Capítulo 2 – Embasamento teórico: a Gramática Funcional do Discurso
2.6 Integração dos níveis e implementação
2.6.3 A integração dos componentes conceitual e contextual na LEsp
Após as considerações sobre os componentes conceitual e contextual na seção 2.2, interessam a relação destes com o conhecimento lexical e lingüístico referente às LEsp no português e alguns aspectos da integração destes componentes no modelo de gramática. A questão é pertinente, já que foi o modelo de produção de fala de Levelt que inspirou a organização topdown e dinâmica da FDG (Levelt, apud Hengeveld, 2004a e b): a produção de fala vai da intenção para a articulação. Assim, muitos dos fatores ‘pragmáticos’, ‘contextuais’
e ‘interacionais’ – no seu sentido mais amplo – precisam ser acomodados, ou, pelo menos, situados em relação aos fatores lingüísticos. No modelo da FDG, esses aspectos influem na formulação, ou seja, atuam diretamente nos níveis interpessoais e representacionais, assim como afetam outras etapas da elaboração lingüística, indicadas por setas no modelo geral (Figura II).
Vossen (1995) e Inchaurralde (2004) elaboram melhor o componente conceitual do modelo de F(D)G. Para os autores, este componente engloba o conhecimento de longa duração (em inglês long-term knowledge, abreviado LTK) e o conhecimento enciclopédico. O primeiro abrange o conhecimento de língua. Além disso, o componente conceitual contém a memória episódica – que recupera episódios ou eventos particulares – e a memória semântica – que integra o conhecimento do mundo. Esses dois tipos são importantes para seleção e interpretação adequada do vocabulário e para as informações enciclopédicas em relação aos itens lexicais.
Desse modo, o conhecimento lexical – dos lexemas, dos marcos, das subcategorizações e das informações sobre uso em determinados contextos e situações – está inserido em um sistema cognitivo maior do que uma simples listagem do Fundo Lexical. Isso significa que há, a partir de entradas lexicais (ou lexemas), conexões com uma rede semântica inteira, incluindo determinadas configurações para usos e linguagens de especialidade. Esse fato relaciona os itens lexicais a categorias ontológicas e semânticas e comprova que as UTs não são necessariamente fixas, mas que se formam e se estruturam como outras unidades lingüísticas. E embora os ‘primitivos’ lexemas e marcos tenham entradas fixas no fundo, é o LTK do componente conceitual que atua como base interativa com os níveis interpessoais, representacionais e de expressão.
O conhecimento de longa duração (LTK) também abrange a chamada competência lingüística e comunicativa e sua realização. Com isso, a produção (e compreensão) lingüística baseia-se em um nível conceitual pré-lingüístico (intenções, atitudes, avaliações etc.) e na correspondente representação mental (ou referência). Compreende-se, então, que também o conhecimento de conceitos e entidades, e de diversos tipos de categorias, assim como de sua vinculação a lexemas e expressões lingüísticas esteja fortemente condicionado pelo componente conceitual. A imbricação do componente conceitual no uso lingüístico leva ao
postulado de um componente não apenas como propulsor da Formulação, mas com conexão com o componente gramatical inteiro, conforme ilustrado na Figura IV a seguir.
FIGURA IV:RELAÇÃO COMPONENTE CONCEITUAL –COMPONENTE GRAMATICAL
Marcos Lexemas Operadores primários Formulação Nível interpessoal Nível representacional Esquemas Auxiliares Operadores secundários Padrões prosódicos Morfemas Operadores secundários Codificação morfossintática Nível morfossintático Codificação fonológica Nível fonológico Compo n ente Gramatical Componente Conceitual
A figura pretende ser um complemento esquemático do componente gramatical da Figura II. Demonstra que, de fato, há um nível conceitual pré-lingüístico e que o componente conceitual possui ligação direta com várias partes do componente gramatical. Os pontos de contato, não representados na figura, localizam-se entre o componente conceitual e as diversas operações (Formulação e Codificação, representadas em oval) e, além disso, em relação direta com os primitivos que alimentam os três níveis de operações (representados nas
caixas da esquerda): os lexemas, marcos e operadores primários, os quais cuidam da representação lingüística de noções como categorias gramaticais (TAM, Pessoa, Número etc.) e funções (de núcleo e modificador, funções pragmáticas, semânticas, sintáticas). A direcionalidade da incidência não é hierárquica, mas ocorre nos dois sentidos, enquanto as expressões lingüísticas se constituem do componente conceitual para o gramatical, na produção; do componente gramatical para o conceitual, na compreensão e interpretação.
Um exemplo pertinente para ilustrar a competência de cada componente é a relação entre conceito e entidade, por exemplo (Figura V). Conforme a discussão e as definições dadas em 1.3, do capítulo anterior, conceitos e conceitualização são tarefa do componente conceitual. Conceitos são, portanto, abstratos. Sua expressão é, no entanto, lingüística e ocorre, via entidades, em forma de lexemas (types) e, via expressões referenciais, tipicamente sintagmas referenciais, em forma de palavras-ocorrências (tokens).
FIGURA V:RELAÇÕES ENTRE CONCEITO E ENTIDADE, LEXEMA E PALAVRA-OCORRÊNCIA Componente
conceitual
CONCEITOS
↓
Componente
gramatical (NR) Primitivos : entidades lexemas
↓
Formulação e Codificação : expressões referenciais palavras- ocorrências (SRef)Embora a figura considere, entre os primitivos, apenas os lexemas, procura-se mostrar i) a divisão de trabalho entre um componente pré-lingüístico, o conceitual, e um lingüístico, o gramatical; ii) a relação entre conceitos, entidades e expressões referenciais, como elementos abstratos; e iii) a diferença entre lexema e palavra-ocorrência. A representação por setas segue a perspectiva de cima para baixo, mas permite, na interpretação, a reversão da direcionalidade. A separação entre conceitos e entidades condiz com o fato de que as entidades são como referentes (Mackenzie, 2004). Igualmente, as entidades são conceitos instanciados, ou melhor, são instâncias específicas e situadas de conceitos gerais (Vossen, 1995), portanto categorizações que podem ser expressas em forma lingüística. Ficou evidente
que entidades e expressões referenciais, protipicamente sintagmas referenciais, fazem parte da esfera lingüística.
Por fim, a diferença entre lexema e palavra-ocorrência corresponde à diferença entre denotação e referenciação e mostra que instanciação e especificação recorrem ativamente aos recursos lingüísticos, perpassando o modelo de gramática. As palavras-ocorrências representam o resultado dos processos de formulação e codificação e, com isso, carregam as diversas marcas provenientes da aplicação dos outros primitivos, assim como a eventual discrepância entre classe de palavra do lexema e classe de palavras da palavra-ocorrência. É que, enquanto os lexemas são fornecidos ‘prontos’, em português, normalmente com a categoria lexical acoplada (exemplo: INVESTIRV, INVESTIMENTON), as palavras-ocorrências a
têm definida no módulo da saída (palavra-ocorrência). De fato, a tipologia de entidades é parte da ontologia lingüística e está à disposição para ser atualizada, como estágio intermediário entre conceitos e sua expressão lingüística e referencial. Por outro lado, a referenciação privilegia a denominação, portanto a categoria N. Todos esses fatores reforçam o argumento de que o estudo de itens lexicais isolados, e também de unidades terminológicas, é válido para taxonomias prontas, mas, não, para tipos de entidades individuadas, como aquelas que ocorrem nos textos da LEsp.
Apesar de não representada na Figura IV – mas, sim, na de II –, conta igualmente a conexão entre componente contextual e conceitual, que surge pelo processo de formulação. O componente contextual (ou comunicativo) responde a fatores da situação comunicativa imediata, a participantes e eventos perceptíveis que possam influir na situação da enunciação imediata. Esses fatores relativos a informações percebidas da comunicação atual atuam no conhecimento de curta duração (short-term knowledge), podendo integrar o LTK ou não. Contudo, o mapeamento das situações e a adequação e pertinência das representações mentais criadas ocorre no componente conceitual, precisamente no LTK. Por isso, há determinadas configurações comunicativas já conhecidas ou automatizadas, as quais, em determinadas circunstâncias e situações, fazem parte do conhecimento compartilhado entre os usuários envolvidos.
O conhecimento compartilhado é parte da competência lingüística e comunicativa. Inclui, além disso, os conhecimentos em relação às ‘condição de felicidade’ para uma comunicação bem-sucedida (Austin apud Mackenzie, 2004; Inchaurralde, 2004; e,
particularmente, em Hengeveld, 1992b), mas também conhecimentos sobre as já mencionadas categorizações convencionalizadas da seção 1.2 (categorias ontológicas, tipos de entidades, classes de palavras, gêneros textuais, estilos, registros, níveis de língua, padrões comunicativos, e outros) e seus reflexos na expressão lingüística. Alguns autores apontam para essas regularidades e postulam operadores próprios, como, por exemplo, Moutaouakil (1998), que, ainda antes do modelo de FDG, se inspirou em Benveniste para postular um operador de texto T para explicar determinadas características estilísticas.14 O autor distingue os operadores R (para récit) e D (para discours), uma vez que estes determinam um conjunto de características gramaticais e estilísticas nos textos envolvidos. Assim, há o operador R para textos narrativos com determinadas escolhas de tempo e modalidade verbal e outras características morfossintáticas marcantes, e o operador D para diálogos e textos de produção espontânea. Esses dois tipos, embora representem apenas um pequeno recorte de tipos de textos, demonstram a importância de considerar a combinação de fatores provenientes dos componentes conceitual e contextual para compreender melhor as expressões lingüísticas decorrentes. Outras tentativas interessantes consistem na discussão e conseqüente reestruturação desses dois componentes em Butler (n.p.), assim como trabalhos funcionalistas sobre ‘texto’ em geral (Butler, 2003; Connolly, 2005; Hannay & Bolkestein, 1998; Mackenzie & Gómez-González, 2004).
As conclusões para as LEsp e para a comunicação especializada são várias. Por um lado, pode-se explicar porque alguns tipos de linguagens de especialidade não se distinguem nitidamente da língua comum e porque, na própria língua comum, nem sempre é possível ou necessário fazer essa separação. De qualquer modo, estão as duas formas de conhecimento estabelecidas no componente conceitual. Afirma Haiman (1980) que nem todas as culturas distinguem o conhecimento proveniente da experiência fenomenológica do dia-a-dia (folk knowledge) do conhecimento que se origina na pesquisa científica (expert knowledge), já que ambas podem ocorrer nas sociedades humanas: a primeira se baseia na percepção e a segunda nas definições científicas. Muitas áreas científicas apresentam até mesmo sobreposição entre conhecimento de especialista e de leigo.
14
Em relação a ‘estilo’, o autor baseia-se na definição dada por Dik (1997b:417): “ ... ‘style’ may be defined as a sequence of choices through the discourse of means of expression which have consistent values along such polar dimensions as Formality-Informality, Politeness-Familiarity, and Conciseness-Redundancy.”
A separação exata entre conhecimento de especialidade e de leigo e entre uma expressão especializada ou não é menos importante do que o levantamento do que, afinal, é compartilhado. A diferença entre a experiência cotidiana e a experiência científica é antes uma diferença de grau de precisão e de generalidade, mas não uma diferença de tipo (Vossen, 1995). Em algumas áreas, há separação tradicional entre folk knowledge e o conhecimento que se origina na pesquisa científica expert knowledge. Naquelas em que não há, o conhecimento científico é baseado na experiência e só há diferentes graus de especialização na categorização (expert categories versus folk categories, Taylor, 2003). Na área da economia, por exemplo, há os conhecimentos gerais sobre como lidar com dinheiro, com as transações comerciais e outras atividades que estão na base da nossa sociedade e da experiência do homem civilizado. Mas também há atividades mais especializadas, como conhecimentos sobre investimentos, juros, política econômica etc. que estão mais restritas a especialistas ou aprendizes da especialidade. E, por fim, dependem também das práticas sociais de produção e leitura de textos sobre economia, que estão na base dos textos de divulgação científica do conhecimento compartilhado entre os usuários.
Por outro lado, foi mostrado que os conhecimentos dos padrões convencionalizados estão fixados no componente conceitual, ou seja, no LTK dos usuários da área de especialidade. No fundo, é esse o fato que está na base da separação entre língua comum e LEsp, ou ainda nas expressões ‘comunicação especializada’, ‘discurso especializado’ e ‘discurso de especialidade’ (Cabré, 1999a e b, 2003; Lorente, 2002; entre outros). A grande dificuldade de distinção deve-se justamente à complexidade dos fatores condicionantes, pois estes estão refletidos na expressão lingüística: no léxico e na sua formação, variação, distribuição; na seleção de esquemas morfossintáticos e construções; na individuação de determinadas categorias semânticas e preferência de classes de palavras; na distribuição de funções referenciais e adscritivos, de núcleo e modificador, de Tópico e Foco; e outros fatores a serem discutidos à medida que surgem na análise de dados.
Também os aspectos comunicativos envolvidos nos textos midiáticos, por exemplo, nos jornalísticos, propiciam a interação entre os componentes conceitual e contextual, embora não sejam tema deste trabalho. Interessa, por exemplo, que as unidades lingüísticas com o conhecimento da AE desempenham diversas funções para o especialista e para o mediador. Assim, para o especialista a unidade terminológica representa, em primeiro lugar, o conhecimento da área, enquanto, para o redator-especialista, é a unidade lingüística que
permite a transmissão do saber da área e conta para o ‘como’ fazê-lo (L´Homme, 2004). Isso significa que, nessas duas funções, há envolvimento diversificado dos componentes: no primeiro caso, é visado o NI (conteúdo comunicativo C) e, no segundo caso, interagem os componentes contextual e conceitual para fixação no LTK.
Uma outra conseqüência fundamental é que, sendo esses fatores convencionalizados, sistemáticos e relativamente regulares, portanto de um certo modo ‘gramaticalizados’, é possível tentar estabelecer variáveis que possam integrar o modelo de gramática. Dessa forma, remete-se não só ao conteudo comunicado C e ao tipo de participante P, mas também à situação da ocorrência da enunciação particular (a variável FLesp/Jorn) da área de especialidade
(AE), dos tipos de entidades e das categorias lexicais preferidas. Muito proeminente é a tarefa principal dos textos da AE de transmitir informação e conhecimentos especializados, o que é veiculado no conteúdo comunicativo C. Pode ser observado que, entre estas constantes, a forma e configuração pronta de primitivos – itens lexicais ou unidades terminológicas fixas – é de importância relativamente restrita, enquanto a relação entre estes e os fatores cognitivos e contextuais atuantes é determinante. Todos os fatores mencionados, de alguma forma, remetem ao conteúdo comunicativo e ao componente conceitual.
Igualmente a resposta sobre a heterogeneidade, multidisciplinaridade e variabilidade da LEsp em questão encontra uma explicação satisfatória quando se lembra o papel ativo da competência lingüística e comunicativa para o usuário ao determinar expressões pertinentes a uma área profissional, social ou contextual e ao selecioná-las e saber interpretá-las adequadamente. Deve-se lembrar ainda que o conhecimento enciclopédico provêm do conhecimento cotidiano e do científico e que não é de incumbência da competência lingüística. Com isso, o conhecimento enciclopédico não é necessariamente representado ou fixado no léxico, a não ser que seja na forma de eventuais taxonomias (Rastier et al., 2002). Portanto, não são exclusivamente taxonomias prontas que caracterizam uma LEsp como a da economia, mas, sim, estratégias sutis que se originam na complexa interação entre o conhecimento de participantes familiarizados com a especialidade e com o uso contextualizado, e que, além de unidades terminológicas, saibam aplicar recursos disponíveis e funcionalmente adequados para uma comunicação efetiva. Essas estratégias e recursos provêm ou perpassam o componente conceitual para se cristalizarem em seguida nas expressões, além de envolverem variáveis com estatuto ontológico.