CAPÍTULO 2 DIREITOS HUMANOS
4.5 PRINCIPAIS ÓRGÃOS DO SISTEMA INTERAMERICANO
4.5.2 A Corte Interamericana de Direitos Humanos
A Corte Interamericana de Direitos Humanos é um órgão judicial internacional autônomo do sistema da OEA, criado e definido, como já referido anteriormente, pela Convenção Interamericana de Direitos Humanos, de 1969 – lembrando que, hoje, encontra-se sediada na Costa Rica e vinte e cinco Estados americanos ratificaram ou adotaram a Convenção.299
Em respeito à soberania dos Estados, para que o Estado possa ser julgado pela Corte há, necessariamente, segundo os termos do art. 62 da Convenção, que ter sido reconhecida "como obrigatória de pleno direito e sem convenção especial, a competência do Tribunal" para qualquer caso, podendo tal reconhecimento se dar "incondicionalmente ou sob condição de reciprocidade, por prazo determinado ou para casos específicos".
Nos termos ainda do art. 62, entende-se ter a Corte competência contenciosa – determinante aos Estados partes da Convenção e que a reconheçam expressamente, uma vez que a aceitação de sua jurisdição não é automática – e, ainda, consultiva (art. 64) – possível a todos o membros da OEA, membros ou não da Convenção. Segundo tais competências, insere-se o seguinte entendimento:
A competência consultiva é ampla, permitindo a todos os membros da OEA – partes ou não do "Pacto de São José" – e a todos "os órgãos enumerados no Cap. 10 da Carta da Organização dos Estados Americanos, reformada pelo Protocolo de Buenos Aires" (a Assembleia Geral, o Conselho Permanente da CIDH etc.) consultá-la sobre a interpretação da Convenção Americana ou de outros tratados sobre a proteção dos direitos humanos nos Estados americanos, sobre a compatibilidade entre as leis nacionais e esses instrumentos jurídicos regionais. A competência contenciosa, para o julgamento de casos a ela submetidos, é, por sua vez, limitada aos Estados-partes da Convenção que a reconheçam expressamente. Nessas condições, a maior atividade da Corte tem se concentrado na jurisdição consultiva, sendo poucas as sentenças judiciais já proferidas.300
299São eles: Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Dominica, Equador,
El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela.
Examina-se, ainda, ser a Corte composta por sete membros: um presidente, um vice-presidente e mais cinco juízes.
Inicialmente, documenta-se que a Corte não entrou em funcionamento até que o Pacto de São José da Costa Rica301 tivesse entrado realmente em vigor – fato
que se desenrolou no ano de 1978.
Já em julho de 1978, a Assembleia Geral recomendou a aprovação, pelo governo da Costa Rica, para que a Corte fosse ali estabelecida. A decisão foi ratificada pelos Estados membros da Comissão durante a Sexta Sessão Especial da Assembleia Geral da OEA, em novembro de 1978.302
Então, em 22 de maio de 1979, os Estados partes da Convenção elegeram, na Sétima Sessão Especial da Assembleia Geral da OEA, os primeiros juízes a integrarem a Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Logo após a eleição, já nos dias 29 e 30 de junho, de 1979, desenvolveu-se, em Washington D.C., a primeira audiência da Corte e em 3 de setembro de 1979, ocorrera a cerimônia de abertura da Corte em São José, Costa Rica.
Durante a Nona Sessão Regular da Assembleia Geral da OEA, houve a aprovação do Estatuto da Corte e em agosto de 1980, a aprovação de suas regras procedimentais. Importante é discorrer sobre a questão de que, em setembro de 1981, o governo da Costa Rica e a Corte assinaram um acordo, determinando privilégios e imunidades à Corte, aos seus juízes e às pessoas que ali vierem a desenvolver suas atividades laborais. Tal acordo demonstra ser de extrema valia, uma vez que facilita as atividades da Corte, dando proteção para todas as pessoas intervenientes dos processos. Além disso, em 1993, o governo da Costa Rica doou, à Corte, a casa onde, hoje, está localizada.
Mais tarde, em 2001, a Corte veio a aprovar o regulamento que permitiria os indivíduos e seus devidos representantes, de participarem das fases processuais, juntamente com a Comissão e com o Estado demandado, o que possibilitou, sem
301O Brasil aderiu ao referido Pacto em setembro de 1992, tendo aceitado a jurisdição da Corte
apenas no ano de 1998, "por tempo indeterminado, como obrigatória e de pleno direito, a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos em todos os casos relacionados à interpretação ou aplicação da Convenção Americana de Direitos Humanos, em conformidade com o seu art. 62, sob condição de reciprocidade e para fatos posteriores a esta declaração".
302CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Disponível em: <http://www.corteidh.or.cr>.
qualquer questionamento viável, uma mais fácil defesa e argumentação para aqueles que tiveram seus direitos violados.
Em 25 de novembro de 2003, então, aprovaram-se as novas Regras Procedimentais para a Corte, podendo ser aplicadas para todos os casos trazidos anteriormente a esta data à Corte.
De tal forma, entende-se ser a Corte o principal órgão do sistema interamericano para a efetiva proteção dos direitos humanos, uma vez que apenas ela, no âmbito americano, tem poder de fato para condenar os Estados internacionalmente.
Inquestionavelmente, a Corte atua no âmbito jurisdicional e consultivo, estando ambos voltados à matéria referente aos direitos humanos.
Além disso, o Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos, em seu art. 1.o, dispõe que esta vem a ser uma instituição judicial e autônoma303, tendo
sua sede em São José da Costa Rica, com o propósito de aplicar e interpretar, além Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos304, todos os compromissos
firmados, por seus Estados membros, que versem sobre direitos humanos.305
No estudo sobre sua função consultiva, pode-se dizer que, apesar dos reconhecidos esforços da Corte em garantir a primazia de sua interpretação, há muito de ser evoluído, especialmente no alcance de suas interpretações. Nesse sentido, determina Nádia de Araújo:
A partir de sua criação, em 1979, a Corte Interamericana de Direitos Humanos tem se destacado no cenário internacional por suas decisões, especialmente aquelas referentes à sua função consultiva, quando promove a interpretação da Convenção Americana de Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de San Jose.
No entanto, suas decisões não têm o espectro desejável, porque dependem da aceitação de sua jurisdição por um maior número de Estados, já que esta deve ser expressa.306
303Segundo Héctor Espiel, a denominação "autônoma" é pertinente, uma vez que a Corte exerce
suas funções, contenciosa e consultiva, de maneira independente e autônoma. (ESPIEL, Héctor. El Procedimento Contencioso ante la Corte Interamericana de Derechos Humanos In: NIKKEN, Pedro (Org.). La Corte Interamericana de Derechos Humanos: estudios y documentos. 2.ed. San José, CR: Corte IDH, 1999).
304BUERGENTHAL, Thomas. La Proteccion Internacional de los Derechos Humanos en las
Americas, p.59.
305No âmbito do sistema interamericano, há a existência de diversos tratados que versam sobre
direitos humanos. Sua lista completa é possível de ser encontrada em: RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. p.62.
306ARAÚJO, Nádia de. A influência das opiniões consultivas da Corte Interamericana de Direitos
Humanos no ordenamento jurídico brasileiro. Revista da Faculdade de Direito de Campos, Campos dos Goytacazes, RJ, v.6, n.6, p.228, jun. 2005.
Referentemente a sua função consultiva (art. 64), a Corte pode exercê-la a todos os Estados membros da OEA, sendo eles partes ou não do Pacto de São José, além de poder desempenhar perante todos os órgãos referidamente enumerados no Capítulo 10, da Carta da Organização dos Estados Americanos.
A descrita função consultiva pode ser de natureza dupla, qual seja: de "controle da interpretação das normas americanas de direitos humanos" (fixando a orientação da Corte para operadores do direito interno) e de "controle de leis ou projetos com relação às disposições da Convenção Americana de Direitos Humanos" (incompatibilidade entre o primeiro citado e a Convenção).307
Especificamente a sua função contenciosa, a Corte só aceitará a submissão de casos que envolvam Estados308 e que, necessariamente, tenham aceitado,
expressamente, a jurisdição do referido órgão.309
Lembra-se que será a Comissão Interamericana de Direitos Humanos que virá a submeter um caso à apreciação da Corte, sendo que, nesse caso, a Comissão analisará as demandas e aquelas que julgar necessárias, encaminhará à Corte.
Para que a Corte esteja apta a analisar casos em que seus Estados membros tenham violado direitos ou liberdades protegidos pela Convenção, o requisito da exaustão das vias internas deverá, sem exceção, estar obedecido.
Pontua-se ainda que, diferentemente do sistema europeu, não há lugar para o acesso direto dos indivíduos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Mas deve-se esclarecer que, desde 2001, quando então da adoção do novo regulamento da Corte, é possível a participação do indivíduo em todo o seu procedimento contencioso (art. 23).
Além de decisões de mérito, a Corte poderá, igualmente, ordenar medidas provisórias de proteção, quando avistar uma situação de gravidade excessiva e/ou urgência. Pode-se dizer, em outros termos, que há, na verdade, a possibilidade de adoção de medidas cautelares.
307ARAÚJO, Nádia de. A influência das opiniões consultivas da Corte Interamericana de Direitos
Humanos no ordenamento jurídico brasileiro, p.232.
308De acordo com o art. 61 da Convenção Americana de Direitos Humanos: somente os Estados partes e a Comissão têm o direito de submeter um caso à decisão da Corte.
309Alude-se ao fato de que a atuação da Corte pressupõe o reconhecimento, por parte do Estado, de sua
competência para conhecer de qualquer caso relativo à interpretação e à aplicação da Convenção. O referido conhecimento se faz por uma declaração, que pode ser "incondicionalmente ou sob condição de reciprocidade, por prazo determinado ou para casos específicos" (art. 62).
Ao final do processo, caso haja a verificação da violação de um direito assegurado em um instrumento legal do sistema interamericano de proteção, a Corte determinará uma reparação em decorrência da violação, que se dará por intermédio do pagamento de uma indenização justa, permitindo à vítima que o direito violado possa ser, a partir de então, desfrutado.310
Ainda, a decisão da Corte é definitiva e inapelável (art. 67), sendo um Tribunal de última instância. Apesar de ser impossível recurso da decisão da Corte, caso ocorra uma divergência sobre o sentido e/ou o alcance da sentença por alguma das partes, caberá um recurso de interpretação (art. 67), assemelhado aos embargos de declaração, para elucidar o ponto questionável, no prazo de noventa dias. Decorrido o prazo, caso haja o referido recurso de interpretação, deverão os Estados cumprir as sentenças e executá-las em sua ordem interna.
Ainda nesse ponto, deve-se fazer claro que a aceitação da competência contenciosa da Corte traduz-se em cláusula pétrea, ou seja, não aceita limitações que não aquelas previstas em seu artigo 62. É nesse entendimento que se prevê o alcance da competência jurisdicional da Corte, como lembra Fernando Jayme:
Uma vez acionada a jurisdição da Corte, esta se torna intangível: não é – não pode ser – afetada de modo algum pela conduta ou pelas atuações posteriores das partes (em matéria contenciosa), ou do Estado ou órgão solicitante (em mate consultiva), ou da Comissão como solicitante de medidas provisórias de proteção. [...] A Corte é, em quaisquer circunstâncias, maestra de jurisdicción: a Corte, como todo órgão possuidor de competências jurisdicionais, tem o poder inerente de determinar o alcance de sua própria competência – seja em matéria contenciosa, seja em relação a medidas provisórias de proteção.311
Para desempenho de suas funções, a Corte conta com sete juízes312, nacionais
dos Estados membros da OEA, atuantes a título pessoal, sendo eleitos, segundo o art. 52 da Convenção, "entre juristas da mais alta autoridade moral, e reconhecida competência em matéria de direitos humanos que reúnam as condições requeridas
310GARCIA, Emerson. Proteção internacional dos direitos humanos...
311JAYME, Fernando G. Direitos humanos e sua efetivação pela Corte Interamericana de Direitos
Humanos. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p.79.
312Apenas a título de curiosidade, os primeiro sete juízes foram: Thomas Buergenthal (Estados Unidos),
Máximo Cisneros Sánchez (Peru), Huntley Eugene Munroe (Jamaica), César Ordóñez Quintero (Colômbia), Rodolfo Piza Escalante (Costa Rica), Carlos Roberto Reina (Honduras), M. Rafael Urquía (El Salvador).
para o exercício das mais elevadas funções judiciais, conforma a lei do país da qual são nacionais".
O mandato destes juízes é fixado por seis anos, sendo permitida uma recondução. A eleição é realizada pela Assembleia Geral da OEA.
Também, acaba por ser indiscutível a grande problemática que advém das Cortes de Direitos Humanos que tendem a produzir sentenças internacionais, condenando os Estados em plano internacional e coagindo-os a cumprirem tais sentenças e âmbito interno, qual seja, a questão da soberania estatal versus tal condenação.
Não fugindo à regra, muitas são as questões que se levantam quando da condenação de um Estado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, estando comprovada a violação de um determinado direito por parte deste citado.
Acontece que justamente por conta da dependência da Corte de um reconhecimento expresso dos Estados para que sua jurisdição seja aplicável, faz-se, ao menos aos olhos daqueles que defendem e acreditam no Direito Internacional, incabível a imposição da noção de soberania para o não cumprimento de uma decisão de tal órgão.
O que se tem, em realidade, é uma delegação, por parte dos Estados que aceitaram, expressamente, a jurisdição da Corte, de poderes para que a Corte, quando estes se mostrarem omissos ou violarem algum dos direitos previstos no sistema interamericano, possa vir a julgá-los em um plano internacional.
Mais do que isso: estes Estados estão comprometidos com o próprio Direito Internacional dos Direitos Humanos, possibilitando a segurança de seus cidadãos, em casos de violações ou omissões, e a previsibilidade de ações que possam ser buscadas em tais situações.
Como bem lembra Luigi Ferrajoli, não é que o compartilhamento da soberania em um ente internacional e/ou a condenação de um Estado, em um plano internacional, que irá aprofundar a crise do Estado nesse momento histórico. Inversamente, são justamente tais entes, tais como as Cortes Internacionais de Direitos Humanos, que possibilitarão a crescente superação da referida crise. Em suas palavras:
[...] essa ligação entre Estado, constituição e garantia dos direitos fundamentais é totalmente contingente e não reflete nenhuma necessidade do tipo teórico. O modelo garantista do Estado constitucional de direito, como sistema hierarquizado de normas inferiores à coerência com as normas superiores e com os princípios axiológicos nelas estabelecidos, pelo contrário, tem validade
seja qual for o ordenamento. A crise dos Estados pode ser, portanto, superada em sentido progressivo, mas somente se for aceita sua crescente despotencialização e o deslocamento (também) para o plano internacional das sedes do constitucionalismo tradicionalmente ligadas aos Estados.313
Assim sendo, em um mundo onde a crescente busca pela proteção e efetividade dos direitos humanos é uma constante, é impossível sobrepor a tal situação a soberania, em seus termos arcaicos, onde a expressa declaração dos Estados, comprometendo-se a determinadas jurisdições, acaba por ter menos valor que um conceito terminológico, criado em função de necessidades anteriores.
Finalmente, diz-se que, caso um Estado tenha expressamente reconhecido a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, este veio ceder parcela de sua soberania em prol de uma segurança aos seus cidadãos e, caso demandado e condenado perante a Corte, não poderá valer do conceito de sua soberania para escusar-se de suas obrigações internacionais, decorrentes de decisões do referido órgão.
CAPÍTULO 3
O BRASIL NA ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS: PRINCIPAIS CASOS ENVOLVENDO OS DIREITOS HUMANOS
1 O BRASIL NO SISTEMA INTERAMERICANO DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
Apesar do cenário interno configurar vários paradoxos, o Brasil é, sem dúvidas, uma potência regional em todos os âmbitos, especialmente no quadro da América Latina. Não fugindo à regra, no caso do sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, o Brasil atua de maneira determinante e enérgica ao desenvolvimento desse próprio sistema.
Primeiramente, deve-se lembrar que, ao final da Segunda Guerra Mundial, o Estado brasileiro adotou, desde logo, a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Declaração Universal de Direitos Humanos (ambas de 1948). Pouco mais tarde, veio a participar de uma série de acordos de proteção dos direitos humanos, tais como: Convenção sobre Genocídio (1948); as quatro Convenções de Genebra e seus dois Protocolos Adicionais (1949); a Convenção sobre Refugiados (1951), o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966); a I Convenção Mundial sobre Direitos Humanos de Teerã (1968); e a II Convenção Mundial sobre Direitos Humanos de Viena (1993).314
Sem dúvidas, todo o empenho brasileiro mostrou-se determinante no desenvolvimento do sistema de proteção dos direitos humanos interamericano. Prova disso é que, após longos períodos de negociações, o Brasil, já na Nona Conferência Internacional Americana, em 1948, desenvolveu – juntamente com o auxílio de mais vinte países – e adotou a Carta da Organização dos Estados Americanos315, a qual
314Em âmbito regional, o Brasil ainda ratificou o Protocolo Relativo à Abolição da Pena de Morte, de
1986; a Convenção Interamericana para prevenir e sancionar a tortura, de 1987; e a Convenção Interamericana para prevenir, sancionar e erradicar a violência contra a mulher (Convenção de Belém do Pará), de 1985.
entrou em vigor em 13 de dezembro de 1951 e, no ordenamento jurídico pátrio, fora introduzida pelo Decreto n.o 30.544, de 14 de fevereiro de 1952.
Acontece que, ainda nesse momento, o sistema interamericano não contava com uma proteção efetiva dos direitos humanos, só tendo sido realizável quando então da adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica - CADH), de 1969, e seu Protocolo Adicional (Protocolo de São Salvador), de 1988.
No que tange ao Pacto de São José da Costa Rica, o Brasil aprovou-o pelo Decreto Legislativo 27, de 25 de outubro de 1992, tendo sido promulgado no mesmo ano, pelo Decreto 678, de 06 de novembro. Igualmente, o país aprovou o Protocolo de São Salvador pelo Decreto Legislativo 56, de 19 de abril de 1995 e promulgo-o pelo Decreto 3.321, de 30 de dezembro de 1999.
A partir de então, o Brasil encontra-se submetido às condições da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, devendo obediência aos princípios desse órgão na busca pela promoção e defesa dos direitos humanos. Determinante a este estudo é relatar que, a partir de então, o Brasil estará submetido a todos os meios passíveis de proteção dos direitos humanos previstos por esse órgão.
Ainda, o sistema interamericano, como bem já se discorreu, conta com uma Corte, cujo Estatuto viera a ser aprovado pela Resolução AG/Res. 448 (IX-O/79) e adotado pela Assembleia Geral da OEA, em 1979, sendo necessário o reconhecimento de cada Estado de sua competência jurisdicional.
O Brasil o fez em dezembro de 1998, por meio do Decreto Legislativo n.o 89,
garantindo a jurisdição, em plano internacional regional, dos direitos humanos aos indivíduos sob sua jurisdição, quando as instâncias nacionais se demonstrarem insuficientes em sua proteção.316
Tendo demonstrado o reconhecimento da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Brasil poderá vir a ser demandado, respeitadas as determinações do instituto em questão, e não poderá se valer da escusa da incompatibilidade da norma convencional com o direito interno, uma vez que, como já se disse, tal
316Ainda, o reconhecimento da jurisdição internacional dos direitos humanos, em solos nacionais,
reconhecimento vem a ser cláusula pétrea e demanda uma devida adequação do direito interno para com a responsabilidade assumida em plano internacional.
Ademais, o Brasil também poderá vir a ser condenado em âmbito internacional – como já bem ocorrera e será detalhado mais adiante – e, nesse caso, deverá, de maneira efetiva, processar a materialização de sua condenação, no palco internacional, em âmbito interno, para que tal venha a produzir sua devida eficácia, uma vez que, conjuntamente ao reconhecimento da Corte, vê-se o dever de cumprimento de suas decisões no plano interno. Há, segundo a doutrina, duas regras sobre execução das sentenças da Corte Interamericana, que podem muito bem assim serem descritas:
A primeira regra, tradicional em termos de execução de sentença internacional, estipula que a execução das sentenças da Corte depende da normatividade
interna. Assim, cabe a cada Estado escolher a melhor forma, de acordo com
seu Direito, de executar os comandos da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A segunda regra firmada no artigo 68.2 da Convenção Americana de Direitos Humanos é inovação do sistema interamericano. Consiste na menção da utilização das regras internas de execução de sentenças nacionais contra o Estado para a execução da parte indenizatória da sentença da Corte.317
Acontece que ainda hoje, treze anos após o reconhecimento da competência