O principal evento dos primeiros capítulos de Atos deu-se no dia de Pentecoste, no qual o agora exaltado Senhor Jesus realizou a últim a obra de sua carreira salvadora (até a segunda vinda) e "derram ou" o Espírito Santo sobre o seu povo que aguardava por isso. Sua vida, m orte, ressurreição e ascensão - tudo culminou com essa grande dádiva que os profetas haviam predito e que poderia ser reconhecida como a principal evidência de que o reino de D eus fora inaugurado, pois esse encerram ento da obra de C risto na terra era tam bém um novo com eço. A ssim com o o Espírito veio sobre Jesus, equipando-o para o ministério público,1
agora o Espírito deveria vir sobre o seu povo, equipando-o para o serviço. O Espírito Santo não só atribuiria a eles a salvação que Jesus havia alcançado através de sua morte e ressurreição, mas os im p u lsio n aria para que proclam assem as boas novas dessa salvação p elo m undo inteiro. A salvação é dada p ara ser compartilhada.
A ntes do dia de Pentecoste, porém , haveria um tem po de espera, quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão de Jesus (1:3), e mais dez entre a ascensão e o Pentecoste. As instruções de Jesus eram bem claras e Lucas as repete para enfatizá-las; primeiro no fim de seu Evangelho e, depois, no início de Atos. "Permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de p o d er."2
"D eterm inou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém , mas esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes" (1:4). D urante os cinqüenta dias de espera, porém , eles não permaneceram inativos. Pelo contrário, Lucas seleciona e comenta quatro eventos importantes. Primeiro, eles foram comissionados (1:6-8). Segundo, eles viram Jesus ser elevado às alturas (1:9-12). Terceiro, eles perseveravam juntos em oração, provavelm ente
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para que o Espírito viesse (1:13-14). E quarto, eles substituíram Judas por Ma tias, como o décimo segundo apóstolo (1:21-26). Não devemos pensar que essas atividades sejam meramente humanas, pois foi Cristo quem os comissionou, subiu ao céu, lhes prometeu o Espírito pelo qual estavam orando e escolheu o novo apóstolo. Dr. Richard Longenecker vai além e vê nestes quatro fatores o que denomina "os elementos essenciais da missão cristã", ou sejam: a com issão para testem unhar, o Senhor exaltado que dirige sua missão do céu, a centralidade dos apóstolos nessa tarefa e a vinda do Espírito Santo para capacitá-los.3 A missão só poderia começar quando esses quatro elementos estivessem em seus lugares. 1. Eles foram com issionados (1:6-8)
6Então os que estavam retinidos lhe perguntavam: Senhor, será esse o tempo em que restaures o reino a Israel?
7Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade;8mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra.
Lu cas in d ica aqu ilo que o Senhor lhes ensinou du rante os quarenta dias em que, ressurreto, "se apresentou" aos apóstolos, dando "m uitas provas incontestáveis" de que estava vivo (v. 3). Primeiro, ele lhes falou do "reino de Deus" (v. 3), o qual tinha sido o centro da sua m ensagem durante seu m inistério p ú blico e, tam bém (considerando-se o uso do particípio p resente legon, "falan d o") após a sua ressurreição. Em segundo lugar, ele lhes ordenou que esperassem pela dádiva do batism o do Espírito, prom etida por ele, por seu Pai e também por João Batista, e que iriam receber "não muito depois destes dias" (vs. 4-5).
P arece-n o s, en tão, que os dois p rin cip ais assu ntos desenvolvidos por Jesus entre a sua ressurreição e ascensão foram o reino de Deus e o Espírito de Deus. É provável que ele também tenha m ostrado a relação entre ambos, pois os profetas, muitas vezes, os associaram um ao outro. Quando Deus estabelecer o reino do M essias, disseram , ele derram ará o seu Espírito; esse derram am ento generoso e a alegria universal provocada pelo Espírito serão um dos principais sinais e bênçãos do seu reinado; e o Espírito de Deus fará com que o reinado de Deus seja uma realidade viva e presente para o povo.4
Assim , a pergunta que os apóstolos fizeram a Jesus quando estavam reunidos (Senhor, será esse o tempo em que restaures o reino
a Israel?, v. 6) não era tão non sequitor quanto possa parecer. Pois, se o Espírito estava por vir, como ele mesmo tinha falado, isso não indicaria que seu reino também estaria chegando? O erro que cometeram foi confundir a natureza do reino e a relação entre o reino e o Espírito. A pergunta deles deve ter deixado Jesus muito desanim ado. Será que eles ainda não com preendiam ? Como Calvino comenta, "os erros são tantos quantas são as palavras."5
O verbo, o objeto e o advérbio dessa frase, todos eles demonstram uma confusão doutrinária sobre o reino. O verbo restaures mostra que eles estavam esperando um reino político e territorial; o objeto, Israel, que eles estavam esperando um reino nacional; e será
este o tempo, que estavam esperando uma restauração imediata.
Em sua resposta (vs. 7-8), Jesus corrigiu essas noções falsas da natureza, extensão e chegada do reino.6
a. O reino de Deus é espiritual quanto ao caráter
Na língua portuguesa, é claro, um "reino", norm alm ente, é um territó rio que pode ser localizad o num m apa, com o o reino islam ita da Jordânia, o reino hindu do Nepal, o reino budista da T ailân d ia, ou o Reino U nido. Mas o reino de Deus não é um conceito territorial. Ele não consta - e não pode constar — em nenhum mapa. E era exatamente isso que os apóstolos tinham em m ente ao confundir o reino de Deus com o reino de Israel. Eles eram como os membros do remanescente justo de Israel que Lucas menciona em seu Evangelho como os que "esperavam o reino de D eus" ou "a consolação de Israel",7 e como os dois a caminho de Em aús, que esperavam "qu e fosse ele (Jesus) quem h avia de redimir a Israel",8 mas tinham ficado desiludidos devido à cruz. A esperança dos apóstolos, porém, evidentem ente, reacendeu com a ressurreição. Eles ainda estavam sonhando com o domínio político, o restabelecimento da monarquia, a libertação de Israel do jugo colonial de Roma.
Ao responder-lhes, Jesus voltou ao assunto do Espírito Santo. Ele falou do Espírito que viria sobre eles, dando-lhes poder para serem suas testemunhas (v. 8). Nas notáveis palavras de Charles W illiam s, ele p artiu "esp alh an d o p rom essas de p o d e r".9 É im portante lem brar que a promessa de que receberiam poder era parte da resposta à pergunta concernente ao reino, pois o exercício
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do poder é inerente ao conceito de reino. Mas o poder no reino de Deus é diferente do poder nos reinos humanos. A referência ao Espírito Santo define sua natureza. O reino de Deus são os seus mandamentos estabelecidos na vida de seu povo através do seu Espírito. Ele é aumentado por testemunhas, soldados, através de uma m ensagem de paz, e não uma declaração de guerra, e pela atuação do Espírito, não pela força de armas, intriga política ou v io lên cia revolu cion ária. Ao m esm o tem po, ao rejeita r a politização do reino, precisamos ter o cuidado de não cair no outro extrem o de espiritualizá-lo em dem asia, como se o reinado de Deus operasse apenas no céu e não na terra. O fato é que, apesar de não se id en tificar com nenhum a id eolo g ia ou p rog ram a político, ele possui im plicações políticas e sociais radicais. Os valores do reino entram em conflito direto com os valores seculares. E os cidadãos do reino de Deus insistentemente negam a César a lealdade suprem a que ele almeja e, decididam ente, a concedem somente a Jesus.
b. O reino de Deus é internacional quanto a seus membros
Os apóstolos ainda nutriam aspirações limitadas, nacionalistas. Indagaram a Jesus se ele restauraria a independência nacional de Israel, que os macabeus haviam reconquistado no segundo século a.C ., por um breve período extasiante, para depois p erd ê-la novamente.
Em sua resposta, Jesus ampliou-lhes o horizonte. Ele prometeu que o E sp írito Santo lhes daria o poder de serem suas testemunhas. Começariam em Jerusalém, a capital nacional onde o Sen h or fora condenado e cru cificad o, o lugar de onde não deveriam sair até que recebessem o Espírito. Permaneceriam nas vizinhanças da Judéia. Mas, depois, a m issão cristã irradiaria partindo daquele centro, de acordo com a antiga profecia de que "de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém",10 primeiro para a desprezada Samaria e, a seguir, ultrapassando as fronteiras da Palestina, para as nações gentílicas, até aos confins da terra. A tese de Johannes Blauw, em seu livro The Missionary Nature ofth e
Church, é que a perspectiva do Antigo Testamento envolvia uma
p reocu p ação com as nações (Deus as criou e elas virão e se curvarão diante dele), mas não uma missão às nações (sair para co n q u istá-las). Até m esm o a visão v etero testam en tária dos últim os dias consiste numa "peregrinação das nações" ao Monte
Sião: "p a ra ele afluirão todos os p ovos".11 Som ente no N ovo T estam en to , acrescen ta Blauw , a "co n sciên cia m ission ária ce n tríp e ta " é su bstitu íd a por uma "ativ id ad e m issio n ária centrífuga", e o grande "ponto de virada é a ressurreição, depois da qual Jesus recebe autoridade universal e delega ao seu povo a comissão universal de ir e discipular as nações."12
O m andato m issionário do Senhor ressurreto com eça a ser cum prido em Atos. Na verdade, como m uitos com entaristas já ressaltaram , Atos 1:8 é uma espécie de "ín d ice " do livro. Os cap ítu los 1-7 descrevem os acontecim entos em Jeru salém ; o capítulo 8 menciona como os discípulos se espalham pela Judéia e Samaria (8:1) e relata a evangelização de uma cidade samaritana por meio de Filipe (8:5-24) e "de muitas aldeias dos samaritanos" por m eio dos apóstolos Pedro e João (8:25); enqu anto que a con versão de Saulo, no capítulo 9, conduz a um a série de expedições m issionárias, e finalmente sua viagem para Rom a, relatadas no restante do livro. O reino de Deus, mesmo não sendo in co m p atív el com o patriotism o, não tolera o n acion alism o estreito. Ele domina sobre uma comunidade internacional em que raça, nação, posição e sexo não são barreiras para a comunhão. £ quando o seu reino for consum ado no final, a in u m eráv el multidão dos remidos será recolhida de "todas as n açõ es, tribos, povos e línguas".13
c. O reino de Deus é gradual quanto à expansão
A pergunta dos apóstolos incluía uma referência específica ao tempo: "Será esse o tempo em que restaures o reino a Israel?" (1:6).
"É agora que o Senhor vai devolver o Reino de Deus ao povo de
Isra e l?" (BLH ). Essa fora a expectativa de m uitos, du rante o m inistério público de Jesus, fato que Lucas deixa claro em seu Evangelho. Ele relata uma parábola que (assim ele explica) Jesus contou "visto estar perto de Jerusalém e lhes parecer que o reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente."14 Desse modo, os apóstolos perguntaram se Jesus faria naquele m om ento, após a ressurreição, o que tinham esperado que ele fizesse durante a sua vida; e se o faria imediatamente.
A resp o sta de Jesu s foi dupla. Em prim eiro lu g ar, não vos
compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade (v. 7). "Tem pos" (chronoi) ou "épocas" (kairoi), juntos,
formam o plano de Deus; "os tempos ou momentos críticos de sua
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história e as épocas de seu desenvolvim ento".15 A pergunta dos apóstolos denunciava curiosidade ou im paciência, ou talvez ambas. Pois o próprio Pai havia determinado os tempos pela sua própria autoridade, e o Filho havia confessado que não sabia o dia nem a hora de sua volta (parousia).16 A ssim , os ap óstolos são forçados a abafar a curiosidade e permanecer na ignorância. Não é apenas em relação ao cumprimento da profecia, mas também em relação a muitas outras verdades, que Jesus ainda nos adverte: "N ão vos compete conhecer". Os mistérios pertencem a Deus e não cabe a nós esp reitá-los; são as coisas revelad as que nos pertencem e devemos nos contentar com elas.17
Em segundo lugar, apesar de não lhes ser permitido conhecer os tem pos e as épocas, eles precisavam saber que receberiam poder para que, no período entre a vinda do Espírito e a segunda vinda do Filho, pudessem ser suas testemunhas, em círculos cada vez m aiores. Na verdade, todo o período entre o Pentecoste e a Parousia (seja longo ou curto) deve ser preenchido com a missão m undial da igreja no poder do Espírito Santo. Os seguidores de Jesus deviam anunciar o que ele realizou em sua primeira vinda e chamar o povo para arrepender-se e crer, preparando-se para a sua segunda vinda. Eles deviam ser suas testem unhas "até aos confins da terra" (1:8) e "até a consumação do século".18 Esse foi um dos principais temas do bispo Lesslie Newbigin, em seu livro
The Household ofG od (A Casa de Deus):
A igreja é o povo peregrino de Deus. Ela está em movimento, correndo para os cantos da terra para implorar que todos os homens se reconciliem com Deus, correndo para o final dos tempos para encontrar o seu Senhor que reunirá a todos ... Ela não pode ser entendida corretam ente, exceto sob uma perspectiva ao mesmo tempo missionária e escatológica.19
Não tem os a liberdade de parar antes que ambos os fins sejam alcan çad os. Na verdad e, os dois fins, assim en sin ou Jesu s, coin cid irão, já que, apenas quando o evangelho do rein o for pregado em todo o mundo para testemunho a todas as nações, "virá o fim".20
Essa era a essência do ensino de Jesus (que também vemos nos Evangelhos) durante os quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão: quando o Espírito viesse em poder, o tão prom etido reino de D eus, que o próprio Jesus inaugurara e proclam ara,
com eçaria a se expandir. Ele seria espiritual quanto ao caráter (tran sform an d o as vidas e os valores dos seus cid ad ãos), internacional quanto aos membros (incluindo tanto gentios como ju d e u s ) e gradual quanto à expansão (começando em Jerusalém e exp an d in d o -se até alcançar o fim dos tem pos e do espaço terreno). Essa visão e comissão devem ter dado uma direção clara às orações dos discípulos durante os dez dias de espera pelo P en tecoste. M as, antes que o E spírito pu d esse vir, o Filho precisava partir. Esse é o próximo assunto de Lucas.
2. Eles viram Jesus subir ao céu (1:9-12)
Ditas essas palavras, fo i Jesus elevado às alturas, à vista deles, e um nuvem o encobriu dos seus olhos.
WE, estando eles com os olhos fitos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se puseram ao lado deles, ne lhes perguntaram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas ? Esse Jesus que dentro vós fo i assunto ao céu, assim virá do modo como o vistes subir.
12Então voltaram para Jerusalém, do monte chamado Olival, que dista daquela cidade tanto como a jornada de um sábado.
Pelo menos três perguntas se formam em nossa mente enquanto lem os essa história da "ascensão" de Jesus - literal, histórica e teológica. Em primeiro lugar, os dois relatos de Lucas acerca da ascensão de Jesu s21 não se contradizem ? Em segundo lugar, a ascensão de Jesus aconteceu literalmente? E, em terceiro lugar, se for esse o caso, há algum significado permanente nisso?
a. Lucas se contradiz?
Certamente era apropriado, como já vimos, que Lucas encerrasse o seu p rim eiro volum e e introduzisse o segundo relatando o mesmo acontecimento, a ascensão de Jesus, já que isso indicava o fim de seu ministério terreno e o prelúdio para o seu ministério con tín u o a p artir do céu, através do Espírito. E, p orém , em princípio, im provável que o m esm o autor, contando a m esm a história, se contradissesse. Entretanto, é isso que alguns eruditos modernos afirmam. Em st Haenchen, por exemplo, escreve: "Duas ascensões - uma na páscoa (Lc 24:51), a outra quarenta dias depois (At 1:9) - é dem ais."22 Mas, o fato é que não existem diferenças
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substanciais, e é possível harmonizar os dois relatos sem forçar as evidências.
É v erd ad e que em seu Evangelho Lucas não m en cion a os quarenta dias. Mas é ridículo sugerir, a partir daí, que ele tivesse se esquecido deles ou pensado que a ressurreição e a ascensão tivessem ocorrido no mesmo dia. Absolutamente. No Evangelho, ele sim plesm ente considerou as aparições da ressurreição, não vendo necessidade de relatar as diferenças quanto ao tempo e as circunstâncias. Indubitavelmente, Lucas está relatando uma única ascensão, e não duas.
É tam bém verdade que cada relato inclui detalhes que não constam do outro, sendo que a versão de Atos é m ais com pleta que a do Evangelho. No final do Evangelho, por exemplo, quando está sendo elevado, Cristo ergue os braços para aben çoar os d iscíp u los e eles o ad oram.23 Lucas om ite tais ações em seu segundo livro, mas acrescenta a nuvem que o escondeu dos seus olhos e o aparecimento dos "dois varões vestidos de branco", os quais, presume-se, eram anjos. Ora, esses aspectos da história se complementam e não se contradizem mutuamente.
Em terceiro lugar, é verdade que o relato de Atos parece indicar que Jesus ascendeu do Monte das Oliveiras (1:12), e está correto quando diz que "dista daquela cidade tanto quanto a jornada de um sábado" , isto é (de acordo com o Mishná) a 2.000 côvados ou cerca de 1.100 m etros, enquanto que a versão do Evangelho diz que Jesu s "o s levou para Betân ia",24 a aldeia ao lado leste do monte, entre três e quatro quilômetros de Jerusalém. Conzelmann d eclara que isso contradiz term in antem en te a referên cia geográfica de Atos 1:12,25 e H aenchen entende'que Lucas "não tinha uma noção exata da topografia de Jerusalém".26 Contudo, a afirm ação de Lucas em seu Evangelho pode m uito bem ser intencionalmente vaga. Ele não diz que Jesus ascendeu de Betânia, mas que ele levou os seus discípulos naquela direção, sendo mais apropriado traduzir por "para a vizinhança de Betânia".
Tendo exam inado as chamadas três divergências principais (quanto a data, detalhes e local), podemos agora observar os cinco pontos que os dois relatos têm em comum. 1) Ambos os relatos dizem que a ascensão de Jesus seguiu-se ao comissionamento dos apóstolos para que fossem suas testemunhas. 2) Ambos dizem que ela se deu fora de Jerusalém e ao leste dela, em algum lugar do M onte das Oliveiras. 3) Ambos dizem que Jesus "foi elevado às alturas", sendo que o uso da voz passiva indica que a ascensão,
assim como a ressurreição, foi um ato do Pai que, prim eiro, o levantou dentre os mortos e, depois, o elevou às alturas. Como Crisóstomo o expressa, "a carruagem real foi enviada para ele".27
A m bos relatam que os apóstolos "v o ltaram a Jeru sa lém "; o Evangelho acrescenta: "tom ados de grande jú b ilo". 5) Am bos dizem que depois disso eles aguardaram a vinda do Espírito, de acordo com a ordem e promessa expressa do Senhor. Assim, as con co rd ân cias evid entes são bem m aiores que as ap aren tes divergências. Essas divergências são suficientemente explicadas pela suposição de que Lucas fez uso de sua liberdade editorial ao selecio n ar d etalh es diferentes do relato ou relato s ou v id os, evitando repetir palavra por palavra.
b. A ascensão aconteceu realmente?
H o je, m u itas p essoas, até m esm o dentro da igreja, n egam a historicidade da ascensão. A crença numa ascensão literal seria compreensível nos dias de Lucas, dizem, quando as pessoas criam que o céu ficava "lá em cim a", de modo que Jesus precisava ser "e le v a d o " a fim de chegar lá. Mas aquilo foi num a era p ré- científica; hoje temos uma cosmologia completamente diferente. N ão seria, portan to, necessário "d em itiz a r" a ascensão? Poderíam os, então, m anter a verdade de que Jesus "voltou ao Pai", livrando-a ao mesmo tempo de uma "roupagem m itológica prim itiva" que projeta a imagem de um "lançam ento", como que de um foguete, seguido de uma entrada no céu. Além disso, Lucas é o único evangelista que relata a ascensão. Os outros a omitem. De fato, geralmente, os autores do Novo Testamento quase não