UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
O USO DO DIMINUTIVO EM UMA INTERAÇÃO FACE A FACE:
ANÁLISE COMPARATIVA EM CORPORA ORAIS DAS VARIANTES
MADRILENA E CARIOCA
Camilla Guimarães Santero
Dissertação de Mestrado apresentada ao Pro-grama de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro co-mo quesito para a obtenção do Título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola)
Orientadora: Profª. Drª. Leticia Rebollo Couto
O USO DO DIMINUTIVO EM UMA INTERAÇÃO FACE A FACE:
ANÁLISE COMPARATIVA EM CORPORA ORAIS DAS VARIANTES
MADRILENA E CARIOCA
Camilla Guimarães Santero
Orientadora: Leticia Rebollo Couto
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos mínimos para a obtenção do Título de Mestre em Letras Neolatinas (Es-tudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola)
Aprovada por:
______________________________________________________________________ Presidente, Profª. Doutora Leticia Rebollo Couto
______________________________________________________________________ Prof. Doutor Carlos Alexandre Gonçalves - UFRJ
______________________________________________________________________ Profª. Doutora Maria do Carmo Leite de Oliveira – PUC-RJ
______________________________________________________________________ Profª. Doutora Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold, Suplente
______________________________________________________________________ Profª. Doutora Célia Regina dos Santos Lopes, Suplente
Santero, Camilla Guimarães.
O uso do Diminutivo em uma interação face a face: análise comparativa em cor-pora orais das variantes madrilena e carioca/ Camilla Guimarães Santero. – Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2011.
xviii,82f.: Il.; 31 cm. Orientadora: Leticia Rebollo Couto.
Dissertação (mestrado) – UFRJ/ FL/ Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas (Língua Espanhola), 2011.
Referências Bibliográficas: f. 80- 82.
AGRADECIMENTOS
No decorrer desses dois longos anos da minha vida, dos quais dediquei grande parte no desenvolvimento da minha dissertação, pude contar com o trabalho, o conhe-cimento e a paciência de muitas pessoas. É a elas que dedico essas linhas expressando a minha mais profunda gratidão.
Em primeiro lugar agradeço a Deus a graça da vida e todas as bênçãos que Ele derrama diariamente sobre mim, incluindo o meu mestrado.
Agradeço aos meus pais porque são meu porto seguro. Dois pilares que me man-têm firme e não me deixam esmorecer. Agradeço a minha mãe pelas inúmeras vezes em que se ofereceu para me ajudar a fichar um texto e ao meu pai que todas as vezes que me via um dia inteiro no computador vinha com um chocolate para “adoçar” o meu dia.
A minha irmã pelo infinito amor. Por ser sempre ouvidos mesmo sem entender uma palavra sobre as questões da minha dissertação.
Ao meu noivo, por se abdicar de tantas coisas em função dos meus afazeres, por compreender minha ausência e me amar sem restrições.
A todos os meus amigos que sempre me deram uma palavra de ânimo, modifica-ram datas em função dos meus horários e aguentamodifica-ram conversar sobre o único assunto que eu tinha: minha dissertação.
Aos amigos da faculdade, em especial a Carolina Parrini e o Leonardo Lennertz, por todo o tempo cedido, por todas as bibliografias, por me fazerem companhia no mundo acadêmico e compartilharem todos os sentimentos que envolvem a feitura de uma dissertação.
À Professora Leticia Rebollo Couto, que me despertou o interesse pela Língua Espanhola ainda na graduação. Agradeço-lhe por ter me aceitado como orientanda e ter me ensinado tantas coisas.
À Professora Maria do Carmo Leite de Oliveira, por ter me proporcionado gran-des prazeres com a Pragmática e a Polidez Linguística. Agradeço-lhe por ser o exemplo da professora que eu quero me tornar.
Aos Professores Carlos Alexandre Gonçalves e Maria Mercedes Sebold tão solí-citos sempre.
RESUMO
O USO DO DIMINUTIVO EM UMA INTERAÇÃO FACE A FACE: ANÁLISE COMPARATIVA EM CORPORA ORAIS DAS VARIANTES
MADRILENA E CARIOCA
Camilla Guimarães Santero
Orientadora: Leticia Rebollo Couto
Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).
Este trabalho descritivo-contrastivo tem por objetivo identificar quais as funções mor-fopragmáticas dos diminutivos de base substantiva concreta que aparecem na atividade entrevista sociolinguística e observar se as formações diminutivas estão a serviço da construção de face do entrevistado para confrontar seus usos na variante carioca do por-tuguês e na variante madrilena do espanhol. Para tanto foram analisadas doze entrevis-tas, sendo seis do projeto NURC-RJ e seis do projeto PRESEEA. Foram selecionados três homens e três mulheres de cada variante, todos com nível superior completo, com idade entre 23 e 32 anos. Os dados foram analisados com base nos pressupostos teóricos da Morfopragmática e da Teoria de elaboração de faces. Os resultados mostraram que os diminutivos não são apenas um atenuador de atos de ameaça (um recurso de polidez), mas também um recurso a serviço do trabalho de construção de face. Enquanto os dimi-nutivos do corpus carioca aparecem majoritariamente com função pragmática, o que há no corpus madrileno é ainda um uso canônico dos diminutivos indicando dimensão.
RESUMEN
O USO DO DIMINUTIVO EM UMA INTERAÇÃO FACE A FACE: ANÁLISE COMPARATIVA EM CORPORA ORAIS DAS VARIANTES
MADRILENA E CARIOCA
Camilla Guimarães Santero
Orientadora: Leticia Rebollo Couto
Resumen da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).
El propósito de este trabajo es identificar cuáles son las funciones morfopragmá-ticas de los diminutivos de base sustantiva concreta y observar si las formaciones dimi-nutivas están al servicio de la construcción de imagen de los entrevistados para confron-tar los usos en la variante carioca del portugués y la variante madrileña del español. Para ello, han sido analizadas doce entrevistas – seis del proyecto NURC-RJ y seis del pro-yecto PRESEEA. Han sido seleccionados tres hombres y tres mujeres de cada variante, todos con escolaridad superior completa y con edad entre 23 y 32 años. Los datos han sido analizados según los presupuestos teóricos de la Morfopragmática y la Teoría de la Actividad de Imágenes. Los resultados demostraron que los diminutivos no son única-mente un atenuante de los actos de amenaza (un recurso de la cortesía), sino que están al servicio de la construcción de imagen. Mientras los diminutivos del corpus carioca apa-recieron con función mayoritariamente pragmática, lo que hay en el corpus madrileño es, todavía, un uso canónico de los diminutivos señalando dimensión.
Palabras clave: Diminutivos, Morfopragmática y Actividad de Imágenes.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Página
Quadro 1 – Sufixos do português por Cunha e Cintra (2001, p. 90-91)...14
Quadro 2 – Sufixos do espanhol por Bosque e Ignacio (1999 , p.4645-4682)...14
Quadro 3 – Relação de Atenuação e Distância Interpessoal proposta por Juana Puga (1997, p.113)...24
Quadro 4 – Síntese da proposta de modelo contextual para a análise morfopragmática deste trabalho...32
Tabela 1- Número de palavras das entrevistas para o NURC-RJ e PRESEEA-Alcalá de Henares...36
Tabela 2- Total de diminutivos em cada entrevista sociolingüística...37
Gráfico 1- Variante Carioca (total de diminutivos presente no corpus versus diminuti-vos de base substantiva concreta)...38
Gráfico 2- Variante Madrilena total de diminutivos presente no corpusversus diminuti-vos de base substantiva concreta...39
Quadro 5 –Diminutivos de classe gramatical ≠ de substantivo concreto...40
Quadro 6 – Formações diminutivas com sufixos em Espanhol que não -ito e –illo...41
Quadro 7 – Proposta comparativa de ethos nas variantes culturais analisadas...44
Gráfico 3 – Resultado das categorias morfopragmáticas no corpus carioca...58
Gráfico 4 – Resultado das categorias morfopragmáticas no corpus madrileno...76
SUMÁRIO
Página
INTRODUÇÃO...10
1 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS...14
1.1A Multifuncionalidade Pragmática dos Diminutivos...17
1.2O Uso do Diminutivo como Fator de Interação Social...21
1.2.1 A Face...22
1.2.2 A Atenuação...24
1.3Considerações Teóricas...26
2 PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS...31
2.1Modelo de Análise: Uma categorização morfopragmática...31
2.2Os diminutivos nos corpora...35
2.3O Ethos das Variantes Madrilena e Carioca...42
3 OS USOS DO DIMINUTIVO NA VARIANTE CARIOCA...46
3.1O Diminutivo no corpus das Mulheres da Variante Carioca...46
3.1.1 Afeto Negativo...49
3.1.2 Afeto Positivo...52
3.2O Diminutivo no corpus dos Homens da Variante Carioca...56
4 OS USOS DO DIMINUTIVO NA VARIANTE MADRILENA...59
4.1O Diminutivo no corpus das Mulheres da Variante Madrilena...59
4.1.1 Usos Referenciais...62
4.1.2 Afeto Negativo...64
4.1.3 Afeto Positivo...67
4.1.4 Atenuantes...68
4.2O Diminutivo no corpus dos Homens da Variante Madrilena...69
4.2.1 Usos Referenciais...71
4.2.3 Atenuantes...74
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...77
INTRODUÇÃO
A literatura sobre o diminutivo tem contemplado tradicionalmente uma questão mais morfológica e semântica; quando fazem alguma diferenciação entre os usos refe-renciais e subjetivos, as gramáticas portuguesa e espanhola não vão além do que prevê a semântica.
Atualmente, o que se assinala sobre os diminutivos é que muitas vezes aparecem como minimizadores (atenuantes) e que, tanto em português quanto em espanhol, nem sempre aparecem com valor de dimensão podendo associar-se a conotações afetivas, irônicas e até mesmo realizações cristalizadas (lexicalizações). No entanto esse fenôme-no de variação morfopragmática ainda não está totalmente descrito.
Em linhas gerais, as Gramáticas da Língua Portuguesa tratam os diminutivos como expressão do grau; Gonçalves (2005) salienta que as variações formais do grau diminutivo são as mais controversas na literatura linguística sobre o português, pois as abordagens não se mostram coerentes tanto na sua categorização como processo morfo-lógico quanto na determinação dos significados que veiculam.
Já as Gramáticas da Língua Espanhola, além da idéia de redução de tamanho, consideram uma conotação afetiva, bem como a possibilidade do diminutivo vir associ-ado a um valor depreciativo; no entanto, tais caracterizações são apresentadas como fixas e isoladas, ou seja, como se cada sufixo diminutivo carregasse um valor intrínseco, o que se desconstrói na prática linguística.
As gramáticas de ambas as línguas consideram os valores afetivos, pejorativos, apreciativos etc., como secundários. Contrariamente à atenção que as gramáticas norma-tivas dão a esses valores dos diminutivos, os falantes de ambos os sistemas não só usam tais formações nas mais variadas situações, como também as relacionam a outros valo-res que não a mera diminuição daquilo a que se referem.
Estudos recentes buscam relatar os usos desses sufixos na interação social, ob-servando quais funções os diminutivos assumem nas diversas comunidades de fala
(BRAVO, 2005); logo, uma análise pragmática dos diminutivos permitem não só des-crever o uso que os falantes fazem dos diminutivos, mas também reconhecer traços ca-racterísticos de suas variantes, afinal as escolhas lexicais são intrínsecas à comunidade da qual fazem parte.
Em sua forma sintética, o uso dos diminutivos é um recurso morfológico muito produtivo tanto em português quanto em espanhol; mais que expressar a redução de tamanho, a formação de diminutivos, por sufixação, revela um potencial de significação que extrapola a palavra base. Portanto, tratar dos diminutivos sem considerar sua di-mensão pragmática significaria perder parte do seu potencial discursivo.
Segundo Reynoso Noverón (2005), a natureza pragmática dos diminutivos ex-plica, dentre outras coisas, a essência polissêmica dos afixos em termos das necessida-des comunicativas do falante; isto porque tais afixos revelam a maneira como o falante representa seu referente, seu interlocutor e ele próprio.
Assim, as formas diminutivas podem funcionar como mecanismos de dêixis so-cial, desempenhando um papel importante para marcar e construir as relações interpes-soais; isto porque tais formas podem constituir a codificação linguística dos papéis soci-ais dos interactantes e da relação que existe entre eles, revelando muitas vezes as hierar-quias sociais de uma dada comunidade.
Tanto em espanhol como em português, o diminutivo é um marcador pragmático altamente flexível e, em muitos contextos, com força de polidez em interações face a face; a realização diminutiva em ambos os sistemas apresenta um condicionamento pragmático ao revelar-se cultural e situacionalmente determinado.
Além do(s) significado(s) que possa(m) ser atribuído(s) aos morfemas diminuti-vos, o uso desta marcação também indica um tipo especial de relação que o falante esta-belece com o mundo ao seu redor, com seu(s) interlocutor(es) e com a entidade diminu-ída. Por este motivo é importante estudar os diminutivos a partir das realizações do fa-lante, observando em que situações de uso e com que finalidade esses afixos aparecem nas entrevistas sociolinguísticas.
Beinhauer (in MORTON, 1985), Alonso (1967), Koike (1992) e Soler Espianuba (1996), além de serem os mais frequentes nas entrevistas sociolingüísticas.
A visão morfopragmática sobre os diminutivos não é inovadora, embora ainda seja pouco explorada, principalmente quando se trata de corpus oral, de um recorte es-pecífico do objeto a ser investigado, nesse caso os substantivos concretos, e de análise contrastiva entre as variantes do espanhol e do português; assim, este estudo descritivo-contrastivo visa analisar como a dimensão pragmática dos diminutivos emerge em en-trevistas sociolinguísticas em português e em espanhol, e até que ponto os usos conver-gem.
A pesquisa justifica-se por faltarem estudos contrastivos que possam contribuir para um maior conhecimento sobre como os diminutivos funcionam em variantes lin-guísticas do português e espanhol, com respeito aos seus usos e valores, principalmente porque a opção é investigar somente as formações de base substantiva concreta, o que permitirá uma contraposição entre os usos subjetivos e referenciais.
A hipótese é que os diminutivos, cuja base é um substantivo concreto, são um mecanismo de derivação que funciona pragmaticamente como pistas contextuais
(GUMPERZ, in GARCEZ, RIBEIRO, 2002) dos interactantes na construção de ima-gens nas variantes carioca do português e madrilena do espanhol.
Para identificar e descrever a função dos diminutivos nos corpora orais foram investigados como seis homens e seis mulheres das variantes carioca e madrilena, entre 23 e 32 anos, se valem das formações diminutivas no trabalho de face desenvolvido na atividade em questão – a entrevista sociolinguística.
Tendo em vista que tanto o falante do espanhol como o do português pode usar os diminutivos sintéticos para referir-se à dimensão da entidade e/ou à valoração de sua subjetividade (REYNOSO NOVERÓN, op. cit.), o estudo tem por objetivo analisar e comparar os usos referenciais e subjetivos da formação diminutiva em ambas as varian-tes, para saber como funcionam dentro de uma interação e se estão a serviço da elabora-ção de face dos participantes.
de análise utilizado por Ezarani (1989) e Turunem (2009), para que se tornassem apli-cáveis à presente pesquisa.
Sobre a organização didática do trabalho, o primeiro capítulo enfoca os pressu-postos teóricos; o segundo capítulo trata de questões metodológicas; o terceiro capítulo apresenta a análise e os resultados da pesquisa em português; o quarto capítulo apresen-ta a análise e os resulapresen-tados da pesquisa em espanhol. A título de conclusão seguem bre-ves considerações finais.
1 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Neste capítulo serão descritos os morfemas diminutivos do português e do espa-nhol que, em isolado, não revelam todo o potencial que possuem em uma interação; com ênfase à morfopragmática e ao trabalho de elaboração de face, passando pelos sufi-xos diminutivos de ambas as variantes madrilena e carioca, é explorado o potencial sig-nificativo que os sufixos -ito, -illo e -inho assumem ao serem usados pelos falantes nas entrevistas sociolinguísticas
Embora inexista Gramática que não aborde os diminutivos, em geral as gramáti-cas não ultrapassam a mera listagem dos sufixos diminutivos com breves comentários dos aspectos semânticos, quando há, e nenhuma consideração dos pragmáticos; essa afirmação vale para ambas as línguas, portuguesa e espanhola.
A gramática da Língua Portuguesa de Cunha e Cintra (2001) apresenta os 21 principais sufixos diminutivos empregados no português e associa o -inho /a ao sufixo
-inus do latim.
Quadro 1 – Sufixos do português por Cunha e Cintra (2001, p. 90-91).
-inho/a; -zinho/a; -ino/a; -im; -acho/a; -icho/a; -ucho/a; -ebre; -eco/a; -ico/a; -ela;
-elho/a; -ejo; -ilho/a, -ete; -eto/a; -ito/a, -zito/a; -ote/a; -isco/a; -usco/a; -ola
Na gramática da Língua Espanhola de Bosque e Ignacio (1999) os sete sufixos diminutivos elencados são:
Quadro 2 – Sufixos do espanhol por Bosque e Ignacio (1999 , p.4645-4682).
-ito/a; -ico/a; -illo/a; -ete/a; -ín/a; -ejo/a; uelo/a
Em seu ensaio sobre a expressão afetiva no espanhol coloquial, Beinhauer (op. cit.) afirma que os sufixos diminutivos são o quebra cabeça de todas as gramáticas e métodos do espanhol.
Gali-cia. A lista de sufixos da gramática da Real Academia se mostra muito mais extensa que a de Bosque e Ignacio (1999) porque considera os infixos como parte integrante dos sufixos.
Com ênfase à frequência de uso em detrimento das inúmeras regras sobre a for-mação desses derivados, Beinhauer (op. cit.), afirma que só assim será possível uma sistematização para o estudo dos mesmos; e, ao tratar de cada sufixo diminutivo em espanhol, deixa de lado os sufixos depreciativos porque, no seu entendimento, não têm vida própria, já que estão quase sempre em palavras invariáveis (comistrajo = comida ruim), com ressalva ao sufixo –ejo, que mantém sua vitalidade, como no exemplo: un libro medianejo = livro ruim , que possui uma qualidade inferior.
Muitos diminutivos são ligados à base por meio de infixos como -c- ou -ec- em terminações como -ito, -illo, -ico e -uelo. Os sufixos -ete, -eto e -ote, que são apresenta-dos pela Gramática da Real Academia Espanhola como sufixos diminutivos, são usaapresenta-dos com valor depreciativo. Já o sufixo -eta, feminino de -ete, aparece em palavras indepen-dentes, sem qualquer relação com a base cuna ≠ cuneta. Há ainda o sufixo -olo, que caiu em desuso por não desempenhar uma função expressiva, sua freqüente aparição dá origem a outros nomes Manuel – Manolo.
Segundo Beinhauer (op. cit.), restam os sufixos -ito, -illo, -ico, -uelo, sendo -ico
uma variante popular regional de –ito; sobre o sufixo -uelo, afirma que, atualmente, é muito mais frequente sua função depreciativa (mujerzuela) que diminutiva, sendo muito rara sua aparição se comparada aos sufixos -illo e –ito; para ele, -ito desempenha uma função majoritariamente diminutiva (un librito = um livro pequeno), assim como -illo, que, além da função dimensional, pode comportar com freqüência um valor subjetivo (pobrecillo = digno de compaixão).
Sobre os sufixos do espanhol, Alonso (op. cit.) comenta que -illo parece ser mais usado por classes sociais de menos prestígio enquanto que -ito é preferido pelas classes mais prestigiadas; contudo, revela não haver uma definição tão rígida quanto às classes ou valores que cada sufixo representa; segundo ele, o sufixo -illo ora funciona como expressão de afeto negativo, ora como afeto positivo; conclui que o que vai determinar a função que cada sufixo assume é o falante e sua subjetividade, que reflete a tensão exis-tente entre o sujeito e o objeto.
às analíticas (construções sintáticas como casa pequena); algumas gramáticas (ROCHA LIMA, 2006; BECHARA, 2005) destacam o fato de os afixos diminutivos não expres-sarem unicamente tamanho, no entanto, não detalham essa afirmação apresentando os outros usos do sufixo diminutivo.
Para Rocha (apud GONÇALVES, op. cit.), a afetividade está sempre presente na sufixação gradual, porém a idéia de diminuição pode estar presente ou não, como o caso de timinho que tende a veicular conteúdos pejorativos; Loures (apud GONÇALVES, op. cit.) também destaca a função afetiva como particular valor subjetivo dos sufixos dimi-nutivos, não expressando necessariamente a sua dimensão, mas a afetividade positiva
cachorrinho ou negativa leizinha do falante.
Dito de outra maneira, os morfólogos vêem como a principal função dos afixos diminutivos a de realçar qualidade e/ou quantidade, segundo os padrões individuais e subjetivos do falante; as pesquisas linguísticas indicam que os diminutivos apresentam função atitudinal e, por isso, tendem a atuar na interface morfologia-pragmática. Assim, os diminutivos:
[...] dependem de fatores como (a) o nível de envolvimento entre falante e ou-vinte; (b) os propósitos comunicativos do emissor diante da audiência; e (c) o grau de formalidade do discurso. Dependentes da situação comunicativa, os significados dos afixos de grau, utilizando as palavras de Levinson (1983, p.23) “são negociáveis na transação conversacional. (GONÇALVES, op. cit., p.165)
Alonso (op. cit., p. 198) ressalta o caráter predominantemente afetivo dos afixos diminutivos em espanhol, que se dá através da representação afetivo-imaginativa do objeto; quando o sentido central é realmente diminuição, a idéia de redução de tamanho se faz por outros recursos.
cajita pequeña; una cosita de nada
[caixinha pequena; uma coisinha de nada]
seja, não é tanto uma relação entre significado e significante, mas é o juízo de valor do falante sobre o objeto referido. E continua seu argumento a favor da preponderância das representações da fantasia que, para ele, está intimamente ligada à emoção através do afeto e da valorização do objeto.
A classificação que Alonso (op. cit) propunha para os diminutivos sintéticos era dividida em três grandes grupos: (i) Hacia el objeto nombrado o lo dicho (estético-valorativo, nocionales, emocionales, de frase), (ii) Hacia el interlocutor (de cortesía, afectivo-activo, efusivo) e (iii) Hacia ambos a la vez (representacionales elocuentes). Uma aproximação desta classificação em português seria como: (i) formação diminutiva voltada ao referente, (ii) formação diminutiva voltada ao interlocutor e (iii) formação diminutiva voltada a ambos ao mesmo tempo.
Os diminutivos nocionais de Alonso (op. cit), ou seja, os voltados ao objeto refe-rido, dizem sobre o que nos afeta – visão subjetiva (Entre usted despacito.), os emocio-nais compreendem o domínio da estima e do intelectual, ainda que não exista um valor sem sua correspondente emoção nem emoção que não suponha um valor (Teatrillo, no, teatrito.). Os diminutivos de frase expressam um estado de ânimo – o falante joga com as palavras (Ya tendremos que aguardar unos añitos.), os estético-valorativos contem-plam o objeto (Quiero la calle mansa com las balaustraditas repartiéndose el cielo.).
Com os sufixos voltados para o interlocutor, Amado Alonso apresenta os afeti-vo-ativos, que são os vocativos (São Cristobalito), os de polidez, que o conteúdo se dirige ao ouvinte, porém ao invés de pressionar com uma manifestação de afeto, se trata de uma atenuação polida (¿Por qué eres tan arrisquilla conmigo?). Os efusivos exclu-em os diminutivos intencionalmente ativos (No me tires con piedritas que me vas a la s-timar.). E por último os representacionais eloquentes que são diminutivos de ação, em que a emoção é substituída pela fantasia, possuem um forte caráter representacional (Entre de rodillitas.)
Alonso (op. cit.) adverte que, apesar da denominação “diminutivos”, esta é a função menos frequente tanto na língua escrita quanto na oral.
1.1 A Multifuncionalidade Pragmática dos Diminutivos
Segundo Alonso (1951), os exemplos abaixo não significam mais velocidade ou menos velocidade, mas polidez; são mais recomendados, voltados ao interlocutor.
Entre usted despacito.
[Entre devagarzinho.]
Vaya deprisita. (ALONSO, op. cit., p.164 e 165) [Vá depressinha.]
Os sufixos diminutivos que contribuem à polidez podem envolver afeto, de mo-do que a intenção estratégica e a afetividade se interpenetrem. Mas podem também apa-recer quando não há afeto entre os interactantes, trata-se de um uso com um fim estraté-gico, que atende às questões sociais de determinada cultura.
En efecto: hay que entender que no se pretende presentar conceptualmente disminuído el pensamiento, como si se quisiera rebajar objetivamente lo declarado (...) Lo que se logra es desdibujar un poco la nitidez de perfiles de la expresión , lo achicado es la expresión, como quien achica la voz y se encoge un poco al decir una cosa demasiado clara. Se ensordina la expresión por me-ra cortesía, no porque se modifique el concepto ni la situación objetiva. Su ofi-cio es, pues, de relación interpersonal y activo. (ALONSO, op. cit., p.213) Na citação acima Alonso (op. cit.) explica que muitas vezes o diminutivos não reduz conceitualmente nada, mas reduz a força do que foi dito, quase como se reduzisse o tom da voz por mera cortesia, trata-se portanto de uma formação diminutiva voltada ao interlocutor, e ativa por ter sido intencional, refletindo um uso estratégico. O autor conclui seu comentário dizendo que os valores mais frequentes desses sufixos são os de afeto e polidez. A escolha por uma forma diminutiva denuncia ainda o que Alonso cha-ma de caráter cultural, ou seja, um comportamento característico nas relações sociais.
A ocorrência abaixo não se refere a uma sopa muito quente, porém afetiva e re-presentacionalmente valoriza a temperatura e o gosto da mesma, referindo-se não a uma intensificação do objeto, mas ao que nos afeta – visão particular e subjetiva do falante.
Me gusta la sopa calentita. (ALONSO, op. cit., p. 165) [Eu gosto da sopa quentinha.]
-¿Y cuándo esperan ustedes conseguir una cátedra?
[E quando vocês pensam conseguir uma cátedra?]
-Ya tendremos que esperar unos añitos. (ALONSO, op. cit., p. 167) [Teremos que esperar uns aninhos.]
O diminutivo revela uma visão subjetiva das alunas, não com relação aos anos, mas ao fato de ter que aguardar uns anos. Para o autor espanhol, muitas vezes os dimi-nutivos de frase, como o demonstrado acima que afeta toda a expressão, funcionam co-mo forças que pressionam o ouvinte. Esses últico-mos direcionados ao interlocutor se sub-dividem em meramente afetivos e intencionalmente ativos. Os diminutivos como estra-tégia da polidez linguística estariam no segundo grupo, o que não significa que os as-pectos ativos e afetivos se oponham ou se excluam; ao contrário, eles coexistem.
Embora o autor em questão não reconheça os sufixos diminutivos como um re-curso pragmático em potencial, ele deu início a uma trajetória que parecia caminhar para a descoberta da função dos diminutivos numa troca interpessoal; de acordo com ele, deve ser levado em conta “ La finalidad activa del lenguaje, su intención de efica-cia, el propósito necesario de influir, sobre la inteligenefica-cia, la sensibilidad y la voluntad
del oyente” (ALONSO, op. cit.); acrescenta que é preciso superar a idéia de que a noção afetiva tem origem na idéia reducional que lhe é atribuída.
Para Cisneros (1959), os sufixos diminutivos conferem valor à palavra que ex-ploram. Bally, Alonso, Diez (apud CISNEROS, 2010), dentre outros, viam nos diminu-tivos um valor semântico e um valor expressivo que dão destaque a determinados con-ceitos, que ponderam, que atenuam, que ironizam, hostilizam, fantasiam etc, diferente e independente da idéia de dimensão. Já autores como Zuluaga Ospina e Wagner(apud
CISNEROS, op. cit.), vão de encontro ao grupo anterior defendendo o aspecto central dos diminutivos como referente à dimensão.
Considerar os afixos diminutivos a partir de uma perspectiva meramente semân-tico-morfológica significa fechar os olhos à maior motivação que resultou em determi-nada forma diminutiva, isto é, o contexto de uso, a língua em funcionamento numa inte-ração. São poucos os estudos que abordam a multifuncionalidade pragmática dos dimi-nutivos; dentre eles, Mariottini e D’Angellis (2006) que aplicam a morfopragmática na análise de um corpus composto por bate-papos virtuais em italiano e espanhol.
Ou ainda Gascón (2008) que analisa os diminutivos como estratégia da polidez verbal em corpora orais de mulheres das variantes madrilena e mexicana e conclui em seu artigo que na fala mexicana os diminutivos são usados em todos os tipos de atos polidos e impolidos enquanto na fala madrilena os diminutivos somente aparecem para atenuar o caráter ameaçador de uma opinião.
Tudo o que extrapola ao dito compete à pragmática; segundo Briz (in BRAVO, 2005, p.54), uma análise pragmática considera, além do conteúdo comunicado, um fa-lante que comunica e que manifesta uma atitude diante do comunicado, e um ouvinte que interpreta o codificado em determinadas circunstâncias comunicativas. Ao definir os estudos pragmalinguísticos como centrados na investigação das formas linguísticas entendidas como estratégias adequadas para se alcançar uma meta, ressalta que os mor-femas diminutivos são uma forma linguística que pode funcionar como pista contextual em uma atividade específica.
De acordo com Dressler e Kiefer (apud GONÇALVES, 2006), como os afixos de grau diminutivo podem desempenhar função atitudinal (função expressiva de avalia-ção do falante em relaavalia-ção à entidade referida) e funavalia-ção indexical (sinalizaavalia-ção dos traços da identidade do falante), tendem a atuar na interface morfologia-pragmática.
Para Kiefer (in SPENCER, ZWICKY, 2001), a morfopragmática é um estudo que relaciona morfologia e pragmática, sendo a morfologia pragmaticamente relevante na medida em que os afixos podem funcionar como indicadores da situação e/ou evento discursivo.
Vale ressaltar que situação discursiva é entendida como o papel desempenhado pelos participantes em dada atividade de fala; e evento discursivo como as ações e inte-rações verbais e não verbais dos participantes.
que os afixos diminutivos parecem ser mais produtivos no âmbito pragmático graças ao seu caráter avaliativo.
Em suma, tanto no português quanto no espanhol, as formas analíticas são as mais usadas quando se quer expressar dimensão, cabendo às formas sintéticas uma vari-edade de funções avaliativas, subjetivas e interacionais, pois podem funcionar como modalizadores e são empregados para determinar o caráter (de colaboração ou de anta-gonismo) da interação e para regular o uso dos diferentes fatores pragmáticos que ope-ram nos atos de fala. Esses casos incidem sobre a relação do falante com a entidade re-ferida, com o interlocutor ou com a atividade como um todo.
O termo “atividade” é entendido neste trabalho como qualquer atividade socia l-mente constituída e culturall-mente reconhecida, orientada para uma meta. Segundo Sa-rangi (2000), o tipo de atividade caracteriza o encontro social; para Levinson (1992), um tipo de atividade determina, em parte, o papel da linguagem em termos de estraté-gias ou procedimentos cabíveis; por exemplo, as perguntas feitas dentro da atividade entrevista sociolingüística, possuem especificidades moldadas pela própria atividade, ou seja, as interpretações são balizadas pelo tipo de atividade.
1.2 O Uso do Diminutivo como Fator de Interação Social
Se, aparentemente, o uso dos diminutivos responde exclusivamente a necessida-des semânticas e estilísticas, a análise do uso dos diminutivos permite observar regula-ridades na adequação ao contexto discursivo no qual estas formas funcionam como in-dicadores do footing (GOFFMAN, in GARCEZ, RIBEIRO, 2002) do falante, ou seja, indicadores da projeção pessoal do falante na fala em interação. Através dos diminuti-vos, o falante codifica sua idiossincrasia cultural e revela o modo como enquadrou de-terminada atividade; por esta razão é um importante fenômeno pragmático de comuni-cação.
Como será discutido, os diminutivos podem atenuar com o fim de gerar uma a-proximação entre os interlocutores (atenuante polido) ou ainda com outros fins que não o da polidez. Estes últimos são fins estratégicos para se alcançar um objetivo comunica-tivo – o falante faz um distanciamento linguístico para favorecer a aceitação do ouvinte. No entanto, a atividade entrevista sociolinguística pode retratar usos diminutivos que não atenuem atos de ameaça, como defendido por Brown e Levinson (op. cit.), mas que servem ao trabalho de construção de face dos entrevistados, revelando suas opini-ões, qualidades e, consequentemente, delineando a face dos mesmos através de narra-ções, descrições e argumentações. Ainda que os diminutivos possam desempenhar a função de atenuantes, nas entrevistas sociolinguísticas eles praticamente não aparecem devido a baixa incidência de atos diretivos na atividade em questão.
1.2.1 A Face
O uso do morfema diminutivo é pragmaticamente relevante, porque ao expressar julgamentos é seguido, normalmente, pela aprovação ou rejeição do interactante. Logo, enunciar juízos de valor envolve certo risco – de ter sua opinião confirmada ou não pelo interlocutor – e, consequentemente, implica o trabalho de faces (GOFFMAN, in
FIGUEIRA, 1980).
Segundo Tannen e Wallat (in GARCEZ, RIBEIRO, 2002), numa interação cada in-terlocutor traz um esquema de conhecimento, ou seja, uma expectativa acerca das pes-soas, objetos, eventos e demais elementos envolvidos na troca comunicativa, bem como as informações buscadas ao longo desse processo; quando informados a respeito de seu interactante, escolhem o que julgam ser o melhor modo de interagir para atingirem qualquer que seja seu objetivo comunicativo, seja ele interpessoal (troca mais informal, com uma finalidade menos definida) ou transacional, em que a finalidade comunicativa está bem definida o que eleva a troca a um nível mais formal (BRIZ, 1998).
Quando um indivíduo desempenha um papel, implicitamente solicita a seus observadores que levem a sério a impressão sustentada perante eles. Pede-lhes para acreditarem que o personagem que veem no momento possui os a-tributos que aparenta possuir, que o papel que representa terá as consequên-cias implicitamente pretendidas por ele, e que, de um modo geral, as coisas são o que parecem ser. (GOFFMAN, 2009, p.25)
sobre a situação, por conseguinte, submetendo o outro e a si próprio à avaliação. Essa linha afeta o outro que, por seu turno, atribuirá ao interlocutor uma imagem pública, uma face coerente com o que ele presume ser a linha tomada por seu interlocutor; logo, a face é um atributo social constantemente negociado no fluxo dos eventos de um en-contro específico, que só se torna manifesto quando estes eventos são interpretados a partir das avaliações que neles se expressam (GOFFMAN, op. cit.).
Deste modo, o trabalho de face é uma ação realizada (linha) para sustentar a fa-ce: mantê-la implica ter adotado uma linha coerente com a anterior; perdê-la significa não conseguir integrar à face que estava sendo sustentada a nova informação sobre seu valor social. A possibilidade de ameaça a uma das faces envolvidas na interação gera o trabalho de face que, nesse caso, está a serviço da polidez; no entanto, o trabalho de face pode extrapolar a polidez e ser desenvolvido com a finalidade de construção da imagem pública do falante.
Para os participantes de uma interação, muitas informações são explicitadas por diferentes elementos verbais, não-verbais, paraverbais, etc, servindo à polidez ou à pró-pria construção de face do interlocutor. Os diminutivos são elementos verbais que po-dem funcionar como pistas de contextualização (GUMPERZ (1982) in GARCEZ e RIBEIRO, 2002), sinalizando pressuposições contextuais que influirão na interpretação do interlocutor.
As pistas contextuais, como os diminutivos por exemplo, só assumem significa-ção dentro de um contexto. Ou seja, um diminutivo pode funcionar como marca de afe-tividade e informalidade interpessoal em uma conversa entre amigos, mas a mesma formação pode desempenhar a função de um atenuante em outro contexto.
As pistas de contextualização são coerentes com o alinhamento tomado pelo falante em sua relação com o outro. O footing (GOFFMAN (1979) in GARCEZ e RIBEIRO, op. cit) ou alinhamento é a projeção pessoal do participante em uma dada interação. Uma mudança de footing implica a mudança de todos os participantes, ex-pressa no modo como se produz ou recebe uma elocução. Segundo Goffman (in
A mudança de footing pode vir vinculada à linguagem, de modo que o uso de um diminutivo pode indicar a mudança de uma postura mais formal [+ distante] a um posicionamento menos formal [+ íntimo], por exemplo, como é o caso do diminutivo quando funciona como um atenuante polido (Briz (2003) in BRAVO, op. cit.) visando à aproximação entre falante e ouvinte.
1.2.2 A Atenuação
A atenuação como uma estratégia conversacional distancia ao mesmo tempo que aproxima socialmente, ou seja, distancia o falante da mensagem e pode aproximá-lo de seu interlocutor. Para Puga (1997, p. 113), esse recurso permite que os interlocutores tomem certa distância dos demais em dada situação comunicativa; como quanto menor a distância interpessoal maior o perigo de ser invadido, isso justifica um uso mais fre-quente da atenuação; já numa troca formal não é necessário recorrer à atenuação, pois os participantes estão mais protegidos de ameaças.
Quadro 3 – Relação de Atenuação e Distância Interpessoal proposta por Juana Puga (1997, p.113) - formalidade = - distância = + atenuação
+ formalidade = + distância = - atenuação
De acordo com Briz (in BRAVO, op. cit.), como uma categoria pragmalinguísti-ca, a atenuação utiliza uma forma linguístipragmalinguísti-ca, no caso o diminutivo, como estratégia de minimização do que foi dito para ser atingida uma meta, o que evidencia que esse recur-so está vinculado a uma atividade argumentativa, de negociação. A atenuação, portanto, está ligada à eficácia e eficiência pragmáticas, tendo uma relação muito maior com a face que com a polidez propriamente dita.
No que implica ao ouvinte, Briz (in BRAVO, op. cit.) afirma que nestes casos também se vela pela imagem do interlocutor, buscando um equilíbrio estratégico que envolva, ou não, a polidez. O concreto é a minimização da força ilocucional em prol do prosseguimento da interação sem maiores tensões, conforme o exemplo abaixo.
Este autor também afirma que a função mais linguística dos atenuantes é a miti-gação estratégica: se reduz o benefício de quem fala, sua contribuição e, consequente-mente, um possível desacordo. O fato de evitar desacordos está associado ao trabalho de elaboração de face, porém, não necessariamente à polidez. Um exemplo dado por ele reflete bem o uso de um diminutivo como atenuante que vela pela face do falante, mas que não se refere à polidez.
¡Mamá! Me he hecho un rotito en el pantalón. (BRIZ, in BRAVO,op. cit.,p. 58). [Mamãe, fiz um rasguinho na minha calça.]
No exemplo acima há uma tentativa de amenizar o ocorrido de modo a não gerar ao falante a perda de sua face através de uma possível recriminação por parte de sua mãe. É um atenuante que tem como objetivo comunicativo argumentar de modo a con-seguir a aceitação do ouvinte, no caso apresentado o diminutivo aumenta a eficácia e eficiência da mensagem. No entanto, em algumas situações a eficácia linguística depen-de da eficácia social, e é aí que entra em jogo o que o autor chama depen-de atividadepen-de atenua-dora estrategicamente polida.
Briz (in BRAVO, op. cit.) pontua as seguintes questões sobre atenuação: (a) os atenuantes estão vinculados às identidades socioculturais e às normas sociais regionais; (b) os atenuantes podem funcionar como estratégias à polidez buscando uma aproxima-ção e equilíbrio entre os interlocutores. Acrescenta que o uso dos atenuantes como estra-tégia de polidez não é frequente nas interações coloquiais espanholas. Já para Albelda Marco (in BRAVO, op. cit.), a função mais frequente da atenuação é a polidez. Logo, se pode concluir que a atenuação não é um fenômeno recorrente no espanhol peninsular.
protege a face do falante para convencer o ouvinte e não aproximá-los socialmente – atenuação estratégica.
Em consonância ao afirmado por Briz (apud BRAVO, op. cit.) sobre atenuação, o trabalho de face também pode aparecer em outro contexto que não o da polidez. Ou seja, há situações em que o interlocutor pode desenvolver o trabalho de face devido à iminência de uma ameaça a alguma das faces envolvidas na interação e, nesse caso, pode usar um atenuante para evitar ou mitigar a ameaça ou, ainda, pode dar início ao trabalho de face para a elaborar a mesma durante a interação. Nesse contexto, não há relação direta com a polidez, mas com a construção da imagem pública do falante.
1.3Considerações Teóricas
Por considerarem que todo contexto interacional deixa as faces vulneráveis, Brown e Levinson (1987) identificaram uma série de estratégias utilizadas para minimi-zar o grau da ameaça de um FTA (Face Threatening Acts). Para tanto levaram em conta três desejos básicos, são eles: o desejo de comunicar o conteúdo do FTA, o desejo de manter a face dos envolvidos na interação e o desejo de ser eficiente e/ou urgente. É bem verdade que quando há um ato que afeta a face do ouvinte entram em jogo questões de polidez, porém não acreditamos que todos os atos sejam ameaçadores e mesmo aque-les que funcionam como tal em determinado contexto podem não o ser em outros. Os atenuantes têm sempre um valor contextual.
Enquanto a teoria clássica da polidez interpreta a relação entre os interlocutores como um desejo genuíno de cooperar, linguistas pós Brown e Levinson (1987) legiti-mam as trocas conflituais e antagônicas de modo a reconhecer que nem sempre o geren-ciamento da interação favorece a harmonia, ou seja, é possível gerenciar a relação para a desarmonia.
Para Terkourafi (2005), a polidez não é um cálculo racional de atenuação à ame-aça da face como a viam Brown e Levinson (1987), mas é habitus1 (esquema de conhe-cimentos que orienta sua prática) e frame (estruturas de dados de uma base de conheci-mentos para a representação de situações estereotipadas). Segundo a autora, a polidez não reside na expressão linguística propriamente dita, mas na regularidade de sua co-ocorrência.
Na área da (im)polidez não é viável fazer generalizações; o que se pode buscar é regularidades dentro de cada atividade. Os teóricos ditos pós modernos consideram as normas sociais como ferramentas argumentativas altamente versáteis que precisam ser analisadas mais detidamente antes de serem conceitualizadas – cada caso é um caso, cada atividade desenvolve suas normas. De acordo com Terkourafi (2005) há as normas que ditam o que o indivíduo deve fazer e as normas que são o que o indivíduo gostaria de fazer.
Enquanto na visão de Brown e Levinson (op. cit.) o conceito de racionalidade é limitado à dimensão individual, para os pós modernos existe a racionalidade da socie-dade que, junto com a constituição da face, gera o comportamento polido. A Polidez da pragmática linguística é definida como todo comportamento linguístico que constitui a face do interlocutor. Assim, o foco da visão pós moderna apresentada por Terkourafi (op. cit.) é a tentativa de se estabelecer regularidades de co-ocorrência entre expressões linguísticas e extralinguísticas.
Em consonância aos questionamentos levantados por Terkourafi (op. cit.), Sara Mills (2009) discute em seu artigo a “fixidez” e universalidade da natureza da polidez, apontando que um “sinto muito” nem sempre será visto como desculpas, podendo ap a-recer como uma forma impolida. Segundo ela, os atos não possuem forma nem função fixas.
Sobre o conceito de polidez, têm-se, na atualidade, diferentes sentidos e funções para o mesmo em diferentes culturas. Os pós Brown e Levinson não focam a polidez no nível da frase ou sentença e não assumem que a polidez seja inerente à palavra usada na interação – o foco está no contexto, nas forças sociais, no discurso propriamente dito.
1A noção de habitus, retomada de Bourdieu (apud Mills, 2009), significa as disposições que geram as
Não existe nenhuma conceitualização antes ou depois do discurso; o indivíduo é consti-tuinte do mesmo e é no discurso que surgem as normas sociais.
O modelo construído por Brown e Levinson (op. cit.) trata o conceito de face como uma categoria pré-concebida; já os pós modernos, incluindo Spencer Oatey (2000), encaram a face como um construto dinâmico negociado na interação. A autora acredita, assim como Brown e Levinson, que o conceito de face é universal. No entanto, reconhece que as diferenças culturais afetam, por exemplo, na escolha da estratégia mais apropriada ao gerenciamento da face.
Spencer Oatey (op. cit.) propõe a teoria do rapport, que foca o gerenciamento da harmonia-desarmonia entre as pessoas envolvendo dois principais componentes: o ge-renciamento da face (dos desejos da face) e o gege-renciamento dos direitos sociais (das expectativas sociais). Em outras palavras, a face está associada aos valores pesso-ais/sociais enquanto os direitos sociais dizem respeito às expectativas pessopesso-ais/sociais.
Sobre a face, a autora destaca dois aspectos, (a) a face da qualidade, que é o de-sejo que temos de sermos avaliados positivamente em termos de nossas qualidades pes-soais, como nossas competências e habilidades; e (b) a face da identidade, que é o dese-jo que temos de sermos reconhecidos por nossa identidade social, nosso papel social, como a tendência a sempre ser líder no grupo.
Quanto aos direitos sociais, ela também sugere dois principais aspectos são eles, (a) os direitos à equidade, que é a crença que temos de que os outros devem ter conside-ração por nós; e (b) os direitos à associação – acreditamos ter o direito de nos associar-mos a grupos ou indivíduos.
Como pode ser visto, o gerenciamento da face e dos direitos sociais têm um componente pessoal (a face da qualidade e os direitos à equidade) e um componente social (a face da identidade e os direitos à associação, respectivamente). Diferente de Brown e Levinson (op. cit.), que conceitualiza a face a partir de um modelo individual, Spencer Oatey (op. cit.) incorpora o social a partir de uma perspectiva interdependente para o gerenciamento das relações.
A face é tida como um fenômeno coletivo e, por conseguinte, vulnerável, asso-ciado às reações emocionais. Se a face reivindica a avaliação do outro, ela precisa ser analisada como um fenômeno interacional (SPENCER OATEY, 2007).
relação social entre os participantes recorrendo às convenções que fazem parte do con-texto sociocultural, o qual não é necessariamente compartilhado em outras comunida-des, podendo gerar mal-entendidos interculturais. Deste modo a polidez lingüística é objeto de interesse para a pragmática posto que trata das relações entre língua, cultura e sociedade.
Conforme Goffman (op. cit.), Brown e Levinson (op. cit.), qualquer participante de uma interação tem desejos de face, ou seja, deseja ser respeitado e reconhecido e, para isso, recorre ao comportamento socialmente aprovado pelos integrantes do grupo do qual faz parte através de ações verbais e não-verbais, dentre estas a polidez, que também é um tipo de trabalho de face.
O trabalho de face realizado durante uma interação pode funcionar como polido – quando realizado pelo falante em prol de seu interlocutor, porém a polidez não inclui todas as possibilidades de elaboração de face (Hernádez Flores, 2002), afinal há casos em que o trabalho de face realizado pelo falante é voltado a sua própria imagem, não porque se sinta ameaçado, mas porque temos a necessidade de construir face na intera-ção.
Em consonância à visão de Brown e Levinson (op. cit.) que afirmam ser a poli-dez uma ferramenta usada principalmente para mitigar ou suavizar uma ameaça à face na interação, porém com o acréscimo de um conceito, Kerbrat Orecchioni (op. cit.) pro-põe que a polidez serve também para valorizar as relações sociais. Para Carrasco Santa-na (1999) apud (IGLESIAS RECUERO, 2007) a função da polidez não é somente repa-rar possíveis danos causados ao interlocutor durante a interação, mas também aproximar o falante e seu interlocutor.
A avaliação de um enunciado como polido ou impolido depende do contexto. Diferentes parâmetros da comunicação podem atuar como filtros que contribuem a essa avaliação, como a relação entre os interlocutores, o objetivo comunicativo, os valores sócio-culturais de dada comunidade, a relevância do tópico na interação, etc. (IGLESIAS RECUERO, 2007).
Estudiosos do espanhol peninsular como Herrero Moreno (2000, 2002) apud
que as outras, nos leva à elaboração de face e, consequentemente, à exposição da mes-ma, diríamos que todas geram um trabalho de face.
Os mecanismos de atenuação que costumam acompanhar os pedidos diretos e os convencionalmente indiretos são inúmeros. A essa lista podemos acrescentar os diminu-tivos; afinal, segundo Curcó e De Fina (2002) apud (IGLESIAS RECUERO, 2007) ava-liar um diminutivo como polido ou impolido depende do elemento que ele modifica. Acrescentaríamos a situação comunicativa, como é o caso de uma entrevista, e os parti-cipantes da mesma e não simplesmente a base que o sufixo diminutivo modifica.
Segundo Sarangi (2000), o tipo de atividade caracteriza o encontro social. A en-trevista sociolinguística se constitui de diferentes tipos de discurso como a narração, a descrição e a argumentação, visando à construção de face do entrevistado, o que exclui-ria sequências exortativas – mais favoráveis à atenuação.
Alguns autores afirmam que as entrevistas não são representativas da fala natu-ral; segundo Briz (in BRAVO, op. cit.), a entrevista é um discurso (a) oral, uma modali-dade produzida e recebida pelo canal fônico, (b) dialogal, devido a sucessão de turnos, (c) imediata, já que se desenvolve na coordenada espaço-temporal do aqui e agora, (d) cooperativa, porque é co-construída e (e) dinâmica, pela contínua mudança de papéis entre os interlocutores (ora um interlocutor é falante, ora é ouvinte). No entanto, a en-trevista não pode ser considerada uma conversa, porque, dentre outros fatores, possui certo controle na alternância de turnos.
Kerbrat-Orecchioni (op. cit.) acrescenta que a conversa “natural” é menos fo r-mal, mais espontânea do que a entrevista. A diferença fundamental entre uma conversa coloquial e a entrevista pode ser entendida a partir do controle de turnos, onde a conver-sa estaria no eixo de menos controle de turno e a entrevista no eixo de mais controle de turno.
2 PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS
Nesse capítulo abordamos a metodologia de análise dos diminutivos nos corpo-ra, ou seja, a fonte dos dados, os próprios dados, a atividade entrevista sociolinguística, o ethos das comunidades envolvidas, o procedimento de seleção dos sufixos diminuti-vos, as variáveis sociológicas consideradas para este estudo etc.
Serão, portanto, discutidos alguns critérios elencados para tratar dos diminuti-vos. A análise deste trabalho consiste no levantamento das 42 ocorrências de formações diminutivas de sufixo -illo, -ito e -inho, cuja base é um substantivo concreto, em doze entrevistas sociolingüísticas realizadas na década de 90.
2.1Modelo de Análise: Uma categorização morfopragmática
As formações diminutivas se encontram em um continuum funcional que vai do pó-lo referencial ao subjetivo, tendo no meio deste trajeto sobreposições de funções, ou seja, podemos encontrar diminutivos que, ao mesmo tempo que apresentam uma idéia de pequenez, também contribuem à expressão da subjetividade do falante, interferindo assim na interação com seu interlocutor. Tendo em vista que o uso subjetivo de uma formação diminutiva provoca uma reação no ouvinte que vai além do enunciado, pode-mos afirmar que a semântica está a serviço da pragmática.
Em um extremo dessa linha pela qual os diminutivos transitam tem-se o pólo referencial, que trata exclusivamente da redução de tamanho do objeto referido em ter-mos concretos. No outro extremo encontra-se o pólo subjetivo, que engloba os usos afetivo positivo, afetivo negativo voltados ao referente, seja ele um objeto – neste caso o que fica reduzida é a distância entre o falante e o objeto ao qual se refere, ou ainda seu interlocutor – neste caso o diminutivo opera diretamente sobre a relação entre os parti-cipantes, ou ainda um uso atenuante da formação diminutiva.
É certo que, independente do valor afetivo estar direcionado ao objeto referido ou ao participante da interação, qualquer juízo de valor que o falante expresse por meio do diminutivo gera um efeito pragmático, afinal tudo o que emerge na interação reper-cute na mesma.
Por serem os sufixos -illo e -ito os mais frequentes quanto à função diminutiva, unimos a eles o sufixo -inho do português para contrapor a função referencial à subjeti-va nas formações de base substantisubjeti-va concreta. E obsersubjeti-vamos em que estágio de lexica-lização se encontram as formas diminutivas cuja base é um substantivo concreto.
Para os fins desta pesquisa, consideramos em estágio avançado de lexicalização as formações que não são mais sentidas coletivamente como derivações, embora possu-am base livre e o autêntico sufixo, estas formações não são intercpossu-ambiáveis com o grau normal. Em estágio médio de lexicalização consideramos as formações que ainda se alternam com o grau normal, sendo interpretadas ora como derivadas, ora como não derivadas por diversos falantes em diferentes contextos (ex. nego versus neguinho). Por último estão as formações em estágio baixo de lexicalização sentidas como derivações reais. Para o presente trabalho investigamos somente as ocorrências em estágio médio e baixo de lexicalização, posto que as em estágio avançado não são mais uma formação diminutiva
Aplicamos o esquema construído a partir dos modelos de análise presentes nos trabalhos sobre diminutivos de Turunem (2009) e Ezarani (1989). Tal categorização foi implantada de modo a classificar as ocorrências diminutivas que apareceram nas entre-vistas sociolinguísticas –corpora deste estudo. Foi a partir da observação dos dados que a metodologia tomou forma, ou seja, não aplicamos uma metodologia já existente aos dados, antes observamos o que os dados demonstravam, para posteriormente pensar em um modelo de análise que se encaixasse aos corpora.
Quadro 4 – Síntese da proposta de modelo contextual para a análise morfopragmática deste trabalho.
Diminutivo
Uso Referencial Uso Subjetivo
No modelo contextual acima, o uso referencial é interpretado como “X é pequ e-no”. Os diminutivos classificados como tal são aqueles cuja função é principalmente dimensional. Já o pólo subjetivo se divide entre os usos afetivo positivo – que estabele-ce uma relação de afetividade com seu referente, afetivo negativo – que marca uma re-lação de insatisfação, crítica, pejoratividade no que diz respeito a seu referente, e de atenuação – que diz exclusivamente sobre a relação com o interlocutor, podendo ser interpretado como uma aproximação social e/ou um distanciamento linguístico. Este recurso pode favorecer a face do falante ou ambas as faces envolvidas na interação. Como será demonstrado, muitas vezes há sobreposição de funções dentro do pólo subje-tivo.
Os critérios co-textuais foram desenvolvidos por Ezarani (1989) com o objetivo de fornecer maiores subsídios à análise contextual de uma determinada ocorrência di-minutiva a partir dos elementos circundantes2.
Os critérios co-textuais especificados a seguir favorecem a classificação de uma ocorrência com função referencial (dimensional):
1) O referente da palavra base é passível de redução de tamanho;
2) Há possibilidade de substituição da forma sintética pela analítica (casita – casa pequeña);
3) Há possibilidade de co-ocorrência do adjetivo pequeno com a forma diminutiva …aunque sea un pueblecillo pequeñajo/// que tenga una cosa así que-/ bonita
[...ainda que seja um povoadinho pequenino.] (PRESEEA, entrevista 5);
4) O referente da palavra base traz em si a idéia de pequenez (un trocito de algo/ um pedacinho de algo)
No que concerne aos usos subjetivos, os seguintes critérios co-textuais contri-buem à definição de uma ocorrência como de afeto positivo:
2
1) O referente da palavra base não é passível de redução em termos concretos ( lei-te, namorado);
2) Presença de referenciadores de primeira pessoa
…mientras siga en- en mi pisito// (risa = 2) estar contenta con los muebles…
[…enquanto eu ficar no meu apartamentinho, contente com os móveis...] (PRESEEA, entrevis-ta 6);
3) Presença de estruturas reiteradoras de apreciação positiva
...ves// la casita del: lector// es una maravilla…[ta vendo, a casinha do leitor é uma maravilha...] (PRESEEA, entrevista 6);
4) Repetição do objeto de afeto
...Às vezes tem o velhinho que senta na praça e você já... E, o velho vai encos-tar! Não sei o quê, de repente o velho tem uma cabeça super aberta, super
jo-vem... (NURC-RJ, entrevista 8).
E ainda, no que concerne aos critérios co-textuais que favorecem a interpretação de uma ocorrência como sendo de afeto negativo:
1- O referente da palavra base não é passível de redução em termos concretos; 2- Presença de dêiticos de segunda e terceira pessoas
...mas aquelas ruazinhas, todas de terra batida, levanta poeira e alaga quando chove mas... (NURC-RJ, entrevista 8);
3- Presença de indefinidor acompanhado de dêiticos
...qualquer joguinho mesmo... desses de imaginação... ficar fazend isso...
(NURC-RJ, entrevista 7);
4- Presença de estruturas reiteradoras da pejoratividade
...tão de namoradinho firme, sabe, pô, fumam maconha, fazem o diabo... (NURC-RJ, entrevista 9).
Baseados nas teorias que exploram o conceito de elaboração de face nas intera-ções, buscamos corroborar duas nointera-ções, a da função pragmática como central3 e a dos
3
usos diminutivos à serviço da construção de face, traçando um paralelo quanto ao uso dos mesmos nas duas variantes em questão.
2.2Os diminutivos nos corpora
Depois de levantar todos os sufixos de base substantiva concreta das doze entre-vistas analisadas (-ito (a) / -illo (a) em espanhol e -inho (a) em português), definir seu nível de lexicalização e classificá-los como de função referencial ou subjetiva segundo os critérios contextuais e co-textuais, nos perguntamos – do ponto de vista morfoprag-mático – se há divergências no uso entre as variantes do português e do espanhol estu-dadas.
Foram excluídas as formações cuja base é um substantivo abstrato, um adjetivo ou um advérbio, as ocorrências em estágio avançado de lexicalização e as formações diminutivas com outros sufixos. Das doze entrevistas, seis são do projeto PRESEEA, de Alcalá de Henares, e seis do projeto NURC-RJ; em cada variante foram analisados três homens entre 28 e 33 anos e três mulheres entre 23 e 31 anos, todos com ensino superi-or completo. A escolha das variantes deve-se ao fato de o Rio de Janeiro e Alcalá de Henares terem um papel importante no modelo normativo.
As entrevistas sociolinguísticas que compõem os corpora foram selecionadas em meio a uma série de entrevistas coletadas para o projeto PRESEEA (Projeto para o Es-tudo Sociolinguístico do Espanhol da Espanha e da América) de Alcalá de Henares – Espanha e para o NURC-RJ (Projeto da Norma Linguística Urbana Culta) – Brasil.
O projeto PRESEEA é um corpus oral da língua espanhola representativo do mundo hispânico em sua variedade geográfica e social. O corpus de Alcalá de Henares – membro da comunidade autônoma de Madrid – foi compilado em 1998 para contribu-ir a estudos comparativos entre as cidades hispano-falantes do mundo. As províncias que são membros da comunidade autônoma de Madrid possuem uma vida socioeconô-mica totalmente articulada à capital hegemônica – Madrid. A variante linguística de Alcalá de Henares está vinculada à norma culta de Madrid, que orienta os usos dos fa-lantes desse território. A variante madrilena constitui o canon da norma culta do centro peninsular.
cidade, e foram criados por motivos outros de investigação, nada relacionado ao objeto de nossa pesquisa – os diminutivos. A importância histórica e socioeconômica do Rio de Janeiro justifica a difusão e importância nacional da variante carioca.
O primeiro ponto a ser tratado é a escolha pela atividade entrevista sociolinguís-tica. Por atividade, é entendida toda situação comunicativa socialmente constituída e culturalmente reconhecida, orientada para uma meta, podendo envolver diferentes graus de padronização (LEVINSON, op. cit.).
Os graus de padronização estão relacionados aos tipos de contribuições permiti-das como participantes, local, duração da atividade, o que é dito e como é dito, etc. No caso das entrevistas investigadas, há a limitação de participantes na atividade propria-mente dita, há um local pré-estabelecido assim como a hora de começar a entrevista e uma previsão da hora que deve terminar.
O tamanho das entrevistas sociolinguísticas analisadas em número absoluto de palavras é bastante desigual como pode ser observado na tabela abaixo, na qual os códi-gos que identificam as entrevistas se refere à variante linguística (português ou espa-nhol), ao gênero (homem ou mulher) e à idade, respectivamente.
Tabela 1- Número de palavras das entrevistas para o NURC-RJ e PRESEEA-Alcalá de Henares ENTREVISTAS Rio de Janeiro
nº de palavras de cada entrevista
Alcalá de Henares
nº de palavras de cada entrevista
MULHER1(PM27) / (EM30) 2.905 9.379
MULHER2(PM27) / (EM31) 3.940 9.221
MULHER3(PM27) / (EM23) 4.466 5.642
HOMEM 1 (PH33) / (EH30) 2.583 10.991
HOMEM 2 (PH32) / (EH28) 4.617 8.130
HOMEM 3 (PH28) / (EH32) 3.728 5.526
TOTAL DE PALAVRAS 22.239 48.889
Fonte: Própria.
No que diz respeito à frequência de uso dos diminutivos em ambos os corpora, com o intuito de comparar as amostras de tamanhos diferentes, calculamos a freqüência relativa de diminutivos nos corpora, o que possibilitou visualizar a distribuição dos mesmos nos gráficos a seguir. Ainda que os números sejam diferentes, consideramos a unidade entrevista sociolinguística e normalizamos o número de diminutivos levando em conta o número de entrevistados, o grau de escolaridade e a idade dos mesmos. A tabela a seguir apresenta o total de todos os sufixos diminutivos que aparecem em cada entrevista sociolinguística, seja de base substantiva concreta ou não.
Tabela 2- Total de diminutivos em cada entrevista sociolinguística
ENTREVISTAS RIO DE JANEIRO ALCALÁ DE HENARES
MULHER(PM27) / (EM30) 10 20
MULHER(PM27) / (EM31) 12 26
MULHER(PM27) / (EM23) 10 0
HOMEM (PH33) / (EH30) 2 18
HOMEM (PH32) / (EH28) 3 20
HOMEM (PH28) / (EH32) 3 2
TOTAL DE DIMINUTIVOS 40 86
Fonte: Própria.
Portanto, dividimos o número de diminutivos totais de cada corpus pelo número de palavras de cada entrevista e multiplicamos por cem. Em seguida dividimos o núme-ro de diminutivos de base substantiva concreta pelo númenúme-ro de palavras de cada entre-vista, visando um resultado mais normalizado.
Dessa forma, foi possível chegar a uma estimativa de quantos diminutivos de ba-se substantiva concreta há em cada corpus a cada 100 palavras (torre vermelha dos grá-ficos), podendo-se assim comparar os corpora a partir de um mesmo parâmetro.
Gráfico 1- Variante Carioca (total de diminutivos presente no corpus versus diminutivos de base substantiva concreta)
Fonte: Própria.
A cada cem palavras do corpus das mulheres, foram encontradas 0,2 formações diminutivas e 0,1 diminutivos de base substantiva concreta. Já no corpus dos homens, foram encontrados 0,07 formações diminutivas e 0,009 diminutivos de base substantiva a cada cem palavras.
As formações sintéticas foram mais produtivas em outras classes gramaticais tanto para as mulheres quanto para os homens; sendo que no corpus feminino a dispari-dade entre os usos de outras bases e os de base substantiva foi bem superior à do corpus
masculino.
Gráfico 2- Variante Madrilena
(total de diminutivos presente no corpus versus diminutivos de base substantiva concreta)
Fonte: Própria.
O gráfico acima revela que a cada cem palavras do corpus das mulheres madrilenas, 0,18 são formações diminutivas e 0,06 são diminutivos de base substantiva concreta. Já no corpus dos homens, foram encontradas 0,16 formações diminutivas e 0,03 diminutivos de base substantiva a cada cem palavras; enquanto no corpus carioca todos os entrevistados realizaram formações diminutivas, no corpus madrileno a entre-vistada mais nova (mulher de 23 anos) e um homem de 32 anos não realizaram nenhu-ma fornenhu-mação diminutiva de base substantiva concreta.
Tendo em vista que para alcançar o objetivo do presente trabalho devem ser con-trapostas as funções dimensionais e pragmáticas em uma formação que seja passível de desempenhar ambas as funções, foram excluídas todas as ocorrências cuja base não é um substantivo concreto. O quadro seguinte revela em números a quantidade de diminu-tivos -inho, -ito e -illo não analisáveis, ou seja, formações de base adjetiva, adverbial e verbal.
Embora seja possível formar diminutivos a partir de outras categorias lexicais, a possibilidade de uma formação diminutiva apresentar noção reducional se limita às ba-ses nominais, mais especificamente aos substantivos concretos. Por esse motivo, foram excluídas da análise as seguintes ocorrências.
Quadro 5 – Diminutivos de classe gramatical ≠ de substantivo concreto
ENTREVISTAS RIO DE JANEIRO
adjetivos, advérbios e subst. abstrato (nº de ocorrências)
ALCALÁDE HENARES adjetivos e advérbios (nº de
ocorrências)
MULHERES certinho(1)
baixinho(1) pequenininha(2) novinha(1) fininho(1) velhinha(1) bonitinha(2) briguinha(1) normalito(1) pequeñito(4) escapadilla(2) bajito(1) cerquita (1) tranquilillo(2) tranquilito(1) cuidadito(1) paradilla(1) delgadita (1) fresquito(1) poquito(9)
HOMENS pouquinho (3)
igualzinho(1)
calminho(1)
iniciozinho(1)
quietinho(2)
finalzinho(1)
certinho (1)
viejito(1)
bajito(2)
tranquilito(1)
ratito(1)
cerquita(1)
delgadito(1) normali-to(1)
facilito(1)
famosillo(1)
fresquito(1)
poquillo(1)
poquito (10)
ladito(1)
pequeñito (6) TOTAL DE DIMINUTIVOS DE OUTRAS CLASSES
20 54
Fonte: Própria.