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1 CONDUTAS INICIAIS

1.1 A emergência do problema e a gênese dos processos de análise

Há vocabulários gerais, porém, termos especializados carecem de dicionarização, menciona-nos Duarte (2009). Tecnologias empregadas a fim de dicionarizar o léxico da LGP despertaram-me interesse naquele país. Foi a pesquisa de Leonel Domingues Deusdado, que me atraiu para Portugal (DEUSDADO, 2002). Leonel procedeu a elaboração de animações virtuais em 3D a partir de modelos gerados por gráficos de linha em softwares como Pulse Creator e Poser, dando origem a animações que vieram a compor um Gestuário 2D, um Abecedário 3D e algumas animações. Produziram-se avatares. A vantagem é que os gestos podem ficar gravados em mídias, evitando a exposição do sinalizante.

Em Portugal, o processo de criação de gestos também constitui uma problemática. A ausência de léxico gestual também é apontada na dissertação de Liliana Paiva Duarte em disciplinas como a Física e a Biologia (DUARTE, 2009). Não apenas as ciências exatas carecem da problemática. Cita-se a Filosofia, nos estudos da professora portuguesa Fátima Sá Correia. Ao longo de sua docência, a professora verificou que havia inexistência de “gestos standard” (CORREIA, 2012a, p. 180) que traduzissem os conceitos filosóficos. Tomando por base esses subsídios, alinhados com os estudos anteriormente mencionados, busco problematizar acerca do seguinte questionamento central: Como as tecnologias podem contribuir para a emancipação de sinais matemáticos da Libras de forma a ampliar o conhecimento matemático de alunos surdos? Assim, com base nas hipóteses de que:

1) Os surdos, em grande parte, podem estar subestimados pelos professores: rendimento escolar e adaptações curriculares inferiores a outros alunos, portadores de necessidades educativas especiais;

2) A Libras está confinada em ambientes restritos: sinais convencionados nas escolas e em algumas comunidades podem não ser reconhecidos por outras.

Não enxergo a emancipação por mim defendida sem outras relações. Entendo que as práticas, os discursos, os materiais didáticos, a legislação, dentre outros aspectos da emancipação, possam estar implicados em relações de poder. Não busco localizar o poder, como se estivesse aqui ou ali, ou analisar quem o detém, como sugere Michel Foucault (FOUCAULT, 1976), mas analisar o poder em suas extremidades, procurando entender de que forma os discursos e práticas instituem verdades, ou seja, os efeitos desse poder, como propõe o filósofo. Nesse sentido que entendo que ambas as hipóteses estejam implicadas sob efeitos de poder. Os elementos que as compõem em seus segundos períodos, remetem-se a discursos que têm sido recorrentes na história de surdos, estudada no terceiro capítulo. As verdades, sob essa perspectiva, podem ser colocadas sob suspeição (FOUCAULT, 1995). Portanto, não há problema que não possa ele mesmo ser tensionado, pois há outras variáveis que os concebem como provisórios. Então, meu questionamento não é um e único problema de pesquisa, dos quais procuro uma ou duas respostas, mas uma rede de tensionamentos com múltiplas respostas.

Para que isso seja possível, emprego não uma teoria foucaultiana, pois de fato ela não existe, mas sim, alguns apontamentos do filósofo como ferramenta analítica12. Aqui há uma ressalva. Quando digo apontamentos de Foucault, remeto-me a alguns de seus conceitos, não como uma caixa de ferramentas, pois como dizem Veiga-Neto e Rech (2014, p. 75), empregar Foucault “menos continua sendo mais”. Defini alguns conceitos foucaultianos, empregando a sua ótica à medida que emergiram na investigação, evitando o uso impertinente do filósofo. Como já afirmei, o conceito operativo de Foucault que emprego nesta Tese é a contraconduta.

Recorri a outras materialidades, como a legislação vigente em ambos os países, e ainda a outros estudos recomendados pelos professores orientadores. Procedi a alguns resumos, que depois de submetidos à Análise Textual Discursiva (ATD) (MORAES; GALIAZZI, 2007), originaram algumas categorias para poder falar o que penso sobre: 1) a Matemática, a cultura e o poder; e 2) o processo de criação e a emancipação de sinais/gestos da Libras/LGP. Ambas as categorias foram produzidas a partir da análise e são ditas, portanto, emergentes. Podem ser empregadas para a apresentação de textos concisos (MORAES;

12 Foucault não dedicou uma obra exclusiva que trate sobre o poder. Este elemento é problematizado em grande parte dos seus cursos desenvolvidos no Collège de France.

GALIAZZI, 2007), inclusive trabalhos acadêmicos, ou seja, algumas categorias resultantes da ATD foram empregadas para elaborar os dois próximos capítulos.

Nesse sentido, para uma investigação aprofundada do ensino e da aprendizagem da Matemática para surdos no Brasil e em Portugal, emprego como metodologia a etnografia. O trabalho do etnógrafo consiste num “registro sistemático das informações e ações dos sujeitos pesquisados que implica, imediatamente após, a interpretação do modo pelo qual eles agem” (GHEDIN; FRANCO, 2008, p. 179). Ao etnógrafo compete, portanto, imergir-se na cultura que está investigando.

Sob esses aspectos, o etnógrafo não só estuda ou investiga as ações e comportamentos dos sujeitos, mas ingressa com propósitos de saber como é pertencer a esta cultura. Vem, inclusive, a se apropriar de alguns elementos, como a língua, os costumes, os valores, as tradições, dentre outros aspectos. Assim tenho procurado ser desde 2003. Pesquisar surdos e o ensino de surdos não me permitiu apenas saber o que eles são, o que fazem e como agem, mas sim entender o que é a cultura surda, a identidade surda, a Libras, a LGP - mesmo que parcialmente -, os costumes surdos, as festas surdas, dentre outros. Portanto, que minha opção metodológica não se confunda com o meu conceito operativo. Trabalho com a etnografia desde 2003, como relatei, esta opção pode nunca vir a findar-se. O etnógrafo pode tecer algumas considerações quando os dados não forem mais suficientes para trazer novos insights. Assumi diferentes posturas filosóficas nesta trajetória. Nesse sentido que insiro a teorização de Foucault. Emprego a contraconduta (FOUCAULT, 2008a) como conceito operativo dentro de um campo metodológico, a etnografia, principalmente por esta ser uma das metodologias empregadas em Estudos Culturais, que aprofundo no próximo capítulo.

Não estou preocupado com o “caso” dos surdos ou dos ouvintes, isso seria estipular limites e cair num binarismo, implicando assumir uma postura militante. Preocupa-me ao trabalhar com a etnografia: 1) interpretar o modo como os sujeitos se conduzem ou são conduzidos, sejam surdos ou ouvintes; 2) como propor outras formas para estas conduções, a contraconduta. Trata-se de assumir uma postura mais ativista que militante, aquela voltada à diferença. Não estou excluindo a postura militante, pois como diz Veiga-Neto (2012), podemos comportar-nos como ambos em diferentes momentos e, claro, nesta trajetória tive momentos em que assumi uma ou outra postura.

Não posso apenas “adotar” a contraconduta, pois este conceito não daria conta de tamanha complexidade das variáveis envolvidas no processo. Num contexto de etnografia, exerci a observação participante no período de investigação no Brasil. Atuar etnograficamente

em uma comunidade exige que o observador trabalhe de forma ativa no processo (MOREIRA; CALEFFE, 2006). Logo, atuei como observador e como docente. Ao mesmo tempo em que trabalhei, usei notas de campo, vídeos e fotografias que depois foram transcritas sob a forma de diários, descrevendo as experiências vividas. Em Portugal houve um deslocamento, outra experiência. Desenvolvi observações, anotadas em notas de campo, coletei algumas fotos e vídeos e observei algumas aulas. Da mesma forma, após as transcrevi em diários. Todo este caldeirão (MORAES; GALIAZZI, 2007) foi submetido à ATD. Em Portugal é prática dos cursos de licenciatura que a docência só possa ser exercida após dois semestres de observações de outros professores, período que não tive disponível em meu doutoramento sanduíche. Como minhas observações tiveram um curto período, não me habilitavam para a docência.

Emergiram, deste processo de análise textual, inúmeras páginas de falas francas. Eu e entrevistado estabelecemos uma conversa aberta, um diálogo, em que verdades emanaram. Emergiu uma incerteza de ordem metodológica. Como empregar a fala franca e anônima dos envolvidos? Como preservar os diálogos e suas transcrições sem eliciar informações, como opiniões pessoais e sugestões? Por causa desses aspectos, me aproximei-me da ATD (MORAES; GALIAZZI, 2007), por esta estar situada entre a Análise de Conteúdo (AC) e a Análise de Discurso, sem ser efetivamente uma ou outra.

Portanto, verdades técnicas, presentes no capítulo “Conduzindo minhas condutas”, foram ditas pelos professores, pelos gestores, pelos surdos, dentre outros profissionais, sem nada a esconder. Contribui que “nenhuma Tese é um trabalho solitário, mas um puzzle em que todos intervêm” (DUARTE, 2009, p. 7). Portanto, esta Tese dialoga com outras perspectivas teóricas. Enfim, tramas que se inserem em um jogo de diálogos.