5. A concretização do direito subjetivo à educação profissional
5.1 A discricionariedade do Estado em face do direito público subjetivo à educação
Importante se faz no nosso estudo dedicarmos este item para tratarmos da discricionariedade do Poder Público, porque frequentemente alegada como obstáculo à efetivação dos direitos sociais fundamentais, sob a argumentação de que compete à Administração Pública o juízo discricionário de quais desses direitos deverá realizar.
Esse argumento é utilizado, olvidando-se que a discricionariedade só pode existir dentro da lei.
Celso Antônio Bandeira de Mello166 esclarece que:
“A discricionariedade é a margem de „liberdade‟ que remanesça ao administrador para eleger, segundo critérios consistentes de razoabilidade, um, dentre pelo menos dois comportamentos, cabíveis perante cada caso concreto, a fim de cumprir o dever de adotar a solução mais adequada à satisfação da finalidade legal, quando, por força da fluidez das expressões da lei ou da liberdade conferida pelo mandamento, dela não se possa extrair objetivamente uma solução unívoca para o caso vertente.”
Como visto, a proteção integral de crianças e adolescente prevista no artigo 227, caput, da Constituição assegurou-lhes, com absoluta prioridade, o gozo de inúmeros direitos, dentre os quais o direito à educação profissional. E, por se tratar de um direito público subjetivo, a eficácia constitucional da norma é
plena e de aplicabilidade imediata, não há “margem de liberdade” para o administrador público decidir se irá efetivar ou não tal direito.
À luz da Doutrina da Proteção Integral, temos a prioridade absoluta que indica a primazia, a preferência na realização dos direitos da criança e do adolescente, com preterição de outros não específicos para estes. No nosso entendimento, a prioridade absoluta também suprime o espectro de discricionariedade política do administrador público, já que elimina a possibilidade de sopesar quaisquer outros direitos com aqueles das crianças e dos adolescentes. Isto porque, a ponderação, ou seja, a discricionariedade, entre os possíveis valores envolvidos já foi realizada, “a priori”, pelo próprio Constituinte.
Outro dado importante a se considerar refere-se à hierarquia das normas. Isso porque, um direito público subjetivo é norma constitucional e, portanto, está num plano superior em relação às demais espécies normativas, precedendo assim, o rol de possibilidades do administrador e retirando-lhe qualquer margem à discricionariedade.
Destaque-se que o direito público subjetivo também é direito fundamental em que deve ser garantida a máxima efetividade (atribuição do sentido de maior eficácia da norma), o que também garante a precedência na efetivação e afasta a discricionariedade.
Relevante lembrarmos que o fato dos direitos públicos subjetivos fazerem parte do “mínimo existencial”, também afasta a discricionariedade administrativa, dando-lhes precedência.
Por fim, cumpre esclarecer em se tratando de direito público subjetivo, o administrador público só poderá usar da sua discricionariedade com relação aos meios materiais para a efetivação.
Assim, entendemos que, no tocante à educação profissional, o Poder Público, representado pelo administrador, não tem discricionariedade no que se refere à efetivação desse direito, porém no que diz respeito aos meios materiais para essa realização, poderá sim o administrador usar de sua discricionariedade para, por exemplo, decidir se irá construir mais escolas
técnicas, fornecer incentivos para a empresas contratarem aprendizes, criação de cursos/arcos ocupacionais mais atrativos, incentivos fiscais para a instalação de entidades sem fins lucrativos voltadas para o programa de aprendizagem em locais próximos das empresas, dentre outros.
5.1.1 O PLANEJAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS PARA A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL DOS ADOLESCENTES
O planejamento é essencial à efetivação de políticas públicas, pois sua implementação exige despesas, sendo necessárias as receitas.
Pelo adequado planejamento serão obtidos meios para a realização dos objetivos previstos nas normas constitucionais. E, é por isso que o orçamento está ligado diretamente à ideia de planejamento.
Em conformidade com o que estabelece o artigo 174, da Constituição Federal o Estado tem o dever de planejar suas contas e o desenvolvimento nacional, pois como agente normativo e regulador da atividade econômica, tem as funções de fiscalização, incentivo e planejamento. O planejamento será determinante para o setor público e indicativo para o setor privado.
José Afonso da Silva167 ensina que “O planejamento é um processo técnico instrumentado para transformar a realidade existente no sentido de objetivos previamente estabelecidos”
Para Eros Roberto Grau a função do planejamento é um “poder- dever” do Estado.
Desses ensinamentos podemos afirmar que o planejamento é um “poder-dever” do Estado, consistente num processo técnico que tem por fim transformar a realidade, sendo essencial à implementação de políticas públicas.
Os autores citados afirmam que o planejamento instrumentaliza-se por meio de planos, os quais se exprimem na forma da lei. Os planos são as normas que definem os fins a serem alcançados, são as diretrizes e bases do planejamento.
Nos termos do § 1º, do artigo 174, da Constituição Federal, “caberá à União, por meio do Poder Executivo, elaborar planos nacionais e regionais de desenvolvimento econômico e social, os quais, por se revestirem da forma de lei, deverão ser aprovados pelo Congresso Nacional, com a sanção do Presidente da República.” Esses planos, por sua vez, serão executados pela União e deverão compreender os planos regionais, que deverão ser executados pelos órgãos regionais – Estados e Municípios. Como lei, esses planos sujeitam- se ao controle do Poder Judiciário.
Após esses esclarecimentos, no tocante às lacunas existentes nas ações governamentais de educação profissional, podemos apontar a existência de uma precária utilização dos recursos financeiros tendo em vista as fragilidades no sistema de planejamento.
Pensamos que a educação profissional também deve ser incluída nos planos de maneira direta e precisa, contando com uma fonte segura de financiamento, não somente para sua manutenção, mas, principalmente, para sua expansão e desenvolvimento. Trata-se de uma questão essencial, a garantia das fontes de financiamento público para dar concretude à essa política fundamental.
Por meio do planejamento das políticas da educação profissional é possível conquistar a abertura de oportunidades aos jovens de todos os recantos do País.
5.2 A QUESTÃO ORÇAMENTÁRIA NA EFETIVAÇÃO DAS POLÍTICAS