6

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Juntamente com Guinizelli, DA e Guido Cavalcanti foram os maiores expoentes do Dolce stil novo, que foi uma tendência literária nascida na primeira metade do século XIII italiano e que concebia o amor como uma experiência global do espírito. À medida que DA amadurecia sua escritura, o já citado Guido Guinizelli criou um novo conceito de cor gentile7, cuja temática referia-se a uma qualidade mental que possibilitava a experimentação unicamente do efeito mais elevado do amor, ou seja, um amor sublime. Em seu soneto presente em seu livro Rime, Dante mostra que esse amor se estendia não somente à mulher amada, mas também aos amigos, é o que se observa em: “Guido, queria que você, Lapo e eu/ fôssemos postos por encantamento,/ todos em um barco e que todo vento/ nos levasse ao bel-prazer, vosso e meu. [...]”8 (Rime LII) (Reynolds: 2011, p. 37).

Naquela época, DA escreveu inúmeros poemas sobre Beatriz e sobre seu amor sublime e oculto por ela. Deste modo, a partir desses poemas pode ser percebida a importância que ela tinha para ele transcendia a sua própria imaginação. Em sua concepção, Beatriz havia se tornado um ideal, um ser paradisíaco e de uma beleza extraordinária. A partir dessa compreensão, por parte dele, Reynolds afirma:

Este foi o primeiro passo de Dante em direção a uma nova forma de alegoria: não uma personificação, nem um simbolismo, mas a percepção de que as pessoas reais podiam ser imagens de qualidades que estão além delas mesmas, não só em festas de máscaras e cortejos, mas na vida real. (REYNOLDS: 2011, p. 52)

De acordo com Reynolds, infere-se que DA superou a personificação do amor por Beatriz, marcado desde a sua infância pela impossibilidade de ser concretizado, pois os dois não poderiam se casar, visto que ambos eram, desde muito jovens, prometidos em casamento para outros cônjuges. Porém, este amor tornou-se poesia, ou seja, personificou-se para o poeta que se aproveitou deste seu amor sublimado para ir em direção a uma nova forma de escrita.

7“coração nobre”, “gentil”.

8Guido, i’vorrei che tu e Lapo ed io/ fossimo presi per incantimento/ messe in un vasel, ch’ad ogni

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Posteriormente ao término da obra, DA ainda envolvido na política de Florença, percebia o quanto seu comune era importante e sabia o quanto a cidade de Florença, naquele momento histórico, era uma das cidades de grande poder em oposição ao Papa9.

Existia, naquela época, uma dicotomia política intensa: um partido a favor do Papa, na época Bonifácio VIII (1235 – 1303), e outro em oposição à Igreja, a favor do Império. O quadro político daquele momento em Florença dividia-se entre os Guelfos e os Gibelinos, que, respectivamente, apoiavam a Igreja e o Império. Suas lutas eram constantes e, na batalha de Montaperti, travada em 1260, na qual os Gibelinos, comandados por Farinata degli Uberti (1212 – 1264) foram derrotados e todo o poder de Florença passou, então, para as mãos dos Guelfos. Desta forma, o poder da cidade permaneceu com os Guelfos a partir de 1266. Dante trata da questão desses grupos políticos em:

À insígnia comum lírios amarelos/ um opõe, e outro a traz à sua parte:/ mal se vê quem mais peca em tais duelos./ Façam os Gibelinos pois sua arte/ sob outra insígnia; mal a segue quem/ dela sempre a justiça ora departe;/ e não a abata o Carlos que lá vem/ cos Guelfos, mas que tema unhas hostis/ que esfolado maior leão já tem.10 (Par VI, v. 100 – 108)

Entretanto, posteriormente a este fato político, o partido dos Guelfos dividiu-se em Guelfos Negros e Guelfos Brancos. Novamente essa divisão política envolveu a Igreja Católica, uma vez que os Negros eram seus partidários e os Brancos não. Os comandantes dos Brancos eram da família dos Cerchi, os quais defendiam os interesses do popolo grasso (financiadores e ricos mercantes); já quem comandava os Negros era a família dos Donati, que fortaleciam o restabelecimento do poder da nobreza e apoiavam incondicionalmente o Papa.

Dentre os Brancos estava DA, que era contrário à dominação do Papa/ Igreja Católica, defendendo a autonomia da sua cidade. Devido às lutas ocorridas entre esses

9 Papa Bonifácio VIII, o então Papa na época de DA, foi responsável por seu exílio, já que era seu

inimigo político declarado, fato que impediu o retorno de DA à Florença até a sua morte em Ravena.

10“L’uno al pubblico segno i gigli gialli/ oppone, e l’altro appropria quello a parte,/ sí ch’è forte a veder

chi piú si falli./ Faccian li Ghibellin, faccian lor arte/ sott’altro segno; ché mal segue quello/ sempre chi la giustizia e lui diparte;/ e non l’abbatta esto Carlonovello/ coi Guelfi suoi; ma tema de li artigli/ ch’a piú

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partidos políticos, a cidade de Florença foi palco de muitas execuções e exílios, incluindo o exílio do próprio poeta italiano que foi banido juntamente com todos do seu partido após perder uma de suas batalhas contra os Negros. A esse respeito Asor Rosa declara:

[...] Dante, [...], não devia mais ter a possibilidade de retornar a sua pátria. O exílio representa uma pausa clara e dolorosa na vida de Dante. Mudam completamente as condições da sua existência: a férvida participação na vida do Comune se modifica em um vagar difícil e atormentado (do qual é possível seguir todos os traços) de cidade em cidade, a procura de hospitalidade e de sustento.11(ASOR ROSA: 1985, p. 51) (TP)

No exílio, DA permaneceu até sua morte em 1321. O poeta não pôde retornar a sua cidade natal, passando por várias necessidades materiais, pois não tinha uma residência, tinha de se mudar frequentemente e pedir hospitalidade nas regiões central e setentrional da Itália. Devido a essa dificuldade, o poeta não tinha como levar consigo seus livros; contudo não parou de exercer seu trabalho como poeta, continuando-o como um ideal de justiça a ser alcançado, uma vez que já havia perdido tudo, inclusive a sua família, com a qual não tinha mais contato. É o que pode confirmar a declaração de Walter Mauro em:

«Deixados, então, a esposa e os pequenos filhos nas mãos da sorte, e saindo daquela cidade, na qual nunca ele poderia voltar»: o doloroso testemunho de Boccaccio esclarece em termos de magra nudez expressiva a condição do exilado, já barco sem vela e sem governo, em dificuldades econômicas sempre mais duras, depois que a sua casa florentina e os seus bens tinham sido saqueados pelos Negros senhores da cidade. Começam assim as duras humilhações do exilado: bater às ilustres duras portas, sofrer a amargura do pão da esmola, ajudado num primeiro momento somente pelo meio-irmão Francesco, não comprometido politicamente, e por isso, capaz de continuar o seu comércio em Florença e de manter os contatos com o marginalizado12.

(MAURO: 1990, p. 35-36) (TP)

11“[...] Dante, [...], non doveva avere più la possibilità di tornare nella sua patria. L’esilio rappresenta una

cesura netta e dolorosa nella vita di Dante. Cambiano completamente le condizioni della sua esistenza: la fervida partecipazione alla vita del Comune si muta in un girovagare difficile e tormentato (di cui è possibile seguire tutte le tracce) di città in città, alla ricerca di ospitalità e di sostentamento”. (ASOR ROSA: 1985, p. 51)

12“« Lasciati adunque la moglie e i piccoli figliuoli nelle mani della fortuna, et uscito di quella città, nella

qual mai tornare non doveva »: la dolorosa testimonianza di Boccaccio chiarisce in termini di scarna

nudità espressiva la condizione dell’esule, già legno senza vela e senza governo, in ristrettezze

economiche sempre piú pesanti, dopo che la sua casa fiorentina e i suoi beni erano stati saccheggiati dai

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Distante de Florença, DA passou longos períodos em várias cidades italianas e estas estadas duravam muito ou pouco tempo; por exemplo, em 1306 ele permaneceu em Lunigiana, região situada entre as regiões da Toscana e da Ligúria; de 1307 a 1311, em Poppi, na região do Casentino, que se localiza na parte norte oriental da Toscana; de 1312 a 1318-20 esteve em Verona, como hóspede de Cangrande della Scala (1291 – 1329); e, em 1321, foi para Ravena, como hóspede de Guido Novello da Polenta (1275 – 1333), onde faleceu. Além dessas cidades, ele passou ainda por Treviso e Pádua.

Todavia, o exílio foi o período mais produtivo da vida de DA, marcando o seu ingresso em outra etapa de sua vida, que acarretou a realização de sua maior obra poética. É o que afirma Asor Rosa em:

[...] sem dúvida que o exílio representa o fato mais importante na vida de Dante. Não queremos dizer que sem isso ele não teria escrito as suas obras maiores. Certo, porém, a forçosa ruptura da carreira política e o afastamento de Florença forçaram-no a exercitar o seu gênio em estradas diversas daquelas cujo destino parecia tê-lo inicialmente encaminhado e o forçaram-no a uma concentração intelectual absoluta em que permanecia aberto somente o crescimento do compromisso literário e cultural.13 (ASOR ROSA: 1985, p. 52) (TP)

Logo, no início de sua peregrinação, DA deu início à composição do livro De vulgari eloquentia (1303 – 1304). Escrito em latim, sobre o vulgar ‘ilustre’, esse trabalho foi o seu primeiro tratado sobre a retórica e poesia, dentro da tradição católico-filosófico medieval. Esse tratado é considerado pelos autores do século XX como sendo o primeiro importante estudo linguístico e filosófico das línguas faladas na península italiana na época. A intenção política e literária do autor foi a de apresentar a superioridade do vulgar sobre o latim, com o intuito de estimular a sua regularização. Além disto, ele a escreveu em latim para os eruditos da época, enfatizando a expressividade do florentino por intermédio da recente poesia toscana.

compromesso politicamente, e perciò in grado di prosseguire il suo commercio a Firenze e di mantenere i

contatti con l’emarginato”. (MAURO: 1990, p. 35-36)

13“[...] non v’è dubbio che l’esilio rappresenti il fatto più importante nella vita di Dante. Non vogliamo

dire che senza di esso egli non avrebbe scritto le sue opere pìù grandi. Certo, però, la forzata rottura della

carriera politica e l’allontanamento da Firenze lo costrinsero as esercitare il suo genio su strade diverse da

quelle cui il destino sembrava averlo inizialmente avviato e lo impegnarono ad una concentrazione

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Asor Rosa (1985: p. 56) declara que a principal distinção do tratado do vulgar ilustre dantesco é entre o vulgar e a gramática, uma vez que o primeiro é a língua em si, e a segunda é a língua reduzida ao domínio de regras fixas. DA acreditava que a língua falada era totalmente variável e, a depender das condições de tempo e de lugar, seria improvável o entendimento da fala dos habitantes de um mesmo lugar que tivessem vivido em períodos diferentes da história. A gramática, nesse sentido, é uma identidade “inalterável” da língua, ou seja, ela serve como base para uma língua comum.

O projeto inicial, para a redação de DVE, foi o de compor quatro livros, analisando os vários níveis estilísticos e as possíveis formas de uso literário da língua vulgar. Entretanto, essa obra também foi interrompida, exatamente, no capítulo XIV, do segundo livro, para que ele iniciasse sua maior obra, a DC.

Esse tratado não teve tanta notoriedade como as outras obras de DA, tendo sido redescoberta na primeira metade do século XVI e publicada em tradução italiana.

Ainda que não tivesse obtido tanto sucesso e ter sido criticado, DA deu o passo principal, através de vários estudos linguísticos, para a composição de sua obra maior que foi a DC. Desta forma, pode-se afirmar que ele foi um escritor além de seu tempo.

Sua obra seguinte foi Convivio, escrita em língua vulgar, entre 1303 e 1304, ou seja, essas duas obras foram realizadas praticamente no mesmo período. Esta última, em seu projeto inicial, deveria conter quinze tratados e um capítulo introdutório; todavia, DA interrompeu a sua composição no quarto tratado. Cabe observar que o quarto tratado foi escrito anos mais tarde, entre 1306 e 1308.

No Convivio, DA, diversamente do que fez na VN, modificou novamente seu estilo, dessa vez, em prol de outro mais argumentativo e expositivo, utilizando-se de alguns dos temas da cultura filosófica do seu tempo, como, por exemplo, a vida do homem, a juventude, etc. Deste modo, inaugurou uma prosa filosófica totalmente diversificada, coerente e lúcida, em língua vulgar.

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terceiro, escreve sobre a nobreza e, finalmente, no último trata de amizade, felicidade, fidelidade, velhice, juventude, ética etc. É importante evidenciar que DA interrompeu a escritura desse livro para dar início à DC.

Posteriormente a esses três livros acima mencionados, escreveu a Monarchia, entre 1311 e 1313. Esta é um tratado em latim, dividido em três livros, nos quais deixa transparecer seus conhecimentos de filosofia e política. No primeiro livro, ele defende a necessidade de se ter um único monarca para o governo mundial. No segundo, mostra a origem divina do Império Romano e, no terceiro, trata da relação entre o Papado e o Império.

DA escreveu ainda outras obras, igualmente importantes para o conhecimento de seu estilo, porém não tão conhecidas, a saber: Rime, Il Fiore, Detto d’Amore, Egloghe,

Epistole e Quaestio de aqua et de terra.

Este capítulo delineou basicamente o principal percurso feito por DA até a escrita de sua maior obra, a Commedia, que será estudada na primeira subseção deste capítulo.

1.1. Dante Alighieri e a Divina Comédia

A Divina Comédia é uma das principais obras da Literatura Italiana. Esse é um dos motivos que nos levam a tratar de sua estrutura nesta subseção. Outra motivação é o fato de esta obra ter sido revisitada por Alberto Martini, no século XX.

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introdutório, pois, no somatório das três cânticas, obtêm-se um total de cem cantos, que representa o número perfeito para aquela época.

Além disto, existe ainda a terza rima (terzina) ou rima tripla, construída em três estrofes, já utilizada desde a época da Escola Siciliana14. Em sua obra, a terzina torna-se uma unidade rítmica e também sintática. Deste modo, a rima composta por DA segue o esquema ABA, BCB, CDC etc., que dará a principal rima no final da estrofe. Cada verso possui 11 sílabas, ou seja, ele utilizava-se do hendecassílabo, recurso muito utilizado na literatura italiana desde a Escola Siciliana, que elaboraram este modelo das líricas provençal e francesa. No total, a DC foi formada por 14.233 hendecassílabos. A respeito desta grande variedade utilizada na escrita de Dante, Cataldi e Luperini declaram:

Ele conseguiu conferir (à Commedia) uma extraordinária variedade rítmica, desfrutando assim ao máximo uma situação de liberdade, que, da li a pouco, teria vindo a faltar, devido à institucionalização métrica do modelo petrarchesco.15 (CATALDI E LUPERINI, 1994, p. VIII) (TP)

O fato de a obra dantesca ter sido divulgada em ambientes muito diversificados, fez com que ela tivesse vários copistas, após a morte de seu autor. O principal divulgador do poema dantesco, no século XIV foi Giovanni Boccaccio (1313 – 1375), o qual realizou três cópias da mesma. A DC intitulada por DA como Commedia (em sua forma mais antiga Comedía), teve acrescentado ao seu título o adjetivo Divina por Boccaccio, que só foi integrado ao título oficial a partir do Cinquecento italiano. Observa-se que no poema o título dantesco aparece somente duas vezes, de acordo com Ferroni (1992: p. 110).

Boccaccio iniciou o processo de divulgação da obra, sendo principalmente oral, tendo em vista que ele comentava cada Canto do poema, ainda hoje chamada Lectura

14 É um movimento literário cortês surgido, aproximadamente, nos anos 30 do século XIII, na corte de

Federico II. Era escrita em vulgar siciliano e sua poesia tinha uma função social. A temática amorosa se transfere a um plano mais abstrato, tendo sua forma comunicativa mais nobre e elevada. Tal movimento teve como maior expoente Giacomo da Lentini, chamado por Dante de “Il notaio” (Purg. XXXIV, v. 56).

15“Egli riuscì a conferirgli una straordinaria varietà ritmica, sfruttando così al massimo una situazione di

libertà, che, di lì a poco, sarebbe venuta a mancare, in seguito alla istituzionalizzazione metrica del

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Dantis, fazendo suas considerações a respeito e, além disso, escreveu a primeira biografia de Dante e também tratados sobre a DC. É possível afiirmar que graças à iniciativa de Boccaccio, o público leitor da obra dantesca teve um grande incremento, fato que fez com que se iniciasse um processo grande de análise e estudos da DC.

Essa estrutura da obra poética é de grande importância, uma vez que ela é construída com base em modelos da realidade, em relação à imitação alegórica feita por DA da criação de Deus, e, tendo por modelo a Bíblia, como livro de Deus, segundo Cataldi e Luperini (1994, XXXI). O modelo estrutural de escrita poética, apoiado e reelaborado por DA a partir do texto bíblico evidencia, primeiramente, o pensamento da Filosofia Medieval pelo fato de Deus se revelar aos homens por meio da realidade, e depois porque Ele, também, se revela por meio das Sagradas Escrituras. É, então, por isso que o poeta segue esse arquétipo de representação da realidade.

A viagem realizada por DA ao outro mundo, o dos mortos, traduz, alegoricamente, a viagem da humanidade na Terra, já que estruturalmente o mundo dos mortos é similar ao terreno. Cataldi e Luperini afirmam que:

[...] Dante imita, na Commedia, a estrutura do mundo, no qual cada dado é ao mesmo tempo real e simbólico. O realismo da Commedia está nesta dupla mimese, pela qual representar o mundo realisticamente na sua objetividade significa também representá-lo no seu significado, isto é no seu sistema de signos e de símbolos.16 (CATALDI E LUPERINI: 1994, p. XXX) (TP)

Assim, ao longo do estudo que se faz da obra do poeta florentino, observa-se que ele se utiliza muito dos recursos dos símbolos e das alegorias para dar vida a seus personagens. Até mesmo para a leitura são indicados quatro níveis, indicados pelo próprio DA em carta enviada a Cangrande della Scala, conhecida como a Epístola XIII. São eles o literal, o alegórico, o moral e o anagógico. O nível literal refere-se ao êxodo do povo de Israel do Egito, na época de Moisés, de acordo com os preceitos de São Tomás de Aquino. O alegórico mostra nossa redenção até o encontro com Cristo. É

16“[...] Dante imita, nella Commedia, la struttura del mondo, in cui ogni dato è insieme reale e simbolico.

Il realismo della Commedia sta in questa doppia mimesi, per cui rappresentare il mondo realisticamente nella sua oggettività significa anche rappresentarlo nel suo significato, cioè nel suo sistema di segni e di

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observado que, é por meio deste artifício que o poeta vai esconder sua verdadeira intenção, segundo Malato (2015: p. 273). O moral é verificado na passagem do pecado à Graça Divina e, por fim, o anagógico indica a liberação da alma da servidão da corrupção terrena até a sua chegada à Glória eterna.

DA estruturou e subdividiu este outro mundo de acordo com a tradição da Filosofia Escolástica medieval, a qual surgiu da necessidade de responder às exigências da fé transmitidas pela Igreja. Pode-se afirmar, basicamente, que seu pensamento era o de harmonizar a razão e a fé, principio fundamental da Escolástica que procurava, exatamente, conciliar a fé cristã a um sistema de pensamento racional como era aquele da filosofia grega.

A DC, apesar de tratar de reinos ultraterrenos, trata também de histórias de personalidades que realmente viveram, ou seja, ela retrata um pouco do mundo histórico, político e social desses personagens; vários estudiosos, como Gianfranco Contini (1912 – 1990) e Charles S. Singleton (1909 – 1985), por exemplo, concluíram que a obra possui um certo “realismo”. A esse respeito Sterzi afirma:

Tal força de convencimento de Dante sobre o leitor - a ficção de que não se trata de ficção, conforme já se disse – é uma das bases daquilo que diversos

estudiosos chamaram de “realismo” de Dante: não apenas a capacidade de

capturar imagens vivas do mundo dos homens, do mundo histórico, ainda que lidando, à primeira vista, com cenários ultraterrenos; mas também a capacidade de transmitir essas imagens em toda a sua vivacidade para os leitores. (STERZI: 2008, p. 107)

Inserido neste campo de realismo, como representação da realidade, Sterzi cita Auerbach dizendo que ele:

[...] vê, aí, a realização mais plena do choque de duas tradições de representação da realidade: a antiga (de origem grega, e depois latina), baseada na separação dos estilos, e a cristã (de origem bíblica), baseada na

mistura dos estilos. Em nenhum outro autor, como em Dante, “a mistura de

estilos chega tão perto da ruptura dos estilos”. (STERZI: 2008, p. 110)

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inacabada com o público. Sabe-se que a obra foi totalmente reunida depois da morte de Dante, por um de seus filhos e que, somente depois da ênfase dada por Boccaccio à obra dantesca, é que ela começou a ser realmente propagada.

Após tecer algumas informações gerais acerca da estrutura externa do poema dantesco, é necessário ainda considerar a estrutura interna da DC. Logo, o poema dantesco trata da viagem de Dante personagem ao além-túmulo, ou seja, ao mundo dos mortos, onde ele viaja por três reinos: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Essa viagem tem a duração de aproximadamente uma semana, com início no dia 8 de abril do ano de 1300, uma Sexta-feira Santa. Este foi o ano do Jubileu, instituído pelo então Papa Bonifácio VIII, inimigo particular de DA. Tal viagem permite que DA conheça a verdadeira condição das almas depois da morte, mas também permite que ele compreenda melhor a estrutura do universo.

Quando entra neste outro mundo, o dos mortos, DA personagem passa primeiramente pelo Anti-inferno, onde se encontram os indolentes e segue para o primeiro círculo, o Limbo, local onde residem as almas dos não batizados na fé cristã e também dos infiéis, aqueles que, principalmente, não acreditam em Deus. A partir deste primeiro círculo, DA é acompanhado por seu guia Virgílio pelo Inferno e pelo Purgatório, até a sua chegada ao Paraíso, onde é Beatriz quem o guiará pelos céus. Virgílio (nascido na cidade italiana de Andes, atual Borgo Virgilio em 70 a.C. e falecido em Brindisi em 19 a. C.) tem um papel fundamental nesta jornada de DA, uma vez que simboliza, para ele, a razão humana. O poeta latino não pode guiá-lo pelo Paraíso porque, segundo as regras daquele reino, uma alma que não foi batizada na fé cristã não pode ter acesso a tal esfera celeste, portanto, Beatriz, que se encontra no Paraíso é quem será sua guia pelos céus.

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[...] a estrutura tem uma enorme importância. Tal estrutura corresponde exatamente, em linhas de máxima, à estrutura do mundo do além-túmulo na visão cristã medieval: este mundo se divide em três reinos, aquele da eterna perdição, aquele do arrependimento e da purificação e aquele da salvação eterna.17(ASOR ROSA: 1985, p. 58) (TP)

Na D.C., o personagem Dante, em sua peregrinação pelo mundo dos mortos, adverte e oferece exemplos para a responsabilidade de uma vida terrena, ou seja, o que se vive na Terra, refletirá sempre no além-túmulo, uma vez que os atos em vida têm espelhamento naqueles do além. Isso significa que, a depender dos comportamentos tidos em vida, as almas irão sofrer ou não. Portanto, no destino eterno é revelado o sentido mais profundo e essencial da experiência humana. Ou seja, em vida as pessoas podem encobrir as próprias ações; no mundo dos mortos, os atos são revelados e seus autores submetidos à justiça divina.

Asor Rosa, a esse respeito acrescenta ainda que: “A profecia consiste em indicar

à humanidade a completa estrada da sua possível redenção (concretamente mostrando-lhe a possibilidade através da sugestiva experiência de uma única alma, que é aquela

de Dante)”.18 (ASOR ROSA: 1985, p. 63) (TP). Ou seja, Dante personagem tem um papel fundamental para o significado global da obra, haja vista sua missão de apresentar e percorrer o mundo dos mortos, posto que essa obra mostra o caminho que se deve seguir para a salvação, apontando para cada um dos pecados que qualquer ser humano pode ter e de sua respectiva punição no além-túmulo.

O protagonista do livro, ou seja, Dante personagem, coloca-se como um cristão exemplar que segue este longo caminho com o intuito de alcançar a salvação de sua alma; isto quer dizer que ele, neste sentido, não representa somente o personagem, mas a ele mesmo como pessoa, um ser pecador, mas que crê em sua salvação.

17“[...] la struttura ha un’enorme importanza. Tale struttura corrisponde esattamente, nelle grandi linee, alla struttura del mondo dell’oltretomba nella visione cristiana medievale: questo mondo si divide in tre

regni, quello dellla eterna perdizione, quello del pentimento e della purificazione e quello dellla salvazione eterna”. (ASOR ROSA: 1985, p. 58)

18 “La profezia consiste nell’additare all’umanità tutta la strada della sua possibile redenzione

(concretamente mostrandone la possibilità attraverso la suggestiva esperienza di una singola anima, che è

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Dante personagem desempenha ainda duas funções específicas, sendo a primeira a de “acordar” as almas, isto é, de fazê-las interagir com ele, e a segunda é que, por meio da visão das almas, e de seus sofrimentos, Dante vai conseguindo, pouco a pouco, livrar-se dos seus pecados e conforme vai mudando de reino, vai se aproximando mais da salvação.

O fato de DA ser autor e personagem de sua obra auxilia no sentido dela ter um sentido de maior realismo. É ele mesmo, personagem, que vai dialogar com os mortos, uma vez que ele entra em contato com eles e, por vezes, sendo o portador das notícias do outro mundo aos vivos. É o que Asor Rosa declara em:

[...] a presença de Dante em primeira pessoa, em função de protagonista inclusive, dentro da obra, serve não apenas para assegurar-lhe uma unidade estrutural, colocando-se como fio condutor entre episódio e episódio, mas dá vida e força de persuasão e de autenticidade humana naquilo que nela se desenvolve.19(ASOR ROSA: 1985, p. 58) (TP)

Essa ideia é reforçada em sua obra, conforme afirmam Cataldi e Luperini, na representação de uma história que contém um certo realismo:

O fato é que Dante apresenta a Commedia como uma história verídica. O grande realismo da sua arte se liga antes de tudo a este fato. Dante apresenta a história como verídica em um duplo sentido: como história de uma viagem verdadeira realizada por Dante (por isso são verdadeiras as coisas as que ele se cita quanto as condição do além) e como história alegórica de um itinerário espiritual realizado por Dante, do pecado e da perdição ao arrependimento e à salvação.20 (CATALDI E LUPERINI: 1994, p. 3) (TP)

Dante, autor da DC faz seu personagem homônimo observar, no Inferno, circunstâncias que ultrapassaram em muito a sua própria experiência humana. Isso

19“[...] la presenza di Dante in prima persona, in funzione di protagonista addirittura, dentro l’opera,

serve non soltanto ad assicurarle una unità strutturale, ponendosi come filo conduttore tra episodio e episodio, ma dà vita e forza di persuasione e di autenticità umana a quanto in essa si svolge”. (ASOR ROSA: 1985, p. 58)

20“Il fatto è che Dante presenta la

Commedia come un racconto veritiero. Il grande realismo della sua arte si lega innanzitutto a questo fatto. Dante presenta il racconto come veritiero in un duplice senso: come racconto di un viaggio vero compiuto da Dante (per cui sono vere le cose che egli riferisce quanto alle

condizioni dell’aldilà) e come racconto allegorico di un itinerario spirituale compiuto da Dante, dal

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auxilia na compreensão de que o poema dantesco não se trata apenas de uma obra autobiográfica, conforme afirmam Cataldi e Luperini a esse respeito:

Portanto o personagem-Dante é carregado de um sentido que vai além do seu caráter biográfico ou autobiográfico. A Commedia não é, então, somente uma obra autobiográfica: é também (e principalmente) a epopeia da humanidade em marcha na direção da árdua meta da Graça e da Salvação.21(CATALDI E LUPERINI: 1994, p. 4) (TP)

A composição de cada uma dessas partes internas do poema dantesco é exposta a seguir visando à reflexão sobre os elementos do enredo poético tecido por DA. Assim, como dito anteriormente, Dante personagem é guiado por Virgílio e Beatriz, o poeta latino simbolizando a razão e a sabedoria terrenas e a mulher-anjo de obras dantescas anteriores à D.C. como, por exemplo, Vita Nuova simbolizando a fé. Virgílio é o guia até seu ingresso para a salvação, ou seja, até o Paraíso, impedido de salvar a si próprio, por não ser cristão, como mencionado anteriormente nesta subseção. Beatriz o acompanha até o céu mais alto, ou seja, até seu encontro com Deus.

Deste modo, a trama tem seu início em uma selva escura, onde DA se vê sozinho, tendo aproximadamente 35 anos de idade: “Nel mezzo del cammin di nostra vita [...]”22 (Inf I, v. 1). Fato que se deve salientar é que até o Canto 3 do livro Inferno, DA ainda não se concebe como um personagem.

Ele entra nessa selva, depara-se com três feras, a onça, o leão e a loba, as quais representam, respectivamente, os símbolos da luxúria, da soberba, da avareza e da inveja, que o estão olhando. Posteriormente, DA desmaia, enquanto passa pelo rio Aqueronte: “e caddi come l’uom cui sonno piglia.”23

(Inf III, v. 136). Pode-se afirmar que este desmaio sofrido por ele não foi somente um simples desmaio, mas sim um desmaio moral, ou seja, o poeta percebe a semelhança entre seus próprios pecados e os que ele está observando por onde passa; ele só pode encontrar a salvação para seus

21“Il personaggio-Dante è dunque caricato di un senso che va al di là del suo carattere biografico o

autobiografico. La Commedia non è, allora, solo un’opera autobiografica: è anche (e soprattutto) l’epopea

dell’umanità in cammino verso la faticosa meta della Grazia e della Salvezza”. (CATALDI E LUPERINI: 1994, p. 4)

22

No meio do caminho em nossa vida” (Inf I, v. 1)

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pecados se seguir por esse caminho desconhecido, passando pelos três reinos, o do Inf, o do Purg e o do Par. Nesses reinos, ele pode observar: quais são as consequências dos atos pecaminosos, no Inf, onde não se tem a possibilidade de redenção; de que modo ocorre a purificação das almas que estão no Purg; e finalmente, como se dá a salvação das almas do Paraíso.

Retornando ao desmaio de DA, o poeta romano Virgílio vem em seu socorro, que é o guia da razão, que inicia junto ao poeta florentino o percurso pelo Inf. Visando auxiliar o estudo, que será apresentado mais adiante, quando serão tratadas as ilustrações e pinturas de Alberto Martini para a edição da DC, é oportuno explicar a passagem de Dante pelos reinos representados nesse poema. Assim, explicarei como é a viagem do personagem Dante, a estrutura do reino e também as punições às almas condenadas; a purificação das almas no Purg, e, ainda, a bem-aventurança das almas no Par. Assim, seguem abaixo as descrições do tema de cada um dos cantos dos reinos da DC: Inf, Purg e Par, respectivamente.

1.2. A arquitetura da Divina Comédia

[...] Dante acredita firmemente, o valor exemplar de uma extraordinária experiência humana imaginada e proposta como altíssimo testemunho de fé e rigor moral, capaz de compreender os temores, as expectativas, as inquietudes profundas do homem (não somente da Idade Média) e de sugerir respostas que somente em uma primeira leitura podem parecer ligadas a uma metafísica e a uma mística já distanciadas de nós. «O milagre da Comédia – escreve Siro Chimenz -, único entre todas as obras poéticas de qualquer literatura, é de ter dado voz e unidade poética a uma esfera de interesse humano que parece imensurável». (MALATO: 2015, p. 255 - 256)24 (TP)

24 “[...] Dante fermamente crede, il valore esemplare di una straordinaria esperienza umana viene

immaginata e proposta come altissima testimonianza di fede e di rigore morale, capace di cogliere i timori, le attese, le inquietudini profonde dell’uomo (non soltanto del Medioevo) e di suggerire risposte che solo in prima lettura possono apparire legate a una metafisica e a una mistica ormai lontane da noi. «Il miracolo della Commedia – scrive Siro Chimenz -, unico fra tutte le opere poetiche di qualsiasi

letteratura, è di aver dato voce e unità poetica a una sfera d’interessi umani che pare immensurabile»”.

Referências

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