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Capítulo 3 – Categorização lexical e classes de palavras

3.5 Classes de palavras predicativas e mapeamento na LEsp da economia

3.5.1 As classes de palavras predicativas

É importante destacar que o uso predicativo ou não-predicativo não é decisivo para a distinção entre classes de palavras (Hengeveld, 1992a e b), mas como estas, em forma de núcleos de constituintes, expressam lingüisticamente os conceitos e, por extensão, as categorizações desses em objetos, ações, qualidades etc., as categorias lexicais possuem conteúdo lexical que pode ser atualizado sintaticamente na expressão lingüística. Assim, consideram-se as classes de V, N, ADJ e ADV como os representantes lexicais das classes de conceitos, pois estas classes não são realidades ontológicas, e, sim, lingüísticas. É importante lembrar que não existem conceitos fora da língua, fato que justifica a abordagem lingüística e não ontológica. Consoante as realidades que são tipicamente expressas, tem-se enfatizado, tradicionalmente, o critério ontológico para a categorização, também nas gramáticas tradicionais (Rastier et al., 2002): o N tem sido designado a objetos, o V a ações, o ADJ a qualidades.

Por outro lado, também é fato que as PdD designam várias categorias ontológicas, se foram tomadas as devidas providências, como já foi exemplificado no exemplo (1) em 3.2 e

será discutido no próximo capítulo. Resta, então, considerar, em primeiro lugar, as funções prototípicas de V, N e A, já que as classes de palavras não são necessariamente fixas. A hierarquia predicativa de Hengeveld (1992b), no Quadro XVI, indica o V como a classe predicativa mais prototípica e com menos restrições, enquanto o grau de predicabilidade diminui cada vez mais no lado direito da escala (N, ADJ e ADV).20

FIGURA XVI:HIERARQUIA PREDICATIVA DE PARTES DO DISCURSO (HENGEVELD,1992b) Verbo > Nome > Adjetivo > Advérbio (de modo)

O autor justifica a proeminência do Verbo pelo fato de ser um elemento indispensável: é uma ‘propriedade ou relação situada no tempo’, portanto temporal, com traços semânticos de maior ou menor agentividade, de maior ou menor dinamicidade. Givón (1979) ressalta a não- estabilidade temporal no V e estabilidade temporal no N, e também Hopper & Thompson (1984) realçam a ocorrência de um evento. Considerando a categoria predicativa V, não de forma isolada, mas em termos de seu uso mais comum, como núcleo de predicação, constata- se que, por ser relacional, também os argumentos a ele vinculados obrigatoriamente colaboram na sua definição. Assim, um evento também se faz com os argumentos, cujos núcleos são nominais e completam o predicado verbal.

Como componente central, a maioria das categorias gramaticais de relevância semântica é codificada no predicado verbal. A predicação é uma representação semântico-sintática e ocorre quando um EstC é representado lingüisticamente, com base em um predicado ao qual determinados números e tipos de argumentos se aplicam. A hierarquia do Quadro XVI baseia- se naquela do Quadro XVII a seguir, principalmente porque as funções de núcleo são obrigatórias e as de modificador, opcionais, fato que co-determina a seqüência das relações hierárquicas. Também aqui, as funções mais gerais e obrigatórias estão localizadas na esquerda da hierarquia, no núcleo. De acordo com a discussão em 3.2, é a combinação entre

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Em um estudo tipológico, baseado em metodologia rigorosa, o autor demonstra que nem todas as partes de discurso precisam estar presentes em todas as línguas, para expressar os conceitos que estas tradicionalmente designam. O estudo estabelece uma tipologia (línguas flexíveis, línguas diferenciadas, línguas rígidas) no que diz respeito ao uso sintático de lexemas, ou seja, como núcleos e modificadores, além de revelar mecanismos e recursos de partes do discurso não-verbais para atuar como predicados.

critérios semânticos e as funções discutidas nessa seção que determina a definição de PdD adotada no presente trabalho.

QUADRO XVII: HIERARQUIA DE PARTES DO DISCURSO PELA FUNÇÃO (HENGEVELD,1992b) Núcleo de SPred > Núcleo de SRef > Modificador de SRef > Modificador de SPred

O papel das PdD consiste na possibilidade de ocupar certas posições funcionais e sintáticas, que resultam na expressão de categorias lexicais variadas, devido às funções que podem desempenhar, aqui chamado ‘flexibilidade categorial’. Fatores como obrigatoriedade e opcionalidade determinam a posição na hierarquia e se sobrepõem à pertença a classes. Isso é corroborado pelo fato empírico observável de que as línguas dispõem de meios derivacionais para adaptar os lexemas às funções exigidas, tais como, os processos de formação de N, V, ADJ, e que formas deverbais sinalizam um mais alto grau de flexibilidade categorial do que não-deverbais. É justamente a função mais central, a de uma categoria ser predicativa e núcleo de SPred, que explica, na mudança categorial, a presença forte de determinados lexemas em diferentes categorias lexicais. E é também a mudança categorial que é condicionada pela necessidade de marcar os lexemas de forma que eles possam assumir as diversas funções: núcleo ou modificador. Contudo, as formas derivadas são as menos prototípicas, já que provêm de outras classes de palavras e preservam alguns traços, ao mesmo tempo que adquirem novos, necessários para desempenhar as funções da categoria nova.

A categoria Nome foi privilegiada pela tradição filosófica devido à sua função denominativa. Na verdade, confluem nessa categoria lexical os processos de designação, denominação e referenciação para expressar entidades e realidades discretas, individuadas e com estabilidade temporal e espacial. Numa ótica léxico-semântica da terminologia, os Ns freqüentemente são vistos como correspondentes a conceitos, os quais podem ser mais bem classificados e relacionados entre si quando em forma de N (Sager, 1990; L´Homme, 2004). Uma das motivações é o fator cognitivo, já que se prestam bem para categorização e classificação. Em termos funcionais, o N é essencial para preencher, como núcleo de sintagma, o lugar determinado a argumentos na predicação e para referenciar. Além disso, designa a categoria semântica-ontológica IndObj, ao qual propriedades e qualidades podem se aplicar, como correlato lingüístico de uma Ent-1 prototípica. Há, no entanto, estratégias

derivacionais para formar Ns com base em entidades de todas as ordens (Quadro XVIII), sendo que estas são sinalizadas morfologicamente.

A formação de N a partir de entidades de diferentes ordens reforça o estatuto de designação dessas expressões. Além do fato de o N poder moldar-se na sua função, foram apontadas, por diversos autores, outras características provenientes dessa função: o N possui estabilidade temporal, introduz, sob perspectiva discursiva, um novo participante no discurso (Hopper & Thompson, 1884) e tem mais ‘perfil’ (profile) do que um verbo, segundo termos de abordagens cognitivas (Taylor, 2003). Para o estudo de Ns nas LEsp sobressaem, sem dúvida, as funções designadora e classificadora da CL N.

O Quadro XVIII, adaptada de Mackenzie (2004), exemplifica as entidades de diversas ordens com formas do português. Observa-se que a língua se serve de diferentes sufixos derivacionais para marcar cada ordem.

QUADRO XVIII: TIPOS DE ENTIDADES E EXPRESSÃO NOMINAL

Entidades Descrição Exemplos

zero ordem Propriedade / relação cor, rapidez, quantidade, produtividade

de primeira ordem indivíduo ou objeto – existência

no espaço casa, pescador, ações, estudante de segunda ordem

estado de coisas – pode ser avaliado em termos de sua realidade (no tempo e no espaço)

aula, ajuste, casamento, importação

de terceira ordem

conteúdo proposicional – construto mental, pode ser avaliado em termos de verdade

dúvida, esperança, desejo, plano

Entidade de ordem zero: Ent-zero (propriedade) Entidade de primeira ordem: Ent-1 (abreviada IndObj) Entidade de segunda ordem: Ent-2 (abreviada EstC) Entidade de terceira ordem: Ent-3 (abreviada CProp)

As categorias Adjetivo e Advérbio (de modo) são as outras classes predicativas consideradas neste trabalho. As categorias ADJ e ADV têm a função sintática não-obrigatória de modificar um núcleo: o ADJ modifica o núcleo de um SRef e o ADV, o de um SPred.O ADJ prototípico designa, semanticamente, uma propriedade ou qualidade, que é atribuída a uma Ent-1. Essa ‘subordinação’ representa uma relação de dependência em relação ao núcleo N e leva à adaptação formal do ADJ ao seu núcleo, ou seja, a copiar as marcas morfológicas e

gramaticais, próprias da função do núcleo, para indicar sua dependência. Por causa disso, ADJ e N têm algumas estratégias de marcação morfológica semelhantes, expressas em vários sufixos compartilhados entre ADJ e N. Da mesma forma, o ADV de modo modifica o sintagma predicativo (o EstC). Entre os diversos tipos de ADV, interessa aquele que é marcado por ‘-mente’, e que é, portanto, produtivo. A discussão do tipo produtivo mais adiante, mostra a diversidade de valores semânticos que esses ADVs acrescentam ao seu núcleo predicativo, assim como a difusa correspondência entre CL e categorias semânticas (tipos de entidades). Isso explica as reconhecidas dificuldades de classificação dessa ‘classe’ de palavras na gramática tradicional.